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Desígnios: Capítulo 18

Novela de Débora Costa
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DESÍGNIOS - CAPÍTULO 18

 

Cena 1/Int./Brasil – São Paulo/Mansão Monteiro Diniz/Ateliê/Dia.

Elisa está sentada, lendo o bilhete que Sérgio deixou. Sorri, emocionada, olha as flores no vaso, que são tulipas. Maya bate à porta, entra.

MAYA

(sorri) Bom dia, Elisa. Fui te procurar no seu quarto e, como não te vi lá, vim até aqui.

ELISA

(sorri) Bom dia, Maya. Está precisando de alguma coisa?

Maya se senta.

MAYA

Não. Só queria saber como você estava, depois de ontem.

ELISA

Estou bem... Para me tirar do eixo, novamente, Álvaro vai precisar se esforçar mais.

MAYA

(sorri) Que flores lindas!

ELISA

Sérgio pediu para Malu colocar aqui, nos dias que ele estiver fora, e ele, também, deixou este bilhete: “- Como disse Antoine de Saint-Exupéry: “A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes.”

- Por isso não tenho medo da distância de três dias. Tenho, apenas, a certeza de que voltarei para ti... Sérgio.”

MAYA

(admirada) Elisa... Parabéns! Você conseguiu encontrar alguém que se comunica com você na mesma língua, com toda frescura que você sempre gostou. Eu nem sei quem é esse tal de Antoine de Saint-Exupéry.

ELISA

(acha graça) Não é frescura, Maya, é poético. E Antoine de Saint-Exupéry foi um escritor francês. Com certeza, você já ouviu falar de “O Pequeno Príncipe”... É uma das obras dele.

MAYA

Já ouvi falar, mas nunca parei para ler, e meu negócio não é poesia, concerto, nada disso. (sorri sedutora) Meu negócio é agilidade. Se alguém me interessa, não vou parar para ler poesia, não... Vou direto ao ataque!

ELISA

(sorri) Eu sei, te conheço bem.

MAYA

Eu vou falar uma coisa que, talvez, nem você e nem o Sérgio saibam que existe... Celular com câmera. Não precisam ficar sofrendo de saudades, nem se comunicando por bilhetes.

ELISA

(acha graça) Maya, você, realmente, não é romântica. Mas sabemos, sim... Ontem, à noite, nos falamos um pouco. (pensativa, saudosa) Mas sabe que eu nunca pensei que iria sentir tanto a falta dele, como estou sentindo?!

MAYA

Elisa... Ele saiu daqui ontem, e vai voltar amanhã, à noite.

ELISA

(sorri) Eu sei... Mas já posso sentir o vazio. Não sei explicar... Talvez, sinta falta da presença dele... Sérgio me traz um conforto que, há muito tempo, não sentia... Uma paz... Uma tranquilidade....

MAYA

(sorri) Fico feliz por você. (tom de brincadeira) Uma pena que ele não quis me deixar sorrindo igual fez com você... Eu iria adorar!

Elisa entende a brincadeira de duplo sentindo que Maya fez, acha graça, bate no braço dela, com leveza.

ELISA

Mas você, hein!

MAYA

(sorri) Vamos descer para tomar café.

Maya e Elisa saem do ateliê.

Corta Para:

 

Cena 2/Int./Portugal – Lisboa/Multinacional Castro Figueroa/Sala de Reuniões/Dia.

Acionistas, juiz, advogados, estão sentados na mesa grande. Gonçalo e António Sérgio entram, todos se levantam.

ANTÓNIO SÉRGIO

Bom dia a todos! Sentem-se, por favor.

Todos se sentam... António Sérgio na cabeceira da mesa, Gonçalo, ao lado.

