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A Deusa Bandida: Capítulo 32

Novela de Carlos Mota
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A DEUSA BANDIDA - CAPÍTULO 32

O sol, com seus braços longos e resplandecentes, levanta-se na terra verde e de ipê coloridos, prenunciando a chegada de um novo e longo dia.

O interfone toca.

— Pois não! Em que posso ajudar? — pergunta o mordomo, um cinquentão de estatura mediana, com a barriga ligeiramente empinada, os cabelos ralos e pintados e um bigode ao estilo Salvador Dalí¹.

— Aqui é o policial Duarte, abra o portão imediatamente, temos um mandado de prisão a cumprir. Se resistir, entraremos à força!

— Man-man-mandado de prisão? Co-co-como assim? — surpreende-se o homem. — Eu não fiz nada!

— Não estamos atrás de você, queremos Sofia Ricci.

— Com quem está falando, Ednaldo? — indaga Mattia, o pai da garota, ao flagrar o mordomo aflito.

— Doutor, são da polícia! — treme. — E querem a pequena!

— Como? E o que querem com minha filha? Estão loucos? — toma o aparelho do funcionário e conversa diretamente com o oficial.

— Aqui ninguém vai entrar! Somos os Ricci! E está para nascer aquele que terá a ousadia de tocar um dedo que seja na minha filha… Ah, se está! Até porque, ela não fez nada de errado!

— Este é o último aviso, se não cooperarem…

— Retirem-se já daqui — o homem o interrompe —, antes que eu acione todas as forças da República contra os senhores, pois o que praticam é constrangimento à honra de uma das mais nobres e cortejadas famílias do Distrito Federal.

— ENTRAREMOS À FORÇA! — ameaça, preparando-se para a invasão.

— Não teriam esta coragem! — desacredita. — Minha filha é uma santa! Entenderam? Vocês deveriam é estar nas ruas, prendendo bandidos e os levando aos montes à Papuda e à Colmeia, não incomodando o sono de cidadãos tão distintos, que usam do próprio prestígio para contribuírem com o resgate social dos mais humildes.

Pois nego-me até a morte a lhes dar passagem. Se o fizerem, saibam, cavarão a própria sepultura.

— Não tem jeito, com essa gente é assim! Acham-se acima de Deus! — lamenta Duarte, designado temporariamente delegado. — Que arrombem os portões, iremos entrar; e prendam, se necessário, todos os que tentarem dificultar o cumprimento da lei. Mas não se esqueçam, homens, nosso foco aqui é dona Sofia!

Estouram o cadeado do portão da frente e avançam à entrada da casa.

— Que barulho foi esse? — indaga o patriarca da família ao mordomo, que corre para debaixo de uma mesa.

— Estão entrando!!! — grita.

— COMO ASSIM??? SOU UM RICCI E NÃO PERMITIREI QUE FAÇAM DE MINHA RESIDÊNCIA UMA EXTENSÃO DA DELEGACIA — vocifera. — PAGARÃO CARO POR TAL OUSADIA!

Invadem a casa, dando de frente com o homem, ainda de roupão, que os impede de subir as escadarias.

— Daqui ninguém passa! — desafia.

— Saia da frente, senhor, estamos apenas fazendo o nosso trabalho — ordena Duarte, segurando-se. — Se persistir, seremos obrigados a prendê-lo.

— Prender-me? — gargalha de nervoso. — Olhe para mim, rapaz, tenho linhagem… Uma ligação apenas e todos vocês estarão no olho da rua. Quer apostar? Não costumo perder! — a arrogância do homem subverte a lógica da realidade.

— Pai?!! — desespera-se a garota, no alto da escada, ao ver Mattia com os braços abertos, obstruindo a passagem. — O que é isso em nossa casa???

— Dona Sofia Ricci, considere-se presa!

— EEEEU… PRE-PRE-SA???? POR QUÊ???

— Vá para seu quarto, pequena! Ninguém a levará daqui! — grita o homem diante de Duarte, que tenta controlar a situação, antes de acionar os agentes.

— Precisamos levá-la! — tenta convencê-lo. — Há um mandado de prisão a ser cumprido, senhor.

— Senhor é o escambau! — brada. — Trate-me por doutor! Tenho formação para tal, algo que você, um simples policial de fundo de delegacia, jamais terá. E se insistir com tudo isso, o esmagarei feito uma barata, poderes para isso eu tenho… Quer terminar expulso da corporação e abandonado à própria sorte, seu infeliz? Então continue, porque a corda sempre estoura do lado mais fraco — os olhos reluzem de cólera. — Ainda não entendeu? Sou Mattia Ricci, empresário de sucesso, adorado pelos donos do dinheiro, e o que faz a mim e a minha família é uma afronta…

— … O que eu faço chama-se JUS-TI-ÇA! — interrompe-o. — E chega de conversa! Vamos, homens, cumpram a lei.

