ATENÇÃO: As imagens de artistas utilizadas no vídeo de abertura e na arte de divulgação deste episódio possuem caráter meramente ilustrativo, sendo usadas apenas para representar os personagens e a narrativa, sem fins lucrativos ou vínculo oficial com os artistas citados.

FADE IN
CENA 1 CASA Nº 137 (INT./ MANHÃ)
A cena abre com uma porta sendo aberta. Um homem entra com o jornal debaixo do braço e um saco de pães na outra mão. Ele fecha a porta e joga a chave na mesinha central.
A casa tem chão de taco, uma mesa de centro, dois sofás cor mostarda; Um abaixo da janela à direita da porta; Outro ao lado e de frente, em relação a porta. Paredes brancas, nenhum quadro.
HOMEM: Bruno!
Sua voz é tenra ao chamar por Bruno. Cabelos bem aparados e aloirados, olhos claros, barba feita. Traja jaqueta na cor azul ciano sobrepondo a camiseta branca. Calça jeans e tênis preto. Tem 38 anos.
Não obtendo resposta, ele joga o jornal sobre a mesa e vai em direção da cozinha. Coloca o saco de pães sobre a mesa e volta.
HOMEM: Bruno!
O homem sobe as escadas e pára numa porta. Ouve-se um barulho vindo do sótão. A porta está encostada. Quando abre encontra Bruno revirando um baú. O tal homem não tem muito jeito pra falar.
HOMEM: Mas o que você tá fazendo aí, cara?
De susto, Bruno joga o livro que tem em mãos fazendo-o cair aos pés do homem.
BRUNO: Tá maluco, Josué? Quer me matar de susto?
Bruno é um sujeito que mantém uma expressão de sempre preocupado. Usa camisa de manga listrada nas cores vinho e branco. Calça jeans e sapatos simples. Há um relógio prateado no seu pulso esquerdo. É dois anos mais velho que Josué.
Josué abaixa-se para pegar o livro e observa a página em que abriu.
JOSUÉ: Eu
não acredito nisso! Eu pensei que você já tivesse queimado essa porcaria.
BRUNO: E eu pensei que você já tivesse aprendido a ter modos...
Josué olha admirado para uma cruz guardada dentro do livro.
JOSUÉ: Isso pode atrair reações negativas...Só em saber que isso tá aqui me assusta.
BRUNO: Você já foi mais cético...(ele toma o livro de suas mãos) Mas eu não posso jogá-lo fora, você sabe disso!
JOSUÉ: É, eu sei, mas devia, então, esquecer que isso existe; Se alguém perceber e pôr a mão nisso...
BRUNO: Você quer dizer a Raíza? Às vezes eu acho que eu deveria contar logo tudo pra ela, mas tenho medo do que pode acontecer...Eu acho que é por isso que tô sempre aqui em cima...
JOSUÉ: Você não pensou que se isso foi destinado a ela, uma hora ela poderá sofrer algum dano por não usá-lo?
BRUNO: E o que você...
Ouvimos a voz de um homem gritar lá embaixo.
HOMEM: Tios! Vamos tomar café ou não?
SÓTÃO [EXT.]
Ao pé da escada há um rapaz de estatura média, branco, cabelos desgrenhados e barba por fazer. Salta, de dois em dois degraus, subindo as escadas.
SÓTÃO [INT.]
JOSUÉ: Meu Deus! É o João Batista! (desesperado) É melhor jogá-lo fora!
BRUNO (aturdido): Jogar o quê?
JOSUÉ (toma o livro do irmão): Eu tô falando disso!
Ele joga o livro para trás do baú fazendo-o cair aberto.
João Batista chega na porta e observa os dois tios estáticos feito duas múmias.
INSERT - baú
Atrás do baú uma luz emana da cruz fazendo um pequeno clarão. E se apaga de repente.
FADE OUT
FADE IN
CENA 2 CASA Nº 137 – COZINHA [INT.]
Sentados à mesa, João Batista, de
frente para Josué e Bruno no centro, coloca o café em seu copo.
JOÃO: Ainda não entendi o que vocês dois
com cara de tacho faziam no sótão...
Josué e Bruno se entreolham quando
uma moça adentra a sala com os olhos cansados e os cadernos na mão.
