
Cena 1/Int./Brasil – São Paulo/Mansão Monteiro
Diniz/Ateliê/Dia.
Elisa está sentada, lendo o bilhete que Sérgio
deixou. Sorri, emocionada, olha as flores no vaso, que são tulipas. Maya bate à
porta, entra.
MAYA
(sorri) Bom
dia, Elisa. Fui te procurar no seu quarto e, como não te vi lá, vim até aqui.
ELISA
(sorri) Bom
dia, Maya. Está precisando de alguma coisa?
Maya se senta.
MAYA
Não. Só
queria saber como você estava, depois de ontem.
ELISA
Estou
bem... Para me tirar do eixo, novamente, Álvaro vai precisar se esforçar mais.
MAYA
(sorri) Que
flores lindas!
ELISA
Sérgio
pediu para Malu colocar aqui, nos dias que ele estiver fora, e ele, também,
deixou este bilhete: “- Como disse Antoine de Saint-Exupéry: “A ausência
diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes.”
- Por isso
não tenho medo da distância de três dias. Tenho, apenas, a certeza de que
voltarei para ti... Sérgio.”
MAYA
(admirada)
Elisa... Parabéns! Você conseguiu encontrar alguém que se comunica com você na
mesma língua, com toda frescura que você sempre gostou. Eu nem sei quem é esse
tal de Antoine de Saint-Exupéry.
ELISA
(acha
graça) Não é frescura, Maya, é poético. E Antoine de Saint-Exupéry foi um
escritor francês. Com certeza, você já ouviu falar de “O Pequeno Príncipe”... É
uma das obras dele.
MAYA
Já ouvi
falar, mas nunca parei para ler, e meu negócio não é poesia, concerto, nada
disso. (sorri sedutora) Meu negócio é agilidade. Se alguém me interessa, não
vou parar para ler poesia, não... Vou direto ao ataque!
ELISA
(sorri) Eu
sei, te conheço bem.
MAYA
Eu vou
falar uma coisa que, talvez, nem você e nem o Sérgio saibam que existe...
Celular com câmera. Não precisam ficar sofrendo de saudades, nem se comunicando
por bilhetes.
ELISA
(acha
graça) Maya, você, realmente, não é romântica. Mas sabemos, sim... Ontem, à
noite, nos falamos um pouco. (pensativa, saudosa) Mas sabe que eu nunca pensei
que iria sentir tanto a falta dele, como estou sentindo?!
MAYA
Elisa...
Ele saiu daqui ontem, e vai voltar amanhã, à noite.
ELISA
(sorri) Eu
sei... Mas já posso sentir o vazio. Não sei explicar... Talvez, sinta falta da
presença dele... Sérgio me traz um conforto que, há muito tempo, não sentia...
Uma paz... Uma tranquilidade....
MAYA
(sorri)
Fico feliz por você. (tom de brincadeira) Uma pena que ele não quis me deixar
sorrindo igual fez com você... Eu iria adorar!
Elisa entende a brincadeira de duplo sentindo que
Maya fez, acha graça, bate no braço dela, com leveza.
ELISA
Mas você,
hein!
MAYA
(sorri)
Vamos descer para tomar café.
Maya e Elisa saem do ateliê.
Corta Para:
Cena 2/Int./Portugal – Lisboa/Multinacional Castro
Figueroa/Sala de Reuniões/Dia.
Acionistas, juiz, advogados, estão sentados na mesa
grande. Gonçalo e António Sérgio entram, todos se levantam.
ANTÓNIO
SÉRGIO
Bom dia a
todos! Sentem-se, por favor.
Todos se sentam... António Sérgio na cabeceira da
mesa, Gonçalo, ao lado.