— Cruzes! Cada bofe! — comenta Ednaldo a si mesmo, à espreita, enquanto observa o físico dos agentes e viaja em suas fantasias pouco convencionais. — Se um desses me prendesse, iria feliz! — dá uma risadinha maliciosa.

Um dos policiais avança sobre o dono da casa, liberando espaço para que outros dois subissem as escadarias atrás da garota, que se tranca no quarto, escondendo-se no closet, atrás dos muitos modelitos de gala, todos exclusivos, adquiridos na Avenue Montaigne².

— Isso é um assalto??? — surta a senhora Ricci, ao abrir a porta dos aposentos e deparar-se com um dos soldados. — Mattia, socorro, meu bem!!! Cadê você???

— Isso é uma operação policial, dona! — avisa o rapaz.

— Em minha casa? Não pode ser! Policiais bandidos? Oh, Meu Deus! Que sina a de nossa rica e benevolente família — leva as mãos à fronte e desmaia.

— Vocês estão assustando minha esposa, seus… seus… seus abutres! Vão pagar caro por tudo isso, nem que eu tenha de lavar a mão de parte da alta cúpula do STF. Pois esperem! Ednaldo — grita pelo funcionário —, contate o doutor Pôncio Pilatos e diga que venha já para cá, porque uma horda invadiu a casa e nos faz de reféns.

— Pôncio Pilatos? Esse não é o cara da Bíblia? — um dos oficiais questiona o outro. — Estão até ressuscitando os mortos.

— Pois é, que gente louca! Se não bastasse, agora dizem que os fazemos de reféns… É cada uma!

Arrebentam a porta do quarto de Sofia e vasculham tudo, até encontrá-la. No primeiro momento a garota tenta resistir, arremessando sapatos, vestidos, cabides, perfumes, mas logo é contida. E assim que a algemam, Duarte dá a voz de prisão.

— Sofia Ricci, considere-se presa! Você tem o direito de permanecer calada. E tudo o que disser poderá ser usado contra você no tribunal.

— EU??? MAS POR QUÊ? O QUE EU FIZ??? — desespera-se, já em pranto. — O QUE EU FIZ???

Em uma delegacia um pouco distante da então destruída…

— Por que a senhora assinou o contrato de locação daquela mansão? A quem queria ajudar? — inquire Duarte, com uma firmeza espantosa. — FAAALE!

— Eu não aluguei nada! — responde, escondendo o rosto, para que não a fotografassem, porque do lado de fora, estava toda a imprensa, com câmeras e celulares às mãos, fervilhando por uma “exclusiva”. A filha de um dos homens mais ricos da capital havia sido presa ao nascer do dia, acusada de participar do esquema que resultou no sequestro de Luara Vaz, na morte de vários oficiais na mansão em que se localizava o cativeiro, na explosão que destruiu parte da Sol Nascente, no ataque à delegacia que culminou com o extermínio da delegada Chiara e de quase toda sua equipe e na libertação do bandido Álvaro, cujo paradeiro, neste momento é incerto. Um dos crimes mais engenhosos e violentos – porém, não ilesos a efeitos colaterais –, que terminou com a morte do Camaleão, o líder do bando, e a hospitalização da cigana, sua cúmplice.

— Quer repensar sua resposta, senhorita? — mostra-lhe o contrato. — Esta não é sua assinatura?

— Não responda, minha filha! — pede o pai, enquanto contatam o advogado, que não atendia o telefone – ou não queria –, como se lavasse as mãos. — Cadê aquele infeliz? — comenta consigo mesmo.

— Por que não responde às minhas mensagens? Só porque lhe devo algum, não lhe dá o direito de me virar as costas quando mais preciso.

— Eu não tenho nada a declarar…

— As provas são irrefutáveis! A senhora participou do sequestro de dona Luara, não foi?

— De onde tirou isso??? — exaspera o pai. — Minha filha é um anjo… Não vê?

Sofia se cala.

— Vou reformular a pergunta, a senhora participou do falso sequestro de dona Luara ou… seria Diana???

Ela arregala os olhos.

— Quem é Diana? — estranha Mattia. — E que história é essa de falso sequestro? O que sofreu a filha de Martim foge à nossa compreensão.

— Inclusive teve envolvimento na morte do jovem Nicholas, o filho do diplomata, lá na Hedonê, não é? — continua o policial.

