A
mulher não reage.
—
Senhor, creio que esteja em coma! Veja os batimentos cardíacos dela — Duarte
aponta para um monitor —, permanecem baixos. Me arrependi por ter dado esta
ideia, no calor da emoção, geralmente não se raciocina direito.
—
Acalme-se, homem! — diz o delegado, abaixando a cabeça; por um momento é como
se algo lhe roubasse as energias e uma angústia tomasse sua alma. E do mesmo
modo que surge, desaparece, inquietando-o, profundamente.
—
O senhor está bem?
—
Não é nada! — responde. — Apenas uma vertigem, mas já passou!
—
Não quer retornar?
—
Não! Vamos em frente, algo está me dizendo que estamos bem próximos de resolver
todos os enigmas deste caso… — observa-a dos pés à cabeça, apegando-se a cada
detalhe e para diante da marca da bala. — Ela foi alvejada. Mas, que estranho,
a ferida está cicatrizada.
—
Tive a mesma impressão! — concorda o oficial.
—
Veja o que está escrito na prancheta, na cabeceira da cama, os médicos costumam
anotar quando percebem alguma coisa de anormal.
—
Ferimento por arma de fogo, supostamente estancado com instrumento desconhecido
— lê.
—
Ela é uma cigana…
—
E o que o senhor quer dizer com isso? Não entendo! Por acaso seria algum tipo
de bruxaria?
—
Não costumo me aventurar por terras desconhecidas, mas esta mulher sofreu
demais, atente-se ao contorno da ferida e a posição como a bala foi
introduzida, certamente o tiro não foi para ela.
—
Como assim? E para quem seria?
—
Não tenho a menor ideia, mas que ela recebeu o disparo no lugar de alguém,
disso tenho certeza!
—
Ela é uma criminosa, senhor!
—
E por isso deixou de ser humana? Ô, Duarte, às vezes você me decepciona! —
balança a cabeça, contrariado. — Leia as entrelinhas, meu amigo, e enxergue
além dos limites da razão. Veja a face dela, está inchada, com expressões de
quem chorou demais; os cabelos quebradiços, a pele ressecada e arroxeada, como
se tivesse deixado este mundo e regressado algum tempo depois…
—
Ela quase morreu, senhor…
—
Não! Ela foi e voltou! — é categórico. — Não sei como fez isso, mas que ficou
um bom tempo fora do corpo, ah, disso não tenho dúvidas! Podem apagar aquilo
que não se vê, mas o corpo humano é como uma fotografia, tudo o que lhe
acontece, é devidamente registrado em seus órgãos, basta esmiuçá-lo com a
devida atenção.
—
O senhor tem cada ideia! Como alguém pode morrer e ressuscitar?
Enrico
não responde. Dá a volta, correndo os olhos pelo colo e o pescoço, os braços,
os pelos e a mão esquerda. Curioso, levanta-a e a vira bem delicadamente, lendo
as linhas que se mostram em sua palma, como quem procura respostas às mais
íntimas indagações. Compenetrado, assim como Duarte, não percebe que o monitor
evidencia progressiva aceleração dos batimentos da cigana.
—
O que está fazendo, senhor? — inquire Duarte, instigado com o gesto do homem,
que corre os dedos por cada uma das linhas. — Não estou entendendo! Por acaso
fez curso de quiromancia? Tô até arrepiado.
Permanece
mudo, absorto nos pensamentos.
Quando
sua palma toca completamente à dela, a mão da cigana se fecha com força,
ocasionando estranhos fenômenos, que só quem estava lá era capaz de
testemunhar. O coração fica taquicardíaco, a respiração se torna ofegante, os
olhos fechados escorrem lágrimas, os dentes rangem, o corpo apresenta tremores
e da pele descorada vertem-se gotas de suor, gélidas como a de um cadáver.
Aurora, outrora reavivada pelas forças oraculares, estava cheia de si, e ao
primeiro toque do delegado, fora abduzida a um estranho universo paralelo, em
que era possível descortinar o futuro, adiantar-se aos lances da vida, para que
tragédias e dores pudessem ser evitados, se é que havia algum jeito de se
aprisionar o destino.
—
O QUE O SENHOR FEZ? — grita Duarte, abalado, com olhos presos ao monitor.