ANTÓNIO
SÉRGIO
(sério, firme) Senhoras e senhores, começo esta reunião por dizer que, na qualidade de principal accionista e legítimo proprietário da Castro Figueroa, nomeio Gonçalo Almeida como meu representante directo, em todos os assuntos relacionados com a administração desta empresa. Alguns dos senhores conhecem-no, há muitos anos. Outros, talvez, ainda não compreendam a dimensão da confiança que deposito nele. Mas saibam que o Gonçalo é meu amigo desde a infância. É um irmão que a vida me deu. Tudo o que for comunicado por ele terá o mesmo peso e a mesma validade que teria, se fosse dito por mim. As suas decisões terão o meu total respaldo. As suas orientações deverão ser respeitadas. E qualquer tentativa de contornar a sua autoridade será considerada uma tentativa de contornar a minha. (pausa) A Castro Figueroa entra, hoje, numa nova fase. Uma fase em que a competência, a lealdade e a transparência voltarão a ser valores inegociáveis. (olha para Gonçalo) Tenho plena confiança no homem que escolhi para me representar, enquanto estiver ausente. (olha para todos) Espero que os senhores, também, a tenham.
ACIONISTA
E quanto à
Duquesa Viúva Manuela Castro Figueroa...? Continuará a exercer alguma função ou
representação, junto da empresa?
ANTÓNIO
SÉRGIO
(calmo,
firme) Não. (pausa) A senhora Manuela Castro Figueroa mantém o estatuto social
que lhe cabe por ter sido esposa do meu falecido pai, e nada mais. Os títulos
da minha família não conferem qualquer autoridade sobre esta empresa. A
autoridade aqui é definida pelas participações sociais, pela lei e pelos
estatutos da companhia. (pausa) A senhora Manuela não exerce qualquer cargo
executivo, não integra esta administração e não foi autorizada por mim a
representar a Castro Figueroa, em circunstância alguma. (encara os presentes)
Portanto, qualquer assunto relacionado com esta empresa deverá ser tratado com
o senhor Gonçalo Almeida. (pausa) Creio que não subsistem dúvidas quanto a
isso.
Todos trocam olhares discretos. Fica claro que a
posição de António Sérgio é definitiva.
Corta Para:
Cena 3/Ext./Mais Tarde/ Portugal – Lisboa/
Caixa
Geral de Depósitos (CGD)/Dia.
Um carro de luxo encosta em frente à imponente
fachada do banco, Gonçalo e António Sérgio descem do veículo. Gonçalo ajusta o
paletó, visivelmente tenso.
GONÇALO
Tens a
certeza de que queres fazer isso?
ANTÓNIO
SÉRGIO
Se não
tivesse a certeza disso não estaria aqui, meu amigo.
GONÇALO
Então vamos
a isso.
Corta Para:
Cena 4/INT./Portugal – Lisboa/ Caixa Geral
de Depósitos (CGD)/Cofre/Dia.
Um ambiente sóbrio, blindado e silencioso. António
Sérgio e Gonçalo aguardam. O GERENTE DO BANCO se aproxima, carregando uma
gaveta metálica de segurança. António Sérgio insere sua chave de acesso junto
com a chave do gerente. A gaveta se abre. Dentro dela, repousa o desgastado
estojo de veludo azul-escuro. António Sérgio o abre, revelando o anel de estilo
Eduardiano: uma magnífica safira de corte oval, em cravação halo de diamantes,
fundida em platina legítima. A luz do teto reflete, intensamente, na joia.
ANTÓNIO
SÉRGIO
(sorri nostálgico)
Há muito tempo que não via este anel… A minha mãe adorava-o.
GONÇALO
(sarcástico)
E achas que, quando a Elisa receber este anel, vai pensar que o humilde
motorista o roubou a quem?
ANTÓNIO
SÉRGIO
(sorri) Não
me venhas com sarcasmo, Gonçalo. Vou dar este anel à Elisa no momento certo.
Corta Para:
Cena 5/Int./Portugal – Lisboa/Palácio Castro
Figueroa/Escritório/Dia.
Manuela e Santiago estão sentados, conversando.
MANUELA
Santiago,
quero que descubras para onde o António Sérgio vai voltar.
SANTIAGO
(receoso)
Mas dona Manuela... Como vou descobrir?
MANUELA
Se eu
soubesse, eu própria faria, em vez de te mandar fazer, Santiago. Dê um jeito!
SANTIAGO
A
secretária disse que o Gonçalo comprou as passagens, não lhe pediu para ela o
fazer; ela só soube que o António Sérgio estaria aqui, porque o Gonçalo lhe
pediu para preparar a reunião.