ANTÓNIO SÉRGIO

(sério, firme) Senhoras e senhores, começo esta reunião por dizer que, na qualidade de principal accionista e legítimo proprietário da Castro Figueroa, nomeio Gonçalo Almeida como meu representante directo, em todos os assuntos relacionados com a administração desta empresa. Alguns dos senhores conhecem-no, há muitos anos. Outros, talvez, ainda não compreendam a dimensão da confiança que deposito nele. Mas saibam que o Gonçalo é meu amigo desde a infância. É um irmão que a vida me deu. Tudo o que for comunicado por ele terá o mesmo peso e a mesma validade que teria, se fosse dito por mim. As suas decisões terão o meu total respaldo. As suas orientações deverão ser respeitadas. E qualquer tentativa de contornar a sua autoridade será considerada uma tentativa de contornar a minha. (pausa) A Castro Figueroa entra, hoje, numa nova fase. Uma fase em que a competência, a lealdade e a transparência voltarão a ser valores inegociáveis. (olha para Gonçalo) Tenho plena confiança no homem que escolhi para me representar, enquanto estiver ausente. (olha para todos) Espero que os senhores, também, a tenham.

ACIONISTA

E quanto à Duquesa Viúva Manuela Castro Figueroa...? Continuará a exercer alguma função ou representação, junto da empresa?

ANTÓNIO SÉRGIO

(calmo, firme) Não. (pausa) A senhora Manuela Castro Figueroa mantém o estatuto social que lhe cabe por ter sido esposa do meu falecido pai, e nada mais. Os títulos da minha família não conferem qualquer autoridade sobre esta empresa. A autoridade aqui é definida pelas participações sociais, pela lei e pelos estatutos da companhia. (pausa) A senhora Manuela não exerce qualquer cargo executivo, não integra esta administração e não foi autorizada por mim a representar a Castro Figueroa, em circunstância alguma. (encara os presentes) Portanto, qualquer assunto relacionado com esta empresa deverá ser tratado com o senhor Gonçalo Almeida. (pausa) Creio que não subsistem dúvidas quanto a isso.

Todos trocam olhares discretos. Fica claro que a posição de António Sérgio é definitiva.

Corta Para:

Cena 3/Ext./Mais Tarde/ Portugal – Lisboa/ Caixa Geral de Depósitos (CGD)/Dia.

Um carro de luxo encosta em frente à imponente fachada do banco, Gonçalo e António Sérgio descem do veículo. Gonçalo ajusta o paletó, visivelmente tenso.

GONÇALO

Tens a certeza de que queres fazer isso?

ANTÓNIO SÉRGIO

Se não tivesse a certeza disso não estaria aqui, meu amigo.

GONÇALO

Então vamos a isso.

Corta Para:

Cena 4/INT./Portugal – Lisboa/ Caixa Geral de Depósitos (CGD)/Cofre/Dia.

Um ambiente sóbrio, blindado e silencioso. António Sérgio e Gonçalo aguardam. O GERENTE DO BANCO se aproxima, carregando uma gaveta metálica de segurança. António Sérgio insere sua chave de acesso junto com a chave do gerente. A gaveta se abre. Dentro dela, repousa o desgastado estojo de veludo azul-escuro. António Sérgio o abre, revelando o anel de estilo Eduardiano: uma magnífica safira de corte oval, em cravação halo de diamantes, fundida em platina legítima. A luz do teto reflete, intensamente, na joia.

ANTÓNIO SÉRGIO

(sorri nostálgico) Há muito tempo que não via este anel… A minha mãe adorava-o.

GONÇALO

(sarcástico) E achas que, quando a Elisa receber este anel, vai pensar que o humilde motorista o roubou a quem?

ANTÓNIO SÉRGIO

(sorri) Não me venhas com sarcasmo, Gonçalo. Vou dar este anel à Elisa no momento certo.

Corta Para:

Cena 5/Int./Portugal – Lisboa/Palácio Castro Figueroa/Escritório/Dia.

Manuela e Santiago estão sentados, conversando.

MANUELA

Santiago, quero que descubras para onde o António Sérgio vai voltar.

SANTIAGO

(receoso) Mas dona Manuela... Como vou descobrir?

MANUELA

Se eu soubesse, eu própria faria, em vez de te mandar fazer, Santiago. Dê um jeito!

