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Um Plano Perfeito: Capítulo 11

Novela de Marcelo Caronesi
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UM PLANO PERFEITO - CAPÍTULO 11


Na praça estão as velhas caras já conhecidas. No meio dos homens estão Genivaldo e Donato. Divididos em pequenos grupos, cada um conversa sobre assuntos diversificados, desde futebol, doenças e remédios, fofocas sobre a vida dos ausentes e seus respectivos parentes, e até sexo. Um jovem mostra para alguns idosos um vídeo de sexo de um site pornográfico em seu celular.

Donato está explicando para outros sobre os benefícios de algumas plantas medicinais. Já havia falado da unha-de-gato, da erva cidreira, da erva doce, da arnica. No momento em que começa a falar da babosa, um homem chega; ele é moreno claro, tem uns 40 anos e usa um boné com o número e o nome de João Delmiro, usados na última campanha eleitoral municipal. Com as mãos para trás e balançando o corpo, ele escuta Donato falar dos benefícios da babosa, de suas funções analgésica, anti-inflamatória e cicatrizante. O homem, então, interrompe a explicação de Donato:

– E dos benefícios de João Delmiro, tu não vai falar não?

Automaticamente os outros homens repreendem o que acabara de chegar. “Rapaz, todo mundo tá aqui conversando tranquilamente e tu vem pra criar tumulto”, diz um deles. Donato permanece calado.

– Oxe! Esse véio safado vive esculhambando Delmiro e os amigo dele em tudo que é canto – retruca o provocador.

– Tu me respeite, seu cabra safado! – reage Donato.

Genivaldo, que até então estava em outro grupo, se aproxima. Ele coloca a mão no ombro do homem que ofendeu Donato.

–  Meu amigo, tu vem pra aqui só pra isso? Deixe Donato em paz.

– Tá, seu Valdo. Mas tu não pode ficar defendendo tudo o que esse véio faz não. Tu acha que ele pode ficar por aí fazendo a cabeça dos outros contra Delmiro e levantando falso dos outros?

– Homi, eu não acho é nada. Vá andando, vá – diz Genivaldo, quase implorando.

O homem sai. Enquanto anda se vira e grita:

– Óia! Tu vai ver João Delmiro ganhar a eleição de novo, seu porra!

Ele ri, enquanto o grupo permanece calado e constrangido com o ocorrido. O homem grita novamente, já bem longe deles.

– João Delmiro, o melhor prefeito que São Miguel já teve! Chupa, véio escroto!

Algumas pessoas que caminham pela rua ou pela praça apenas olham para ele, enquanto outras repetem o que ele dissera e o aplaudem.

–  Esse cabra deve é um funcionário fantasma de Delmiro – diz Donato.

Um homem muito mais idoso que a maioria diz:

– Donato, deixe de ser teimoso. Tu viste o que aconteceu em Torres. As pessoas têm seus motivos pra gostar de Delmiro, porque enquanto todas as cidades têm explosões, aqui por enquanto tá tudo tranquilo. Tu tem que parar com essa mania de achar que todo mundo que gosta de Delmiro é porque tá ganhando dinheiro dele.

– Mas Alfredo, tu já viu a vida que esse cara tá levando? O cara tinha um negócio... como é o nome mesmo? O que que ele vende lá mesmo? – diz Donato, estralando os dedos, tentando lembrar.

– Açaí – responde outra pessoa.

– Sim. O cabra tinha um negocinho de açaí do tamanho de um furico. De repente o negócio cresce, o cara compra carro, casa. E não sou só eu que digo que ele é funcionário fantasma não, visse.

Outro homem que está no grupo diz:

– Olhe, Donato. Tu sempre soube que eu não me envolvo em política, que eu detesto política, tanto que nunca me meti em negócio de eleições, essas coisas. Mas a gente tem que ser realista e reconhecer que Delmiro tá sendo um bom prefeito nesse mandato. Até Genivaldo já reconheceu isso.

– Homi, não bote palavras na minha boca. Eu disse só que a Guarda Municipal deu certo. Nunca disse que os “Delmiro” fossem bons.

– Então! Mas cadê que esses bandidos vem explodir as coisas aqui?! A gente tem que ver que isso é por causa do que Delmiro fez. Hein, seu Alfredo: nós não tamo certo em achar isso? – diz o homem que fora repreendido por Genivaldo.

Alfredo, muito respeitado por todos por ter se formado em Engenharia Civil na capital, se sente ainda mais superior aos outros. Geralmente, isso quase sempre acontecia, quando em qualquer tipo de discussão, ele sempre era questionado para dar a palavra final. Mesmo com 92 anos, ainda é um leitor compulsivo dos mais diversos assuntos. Ainda lúcido, era ele quem resolvia muitas discussões, colocando um fim nelas. Ultimamente, Alfredo vem perdendo para o seu maior concorrente: o Google.

– Eu vou dizer uma coisa pra vocês: eu não me lembro exatamente como foi na época, talvez porque nunca chegou a acontecer, mas eu tô começando a acreditar que a história do bando de Lampião ocorreu realmente. Vá lá que pode até nem ter sido o grupo de Virgulino, mas outros cangaceiros atacaram Torres e Santa Ângela – explica, Alfredo.

Enquanto Alfredo fala, Donato balança a cabeça, discordando do que o velho dizia.

– Tu pode ficar com raiva de mim, Donato. Mas o fato é que, muito provavelmente os cangaceiros sendo rechaçados pela polícia, desistiram de invadir São Miguel dos Confins. Mas que um grupo do cangaço atacou Torres e Santa Ângela, isso é verdade. Santa Ângela ainda nem era cidade, era só um distrito de Torres. E eu não me atrevo em afirmar que hoje esses marginais, do novo cangaço, têm medo da polícia daqui.

Alfredo levanta o dedo indicador para prosseguir com sua fala.

– Pode até ser que o confronto com algum grupo cangaceiro nunca tenha acontecido, mas hoje é inquestionável que os bandidos não atacam a nossa cidade por medo.

Donato continua a balançar a cabeça.

– Vocês ainda vão quebrar a cara com João Delmiro. Eu conheço os “Delmiro” de outros carnavais – diz ele.

O homem que precisou da aprovação de Alfredo para validar a sua opinião se dirige a Genivaldo:

– Ô, Genivaldo, tu que é amigo dele. Faz esse teimoso mudar de opinião. Homi, tá na sua cara, Donato. Só tu que não quer ver.

Genivaldo altera a voz:

– Oxe, rapaz! E tu acha que eu sou quem pra fazer os outros mudarem de ideia? Cada um tem sua opinião e pronto. Eu não sou fã dos “Delmiro”, mas também não fico tentando forçar os outros a pensar igual eu. Cêis falam tanto de Donato, que ele quer impor o que ele acha; cêis tão fazendo a mesma coisa. E vamo mudar de assunto, que eu já tô de saco cheio de assunto de política.

– Concordo com você, Valdo – diz, Alfredo. Em qual planta você tinha parado mesmo, Donato?

Donato, de cara “fechada” e de braços cruzados apenas responde:

– Não lembro. Esqueci.

NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi

ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas

TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera

DIREÇÃO
Carlos Mota

PRODUÇÃO
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.



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