
Um grande palco está montado na praça.
Várias pessoas estão sobre ele, dentre elas João Delmiro e sua esposa, uma
mulher magrinha, com cerca de 60 anos. Uma multidão acompanha os preparativos,
enquanto músicas de várias bandas de forró tocam, animando o público até o
início do pronunciamento do prefeito João Delmiro. Algumas pessoas dançam. Há
pessoas das mais variadas idades.
Não muito longe dali fica a casa de Donato e
Judite. Por motivos óbvios, Donato fora impedido por Judite de comparecer ao
evento. Por solidariedade, Genivaldo e Neuza decidiram por não irem também,
acompanhando tudo somente
através do som vindo da praça. A residência do casal não fica muito distante da praça da igreja matriz, sendo que os dois casais
permanecem em cadeiras na calçada. Dali conseguiam ouvir perfeitamente o
técnico de som falando: “Alô. Som”. Imaginavam
que poderiam ouvir o que tanto João Delmiro tinha a dizer de tão importante para exigir a
montagem de um palco e estrutura tão grande.
Conversam sobre diversos assuntos até o momento em que um homem anuncia João Delmiro. Gritos e aplausos vindos da multidão.
– Bora ver o que esse bosta tem pra falar... – resmunga Donato. João Delmiro se aproxima do microfone, acenando para o povo.
–
Boa noite, meu
querido povo confinense. É um prazer estar aqui nesta grande festa. Esta festa
não é minha, mas de vocês. Esta festa comemora o início de uma nova era em São
Miguel dos Confins. É um marco histórico pra nossa amada
cidade. Finalmente podemos olhar
pra frente e ver o progresso, o futuro chegando.
Donato se remexe em sua cadeira, enquanto Judite,
Genivaldo e Neuza estão atentos, prestando atenção na fala do prefeito.
– Oxe! Que progresso? Foi a família desse praga que sempre atrasou a cidade e agora ele vem falar de progresso? – reclama Donato.
– Homi, pare! Deixe a gente ouvir! – reclama, Judite. João Delmiro não se contém; sorri muito e está vibrante:
– Minha gente, a construção da nossa agência dos correios vai começar.
A multidão vibra. João Delmiro aguarda o fim da comemoração.
– A inauguração do correio vai ser só o início de um período
de crescimento e prosperidade da nossa cidade,
trazendo melhorias pra nossa amada população.
– Amada? Esse povo dessa família só lembra do povo quando é época de eleição! – diz Donato.
– Homi, fique quieto! Deixe a gente prestar atenção – reclama, Judite.
João Delmiro prossegue com a série
de surpresas preparadas para a população de São Miguel dos Confins.
– Juntamente com
a inauguração deste empreendimento maravilhoso, eu tenho a honra de comunicar a
todos a formação da Guarda Municipal de São Miguel dos Confins. Nós vamos ter a
comodidade do correspondente bancário do Banco Federal nos correios na nossa cidade e a segurança
que será proporcionada pela nossa equipe da Guarda Municipal. Ir pra Torres
ou pra outras cidades só pra sacar aposentadorias, benefícios, fazer transações
bancárias, serão coisas do passado. Mas temos mais uma novidade: enquanto
a agência dos correios
não fica pronta, vamos ter um caixa 24 horas, que atende os principais bancos,
que irá funcionar no mercadinho do seu Nelson. Alguns pessimistas podem até
pensar: “mas não é perigoso ter um caixa eletrônico e uma agência dos correios
na nossa cidade?”. Confesso que muitos torcem contra.
Mas a minha resposta é: “Não!”. Nosso bravo povo confinense, contando com a nova guarnição da Guarda Municipal e junto a equipe
comandada pelo Delegado Nogueira vai garantir a nossa segurança. Eu dou a minha
palavra que, assim como meu avô defendeu nossa cidade dos ataques do bando de
Lampião, nós iremos defender nossa cidade de qualquer marginal que se atrever a
colocar os pés aqui.
A população vibra com as palavras proferidas pelo líder municipal. Donato balança a cabeça
de um lado para o outro; não consegue disfarçar a sua irritação.
– Pronto! Essa cabra tinha que falar dessa lorota do avô dele de novo! Esse peste não consegue ficar sem mentir com essa história. Besta é quem acredita.
Judite dá um tapa na cabeça de Donato:
– Homi, pelo amor de Deus. Fique quieto. Tu tais complicado demais, visse!
– Oxe! E eu tenho culpa desse porra mentir desse jeito, é Judite?