—
Ela está segurando minha mão com muita força, não consigo me soltar, chame já
um médico! Vamos, homem! Não sei o que está acontecendo, mas coisa boa não há
de ser. Vamos! Não fique aí me olhando com esses olhos a saltarem da face.
Vamos!
Com
o apoio do policial que a vigiava, o homem corre pelos corredores à procura de
ajuda, enquanto o delegado tenta se libertar, mas uma força muito maior o
segura, como se quisesse lhe mostrar alguma coisa… E o que seria? Não sabia!
—
Por favor, me liberte! — pede, num misto de receio e desconfiança. — Por
favor!!!
Um
trovão, com a força de um rugido, balança a terra, assustando-o; e a chuva,
desatinada, desce do céu, bate no vidro, em meio aos raios difusos, que quase
transformam a noite em dia.
—
O que você quer me dizer, mulher? Fale! — pergunta, assombrado, tentando obter
uma resposta para tudo aquilo. — Fale!
As
mãos conectadas e as linhas da vida entrelaçadas abriam fissuras nas fronteiras
do tempo, permitindo que a cigana, livre como uma pomba, buscasse pelo futuro
do delegado, que se revelaria em vozes de perturbação, gritos e choramingos,
disparo de armas e estouro de luminárias… Tudo estava lá e era o mais real
possível. “O dia era incerto, mas o hotel, imponente, permanecia no mesmo
lugar, naquela noite fria, com a rua coberta de folhas e gotículas de chuva,
exibindo todo seu esplendor a uma sociedade excentricamente corrompida, que se
apoiava ao lucro fácil, arquitetado em cima da exploração dos menos
favorecidos.
E
a limusine chega bem devagar, conduzida por Enrico, que usa como disfarce as
vestimentas de um chofer, trazendo consigo um homem grisalho, baixo, de barba a
fazer, com uma barriga contida pelo cinturão. A porta se abre, ele entra no
hotel e sobe direto para o apartamento, enquanto o oficial se dirige à
recepção, onde é atendido pelo gerente. Ele procura por Diana…” — nesta hora, o
corpo de Aurora faz um movimento brusco e quase derruba o delegado.
—
Deusa Bandida! — diz ela, completamente atormentada, apertando cada vez mais a
mão do rapaz, a ponto de sentir sua pulsação.
—
Não! Ela é perigosa! Saia daí!
—
DEUSA BANDIDA??? — ele não entende. — DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO, MULHER???
RESPONDA!!!
Com
uma agressividade incomum, os grãos de areia atravessam a ampulheta,
materializando o que estava por vir diante dos olhos horrorizados de uma cigana
bastante judiada, para a aflição da autoridade, que não obtém respostas nem
consegue se libertar.
—
Na verdade, meu patrão a quer e pagará o preço que disser! — diz o delegado.
—
Mas Diana não trabalha mais para mim… ela… ela… bem… dizem que ela…
—
Cinquenta mil são suficientes?
—
CO-COMO? — surpreende-se o gerente, tomado pela curiosidade.
—
Cinquenta mil são suficientes por uma noite? — reitera.
—
Não entendi! Cinquenta mil para quê?
—
Não se faça de rogado, senhor! Todos nós sabemos da existência de Diana e do
quanto ela é apreciada pelos homens de bom gosto, por isso, se não estiver
satisfeito com o valor que lhe ofereci, faça seu preço… peça o quanto for e meu
patrão pagará.
Visivelmente
nervoso, o gerente retira um cigarro do bolso da calça e o acende com um
isqueiro em cuja embalagem há o coração que simboliza o amor.
—
Ganhei este isqueiro dela — diz ele. — Sabe, ela não é mulher para qualquer
homem. Para tê-la nos braços, o cavalheiro deve se mostrar gentil, apresentar a
submissão de uma presa, além de demonstrar a coragem para ultrapassar todas as
fronteiras da surrealidade mundana. Diana, repito, não é para qualquer um! —
sentencia, dando um leve tapa na mesa.
—
O que quer dizer? — pergunta o falso chofer.
—
Que é ela quem caça, se é que me entende!
—
O que está acontecendo? — pergunta o médico, entrando no leito, com Duarte e
uma enfermeira às costas. — Meu Deus! Ela está tendo uma taquicardia! Traga a
medicação já! E quanto a você — volta-se para o delegado —, saia daqui já!