MANUELA
(pensativa)
Desgraçado... (irritada) Mas que maldição! Não é possível que não deixaram nada
escapar!
O telefone celular de Manuela toca, ela atende.
MANUELA
Alô. (ouve)
Como vai? (ouve, fica séria, levanta-se) Como é? (ouve, está com raiva)
Obrigada por me avisar. (desliga, olha para Santiago, o olhar dela é de raiva
contida) Santiago... sabe o que a minha amiga que trabalha no banco acabou de
me dizer?
SANTIAGO
(preocupado)
O quê?
MANUELA
Que o
António Sérgio e aquele cão fiel estiveram lá… O António Sérgio foi fazer um
levantamento… Ele levou o anel que era da mãe dele.
SANTIAGO
Dona
Manuela/
Manuela vai saindo, com raiva.
MANUELA
(raiva/fora
de si) Eu vou encontrar o António Sérgio no inferno! Mas o meu anel ele não
leva daqui!
Manuela
sai, Santiago vai atrás dela.
Corta Para:
Cena 6/Int./Brasil – São Paulo/Mansão Monteiro
Diniz/Sala/Dia.
Clara e Estela entram, Estela está nervosa.
ESTELA
Não me
conformo que Dante prefira morar naquele muquifo ao invés de voltar para casa!
CLARA
Calma, Estela... Também, não é pra menos... Você chegou brigando com ele e exigindo que voltasse. Não dá certo, mesmo.
ESTELA
Clara, o
Dante é meu único filho; eu preciso dele perto de mim.
CLARA
Então, para
de afastar ele e, também, você vai ter que aceitar o namoro dele com a Sol.
ESTELA
(nervosa)
Mas ela não é mulher para ele!
CLARA
Cunhadinha...
Isso quem decide é o Dante, né.
Malu entra se aproxima.
MALU
Dona Clara,
eu já deixei tudo pronto para o almoço. Agora eu vou para o meu quarto; minha
aula vai começar daqui a pouco.
ESTELA
Aula do que,
criatura?
MALU
(sorri) A
senhora não sabe? (orgulhosa) Eu comecei a fazer um curso online, de Assistente
Administrativo e, se Deus quiser, vou trabalhar no grupo do seu Roberto.
ESTELA
Acorda, menina, e vai focar nas coisas da cozinha.
MALU
(revira os
olhos, está irritada) É por isso que seu filho não volta pra casa... Porque a
senhora é uma bruxa!
Malu sai, Clara acha graça, disfarça.
ESTELA
(Inconformada)
Clara, você não pode deixá-la falar assim comigo!
CLARA
Posso sim,
você que começou, Estela. Eu não quero que você a trate mal. Roberto e eu a estamos
apoiando nos estudos.
ESTELA
(séria) É
por isso que essa empregada é folgada... Tem liberdade demais.
Corta Para:
Cena 7/Int./Apartamento de Álvaro/Sala/Dia.
Álvaro está sentado no sofá, pensativo. Diana entra,
está trazendo dois pacotes.
DIANA
Aqui, meu
querido, a comida já chegou.
ÁLVARO
Coloca na
cozinha.
Diana vai para a cozinha, volta, se senta ao lado de Álvaro.
DIANA
Álvaro...
Você não pode ficar assim... Já está me assustando. Cada vez que te olho, o seu
olhar me lembra dos atores de filme de terror.
ÁLVARO
Eu estou
pensando, Diana... Pensando em como vou saborear a minha vitória. (pensativo,
olha Diana) São coisas que precisam ser saboreadas, aos poucos, para compensar
a sensação das coisas escapando pelos dedos.
DIANA
(sorri)
Você já fez isso antes, não é?
ÁLVARO
(sorri)
Já... Diana o que vou te contar aqui... Morre aqui, porque, se não, quem morre é
você.
DIANA
(preocupada)
Credo, Álvaro... Você sabe que pode confiar em mim.