A moça, de longos cabelos negros e
ondulados é magra, do mesmo tamanho que João, lábios grandes e olhos negros e
vivos. Está uniformizada com roupa de escola e não cumprimenta ninguém. Tem 17
anos enquanto João, 21.
BRUNO: Dormiu tarde ‘né’, minha filha?
Aposto que ficou no computador a noite toda.
JOÃO: Eu tenho até medo de passar perto do
seu quarto (boca cheia) pode ser que eu veja um zumbi ao invés de você (ele ri
se engasgando).
GAROTA (ignora): Eu tive que fazer um trabalho pra
escola e um amigo meu da Internet me ajudou. Se você tivesse me ajudado...
JOSUÉ (tom repreensivo, interrompe): Como sempre deixando tudo pra última
hora não é, Raíza?
Raíza senta, põe os cadernos na
cadeira ao lado e em seguida coloca café em seu copo. Depois mistura com leite.
Pega o pão, passa manteiga e abocanha um grande pedaço.
JOSUÉ: Você vai acabar tendo uma
indigestão, hen menina.
Bruno toma seu café rápido. Olha seu
relógio e levanta-se.
BRUNO: Uma obra sem o mestre de obras não
existe. E eu prefiro que seja eu.
Josué ri e faz o mesmo. Levanta-se e
empurra a cadeira.
JOSUÉ: Um colégio sem professor de
geografia existe e eu prefiro que seja eu.
Raíza e João sorriem. Josué vai até o
corredor, volta e olha pra Raíza.
JOSUÉ: Um colégio sem alunos não existe,
mas aluno sem colégio é inaceitável.
Raíza vira o rosto para ele e balança
a cabeça afirmativamente.
RAÍZA: Eu já tô indo.
Bruno e Josué saem.
João Batista, tomando seu café, fita
sua prima e olha o relógio da parede, logo de frente, insistentemente.
JOÃO: Não é melhor você ir logo...Se não
vai chegar tarde...De novo.
A prima o olha, pára e termina de dar
o gole no seu café com leite.
RAÍZA: Se quer tanto que eu me vá... (ela
se levanta) já tô indo.
João Batista observa quando ela sai e
rapidamente se levanta, sai da cozinha, sobe as escadas para um quarto. A porta
está entreaberta, ele entra correndo.
QUARTO [INT.]
Apressadamente, ele abre gavetas,
armários e olha debaixo do colchão. De joelhos no chão, ele soca a cama.
JOÃO [Em OFF]: Onde será que está essa chave? Onde?
Seu rosto tem uma expressão de raiva.
Levemente ele vira a cabeça e olha o porta-retrato de Bruno sobre a cabeceira.
FADE OUT
FADE IN
CENA 3 RUAS DA CIDADE
A cena mostra ruas paralelas,
cruzadas e uma ou outra sem saída. Raíza sobe uma delas apressada.
TOYOTA [INT.]
Um homem dirige com o celular no
ouvido. Tem cabelos castanhos bem batidos, rosto liso e oval. Aparência de
rico. Usa terno preto sobrepondo a camisa azul.
HOMEM 1: Você não tem o que se preocupar com
isso.
HOMEM 2(V.O): Só falta me dizer que você confia
neles...
HOMEM 1: Não, eu não tô dizendo que confio
neles, mas eles precisam do dinheiro...Eles falam qualquer coisa, mas sempre
voltam...
HOMEM 2(V.O): Cael, você não conhece esses caras,
não conhece a família deles...
AO MESMO TEMPO...
Raíza atravessa a rua correndo, o
Toyota se aproxima.
TOYOTA [INT.]
CAEL: Escuta! Você é meu amigo ou meu anjo
da guarda?
[POV de Cael]
Cael vê a garota no meio da rua, pisa
no freio de repente, joga o celular que cai na poltrona ao lado. Ouve-se o som
dos pneus cantando. É buzina pra tudo quanto é lado.
VOZ: Tá maluca, garota!
Cael, com um olhar que não sabe que
direção olhar, está meio perturbado. Sai do carro, dá um giro com os olhos à
procura daquela moça. A cena mostra o momento em que Raíza e ele cruzam o olhar
(efeito câmera lenta).