Precisamos de espaço para trabalhar, o caso é grave!
Por
mais força que empreenda, Enrico não consegue se soltar; a magia os havia unido
a um só corpo. O médico, exasperado, também tenta puxá-lo; em vão. E quanto
mais agem contra o poder que se manifesta, mais a natureza se amotina, seja na
chuva que estraga a terra, nos trovões que desafiam a sanidade ou nos raios que
são atirados do trono de Zeus¹ à Humanidade.
—
É o fim dos tempos!!! — anuncia Duarte, completamente atordoado, vendo as
lâmpadas piscarem. — O mundo está desabando sobre nossas cabeças…
E
as visões, tão inquietantes, não cessam:
“Após
enfrentar o gerente, Enrico tem o que quer. A Deusa Bandida, atraída ao hotel,
deixa pelo caminho o rastro de um perfume inebriante, hipnótico, perverso, que
envolve os mais frágeis e os conduz a pensamentos indecorosos, que se alimentam
dos mais profundos e ardentes desejos da carne. Não há quem não repare a beleza
surreal da mulher! E que mulher! Seus olhos, da cor de um céu paradisíaco,
completam-se com o cabelo louro, longo e encaracolado, cujas madeixas beijam
levemente o colo bem moldado. O corpo magro, alto, elegante e forte na essência
evidencia uma força que talvez até ela mesma desconheça. Sob seus ombros
estavam os segredos da beleza de Vênus e os da insanidade e lascívia de Baco, e
isso atraía os homens, que a ela se entregavam como feras que procuravam a
própria morte.
O
próprio delegado se vê refém da beleza da garota, pois só a conhecia por foto.
Após
as instruções, Diana sobe até o 13º andar onde está o afoito cliente. Enrico
acompanha todo o desenrolar dessa história de atrás de um dos pilares do rol de
entrada.
A
campainha toca. O quarto é o 1311. Como a porta não abre, ela toca outra vez.
Ninguém aparece, então roda a maçaneta e entra. Dá dois ou três passos, quando
avista o senhor de costas. Com o chiclete retirando da boca, pergunta, num
misto de raiva e ironia:
—
Então me quer? Quantos gostariam de estar no seu lugar!!! Deixei um programa
com um megaempresário só para atendê-lo… Hum! Não gosto de quebrar
compromissos!
—
Nem se fosse para atender a um pedido meu? — indaga o homem, virando-se para
ela.
—
Meu Deus!!! VO-VO-CÊ??? — assusta-se, perdendo o fôlego.
Do
lado de fora do hotel, em um veículo escuro, sob os braços de uma árvore, os
comparsas trocam palavras:
—
Por que Diana está demorando tanto? Alguma coisa está acontecendo, Álvaro!
Precisamos agir logo! — alerta Egídio. — Eu sabia, aquele demônio estava
aprontando contra a gente, pudera, se foi capaz de agir contra a própria
família, não nos daria também uma rasteira???
—
Ela não seria capaz… não, não… — responde, olhando com cólera para o relógio do
pulso — … Me nego a acreditar!
—
Ela é uma cachorra e você bem sabe disso, nunca deveria tê-la deixado atender a
esta chamada. O gerente que ficasse a ver navios!
—
Cale a boca! — dispara Álvaro, com os olhos verdes agigantados e os cabelos
negros como o véu da noite parcialmente encharcados de suor. — Ela me ama, eu
sei disso… Não seria capaz de me trair.
—
Ama? Ama nada! — tenta dissimular o ciúme que devora seu coração. — Depois de
tudo o que você fez para ela? Ou é muito ingênuo ou muito burro, não é
possível!!! Ainda não percebeu? Ela tem é medo de você e perdê-la lhe custará
caro, muito caro, pois nosso patrão há de esfolá-lo vivo e em praça pública.
Faça alguma coisa antes que seja tarde demais ou a perderá para SEMPRE! Vamos,
cara, aquela mulher é pior que uma naja e para nos picar não lhe custa. Vamos,
tome coragem, invada aquele lugar e a pegue de volta.
Álvaro
resiste por mais alguns segundos, mas acaba convencido, então saca de uma arma,
abre o carro com violência e se dirige à porta giratória do hotel.”
—
NÃÃÃÃÃÃOOOOOOO!!!!! — grita Aurora, em um profundo transe, diante do delegado e
da equipe médica, que não consegue separá-los. — Não entre, Álvaro, será o seu
fim!