SANTIAGO

A secretária disse que o Gonçalo comprou as passagens, não lhe pediu para ela o fazer; ela só soube que o António Sérgio estaria aqui, porque o Gonçalo lhe pediu para preparar a reunião.

MANUELA

(pensativa) Desgraçado... (irritada) Mas que maldição! Não é possível que não deixaram nada escapar!

O telefone celular de Manuela toca, ela atende.

MANUELA

Alô. (ouve) Como vai? (ouve, fica séria, levanta-se) Como é? (ouve, está com raiva) Obrigada por me avisar. (desliga, olha para Santiago, o olhar dela é de raiva contida) Santiago... sabe o que a minha amiga que trabalha no banco acabou de me dizer?

SANTIAGO

(preocupado) O quê?

MANUELA

Que o António Sérgio e aquele cão fiel estiveram lá… O António Sérgio foi fazer um levantamento… Ele levou o anel que era da mãe dele.

SANTIAGO

Dona Manuela/

Manuela vai saindo, com raiva.

MANUELA

(raiva/fora de si) Eu vou encontrar o António Sérgio no inferno! Mas o meu anel ele não leva daqui!

Manuela sai, Santiago vai atrás dela.

Corta Para:

Cena 6/Int./Brasil – São Paulo/Mansão Monteiro Diniz/Sala/Dia.

Clara e Estela entram, Estela está nervosa.

ESTELA

Não me conformo que Dante prefira morar naquele muquifo ao invés de voltar para casa!

CLARA

Calma, Estela... Também, não é pra menos... Você chegou brigando com ele e exigindo que voltasse. Não dá certo, mesmo.

ESTELA

Clara, o Dante é meu único filho; eu preciso dele perto de mim.

CLARA

Então, para de afastar ele e, também, você vai ter que aceitar o namoro dele com a Sol.

ESTELA

(nervosa) Mas ela não é mulher para ele!

CLARA

Cunhadinha... Isso quem decide é o Dante, né.

Malu entra se aproxima.

MALU

Dona Clara, eu já deixei tudo pronto para o almoço. Agora eu vou para o meu quarto; minha aula vai começar daqui a pouco.

ESTELA

Aula do que, criatura?

MALU

(sorri) A senhora não sabe? (orgulhosa) Eu comecei a fazer um curso online, de Assistente Administrativo e, se Deus quiser, vou trabalhar no grupo do seu Roberto.

ESTELA

Acorda, menina, e vai focar nas coisas da cozinha.

MALU

(revira os olhos, está irritada) É por isso que seu filho não volta pra casa... Porque a senhora é uma bruxa!

Malu sai, Clara acha graça, disfarça.

ESTELA

(Inconformada) Clara, você não pode deixá-la falar assim comigo!

CLARA

Posso sim, você que começou, Estela. Eu não quero que você a trate mal. Roberto e eu a estamos apoiando nos estudos.

ESTELA

(séria) É por isso que essa empregada é folgada... Tem liberdade demais.

Corta Para:

Cena 7/Int./Apartamento de Álvaro/Sala/Dia.

Álvaro está sentado no sofá, pensativo. Diana entra, está trazendo dois pacotes.

DIANA

Aqui, meu querido, a comida já chegou.

ÁLVARO

Coloca na cozinha.

Diana vai para a cozinha, volta, se senta ao lado de Álvaro. 

DIANA

Álvaro... Você não pode ficar assim... Já está me assustando. Cada vez que te olho, o seu olhar me lembra dos atores de filme de terror.

ÁLVARO

Eu estou pensando, Diana... Pensando em como vou saborear a minha vitória. (pensativo, olha Diana) São coisas que precisam ser saboreadas, aos poucos, para compensar a sensação das coisas escapando pelos dedos.

DIANA

(sorri) Você já fez isso antes, não é?

ÁLVARO

(sorri) Já... Diana o que vou te contar aqui... Morre aqui, porque, se não, quem morre é você.

DIANA

(preocupada) Credo, Álvaro... Você sabe que pode confiar em mim.