— Isso não posso permitir! Agora minha filha é cúmplice de assassinato? Pois é uma vergonha. Estou ligando para o Secretário da Segurança, para o Ministro da Justiça, um deles há de parar esta palhaçada, porque isso aqui está mais para um circo, que para uma delegacia.

— Tente, doutor Mattia, se conseguir falar…

— E por que não conseguiria? Sou Mattia Ricci, um dos…

— … eu sei quem o senhor é — interrompe-o Duarte —, não precisa ficar o tempo todo dando carteirada; todavia, sejamos francos, quem em sã consciência gostaria de ter o nome associado a uma história que atraiu o lado podre da grande mídia? Se não olhou ainda para os lados, estão todos a postos, salivando feito hienas, prestes à primeira mordida…

O homem se cala.

— Delegado, tem uma pessoa aí fora que lhe quer falar! — anuncia Clóvis.

— Agora não, estou ocupado!

— Disse que é muito importante e tem a ver com o caso.

— E quem seria?

Minutos depois…

— Pois então, dona Matilde, o que tem a nos contar?

— Tudo!

— Não fale nada, mulher — implora Sofia, fora de si —, vai ferrar com a vida da Luara.

— Eu me calei por muito tempo, chegou a hora de corrigir o rumo dessa trama, aquela garota merece o castigo necessário, pois ainda há tempo de se redimir.

— Eu não entendo! O que quer dizer com isso, senhora, e por que está aqui? — interroga Duarte.

— Martim, certamente, deve-lhe algum também… Pobre é tudo igual! Basta uma carniça para se atrair!

— Mais respeito, doutor Mattia, não sou de sua laia nem da de sua filha! — responde a governanta, agora desempregada, à altura.

— Continue… — pede o oficial da lei.

— Dona Beatriz, a avó de Luara, sempre me pediu para que ficasse de olho em sua neta, que eu fosse sua consciência…

— Agora virou o grilo falante… — gargalha o pai de Sofia, muito tenso. — O senhor não está vendo que ela está amargurada e age vingativamente? Pudera! Terminou demitida, após causar um surto na pobre dona Leonor, aquela mulher de alma tão boa. Como pôde? — indigna-se. — E ainda lhe dá ouvidos, delegado? Ela vai inventar um monte de coisas só para descarregar seu ódio nos Vaz. E sabe por quê? Porque ela era apaixonada por Martim, e como não foi correspondida – também feia como é, nem defunto atrai –, resolveu explodir uma bomba bem no coração da família… Isso não é uma mulher, é um monstro, que deveria estar atrás das grades; não minha filha, meu pobre bebê, que sempre teve os melhores ensinamentos, os maiores exemplos, que aprendeu os modos mais preciosos de quem pertence a uma casta superior.

— Cale a boca, senão não respondo por mim, seu riquinho falido, ou pensa que não sei que toda esta pompa é um faz de conta? — dispara a governanta, não se segurando mais.

— FA-FALIDO, EEEUUU??? — o homem pira. — ALÉM DE FEIA, É DESINFORMADA! SE NÃO ESTIVÉSSEMOS NA DELEGACIA, LHE DARIA UM BOM CORRETIVO!!!

— EEEEI!!! — grita Duarte. — Tem a audácia de ameaçar uma testemunha diante de uma autoridade? É isso mesmo?

— NUNCA!!! — dissimula, tentando se safar. — Foi apenas uma maneira peculiar de se expressar.

— Então contenha-se, doutor! Exijo respeito ou lhe darei voz de prisão.

— Está para nascer quem faça isso!

— Pois vamos ver! Clóvis! — chama pelo oficial.

— Sim, senhor! — responde, abrindo a porta.

— Essa é boa! — o homem dá uma risadinha nervosa. — Não tem mais o que inventar! Sou Mattia Ricci, quero ver alguém me pôr as mãos.

— Enjaule-o, já! Vamos ver até onde vai toda esta valentia.

— O QUÊ??? — assusta-se. — O senhor não pode fazer isso, sou um homem de bem, um patriota de origem, que defende os valores tradicionais e tem como lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. E o que está tentando fazer é me calar, seu oficialzinho de merda. Pois isso não vou permitir! Nunca me rebaixarei a este sistema corrompido pela ditadura de toga, que bebe das águas abundantes de um Comunismo perverso, infiltrando-se como uma chaga nas raízes mais profundas de nossa sociedade.

— Sangue de Jesus! Do que este homem está falando? — impressiona-se Matilde. — Pirou de vez na batatinha, como diria Cleide.

— Deixe meu pai em paz!!! — berra a garota.

Clóvis deixa a rosquinha que estava saboreando de lado e se apodera do homem, prendendo-o numa cela, nos fundos da delegacia, de onde grita, sem ser ouvido.