—
Isso é caso de possessão! — arrepia-se a enfermeira, fazendo o sinal da cruz,
ao notar as cadeiras correrem de um lado para o outro do leito, o quadro da
parede girar, a luminária balançar e a cama ranger com os sobressaltos da
cigana, que não se desprende da mão de Enrico, de onde se vê mergulhada na
própria Caixa de Pandora², incapaz de evitar que os males que lhe osculam a
alma tornem-se realidade e tragam tantas desgraças ao mundo.
—
Misericórdia!!! — diz Duarte, trêmulo de medo, tentando abrir a mão da mulher,
que feito pedra, não se movia. — O que está acontecendo??? Nunca vi algo
parecido!!!
O
médico, impressionado, se afasta e, ao lado do guarda que estava rente à porta,
acompanha a tudo, sem expressar uma palavra sequer, até porque, aquilo tudo
fugia do seu conhecimento.
E
a trama se despe sem pudores:
“—
ONDE ELA ESTÁ??? — pergunta Álvaro ao gerente do hotel, visivelmente alterado,
ao se aproximar. — ONDE ELA ESTÁ???
—
O que pretende com esta arma?
—
QUERO DIANA!!! ONDE ELA ESTÁ???
—
Vamos conversar, Álvaro! — pede o gerente, ofegando. — Você não pode empunhar
uma coisa dessas aqui…
—
E POR QUE NÃO??? — desafia, achegando-se.
—
Porque aqui é um local que só se recebe a “realeza da Democracia”, ao primeiro
estalo, tudo será invadido por homens fortemente armados, sedentos por sangue.
Pense, rapaz, seu patrão não aceitará que os negócios dele sejam levados à lona
por tão pouco.
Toda
a cena é observada à distância por Enrico, que permanece atrás de um dos
pilares.
—
ONDE ELA ESTÁ???
—
Es-es-está lá em cima.
—
EM QUE QUARTO??? — esmurra o balcão. — FALE, MISERÁVEL, ANTES QUE ESTOURE OS
SEUS MIOLOS. ONDE ELA ESTÁ? VOCÊ QUE ARMOU TUDO ISSO, NÃO FOI?
—
EEEEEEEU??? E por que faria isso???
—
Você a ama desde o primeiro momento que a viu, eu sei, Egídio me alertou, mas
não acreditei; deu no que deu! Se não a entregar AGORA, não respondo por mim…
—
Que… que… loucura é essa que está dizendo??? Ela… EU???
Não!!!
Somos apenas amigos.
—
CADÊ ELA??? CADÊ???? EU VOU TE MATAR!!!! —
ameaça,
com o sangue nos olhos.
—
Calma, calma, você não está pensando direito… — pede, enquanto tenta encontrar
uma chave reserva do quarto em que a moça está.
—
Largue a arma! — determina Enrico, pelas costas, aproximando o cano da pistola
à nuca do jovem, que paralisa diante da investida. — Vamos! Largue a arma
agora, isso é uma ordem!
—
Quem é você? — pergunta Álvaro, acuado.
—
Ele é o motorista do homem que insistiu em contratar os serviços de Diana —
responde o gerente, com a face marcada pelo desespero.
—
Se eu fosse você, não faria isso, meu amigo! — aconselha Egídio, achegando-se
também pelas costas, com a arma rente à nuca do chofer. — Largue a arma!
—
Você não sabe com quem está mexendo… — o falso motorista não cede.
—
LARGUE A ARMA! — esbraveja o bandido.
—
Acabe com ele, cara! Mande-o para o inferno! — berra Álvaro, com os olhos
presos aos do gerente.
—
Não sei com quem estou mexendo… — debocha Egídio. — Hum! Essa é boa! Pois é
você quem saberá que com estes parças não se deve mexer. Mande um abraço ao
inferno!
Prepara
a arma para disparar, Enrico fecha os olhos, o amado de Aurora gargalha,
enquanto o gerente reza. Mas como diziam os antigos, os inimigos se levantam de
repente, literalmente no cair das luzes, e o que se vê a seguir é digno de
nota. O comparsa empurra o falso chofer para o canto e acerta a cabeça de
Álvaro, que cai como cartas – quando desmoronam seus castelos –, para o
desespero do gerente… É a cena se repetindo!”