Ele dá um passo em sua direção, mas
pára (fim do efeito). Vê um rapaz segurar no braço da garota e a levar dali.
CALÇADA...
RAPAZ: Parece que o tal cara foi embora.
RAÍZA: Ainda bem que ‘Cê’ me arrancou de lá
Dcr...Já pensou se ele me dá um fora daqueles? Um sermão bem dado? Pensa a cara
que eu ia ficar.
Dcr olha pra cara dela surpreso.
DCR: Eu não ia pensar nada, que mania de
exagerar. Te tirei de lá por que você tá atrasada pra aula e a nossa colega Ari
tá esperando o trabalho.
Raíza olha para trás meio abismada
com aquele acontecido.
Alguém observa a cena de dentro de um
carro verde com vidro escuro.
CORTA PARA
CENA 4 L.A HOUSE [EXT.]
Cael pára seu carro em frente a uma
casa noturna.
A casa tem colunas brancas que se
estendem até alcançarem a janela. As janelas frontais, todas em pequenos
quadrados, são em tom azul-esverdeado. A cena sobe e mostra o título em
vermelho: L.A House.
Cael sai do carro. Um homem se
aproxima.
CAEL: Não precisa estacionar.
Ele abre a porta e entra procurando
alguém.
O chão é um multicolorido de várias
tonalidades de preto até ao branco. Há uma grande bola azul-esverdeada acima da
pista de dança.
HOMEM (O.S / sotaque europeu): Um minuto atrasado...Está perdendo
sua pontualidade, Cael?
CAEL: Ora vê se não enche! (ele se dirige
ao bar mais a frente) O que você quer?
O homem, com um copo de uísque na
mão, desce as escadas. Loiro, cabelos curtos e lisos, rosto liso, olhos azuis.
Observa Cael se servir de vodka. Sua voz soa em tom manso e discreto.
HOMEM: Eu tenho percebido que você passa
muito tempo com o Paulo...
CAEL: Ciúmes de irmão, Marco?
MARCO: Ah você sabe do que estou falando.
Cael bebe um gole de vodka. Olha para
o irmão.
CAEL: Vai voltar a dizer que ele se mete
muito...
MARCO: Nos nossos negócios, exatamente.
(ele deixa o copo sobre a mesa) Ele parece uma boa pessoa, mas...Você sabe,
sempre fracassou nos negócios, que tipo de conselho ele poderia lhe dar?
CAEL: O conselho da experiência do que
seja um fracasso nos negócios.
MARCO: Ora você não precisa de um livro de
auto-ajuda, mas sim de abrir os olhos (ele toca o ombro do irmão).
Cael dá uma olhada naquele toque.
CAEL: Não acredito, Marco; Me chamou aqui
pra falar do Paulo? Podíamos ter falado em casa.
MARCO: Em casa as paredes têm ouvido.
Cael anda em direção à escada,
inconformado.
CAEL: Eu saí da minha casa, quase
atropelei uma doida pra ouvir você falar do Paulo? (de repente, ele pára e
volta-se de olhos arregalados) Nossa, naquela confusão eu acabei desligando o
telefone na cara dele...
MARCO: Você falava com ele? Já tão cedo?
Cuidado, Cael, ele pode está querendo saber alguma coisa sobre o...
CAEL: Ele já sabe.
Marco faz cara de espantado.
CORTA PARA
CENA 5 COLÉGIO FRANÇA - QUINTAL
Raíza abre os cadernos e até a bolsa
preta. Ela caça alguma coisa sob os olhares de duas pessoas, incluindo Dcr.
Pára, extasiada.
GAROTA: O que foi?
Raíza esfrega a mão no rosto,
irritada.
RAÍZA: Eu não acredito nisso! Eu não
acredito nisso! Esqueci o trabalho em casa!
GAROTA: Eu não acredito nisso! O que ‘cê’
tem que fazer agora é ir lá buscar.
RAÍZA (alterada): Você fala isso, Ari por que não é
você que tem que encarar o meu primo te passando sermão só no olhar.
Dcr esboça um riso.
Ari aparenta nervosismo. Estala os
dedos, passa a mão nos longos cabelos castanhos e amarrados e põe a outra mão
na cintura. Tem as pálpebras cansadas e expressão de que não dormiu bem.
Dcr faz um gesto rápido em direção a
portaria.