— O senhor não pode fazer isso! — adverte-o a garota. — Ele é um homem de bem!

— Tanto posso, que fiz! Agora vamos em frente, conte-me tudo, dona Matilde.

— Doutor, a história é longa!

— Tenho todo o tempo do mundo.

— Bem, Luara nasceu em um berço adoentado, sofreu rejeição materna e terminou perdida em seu destino. As únicas que a olhavam com o mais puro amor eram Dona Beatriz e eu; mas para ela, assim como para qualquer outra pessoa, isso não bastava, queria mesmo era o carinho e o afeto de sua mãe, que lhe foi negado desde a gestação — enquanto conversa, retira da bolsa um lenço com bordados feito à mão e o passa sobre a fronte e o pescoço, que se mostram molhados pelo calor.

— Dona Leonor, de fato, surtou, como dissera o pai de Sofia, porque precisava ouvir toda a verdade… — os olhos enchem-se de lágrimas.

— E que verdade seria essa? — intriga-se.

— Eu não aguentava mais fazer parte de toda aquela encenação

— continua, entregando-se às lágrimas. — Sou tão culpada quanto todos eles!!!

— Vamos por partes… — tenta acalmá-la, dando-lhe um copo d’água. — Consegue continuar agora?

— Acho que sim!

— Pois então, o que quer tanto me dizer? Conta-lhe a trama envolvendo os trigêmeos.

— Vocês fingiram que as crianças existiam? — horroriza-se.

— Infelizmente!

— Isso parece história de cinema — balança a cabeça em sinal de reprova. — E ela nunca desconfiou de que vivia numa mentira?

— Absolutamente! A mulher estava mergulhada em uma fantasia tão letal que a impedia de ver além daquilo que acreditava. Por vezes, tive vontade de falar, acabar com tudo, pois não concordava com todo aquele teatro, mas dona Beatriz, apiedada com o sofrimento da nora, pediu-me silêncio; em nome de nossa grande amizade, optei por me anular.

— Mas como a família fez para enganar os amigos, a imprensa, a sociedade de um modo geral? Se dona Leonor foi hospitalizada em um sanatório, era evidente que isso estivesse na boca das socialites mais próximas, não era?

— Seu Martim agiu rapidamente, afastando-os com desculpas de que a esposa precisava de repouso depois da queda na piscina e não contou nada a ninguém sobre a perda dos bebês. Tudo correu com naturalidade, com a complacência de todos nós. E quando a levavam para a clínica, diziam que ela estava em Lisboa, em Londres, em Paris… Como passou parte da falsa gestação entre a mansão e o hospital – que ficava, diga-se de passagem, em outro Estado –, ninguém deu muita importância. No mundo em que eles vivem, qualquer mentira apimentada com um toque de “valores” – se é que me entende –, vira verdade do dia para a noite.

— E como fizeram para esconder as crianças depois que elas supostamente nasceram?

— Disseram que elas sofriam de uma doença rara, que bastasse o contato com alguns vírus, os mais banais, para que adoecessem e, dependendo da gravidade, encontrassem a morte. Todos desconfiavam, mas comprados pelos jornais que vendiam notinhas que o próprio general escrevia, ninguém tinha coragem de afrontá-los, até porque, seu Martim era um homem muito influente no Exército, bastava uma ordem sua, para que a tropa se reunisse e se preparasse para a guerra, pois gozava de grande admiração do Presidente da República — limpa o suor do rosto.

— Ele devia ser de uma frieza incomum para se manter intacto numa história tão cruel e doente como essa…

— É aí que o senhor se engana… Quantas vezes o flagrei chorando, rogando a Deus por perdão! Até perdi as contas! Na verdade, ele nunca foi assim; descobriu-se dissimulado durante a doença da mulher. Antes, era um homem feliz, que cantava pela casa, colhia flores no jardim e as entregava à esposa, como um pequeno menino apaixonado… Tratava dona Leonor com tanto carinho que dava gosto de ver, porque sempre a amou demais, desde o dia em que a viu pela primeira vez em uma de suas incursões à Ceilândia.

— Em Ceilândia? — estranha Duarte.

— Pois foi lá que a conheceu.

— Inacreditável!