—
Não, não posso deixar… Você não, meu amor!!! Você não!!! Você não!!! — as falas
desoladoras da mulher aguçam a capacidade investigativa do delegado afastado,
que começa, enfim, a compreender a situação.
—
Parem! Parem! Ela está sob algum feitiço, não me perguntem como nem o porquê,
mas esta mulher está antevendo o futuro…
—
Que bobagem é essa? — ralha o médico. — Ela está tendo uma crise, um surto
psicótico, algo a ver com isso, não com poderes de outro mundo.
—
Não??? Olhe para os lados, imbecil!!! — Enrico o ironiza. — Está na hora de
descer deste pedestal.
O
médico engole a saliva.
—
Ela vai morrer se não fizermos nada! — alerta a enfermeira, com os olhos
injetados de medo.
—
Não há o que fazer! O ciclo tem que se completar… — afirma o delegado.
—
Seja lá o que ela esteja vendo, tem a ver com o senhor, doutor
—
alerta Duarte. — As mãos unidas como se fossem uma só, talvez deem passagem
para algum lugar… A coisa tá tão doida aqui, que já começo a imaginar que
existam discos voadores.
—
Acalmem-se! Vou tentar conversar com ela, talvez me responda — aproxima-se da
face dela, bem devagar. — Aurora, sei que está aí, pois fale, o que está vendo?
Não precisa ter medo!
—
Que loucura é essa? Chamem a polícia! — brada o médico.
—
Somos da polícia, idiota! — Duarte toma a frente. — Deixe-o terminar o que tem
em mente.
—
Aurora, fale, minha querida, o que você está vendo? — Enrico exibe sangue frio,
apesar do receio. — Fale!
—
Diana… — responde, em uma voz afinada, quase inaudível.
—
Diana…
—
E quem é Diana? — indaga, tomado pela curiosidade.
—
A Deusa Bandida! — responde. — Ela quer destruir todo mundo!
—
E onde a encontro? Me ajude, por favor! Onde a encontro!
A
mulher o abandona, cedendo à visão, que a envolve perturbadoramente:
“Diana
corre em desespero pelas escadarias, está surtada, com a roupa em farrapos, sem
sapatos e sem destino; o que mais anseia é sumir o quanto antes daquele lugar
infernal. Ao que parece, a predadora virou presa e, na condição de caça, o que
lhe restava era lutar pela própria existência, enquanto fosse possível. E assim
o faz, não se dando conta de que Egídio está à sua espreita, pronto para
agarrá-la e dela se saciar, como fazem as hienas diante de suas vítimas.
—
Senhor??? Senhor??? — ainda não acreditando estar vivo, Enrico tenta contato
pelo celular com o idoso, que não atende. — Senhor??? — volta-se para o
gerente, cuja sanidade aparenta estar a um fio. — Onde está a chave reserva???
Algo aconteceu com meu patrão!!! Fale!!!
—
Está aqui! — entrega-lhe o recepcionista.
O
motorista se dirige rapidamente à escadaria, quer ajudar o seu chefe, mas o
pensamento, de súbito, é atraído à garota, que está prestes a ser capturada por
Egídio. Confuso, leva as mãos à cabeça. A quem deveria salvar? Opta por ela. E
assim o faz.
Diana
desce os degraus em desespero, escorrega, levanta-se, corre de novo, cai,
reergue-se apoiada ao corrimão, e continua a corrida… sua vida corre perigo.
Ela sabe disso. Ela sente! E como uma fera, esbraveja, quer afugentar quem a
procura, mas o destino é impiedoso e de sua pele não abrirá mão. Se desistisse,
poderia terminar como troféu na parede de algum colecionador amalucado, desses
que beijam crianças em frente às câmeras e engolem os homens nas máquinas de
suas fábricas.
Egídio,
a um passo de capturá-la, perde o apoio de um dos pés e cai, batendo a cabeça
contra a parede, sendo ultrapassado por Enrico, que grita pela moça, quer
ajudá-la, mas ela não para. Chegam ao estacionamento, no subsolo, onde Diana
procura por um carro. Mesmo com as forças esmorecendo, ela puxa as maçanetas
dos veículos na esperança de que alguma porta esteja destravada. Debalde! Seu
fim se aproxima e ela pressente… O que mais poderia fazer? Gritar por socorro.