DCR: Escuta, Raíza, a aula de matemática
só será no 2º tempo; Dá tranquilo pra você ir lá...Eu acho.
RAÍZA: Ah é claro que você acha ‘né’? Como
é que vou passar pelo porteiro, hã?
Ari olha para os fundos do colégio.
ARI: Bom, eu acho que sei de um jeito...
CORTA PARA
CENA 6 COLÉGIO FRANÇA - FUNDOS
Raíza, amparada pelos amigos, tenta
subir o muro. Consegue pôr a perna do outro lado e senta, cansada.
Ofegante, as palavras são cuspidas em
vez de faladas.
RAÍZA: Sabe, Ari...Eu adorei...Esse
seu...Jeeeeeeeeitoooo...
Ela rala o braço e cai do outro lado.
ARI: Tudo bem aí?
RAÍZA: Pergunta pro meu braço...
Dcr acha graça.
CORTA PARA
CENA 7 CASA Nº 137 [INT.]
No chão do sótão há um grampo perto
da porta, livros espalhados. A poeira levanta do piso. A cena mostra João
Batista vasculhando e tirando as coisas do lugar. De repente, seus olhos ficam
vidrados em alguma coisa. Ele apanha o livro detrás do baú e vislumbra a cruz.
CASA Nº 137 [EXT.]
Raíza coloca a chave na porta, abre e
entra. Põe a chave sobre a mesa de centro e olha para a cozinha. A mesa está do
mesmo jeito que ela deixou quando saiu. Ouve um barulho e olha, sobressaltada,
para o alto da escada. Ela sobe com um olhar tenso, uma sensação medonha. Não
consegue falar nada. Toca na maçaneta.
SÓTÃO [ INT.]
João toca na cruz e uma luz emana
amarela. As vistas queimam.
JOÃO: AAaah!
A porta é aberta. A luz projeta-se
nos olhos de Raíza que, aturdida volta-se para trás.
CORREDOR/ESCADA
Em seguida, perdendo o equilíbrio, a
moça cai da escada. João Batista aparece da porta, vê a prima caída ao pé da
escada, mas foge com a cruz.
CASA Nº 137 [EXT.]
O rapaz, desorientado e de olhos
vermelhos, corre pelas ruas. Uma ventania do nada abate sobre ele. Mal consegue
abrir os olhos. Naquela situação, a cruz cai no chão, o rapaz coça as vistas e
abre os olhos. A cruz não está mais alí.
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 8 CASA Nº 137 [ INT./minutos depois]
Raíza volta a si. Levanta com dores
no corpo e a vista embaçada. Olha em direção ao sótão e faz que vai subir, mas
seu celular toca.
COLÉGIO FRANÇA - BANHEIRO [INT.]
Ari, com o celular no ouvido, tem um
olhar apreensivo.
ARI: E aí amiga? Onde é que você tá?
RAÍZA (V.O): Tô em casa, Ari...
ARI: Ainda? O professor está prestes a ir
pra sala e você sabe como ele é, ‘né’?
RAÍZA (V.O): Calma! você tá agitada.
ARI: Mas é claro ‘né’, a professora de
português faltou e ele resolveu juntar as turmas e dá aulas no lugar dela.
RAÍZA (V.O): Nossa, que falta de sorte...Mas e se
a gente entregasse depois? Você e o Dcr poderiam explicar e...
ARI: Não! Com ele não tem essa de depois
não, pega logo essa droga e venha!
Ari desliga. Suas mãos não se
controlam e quase deixa o celular cair.
CASA Nº 137 [INT.]
Raíza bufa. Ela vai até a cozinha,
apanha o trabalho sobre a cadeira e sai desesperada.
CORTA PARA
CENA 9 TOYOTA [ EXT.]
Cael e seu irmão seguem de carro. Em
um dado momento, Cael pega um atalho.
MARCO: Você não devia ter comentado a
respeito do cassino com o Paulo...
Cael, ora olha pros lados; Ora pra
frente. Aquilo o irrita.
CAEL: Eu e o Paulo estudamos na mesma
faculdade. Eu vi o esforço dele em todos os passos que ele deu. Ele tem
capacidade de fazer o que ele quer e nunca precisou do meu dinheiro...