— Dona Leonor era filha de um pequeno comerciante, cujo tio fora condenado por estelionato e a avó, pasme, presa por tráfico de drogas. Mas como o coração não tem dono, eles logo tiveram o primeiro encontro e, para fugir da falsa trama do príncipe encantado, passaram muitos anos em Portugal, com a anuência do Exército, onde a mulher recebera toda a educação necessária, afinal, um servidor militar de grande carreira não poderia se envolver com uma donzela do lixo… Seria um escândalo! Coube a dona Beatriz, esta sim, de uma humanidade surreal, transformá-la em uma das mulheres mais invejadas de uma Brasília corrompida pelo poder. E não é que deu certo! Tornou-se um colírio aos olhos. Hum! Nela, tudo foi premeditadamente construído, inclusive a posição dos sobrenomes. Leonor Moreira Vaz nasceu Leonor da Silva Moreira de Azambuja Oliveira. Mas era preciso glamour, portanto, optaram pela construção que mais traduzia a influência da família e o fizeram após muitos estudos. E numa época em que alcunha era sinônimo de status e poder – não que hoje não seja – e abria as portas de todos os palácios, Leonor tornou-se Moreira Vaz. O Frankenstein estava completo. E eis no que deu!

— Por isso toda aquela devoção… A mulher veio de Ceilândia! Que bomba!

— Não! Aquilo foi obra da Cleide, a cozinheira da casa, que ao descobrir tudo, usou e abusou da história… Ninguém sabe o que aconteceu com a família de dona Leonor quando a quadrilha de Zangado tomou a região, mas alguns se arriscam a dizer que ela sobreviveu e deu guarida ao marginal, enquanto ele tomava o poder e por isso ainda permanece muito respeitada, apesar de não ter qualquer contato com a mulher, que a rifou para sempre de sua vida. É como se Leonor da Silva nunca tivesse existido, porque tudo o que se referia a ela era facilmente eliminado.

— Sempre imaginei que toda aquela adoração fosse por conta das lives alienadas, dos stories extravagantes, dos posts de mau gosto…

— surpreende-se. — E como fez a empregada para atrair toda aquela gente?

— Botou-lhes medo!

— Não entendi!

— Como Cleide precisava sempre de algum trocado, tramava histórias mirabolantes, usando o povo de Ceilândia, que ameaçado, as confirmava. Se não fizessem o que a cozinheira mandava, bastava reclamar com o Zangado, que em gratidão à família de dona Leonor, acionava o tribunal do crime. Creio que alguns terminaram mortos, mas a maioria optava por seguir as ordens da cozinheira esperta. E bota esperta nisso! Com sua lábia doce, passava a rasteira na patroa e sempre lhe arrancava um aumento. Hum! Acredita que recebia bem mais do que eu, que era a governanta? Mas também, como concorrer com toda aquela desfaçatez? Só de lembrar, embrulha-me o estômago.

— E como a senhora descobriu tudo isso?

— Após o desmaio que Cleide teve, quando o outro delegado a pressionou, lá na mansão, flagrei-a em uma de suas ligações… Estava apavorada! Então para engrupir a polícia e manter sob sigilo o esquema de extorsão, lançou mão da tal passeata, em que o povo, ameaçado de morte, saía às ruas pedindo para que a mulher fosse aceita no BBB. Quer coisa mais maluca? Pois sua cabeça era a própria oficina do diabo!

— Dê-me um copo d’água, Clóvis! — pede Duarte. — A coisa é pior do que eu imaginava. A empregada uma golpista e dona Leonor, quem diria, assim como muitos artistas, uma celebridade fabricada. Agora dá para entender o que fizeram com a cabeça de dona Luara…

— Dona Beatriz sempre foi contra tudo isso, mas o amor que nutria pelo filho a fez cometer tantos erros também, tanto que antes de morrer, me pediu perdão. Ela sabia que eu jamais tocaria no assunto dos trigêmeos, muito menos no passado de sua nora, que agora jaz no leito de algum hospital psiquiátrico do país, sob a falsa história de que está em viagem ao exterior para desestressar. Mentira em cima de mentira! Quando eu as ouvi — aponta para Sofia — falando aquelas barbaridades, fiquei fora de mim. Luara havia deixado de lado a forma sensível e vestido a pele doente de Diana. E tudo isso com a ajuda da amiga, que de amiga não tem nada.

— O que quer dizer?

— Que ela fez isso por outra coisa… — insinua Matilde.

— Mentira! — rebate Sofia, transtornada. — Essa gente fodeu com a cabeça de Luara e eu apenas lhe ofereci o meu ombro amigo para que encontrasse conforto.

— Que ombro amigo, menina? Diga a verdade! Vamos! Ou eu

direi.

— Que verdade? — cobra Duarte.

— Não vai falar? — pressiona a governanta. — Ah, já sei, vai esperar o seu defensor? Pois esse, com certeza, não aparecerá, deve ser mais um dos que seu pai deve milhões… E então? Estou aguardando!