ÁLVARO
(sério)
Quando meu irmão começou a subir na vida e a ter as coisas que eu queria... Foi
a pior sensação que tive! Ele teve a admiração de Roberto, o amor de Elisa... Eles
iriam se casar e, com isso, Bruno iria ter uma posição no grupo muito superior à
minha e, mesmo assim... Ele queria tirar de mim o pouco que estava
conquistando... Ele descobriu que eu tinha aberto uma empresa fantasma e estava
enviando dinheiro para lá... Aquele egoísta queria contar tudo para a Elisa.
(frio, olhar distante) Eu vi as coisas escorrendo entre meus dedos... Então,
sugeri um brinde... Bruno e eu brindamos aquela noite. (sorri) Eu com champanhe
e ele... com veneno!
Diana fica surpresa e amedrontada.
DIANA
Álvaro...
Você matou o seu irmão?!
ÁLVARO
(cínico) Eu
não... O acidente de carro, sim.
DIANA
Mas você
acabou de falar que colocou veneno no champanhe de Bruno.
ÁLVARO
(sorri)
Sim, mas foi o crime perfeito. Bruno passou mal ao volante, bateu o carro e
morreu.
DIANA
(assustada,
pasma) É muita frieza, Álvaro.
ÁLVARO
Não... É
instinto de sobrevivência, Diana... E, agora, vou jogar com a Elisa e aquela
família de imbecis... Matar seria muito fácil e não teria o mesmo sabor. (sorri
maldoso).
Corta Para:
Cena 8/Ext./Portugal – Estoril/Casa de
Sérgio/Jardim/Dia.
Manuela está nervosa, andando de um lado para o outro, António Sérgio se aproxima.
ANTÓNIO
SÉRGIO
(sério) Manuela,
só vim até aqui, porque estava a ouvir, do meu quarto, o teu escândalo. O que
queres?
MANUELA
(nervosa,
aponta o dedo para ele) Não vais levar o meu anel para outra mulher!
ANTÓNIO
SÉRGIO
Manuela...
como sabes do anel?
MANUELA
(tom alto)
Não interessa!
ANTÓNIO
SÉRGIO
Interessa,
sim. Mas, respondendo à tua pergunta… o anel não é teu, nem as joias da minha
mãe; são minhas e, portanto, faço com elas o que bem entender. Agora, sai
daqui.
António Sérgio vai saindo, Manuela segura o braço
dele, o olha nos olhos.
MANUELA
Até quando
me vais castigar? Até quando serei punida por escolher a vida que sempre quis…
Eu nunca disse que não te queria.
Manuela levanta a mão para acariciar o rosto de
António Sérgio, que a segura, a encara.
ANTÓNIO
SÉRGIO
(firme) Entende,
Manuela… eu não suporto-te. Parte da minha ruína como pessoa é culpa tua mas, agora,
estou livre.
MANUELA
(raiva) Eu
já sei que tens uma distração… a Elisa.
ANTÓNIO
SÉRGIO
(sério) A
Elisa não é uma distração... É a mulher que eu amo, e ela ama-me pelo que eu
sou, por mim. Agora, sai daqui, e nunca mais me procures! Deixa-me em paz
porque, entre nós, não há mais nada.
António Sérgio vai saindo, Manuela está com raiva e,
ao mesmo tempo, perdida.
MANUELA
(tom alto) Temos
algo, António Sérgio… Um vínculo para a vida toda.
António Sérgio não volta; continua andando em
direção da casa.
MANUELA
(raiva, tom
alto) Maria Alice é tua filha!
Antônio Sérgio para de andar, fica imóvel, se vira lentamente, olha Manuela, está em choque. Manuela encara António Sérgio, altiva e vitoriosa.
Novela escrita por
Débora Costa
Releitura da Novela
Antônio Maria de Geraldo Vietri
Revisão de Texto
Eduardo Gouvêa
Elenco
Elisa
António Sérgio
Álvaro
Maya
Roberto
Clara
Manuela
Gonçalo
Benício
Lívia
Dante
Sol
Manuel
Leonor
Berta
Gustavo
Malu
Diana
Bruno (in memoriam)
Núcleo
Entretenimento em Foco
Trilha Sonora
Canção do Mar - Dulce Pontes
Produção
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO
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