E assim o faz, como uma onça acuada, prestes a ser abatida por uma bala.
Já
quase sem fôlego, o chofer para, mira a luminária que está bem acima dela e
dispara, para o desespero da garota, que se abaixa, procurando abrigo, enquanto
o vidro se espalha pelo chão. Diana volta-se para ele, que está a alguns metros
dela, os olhos de ambos se encontram, é neste momento que a terra novamente
estremece com um forte rugido vindo do céu. Os deuses estavam em fúria!
Desnorteada,
ela teme prosseguir, o caminho está obstruído, os cacos de vidro estão por toda
parte, então desaba num choro comovente vendo o estranho se aproximar. O seu
fim havia chegado!
Outro
disparo. Dessa vez, da arma de Egídio, que apoiando-se a um dos pilares, tenta
se manter em pé. A julgar pela dor que sente, deve ter torcido um dos
tornozelos durante a queda.
—
Você não vai tirá-la de mim! Ela é minha! Ela é minha! — vocifera o bandido,
como que possuído pela besta. — ELA É MINHA!!! MINHA DIANA!!!
Seguem-se
mais dois, três, quatro disparos, todos sem mira.
O
chofer alcança a garota, que desfalece ao primeiro toque, não suportando o
fardo do próprio destino. Então ele a pega nos braços longos e fortes e corre,
é preciso agir rápido, antes que aquele maluco os atinja.
Procura
por um veículo que possa tirá-los dali, até que o clarão de um farol o atrai.
Era um idoso chegando ao hotel. Acompanha-o na surdina e, assim que o homem
abre a porta, ele o rende. E desaparece do local.
Vendo-os
sumirem na escuridão, o bandido se arrasta até um dos veículos, atira contra o
vidro, faz ligação direta e parte em busca deles. Durante o percurso, consegue
pedir reforços pelo celular, apesar da intermitência do sinal.
Parte
da cidade está ilhada. Sirenes estão por toda parte. A destruição é evidente.
—
Meu Deus! Não enxergo nada, a chuva está muito forte… — diz o motorista.
Passa
por cima de galhos de árvores, que se contorcem, arrebentam e saltam contra a
própria lataria do veículo.
—
Preciso correr, esconder logo esta garota, mas como? — pergunta-se, atordoado,
enquanto retira o embaçamento do vidro com as mãos.
No
banco de trás, ainda desfalecida, encontra-se Diana, com sua vida entregue à
autoridade.
A
chuva não cessa, fere a terra com violência e se recolhe nos rios e lagos, que
sobem e dominam as vias principais.
—
Onde estou? — pergunta a garota, numa voz fina e quase inaudível, ao recobrar a
consciência. — Onde estou?
Ao
encontrar Enrico, desespera-se.
—
Me deixe, me deixe, quero ir embora, não me mate, por favor!!! Eu… eu… eu….
—
Ei, moça, tenha calma, não irei lhe fazer nenhum mal; na verdade, eu a salvei!
—
Verdade??? — olha pelo vidro e se amedronta com o que vê.
—
O que está acontecendo?
—
Parece que o mundo está prestes a sucumbir…
Ele
continua o trajeto, evitando-se as vias completamente alagadas.
—
Como vamos sair dessa? Você está indo para onde? Não responde.
—
Para onde está me levando??? FAAAAAALE! EU EXIJO!!!
—
Eu… eu… eu não sei! Estou pensando! Só quero te ver bem!
As
palavras do rapaz lhe despertam um misto confuso de sentimentos.
—
Co-co-mo assim? Você mal me conhece! Isso é alguma brincadeira? Fale! Fale!
—
Não é brincadeira… eu… eu não sei explicar… só quero lhe ajudar, Luara!
—
Você sabe o meu nome verdadeiro??? Como assim??? Quem te mandou??? Quer me
matar, não é??? — a garota enlouquece a ponto de retirar uma tira da roupa e
prensar o pescoço do rapaz contra o banco.
—
Pa-pa-pare!!! Você está me enforcando!!! Pare!!! — suplica, tentando se
libertar, enquanto o carro, desgovernado, avança sobre um poste.
Com
o impacto, Diana é arremessada contra o teto, soltando o rapaz, que arroxeado,
abre a porta com dificuldades e cai sobre o asfalto. Aos poucos ele recupera o
fôlego e se levanta apoiado ao veículo; ao virar-se para a moça, o inesperado.