Vendo-se encurralada, a garota revela:

— EU A AMO! — grita. — LUARA É O GRANDE AMOR DA MINHA VIDA!E POR ELA EU SERIA CAPAZ DE QUALQUER COISA, ATÉ MESMO DE… DE…

— … participar de um falso sequestro? — completa Duarte. Sofia chora.

— E Luara soube muito bem usar este amor… — diz Matilde, inconformada. — Como eu lhe disse, doutor, a mentira tem suas consequências, e uma delas foi ter criado este monstro que ronda por aí, à caça dos mais fracos, com a sanha de uma criminosa. Até parece ironia do destino, mas a única filha verdadeira dos Vaz se perdeu por falta de amor, logo eles, que se dedicaram tanto a três figuras fantasmas… — limpa o cantos dos olhos com uma das pontas do lenço. — Mas a vida lhes deu a oportunidade de recomeçar e o que fizeram? Viraram as costas! Preferiram chorar a morte daqueles meninos a curtir o sorriso da pequena. E terminaram por enterrar os quatro, porque, quando encenaram aquele cortejo, naquela tarde chuvosa, com os caixões lacrados, enterraram sob os olhares de uma turba curiosa não só os três, mas também a essência mais nobre de Luara… — indigna-se. — Pergunto-me todos os dias como puderam ter tamanha coragem. Ao invés de curtirem a menina, entregaram-na aos cães.

— Estavam doentes! Aliás, permanecem! — constata.

— E com o apoio de Sofia, a bela e pura princesinha dos Ricci, tramou tudo o que se viu.

— Ela queria ser notada e o sequestro seria a forma mais real de atrair para si os olhares daqueles que sempre a ignoraram — completa o policial. — O que diz disso tudo, dona Sofia?

— Era para ser uma brincadeira apenas…

— Sequestro??? Brincadeira, onde??? — espanta-se. — A senhora também não está bem da cabeça???

— Ela queria dar um susto nos pais, despertar-lhes um amor que jamais recebeu, mas acabou conhecendo pessoas erradas…

— Como quem?

Cala-se.

— Fale! — exige a autoridade. — Não seria o Português? Confirma com a cabeça.

— E então, o que aconteceu?

— As coisas saíram do controle, a partir do momento que o lusitano lhe fez a proposta…

— Proposta? — desconfia. — Que tipo de proposta?

— Todo o poder do mundo…

— Continue! — exige.

— Luara poderia gerir as ações de um bando de criminosos, inclusive apropriar-se do topo da Família – é como eles chamam a organização, desde que…

— … ela fosse dele, não é isso? — completa Enrico, com o semblante sereno, entrando na sala, apoiado a muletas. — O Português se apaixonou. Que honra! Não é essa a história?

— Não sei se apaixonar é o verbo correto, mas que ele ficou doidão por ela, ah, isso ficou… E fará tudo o que ela desejar até tê-la em seus braços.

— Misericórdia! — Matilde cobre a boca com as mãos.

— Sente-se aqui, doutor! — pede Duarte, levantando-se da cadeira.

— Ela é sua, meu amigo! Prefiro esta — aponta para a que está ao lado da garota. — É mais confortável!

— E ele pode permanecer aqui? — pergunta Sofia, encarando-o com receio. — Até onde sei pela imprensa, está afastado das funções.

— Digamos que esteja aqui apenas para me fazer uma visitinha

— o oficial dá uma piscada a Enrico.

— Sim! Precisava devolver alguns objetos, como o distintivo — entrega-o a Duarte, que se recusa a receber. — Vamos, amigo!

O faz a muito custo.

— Assim que eu recuperar o meu cargo, o terei de volta! Mas até lá…

— Permaneça conosco na condição de ouvinte! — solicita. — Eu permito, porque até onde sei, não deixou de ser policial.

— Se assim deseja… — o homem dá um sorrisinho discreto.

— E quando esta trama começou a degringolar? — inquire o delegado designado.

— Pelo que sei, assim que Luara botou os olhos num carinha de lá…

— Refere-se a Álvaro?

— O próprio! Por mais que negue, esse cara mexeu muito com ela, e isso a enlouqueceu.

— E por quê?

— Basta o senhor cruzar as informações, ela odeia todos aqueles que ama ou a amam, e procura castigá-los com a maior crueldade possível.

— Por isso o tratou por estuprador? Queria que fosse alvo dos piores ladrões da delegacia, dessa forma, o amor que sentia por ele seria traduzido em desprezo, sofrimento, violência e… Morte! — acompanha cada gesto da filha de Mattia com atenção redobrada, enquanto faz o relato. — Não admitia ter o sentimento correspondido e logo por um bandido daquele calibre… Estou certo?