MARCO: Mas nunca conseguiu concretizar nada
do que começou! (Ele puxa um cigarro)
CAEL: E não fume aqui dentro.
MARCO: Hunf...(ele guarda o cigarro) Mas
como eu estava dizendo, uma hora ele vai se cansar disso e vai precisar de
muito apoio seu...Apoio financeiro, que fique claro.
CAEL: Eu não vejo problema em ajudá-lo,
sei que ele jamais ficaria na minha aba.
RUAS DA CIDADE...
A cena mostra Raíza correndo pelas
ruas e a frente, bem adiante, uma transversal.
TOYOTA [EXT.]
MARCO: Essa sua confiança me assusta,
sabia? Em se tratando de negócios como os nossos nunca temos amigos e sim,
contatos.
CAEL: Essa sua mania de se meter em minhas
amizades não me anima nem um pouco...
CORTA PARA
FADE IN
CENA 10 RUAS DA CIDADE...
Raíza vai se aproximando pela
transversal quando folhas de seu trabalho caem. A cena focaliza um carro verde
estranho vindo pela esquerda e imediatamente muda o foco para o carro adiante,
o de Cael.
TOYOTA [INT.]
MARCO: Eu, como irmão mais velho, tenho a
obrigação de te proteger contra os malefícios de uma amizade.
Cael bate no volante fazendo soar a
buzina, quase gritando.
CAEL: Eu não quero sua proteção!
Ouve-se a buzina, Raíza olha
assustada e volta-se para o lado esquerdo. O carro verde vai pra cima da moça.
A garota não tem mais tempo.
TOYOTA [INT.]
Cael pisa no freio, faz uma curva
para não colidir. Marco bate com a testa na janela.
TOYOTA [EXT.]
A moça bate de frente no carro verde
e cai pra trás.
O motorista, moreno claro,
cavanhaque, pára o carro, abre e sai apressado. Ele usa um sobretudo preto
sobre a camisa vermelha e calça social preta. Tenta removê-la dali. Cael corre
e chama sua atenção.
CAEL: Ei! O que vai fazer? (ele olha a
moça e a reconhece).
HOMEM: Eu tô tentando ajudá-la. Sou o tio
dela, não se preocupe. Nossa, ela e essa mania de não olhar por onde anda.
CAEL: Sei bem o que é isso...Olha! Parece
que ela quer dizer alguma coisa.
Raíza olha aquele moço e desfalece.
CAEL: Espere aqui que eu vou ligar pro
hospital.
Cael volta pro carro.
MARCO( ele toca a ferida em sua
testa): Não se meta nisso, Cael! Pode ser armadilha.
Quando se volta, o tal moço já está
colocando a garota no carro.
CAEL(grita): Ei! Você tem que esperar a
ambulância!
O moço entra no carro e acelera.
HOMEM: Não gosto de burocracias...
Cael pega o carro e acelera na
direção dele.
MARCO: O que vai fazer? Você está maluco?
Cael nada responde, mas sem entender,
o carro verde some de suas vistas como um passe de mágica.
FADE OUT
FADE IN
CENA 11 CASA Nº 137 [ INT./FIM DE TARDE ]
Bruno abre a porta e entra. Fecha e
joga a chave na mesa central.
BRUNO: Raíza?
O pai chama, mas não se ouve nada.
Ele olha para o alto da escada e vê a porta do sótão aberta. Sobe as escadas,
atento e pára à soleira da porta.
SÓTÃO [INT.]
Bruno encontra tudo revirado e
desespera-se. Dá com o livro largado sem a cruz. Ele agacha e antes de pegá-lo,
ouve a porta da sala abrir. Sai e do alto da escada vê Josué com uns papéis na
mão e sua bolsa a tiracolo.
SALA...
Josué senta no sofá, põe a bolsa cor
marfim ao seu lado e suspira.
JOSUÉ: O João taí?
BRUNO: Acho que não eu cheguei agora e...
JOSUÉ: E?
BRUNO: A cruz. A cruz sumiu!
JOSUÉ: Sumiu? Como assim?
BRUNO: O sótão tá todo revirado, Josué. E
se foi o Cipriano?
JOSUÉ: Você acha que ele ainda usa aquelas
poções pra ficar invisível? Será que ele tá por aqui?