Egídio está à sua frente, com a arma apontada para sua cabeça, enquanto outros
três carros cercam o local. Criminosos estão por toda parte e, como hienas em
um bando, aguardam o sinal do líder para avançarem sobre as vítimas e
estraçalhá-las.
—
IDIOTA!!! Diana é minha… digo, nossa!!! O que pensou em fazer? O inferno está
cheio de heróis feito você!!! — os olhos do assassino avançam sobre o rapaz,
que já não consegue mais se defender.
—
Vou acabar com sua raça, seu verme!!! Ninguém mexe com um dos nossos e sai
ileso!!!
—
Me deixem!!! Me deixem!!! — grita a garota, sendo recolhida aos berros por
outros dois capangas. — Me deixem!!!
Quanto
avista o motorista sob a mira de Egídio, Luara percebe que aquele rapaz queria
realmente era salvá-la; se arrependimento matasse, ela já estaria a sete
palmos.
—
O que eu fiz, meu Deus? — pergunta-se, completamente arrependida. — Não faça
isso, Egídio, por favor! — passa a implorar pela vida do estranho, que ousou
tentar libertá-la das muralhas do crime. — Eu te imploro, deixe-o ir… Eu farei
tudo o que você quiser, mas o deixe ir!
Egídio
repele os apelos da garota com um leve sorriso a marcar a face:
—
Tarde demais, bebê!!!
—
Não faça isso!!! — chora em desespero.
—
Isso é para que VOCÊ — diz, fitando-a — aprenda de uma vez por todas que sua
VIDA nos pertence e que todo aquele que ousar tentar libertá-la, acabará como
este trouxa: com a boca cheia de formigas.
O
disparo da arma é ouvido a distância.”
—
Nããããããããooo!!!!! — Aurora solta as mãos de Enrico, que dá um salto para trás e
só não encontra o chão porque Duarte o segura.
—
Ela o soltou! — anuncia o guarda, aliviado, segurando um pequeno crucifixo. —
Graças a Deus!
Ao
abrir os olhos, todos os fenômenos da natureza se calam, assim como o monitor,
que misteriosamente revela batimentos dentro da normalidade, para a surpresa do
médico, que olha para a enfermeira, incrédulo.
—
Aurora??? Eu sou o delegado…
—
Eu sei quem o senhor é! — o interrompe. — E precisa agir logo, antes que ela o
devore! É uma fera impiedosa que o atrairá à ruína. Seja rápido!
—
Aplique-lhe um sedativo, não está dizendo coisa com coisa… — determina o médico
à enfermeira.
—
Não! Deixe-a falar! — ordena Duarte.
—
Mas eu preciso tratar da paciente.
—
O senhor não ouviu? – a autoridade policial afastada se exaspera. — Se
insistir, será preso por obstrução à Justiça.
—
Hã? — assusta-se.
—
Primeiro quero ouvir a paciente, depois o senhor finaliza os procedimentos
médicos. Não estou certo, Duarte? — olha para o oficial.
—
Certíssimo!
A
equipe médica deixa o leito contrariada.
—
Agora me fale! Quem é Diana? Ela teme.
—
Eu lhe peço. Para eu poder parar esta pessoa, é necessário que eu saiba quem
ela é! Por favor! Quem é Diana?
—
É a nova mandatária do bando, assumiu o poder após a morte do Camaleão.
—
Ué! Não seria Luara? Acho que erramos na dedução, doutor! — supõe Duarte,
coçando o queixo.
—
Não! Não erraram!
—
Como assim? — pergunta o delegado, cada vez mais curioso.
—
Por acaso…
— … isso mesmo, Luara e Diana são a mesma pessoa! — completa, após ler os pensamentos dele.
_____________
1. É o deus dos céus, raios e relâmpagos, que mantém a ordem e justiça na mitologia grega.
2. Trata-se de uma caixa onde os deuses colocaram todas as desgraças do mundo. Ao abri-la, Pandora liberou todos os males que até hoje afligem a humanidade, como os desentendimentos, as guerras e as doenças. Ela até tentou fechá-la, mas só conseguiu prender a esperança.
com ilustrações de
Andrea Mota
trilha sonora
REALIZAÇÃO

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