
O elevador panorâmico sobe. João Delmiro está
sozinho dentro dele. Ele observa a cidade. Seus sapatos de couro brilham de tão
bem engraxados. A cidade vai ficando a seus pés conforme o elevador sobe. A sua cidade; a cidade de sua
família.
O elevador panorâmico chega ao último andar; andar
onde fica localizado o gabinete do prefeito. João permanece um tempo olhando a
cidade. Seu pai, seu avô e seu bisavô, se pudessem vê-lo neste momento, com
certeza estariam muito orgulhosos dele, pensou ele, enquanto subia, vendo a cidade sob seus pés e de sua família.
Sua família sempre enfrentou alguma oposição, mas agora, com toda essa evolução, os “Delmiro” eram
mais amados do que nunca. João Delmiro sai do elevador pensando a respeito: sua
família fizera muito pouco para a
cidade, vivendo politicamente numa mistura de coronelismo e populismo. Tudo bem que as cidades
vizinhas, também pequenas,
não se desenvolveram muito devido aos seus políticos, mas São Miguel dos
Confins... São Miguel dos Confins
era da família Delmiro. Eles sempre
foram os donos da cidade.
João Delmiro continua a caminhar lentamente pelo corredor com ar refrigerado. Mesmo com o ar condicionado bem frio, sua camisa estava molhada de suor, dado o seu avantajado porte físico obeso. O corredor tinha em suas paredes quadros com os retratos dos ex-prefeitos. Quase todos são da família dele. Os que não são, são de famílias aliadas. “Enriquecemos às custas do povo”, pensa Delmiro, tendo um leve sorriso no rosto. Ele não consegue calcular o quanto de dinheiro já conseguiu sendo oito vezes vereador e prefeito por três mandatos. Além de sua elegante residência e de seu apartamento na capital, ele, João Delmiro, tem doze pontos comerciais também na capital do Estado, além de um apartamento no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro. Os doze prédios comerciais e o apartamento do Rio estão nos nomes de amigos; amigos estes, que sempre estão ocupando cargos na Prefeitura ou na Câmara Municipal. Amigos de confiança e que, além disso, sempre estiveram na sua mão. Também estão inseridos nos atos de corrupção de João Delmiro e sua família.
Com exceção de um ou outro “Zé Ninguém” que
criticava e tentava desmoralizar João Delmiro, a sua reputação estava intacta.
Ele era mais amado do que nunca pela população da cidade.
E a cidade progredia, graças a ele. O mercado
municipal, com a sua variedade de comércio funcionava a
pleno vapor. Outros tantos estabelecimentos comerciais foram abertos e muitos
moradores de São Miguel agora eram empreendedores. Sem paz, sem bancos e sem
correios, muitos moradores das cidades vizinhas constantemente vinham a São
Miguel receber salários, pensões, benefícios e aposentadorias. E muitos faziam suas compras ali mesmo.
O povo confinense que por muito tempo dependeu
do ônibus escolar ou de
veículos particulares alternativos para se deslocar até Torres, agora tinha uma linha de ônibus. Dois
veículos saíam a cada uma hora e meia de São Miguel dos Confins com destino a
Torres e também o trajeto contrário. Em outros tempos, a empresa de transporte
coletivo de um dos genros de João Delmiro partiria
lotado com pessoas
de São Miguel indo para Torres;
agora é o contrário. E não só gente de Torres
que ia para São Miguel,
mas também de Santa Ângela e de Carmosina.
Além de ir se transformando aos poucos em centro comercial local, São Miguel
dos Confins também foi passando a ter uma intensa vida noturna, com bares e restaurantes funcionando principalmente nos fins de semana, gerando muitos artistas
locais que tocavam
e cantavam ou como
a Casa de Comédia; um local onde humoristas da cidade ou de outros lugares se
apresentavam. E, como não poderia deixar de ser, uma coisa puxava outra. Oito
pousadas foram inauguradas na cidade. Muita gente passou a visitar aquela cidade, que até bem pouco tempo atrás, era apenas um “lugarzinho” perdido
no meio do interior.
Tendo um clima ameno nos meses de julho e agosto, João Delmiro tratou logo de criar o “Festival de Inverno de São Miguel dos Confins”. Com três semanas de duração, o festival tinha um espaço para culinária local e para artesanato. Mas os principais atrativos eram as atrações musicais, muitas conhecidas nacionalmente. Por proposta de sua sobrinha Raíssa, João Delmiro, que achava que só deveria ter forró nas apresentações musicais, concordou em trazer bandas de Rock, Rap, Axé, Sertanejo Universitário e MPB, para se apresentarem no festival.
A cidade realmente melhorou muito. Eram bares,
restaurantes, pousadas, lojas, inauguradas por pessoas que conseguiram linhas
de créditos junto a um programa promovido pela prefeitura. Amigos e parentes de
João Delmiro montaram os seus negócios. A maioria do povo viu seus pequenos
comércios terem um lucro um pouco maior ou foram empregados pelos novos
empreendimentos da cidade.
Criticar esse modelo que se implementou na cidade era motivo para ser chamado de comunista. E nesse placar, Donato liderava com folga. As pessoas o xingavam de comunista, desconhecendo totalmente o que é comunismo. Vez ou outra, Donato se envolvia em alguma confusão, mas de ser chamado de comunista, ele nem ligava mais. Por mais que o velho Alfredo explicasse detalhadamente a todos o que era o comunismo, as pessoas pareciam esquecer no minuto seguinte. Criticou João Delmiro por qualquer motivo que fosse? “Isso é um comunista safado”, diziam muitos confinenses.
NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi
ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas
TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera
DIREÇÃO
Carlos Mota
PRODUÇÃO
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO
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