BRUNO: Não...Se ele já pegou a cruz ele vai
atrás da...
Os dois se fitam de repente.
BRUNO e JOSUÉ: Raíza!
BRUNO (assustado): Onde ela tá? Não veio contigo?
Josué olha os papéis em sua mão. O
nome no cabeçalho da folha é o de Raíza.
FADE OUT
FADE IN
CENA 12 AMBIENTE ESTRANHO [INT./FIM DE TARDE]
= = Music On = =
Raíza acorda em cima de uma tábua, no
meio de um terreiro, sozinha. Levanta-se e de repente observa, pela janela, o
tempo lá fora. Desespera-se. Olha seu pulso e vê uma cicatriz. A garota sai da
tábua e pisa no chão de terra. Olha à direita e velas estão acesas. Faz cara de
quem não está gostando do cheiro.
HOMEM (O.S): Está se sentindo bem?
Raíza vira-se e dá com aquele rapaz
bonito, simpático, usando uma camisa vermelha por dentro do sobretudo preto.
RAÍZA: Quem é você? Onde é que eu tô?
HOMEM: Pelo visto está muito bem, hen...
RAÍZA: Quero ir pra casa...Não tô gostando
disso...Ai! (ela aperta o pulso esquerdo) que dor é essa? Que cicatriz é essa?
HOMEM: Pare de sentir medo que ela passa.
RAÍZA: Que?
O rapaz se aproxima e Raíza recua.
Ele pára diante da sua resistência.
HOMEM: Você foi batizada com uma cruz no
seu pulso. Todo sentimento avesso à coragem a fará sentir dor.
RAÍZA: Tá brincando...
HOMEM: Eu não brinco com coisa séria.
Raíza torna a olhar para o pulso e
num instante, começa a arranhá-lo impulsivamente.
RAÍZA: Tira isso aqui, tira isso aqui! Isso
é mandinga ‘né’? O que você quer de mim?
HOMEM (contorna a tábua): Essa cruz passou por toda geração
até chegar à sua mãe. Ela oferece poder de todo tipo a quem dela fizer uso,
apenas a quem foi destinada. Como você é a geração mais nova, é a você que ela
pertence.
RAÍZA: Eu sei que minha mãe era ligada a
magia, mas quem disse que eu quero esse tal poder? Você perguntou pra mim o que
eu pensava sobre isso? Quem você pensa que é pra decidir o meu futuro?
HOMEM: Seu tio! Sou irmão de sua mãe.
Raíza olha espantada e franze as
sobrancelhas.
RAÍZA: Meu pai nunca falou de você. Nem
dessa cruz.
HOMEM: Seu pai é um incrédulo. Deve ser
lucro pra ele acreditar somente em Deus.
RAÍZA: Não é a única coisa que importa?
HOMEM: Você verá que não...
= = Music Off = =
FADE OUT
FADE IN
CENA 13 CASA Nº 137 [ INT.]
Bruno pega o fone, disca e depois de
um tempo, desliga.
BRUNO: Caixa postal.
JOSUÉ: Isso é muito estranho. Deixa que eu
ligo pro...(ele mira na mesa e vê um celular) O celular do João (ele pega) Ele
nunca sai sem ele.
Josué levanta, assustado.
JOSUÉ: O jeito é a gente ir à polícia.
BRUNO: Não! A vida da minha filha pode está
em jogo!
JOSUÉ: Você acha mesmo que o Cipriano a
levou? Mas se só a Raíza pode usar a cruz...
BRUNO: Mas é através dela que ele pode
conseguir o que quer.
Josué não se conforma e avança no
telefone.
JOSUÉ: Eu não vou esperar pra ver no que
isso vai dar.
Bruno, revoltado toca em sua mão
tapando as teclas.
BRUNO: Ele pode ter levado o João também!
Josué fica estagnado e vai afrouxando
a mão do telefone lentamente.
CORTA PARA
CENA 14 AMBIENTE ESTRANHO [INT.]
Raíza se volta, sem acreditar no que
está ouvindo.
RAÍZA: Eu fui atropelada e você me salvou,
é isso?
O sujeito dá as costas e olha de
canto, estranhamente.
HOMEM: É o que eu tô dizendo...Se eu não te
batizasse hoje... (Ele se volta) Você poderia estar morta.