ÁLVARO

(sério) Quando meu irmão começou a subir na vida e a ter as coisas que eu queria... Foi a pior sensação que tive! Ele teve a admiração de Roberto, o amor de Elisa... Eles iriam se casar e, com isso, Bruno iria ter uma posição no grupo muito superior à minha e, mesmo assim... Ele queria tirar de mim o pouco que estava conquistando... Ele descobriu que eu tinha aberto uma empresa fantasma e estava enviando dinheiro para lá... Aquele egoísta queria contar tudo para a Elisa. (frio, olhar distante) Eu vi as coisas escorrendo entre meus dedos... Então, sugeri um brinde... Bruno e eu brindamos aquela noite. (sorri) Eu com champanhe e ele... com veneno!

Diana fica surpresa e amedrontada.

DIANA

Álvaro... Você matou o seu irmão?!

ÁLVARO

(cínico) Eu não... O acidente de carro, sim.

DIANA

Mas você acabou de falar que colocou veneno no champanhe de Bruno.

ÁLVARO

(sorri) Sim, mas foi o crime perfeito. Bruno passou mal ao volante, bateu o carro e morreu.

DIANA

(assustada, pasma) É muita frieza, Álvaro.

ÁLVARO

Não... É instinto de sobrevivência, Diana... E, agora, vou jogar com a Elisa e aquela família de imbecis... Matar seria muito fácil e não teria o mesmo sabor. (sorri maldoso).

Corta Para:

Cena 8/Ext./Portugal – Estoril/Casa de Sérgio/Jardim/Dia.

Manuela está nervosa, andando de um lado para o outro, António Sérgio se aproxima. 

ANTÓNIO SÉRGIO

(sério) Manuela, só vim até aqui, porque estava a ouvir, do meu quarto, o teu escândalo. O que queres?

MANUELA

(nervosa, aponta o dedo para ele) Não vais levar o meu anel para outra mulher!

ANTÓNIO SÉRGIO

Manuela... como sabes do anel?

MANUELA

(tom alto) Não interessa!

ANTÓNIO SÉRGIO

Interessa, sim. Mas, respondendo à tua pergunta… o anel não é teu, nem as joias da minha mãe; são minhas e, portanto, faço com elas o que bem entender. Agora, sai daqui.

António Sérgio vai saindo, Manuela segura o braço dele, o olha nos olhos.

MANUELA

Até quando me vais castigar? Até quando serei punida por escolher a vida que sempre quis… Eu nunca disse que não te queria.

Manuela levanta a mão para acariciar o rosto de António Sérgio, que a segura, a encara.

ANTÓNIO SÉRGIO

(firme) Entende, Manuela… eu não suporto-te. Parte da minha ruína como pessoa é culpa tua mas, agora, estou livre.

MANUELA

(raiva) Eu já sei que tens uma distração… a Elisa.

ANTÓNIO SÉRGIO

(sério) A Elisa não é uma distração... É a mulher que eu amo, e ela ama-me pelo que eu sou, por mim. Agora, sai daqui, e nunca mais me procures! Deixa-me em paz porque, entre nós, não há mais nada.

António Sérgio vai saindo, Manuela está com raiva e, ao mesmo tempo, perdida.

MANUELA

(tom alto) Temos algo, António Sérgio… Um vínculo para a vida toda.

António Sérgio não volta; continua andando em direção da casa.

MANUELA

(raiva, tom alto) Maria Alice é tua filha!

Antônio Sérgio para de andar, fica imóvel, se vira lentamente, olha Manuela, está em choque. Manuela encara António Sérgio, altiva e vitoriosa.


Novela escrita por
Débora Costa

Releitura da Novela
Antônio Maria de
Geraldo Vietri

Revisão de Texto
Eduardo Gouvêa

Elenco
Elisa
António Sérgio
Álvaro
Maya
Roberto
Clara
Manuela
Gonçalo
Benício
Lívia
Dante
Sol
Manuel
Leonor
Berta
Gustavo
Malu
Diana
Bruno (in memoriam)

Núcleo
Entretenimento em Foco

Trilha Sonora
Canção do Mar - Dulce Pontes

Produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.



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