
O palanque está montado em frente ao novo
mercado público. Faltam poucos
minutos para às 8 horas de um domingo ensolarado; exatamente uma semana após a
inauguração da agência dos correios. No palanque está João Delmiro
e outras pessoas,
entre elas, Paulo Chaves,
um magricelo de 40 anos, Secretário de Trabalho e Ação Social do município.
Jaime Coimbra, Secretário de Obras, também está presente. Ambos irão discursar
logo após o prefeito Delmiro.
Oito em ponto. João Delmiro se dirige até o microfone. Funcionários da prefeitura, em lugares estratégicos e seguros, disparam rojões, dando ainda mais destaque para a grandiosa festa. A população aplaude e grita; nunca viram tantos fogos em suas vidas.
Logo que os fogos cessam João Delmiro inicia o seu discurso:
– Meu querido povo confinense e amigos vizinhos de outras
localidades. É com grande honra que eu reinauguro o nosso mercado público
municipal. A inauguração deste mercado marca um novo rumo na história de São
Miguel dos Confins. Temos hoje uma Polícia Militar e uma Guarda Municipal
eficientes. Isso garante a nossa segurança e a segurança da população das cidades vizinhas
que venham aqui pra nossa cidade com toda a comodidade
possível. Com toda hospitalidade e carinho, estamos de braços abertos para
acolher os nossos vizinhos que já nos ajudaram em momentos difíceis. Se antes,
precisávamos ir pra Santa Ângela, Torres ou Carmosina pra fazermos transações
bancárias, recebermos nossos benefícios, nossas aposentadorias, agora é a nossa
vez de retribuir e nos solidarizarmos com nossos vizinhos,
recebendo-os da forma mais amistosa e hospitaleira possível.
O povo aplaude o início do discurso. Porém, um
princípio de tumulto se inicia no meio da multidão. Do alto, todos que estão no
palanque percebem um “empurra-empurra” lá embaixo. João Delmiro continua a sua
fala, ao perceber quem está envolvido na confusão.
Após gritar algumas vezes: “Tu não faz mais que a obrigação”, Donato é
empurrado por um simpatizante do prefeito que está enfurecido. Todos separam,
inclusive Genivaldo, para que não ocorram agressões físicas.
– Cale a boca, seu Donato! Se o prefeito não faz, tu reclama; se ele faz, tu reclama do mesmo jeito. Que porra tu quer?
– Vai te lascar, seu babão! – responde, Donato.
Entre vários xingamentos, outras pessoas se envolvem na confusão, exigindo que Donato vá embora. Genivaldo e outros protegem Donato e temem pela própria segurança.
A situação se acalma logo após a chegada de alguns homens da Guarda Municipal. Trajando calças pretas e camisas azuis escuras de botões, com o brasão da cidade no peito esquerdo, todos eles têm cassetetes. Comandante Couto questiona:
– O que tá acontecendo aqui?
O homem que está bastante exaltado contra Donato responde:
– É esse véio arrombado. Ele não gosta do prefeito Delmiro e fica vindo nos cantos só pra tumultuar.
Genivaldo, enfim perde a paciência.
– Rapaz, tu respeite os mais velhos. Veja lá como tu fala!
Donato, como era de se esperar, não deixa o xingamento por menos.
– Arrombada é a tua mãe, seu fi-di-rapariga!
Comandante Couto aumenta o tom de voz:
– Bora acabar com esse tumulto aí, senão eu levo todo mundo pra delegacia. Tu não vai ficar fazendo confusão nos cantos não, Donato. O senhor respeite o prefeito que ele é autoridade.
Genivaldo se vira para Couto.
– Rapaz, precisa disso não.
– Certo, seu Genivaldo, eu respeito muito o senhor. Mas
então faça o seguinte: leve seu amigo pra casa. Ele tá atrapalhando os festejos da inauguração. Pode ser?
Genivaldo concorda e puxa Donato para longe dali. Muitos presentes aplaudem a retirada de Donato do local. O homem que se envolveu de forma mais pesada com Donato comemora:
– Vai-te embora, véio louco!
Mesmo sendo puxado por Genivaldo e escoltado por
dois dos guardas municipais, Donato ainda grita:
– Vai pra casa, corno! Tua mulher deve tá com o urso, enquanto tu tá aqui babando o ovo de Delmiro.
Já longe da multidão, Genivaldo repreende Donato.
– Rapaz, tu tem que se controlar. Assim fica difícil a pessoa andar com você. Eu não quero apanhar por causa de tu não.
– Oxe! E eu tô errado, Valdo?
– Donato! Homi, tu visse que faltou pouco pra tu apanhar.
Caminhando rumo à sua casa e longe da cerimônia e das pessoas, Donato ri e faz chacota.
– Aquilo lá bate em ninguém, rapaz. O pai é corno, o avô era corno, ele é corno, o filho dele vai ser corno quando crescer, e o neto dele também vai ser corno depois que nascer.
Balançando a cabeça de um lado para o outro, Genivaldo reclama:
– Bora. Bora pra casa. Tu não tem jeito mesmo, homi.
Donato e Genivaldo somem da vista de quem está em
cima do palco. João Delmiro continua com o seu discurso.
– E eu percebo a expressão de felicidade estampada no rosto
de cada um dos meus irmãos
confinenses. E a felicidade de cada confinense, também é a minha felicidade.
E não é fácil...
João Delmiro passa a dizer isso com uma expressão
triste e voz embargada. Pausa a fala enquanto puxa um lenço do bolso. Limpa os
olhos e devolve o lenço ao bolso.
– Eu fico emocionado por tantas injustiças que minha família sempre passou; são agressões, calúnias,
defamações... Esse era o sonho
de todos os confinenses. E apesar de todo o trabalho e esforço, muita gente torce contra, conspira pra que
as coisas deem errado. Mas Deus é maior. E Deus tá do lado das pessoas
de bem dessa cidade. As pessoas
que não têm Deus no coração, torcem pra dar tudo errado; e elas são muitas. São
comunistas, anarquistas e baderneiros que não querem o desenvolvimento da nossa
amada cidade. Quem não quer o bem de São Miguel dos Confins são pessoas de coração
mau. São pessoas do tipo que não têm nenhuma gratidão a vovô por ter expulsado
o bando de Lampião daqui. Não vou mais alongar a conversa. O mercado público
está sendo aberto e vocês todos podem entrar e ver todas as novidades. Vocês,
meu povo, vocês são os donos do novo mercado público. Está lindo! Está lindo!
Está uma maravilha! Sejam todos bem-vindos.
A multidão aplaude e grita o nome de João Delmiro,
enquanto ele puxa novamente o lenço e o leva aos olhos. Ou ele foi muito rápido
para limpar ou nenhuma lágrima desceu dos seus olhos. Pelo menos foi isso o que
muita gente confirmou depois.
NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi
ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas
TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera
DIREÇÃO
Carlos Mota
PRODUÇÃO
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO
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