RAÍZA: ...Isso se Deus quisesse ‘né’...
HOMEM: Deus é poderoso, mas nós podemos ser
também. Uma empresa não funciona só com o patrão.
RAÍZA: Você... É um bruxo? (se afasta)
HOMEM: Não gosto desse rótulo. Prefiro
místico. E você também é. Mas você é especial...Vi uma energia pairar no ar
como nunca vi antes. Tive que fazer uma limpeza na cruz por que parece que
alguém de más vibrações andou bisbilhotando...Mas do resto ocorreu tudo bem.
RAÍZA: Tá, mas agora eu tô bem. Tira essa
coisa de mim.
HOMEM: Como? Num entendi.
RAÍZA (olhando firme para ele): Tira essa cruz do meu pulso.
O sujeito cruza os braços e a olha
como se fosse superior.
HOMEM: Acho que você não entendeu nada do
que eu disse; A cruz a salvou e sem ela todos os males que você sentia até as
dores que você viria a ter pelo acidente vão aparecer.
Raíza se espanta.
RAÍZA: Eu nunca mais poderei tirar isso
daqui?
HOMEM: Se você quiser se arriscar a
morrer...
RAÍZA: Não acredito em coisas
materiais...Vou tratar de arrancar essa coisa daqui.
Ela vai na direção da porta de
madeira e ouve aquele rapaz, ainda de costas.
HOMEM (O.S): Você pode ser punida! Se você ousar
falar mal ou não aceitar sua nova condição será punida...Por tempo
indeterminado.
Ela se volta, irritada e segurando
seu pulso.
RAÍZA: Isso é ameaça? Eu não acredito que
uma coisa material possa reger o meu destino.
HOMEM: Você não sabe o mal que poderá te
acontecer...
RAÍZA: Eu não pedi isso pra minha vida.
Raíza tenta sair. O sujeito vai até
ela e a toca nos ombros.
HOMEM: Vê lá o que você vai fazer
hen...Você tem uma família...
A garota, espantada, corre para fora
dali e lá adiante, pára na escuridão. Olha em torno de si e não há uma viva
alma para pedir ajuda.
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 15 CASA Nº 137 – SALA [INT./NOITE]
Bruno não consegue ficar sossegado.
Estala os dedos e se inquieta cada vez mais com a presença dos amigos da filha.
Josué serve um lanche e quase deixa a bandeja cair. Preocupado demais.
DCR: Gente, por que não ligam pra polícia
hen? A essa altura eu não me surpreenderia se ela já tiver sido levada pra fora
do estado.
ARI: Você tá falando em...
GAROTA: Seqüestro, é isso que o cara tá
falando.
DCR (dramatizando): É, o caso pode ser sério, Rafaela.
Eles levam a pessoa pra fora do estado e depois de tudo pronto, saem do país.
ARI: ‘Cê’ tá viajando, cara. O seu Bruno
não é rico, suponho que não tenha inimigos...Por que levariam a garota?
Rafaela, após um gole rápido no suco,
se volta para o amigo.
RAFAELA: Você tá viajando mesmo. Vai vê ela
só matou a aula e pronto.
ARI: Ou seja, nos deixou na mão...
BRUNO: Desculpem, mas...Já está tarde. É
perigoso andar na rua a essa hora...
Os amigos deixam a xícara na mesa
central, levantam-se.
ARI: Ah, a gente já ‘tava’ de saída...Não
é pessoal?
RAFAELA (para Bruno): Qualquer coisa o senhor nos liga tá?
BRUNO: Tudo bem...
Dcr, Rafaela e Ari se despedem.
Assim que eles saem, Bruno com os
braços sobre os joelhos olha para o telefone.
BRUNO: Eu não tô aguentando mais essa
agonia...
CORTA PARA
CENA 16 RUAS DA CIDADE [NOITE]
Raíza caminha rápido pela calçada,
chega a correr, mas desacelera. Ouve-se a trovoada. O céu se ilumina todo.
RAÍZA: Meu Deus do céu! (caminha olhando
para trás) Que lugar é esse?
TOYOTA [INT.]
Cael dirige quieto. Ao seu lado,
Marco o observa. Coloca o cotovelo na janela, passa a mão pela boca e continua
a encará-lo.