— Fale, menina! — ordena Matilde com veemência. — Se você realmente a ama, abra o jogo!

— Sim! Era a maneira mais fácil de puni-lo… — responde, com os olhos marejados. — Mas não deu muito certo… — engasga-se com a saliva —, pela primeira vez, sentiu pena de alguém e então o procurou na delegacia com aquela desculpa esfarrapada. Enganou todo mundo, menos a mim, que a conheço como a palma de minha mão.

— E o que tem a me dizer dos exames que recebi? — mostra-lhes.

— Qual deles? O que atestava sua virgindade? — dá uma leve

gargalhada. — Precisava tornar a história do estupro mais crível possível, por isso não pensou duas vezes e subornou o médico. No coração dela, era preciso castigar o infeliz, tanto que ele apanhou como um condenado e só não morreu por sorte. Mas algo a impediu de prosseguir – seria o amor que também sente? –, tanto que recorreu ao Português, a quem pediu que o resgatasse. E assim foi feito — balança a cabeça de um lado para o outro, com raiva. — Ela é uma hábil manipuladora e isso, às vezes, me assusta.

— O que quer dizer?

— Luara sempre foi assim.

— Assim como? — pergunta Duarte, sendo acompanhado pelos olhos curiosos de Enrico.

— Desde pequena, ela sempre procurou uma maneira de fechar a cratera que carrega no peito.

— Prossiga!

— Ela… ela… bem… ela… ela…

— Fale!!! — bate na mesa. Sofia desaba em lágrimas.

— Dê-lhe um copo d’água — pede a Clóvis.

Com os olhos presos nela, Matilde se lembra do que ouviu atrás da porta:

“— … Sinto-me agora a encarnação de Diana, com arco e flecha em mãos, pronta para abater a primeira caça… E ao acertá-la, quero vê-la tombar, com a ponta rasgando cada vez mais o coração, até o sangue, ainda quente, jorrar pelo chão, sem paradeiro — os olhos se perdem no vazio. — É o que mais desejo! Não vejo a hora! Ainda vão me temer nas ruas. Escreva o que estou dizendo!” — diz Luara, irradiante.

“Você só pode estar louca, Luara! É uma barbaridade atrás da outra, como se o juízo lhe faltasse. Se eu pudesse, a levaria ao psiquiatra. Como pode uma moça de sua estirpe, acostumada a tudo do bom e do melhor, que já viajou o mundo inteiro, interessar-se pelo crime, ter a sanha de um malfeitor, querer matar, ver o derramamento de sangue e se deleitar de tamanha maldade? Acho que já chega, né, amiga? Para tudo há um limite e o seu chegou! Não quero vê-la mofando atrás das grades, apesar de que é isso que aparenta procurar.” — alerta Sofia.

— Vamos, conte-nos, o que quer dizer com “ela sempre procurou uma maneira de fechar a cratera que carrega no peito”? — insiste o delegado designado.

— Ela… ela…

— Você se refere a MATAR??? — Matilde é direta. Entra em desespero.

— A adrenalina da morte estancaria a ferida do abandono, é isso, Sofia? — Duarte lê para ela um papel escrito por Enrico.

Confirma com a cabeça.

— Então criou-se uma assassina — deduz o oficial.

— Isso mesmo! — responde a garota, tentando se acalmar.

— Mas de uma coisa eu não entendo, o Português iria se curvar diante dela apenas por desejo? Tem algo a mais! É óbvio que ele estava atraído, mas é muito pouco para um criminoso tão esperto. Sei lá! A história não se fecha… Vamos lá! Vou juntar os cacos, um a um, e você vai me dizer o que falta, certo? Luara foi rejeitada pela mãe; em contrapartida, na ânsia de estancar a dor que lhe jorrava do peito, praticava maldades, mas nunca avançava o sinal, porque de alguma forma dona Beatriz e Matilde a continham; depois de conhecer o Português e perceber que o mundo poderia estar a seus pés, resolveu castigar toda a família. Era para ser uma brincadeira, mas ela gostou e prometeu se entregar ao lusitano desde que ele a ajudasse. E assim aconteceu. Simulou o próprio sequestro e, ao invés de servir-se ao lisboeta, tratou de se entregar ao bandido do Álvaro, a quem puniu, acusando-o de estupro. Arrependeu-se, por isso o visitou na delegacia com uma história sem nexo; coube ao lusitano ordenar que a quadrilha regressasse e o resgatasse, mas aí acabaram mortos o Patrão, o líder local da organização, e sua cigana ferida… Ferida? Era para estar morta! — Duarte tenta encontrar as respostas, que vêm por meio de outro papel, entregue pelo delegado afastado. — O tiro foi para Álvaro, é isso! Mas ela o mataria por quê, se o ama? — volta-se para o oficial amigo. — Claro! Por ser uma ordem do Português. Ocorre que Luara sabia que Aurora também amava o bandidinho e iria impedir de alguma forma que ele fosse alvejado, então, tudo acontece como imaginado, a cigana pula na frente dele!