– Bora ouvir, Donato – intervém Genivaldo.
João Delmiro continua a falar sobre os projetos para a cidade.
– E não é só isso não. Tem muito mais coisa boa pro futuro de São Miguel dos Confins. Vejam bem, prestem atenção: com a insegurança das cidades vizinhas, bem como do nosso Estado e até de outros, São Miguel dos Confins passará a ser um centro comercial da nossa região. Logo, o nosso secretário de trabalho e ação social, Paulo Chaves, irá explicar como funcionará linhas de crédito para quem quiser montar seu próprio comércio aqui, tanto pra atender gente da nossa cidade como de outras.
– Esse Paulo é outro cabra safado. Puxou o pai – reclama Donato.
– Rapaz, tu tá impossível,
Donato. Tem condições não, visse –
diz Judite, alterada.
João Delmiro espera a algazarra
da população diminuir.
Ele limpa a garganta
e em tom emocionado recomeça
o discurso:
– Anuncio também, meu povo, que a partir da próxima semana,
começará uma grande reforma de ampliação e modernização no mercado público da
cidade. Em memória de toda luta que meu falecido pai travou contra os
comunistas que tentaram fazer baderna nesse país, tentando montar uma célula de
guerrilha em nosso município, durante os anos setenta, o novo, grande e belo mercado público
de São Miguel, passará a se chamar: mercado
público Jofre Aguiar Delmiro.
A população aplaude
em memória do falecido político.
Jofre, assim como João, também
era querido por alguns e odiado por um ou outro morador de São Miguel.
Entre as pessoas
que o odiavam, não podia faltar
Donato.
– Meu amigo, esse cabra
só pode tá doido! Desde quando
comunistas ameaçaram São Miguel? Pronto! No mínimo ele acha que iam começar uma
revolução aqui no fim do mundo – reclama novamente Donato.
– Donato, pelo amor de Deus – reclama
novamente Judite, diante do
constrangimento que Neuza começa a sentir.
Genivaldo por sua vez, há de concordar, pelo menos em partes, com Donato.
– Mas veja bem, Judite: Delmiro hoje tá mentindo sem dó. Eu já vi ele mentindo várias vezes, mas hoje ele tá demais. Eu nunca tinha ouvido falar dessas histórias de comunistas aqui também. Ninguém nunca ouviu nada disso, até os “Delmiro” começarem com isso uns tempos atrás.
João Delmiro continua com o seu discurso.
– E ainda hoje, minha gente, essa é uma ameaça que ronda São Miguel. Muita gente pode duvidar, mas eu acredito que esses bandos que andam fazendo essas badernas, explodindo bancos e correios, devem ser ligadas aos partidos comunistas e aos Direitos Humanos, que ficam tratando bandidos como coitados. Mas aqui não. Aqui é terra de gente de bem. Aqui é terra de gente honesta. Aqui é terra de gente trabalhadora. E nenhum bandido e nenhum comunista vai causar confusão aqui em São Miguel dos Confins. Só se for por cima do meu cadáver – Delmiro inicia um coro.
A população vibra novamente se juntando ao coro:
– Nossa bandeira jamais será vermelha! Nossa bandeira jamais será vermelha! Nossa bandeira jamais será vermelha!
Ele para de gritar no microfone e, logo que o coro
diminui, João Delmiro conclui:
– Então é isso, meu povo. Com grande satisfação que anuncio
novos tempos pra nossa cidade.
Agora vocês vão ficar com um forrozinho bom. E em seguida, nosso
querido Paulo Chaves vai anunciar as novas medidas de sua secretaria.
– E assim os “Delmiro” vão fazendo o povo de São Miguel de trouxa. Tem cinquenta anos que eles chamam os candidatos que não são da laia deles de comunista – divaga Donato em voz alta.
Judite perde a paciência.
– Homi, pelo amor de Deus. Tá impossível de ficar perto de tu, visse! Eu queria até escutar a música, mas eu vou entrar. Vocês me dão licença. Bora entrar Neuza, pra gente tomar um café e ver se a gente não se aborrece mais.
– Bora assistir a novela, Judite – diz Neuza.
Judite e Neuza seguem para dentro da residência. Donato faz uma careta quando a sua esposa dá as costas. Genivaldo ri.
– Rapaz, tu tirasse Judite do sério mesmo.
– Mas rapaz, quem vê, pensa que eu que tô errado. A gente tem um prefeito bandido e ela fica com raiva de mim.
NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi
ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas
TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera
DIREÇÃO
Carlos Mota
PRODUÇÃO
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO
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