CAEL: Posso saber por que tanto me olha?
MARCO: Você está quieto desde que aquela
garota foi atropelada.
CAEL: Sujeito estranho aquele, não acha?
MARCO: Os dois me pareceram estranhos.
Silêncio. Pingos de chuva batem na
janela.
MARCO: Olha só o que você fez! Pegou um
caminho errado!
CAEL: Tudo bem. (irônico) Não vamos chegar
amanhã na boate.
MARCO: Isso por causa daquele incidente?
Esquece isso. Aquela garota nem sabe que você existe e duvido que voltaremos a
vê-la...
[POV de Cael]
Cael vê uma garota indo de costas pro
meio da rua. Buzina.
TOYOTA [EXT.]
Raíza se vira, Cael freia rapidamente
e as mãos da garota pousam sobre o capô.
Cael a olha, espantado; Raíza também.
TOYOTA [INT.]
Cael faz que vai sair. Marco o
impede.
MARCO: Você não vai fazer nada!
Cael não responde. Se solta dele,
abre a porta e quando sai, não vê mais ninguém. Marco também sai e apóia o
braço em cima do carro.
MARCO: Não anda tendo muita sorte com seus
atos benevolentes, Cael?
Cael vira pra ele, calado.
CORTA PARA
CENA 17 RUAS DA CIDADE [NOITE]
SÉRIE DE PLANOS:
a) A cena mostra João Batista andando
em passos largos numa estrada.
b) Ouve-se trovoadas.
c) Raíza apanha seu celular, disca
com o dedo tremendo. Toca o pulso e fecha os olhos de dor.
CORTA PARA
CASA Nº 137 [ INT./NOITE]
O telefone toca. Bruno avança e
atende.
BRUNO: Raíza?... Minha filha, onde você tá?
RAÍZA: Eu não sei, pai...Tô chegando perto
de um viaduto de grades amarelas...Ai pai, um louco falou de uma cruz...Vem me
buscar.
BRUNO: Descreve o lugar, filha...
RUAS DA CIDADE - VIADUTO...
RAÍZA: Tem uma torre de...
Raíza tem o telefone bruscamente
arrancado de sua mão.
RAÍZA: João, ‘cê’ tá maluco? Por que fez
isso?
Ela vê o celular ser jogado abaixo do
viaduto.
João está com uma aparência
desorientada, olhos vermelhos e a olha fixamente.
JOÃO: Foi você que me tomou a cruz não
foi? Não sei como você fez, mas só pode ter sido. Quem é esse cara que ficou
falando de uma cruz contigo?
RAÍZA: Eu não sei...( ela alisa o pulso e
se afasta do primo) ele é um cara muito sinistro, inventou que colocou uma cruz
...
Ele a segura pelos ombros.
JOÃO: Cadê? (ele tenta puxar sua bolsa,
mas ela se esquiva) era pra ser minha! Eu esperei muito por isso pra você vir e
me tomar!
RAÍZA (assustada): Ele falou que a cruz me pertencia
e...
JOÃO: Quem decide isso sou eu!
João avança, mas Raíza consegue
empurrá-lo e sair correndo. João levanta, toma impulso e a alcança. Os dois
caem na mesma hora. A garota se segura firme na grade do viaduto e dá um chute
na cara dele.
RAÍZA (berra): PÁRA COM ISSO! VOCÊ TÁ AGINDO FEITO
UM LOUCO!
JOÃO (berra): VOCÊ SEMPRE TOMA TUDO QUE É MEU!
Raíza tenta se levantar para correr.
João puxa seu braço direito e ela se volta com uma braçada.
Ele crava as unhas em seu pulso
esquerdo e o grito de dor dela soa pela estrada.
Uma trovoada ilumina o céu.
Os dois ficam estáticos; A cena gira
em torno deles rapidamente; Raíza, com a mão estendida; O primo segurando seu
pulso. O mundo corre a volta deles.
De repente, os dois caem.
O dia clareia no rosto deles, ouve-se
o som dos pássaros cantando por perto. O rosto de Raíza é sereno e a cena se
aproxima ao máximo. Ela abre os olhos subitamente.
A tela se fecha num baque.
Raíza (Maria Flor)

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