Enrico estala os dedos, charada resolvida.

— Por isso a marca da bala estava em posição tão distinta — os olhos de ambos os oficiais reluzem. — Ela nunca sofreu de TDI, como imaginávamos; Diana, na verdade, era a proteção de Luara, que a camuflou o quanto pôde — continua Duarte. — Mas até os maus se apaixonam, e quando menos se imagina, a vida também lhes dá uma rasteira.

— As mortes do tal Camaleão e da cigana já estavam encomendadas… — completa Sofia, ao perceber que o mundo havia desabado sobre sua cabeça. Era falar a verdade e tentar uma pena menor ou se calar e passar quase o resto da vida atrás das grades. — Luara tinha de matá-los para que o sequestro fosse realizado. Era parte do acordo! E como recompensa, terminaria como a mandatária do bando! Como aconteceu!

— Mas Aurora, sabe-se lá como, salvou-se da emboscada — relata Duarte. — Magia? Não sei! Mas que foi um milagre, ah, isso foi! E onde Luara está agora? Precisamos pôr as mãos nela antes que faça ainda mais mal às pessoas.

— Ajude-o a encontrá-la, só você pode, garota! — pede Matilde, atordoada com tudo o que ouvira.

— Ela não sabe que está aqui, certo? — inquire a autoridade designada. — Pelo menos imaginamos, apesar da imprensa noticiar os fatos há horas. De qualquer forma, se ela tem conhecimento de seu amor, certamente, já deve ter agido contigo como fez com Álvaro…

— Nunca tivemos nada, doutor, se é isso que quer saber, diferente do que aconteceu com ele.

— Mas ela também a castigou, não foi?

— Isso sim! Me diminuía sempre, apesar de demonstrar, em certos momentos, ter um grande apreço por mim. Encantada como eu estava, nunca me importei com suas ofensas, porque quem ama de verdade, é capaz de filtrar tudo aquilo que o desabona, e era isso o que eu fazia. Toda vez que me xingava, eu deletava, porque o que importavam eram seus olhos reluzentes, seu sorriso com toque divino, sua face iluminada… Era isso eu que buscava!

— Então, diante deste depoimento, é possível afirmar que ela sabe que jamais a entregaria, correto?

— Exatamente!

— Faremos o seguinte, de seu celular, ligará para ela; se tivermos sorte e ela atender, identificaremos sua localização.

— Faça o que pede a polícia, menina! — determina Matilde, olhando-a bem nos olhos. — Chega de dor, não acha? Vamos salvá-la enquanto há tempo, como tanto pediu dona Beatriz.

Sofia cerra os olhos, demonstrando estar numa intensa luta interna.

— Hoje, quando retorno ao passado, tenho certeza de que a avó dela foi a única que a enxergou — confessa a governanta. — No fundo ela sabia, um monstro habitava o interior de sua neta e cresceria com a voracidade de uma fera; pois chegou a hora de extirpá-lo, se quisermos Luara de volta.

— Não seria tarde demais? — arrisca a garota. — Diana vive e está em todo o canto!

— Menos no coração dela, pois ele ainda resiste, senão ela teria matado o bandido do Álvaro, como disseram os policiais. Ligue! Por favor! Não por mim, nem pelas autoridades, mas pelo AMOR que sente por ela. Eu lhe imploro, Sofia! Só você pode salvá-la.

— Sofia??? — estranha Diana, já em São Paulo, sendo conduzida pelo motorista a uma das mais belas e imponentes mansões dos Jardins, ao ver o visor do celular. — O que quer aquela desgraçada? Hum! Sapatão é foda! Não dá uma trégua!

Mesmo contrariada, atende.

_____________

1. Foi um pintor espanhol que se destacou por suas composições insólitas e desconexas; um grande representante da “Estética Surrealista”.

2. Esta charmosa avenida é um dos endereços mais luxuosos e badalados de Paris, onde se encontram os maiores designers e estilistas do mundo da moda.

autor
Carlos Mota

com ilustrações de
Andrea Mota
 
elenco
Luara
Álvaro
Aurora
Diana
Martim Vaz
Leonor Moreira Vaz
Beatriz Vaz
Matilde
Cleide
Eufrásio
Sofia
Luizinho como Patrão e Camaleão
Egídio
Enrico
Português

trilha sonora
Immortal - Thomas Bergensen
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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