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Antologia Violência Urbana | Capítulo 6: A Última Vez

Quando a violência se torna comum no cotidiano, e o trabalhador já não sabe o que odiar: sua vida de merda ou sua morte iminente. Confira mais um conto da antologia Violência Urbana.
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A Última Vez
JF Martignoni


SINOPSE: Um trabalhador brasileiro, depois de uma exaustiva jornada de trabalho busca um pouco de sossego em um bar da sua vizinhança, tendo sua paz interrompida pela violência urbana.




Depois de dez horas de trabalho braçal, desmontando, limpando, organizando vendendo e instalando peças em um ferro velho que ficava isolado da cidade numa entrada de terra sem identificação na rodovia que ligava a cidade ao município vizinho, eu estava exausto. Era um trabalho desgraçado, sem carteira assinada, perigoso e muitas vezes me deixava questionando a legalidade de tudo o que fazia. Eu trabalhava junto com outros, ambos já haviam passado seu tempo no ambiente carcerário brasileiro. Nada grave, um se envolveu em uma briga em uma casa noturna e quase matou o adversário com socos, joelhadas e chutes; e o outro foi parado em uma blitz bêbado e com algumas gramas de cocaína dentro do veículo. 


Meu patrão não realmente sabia meu salário ou não me dizia, sempre que visitava o lugar em que trabalhávamos me oferecia dinheiro e anotava em vales. Ele pedia quanto eu queria, mas a não ser em casos de extrema urgência eu apenas esperava ele dizer um valor e aceitava. Este também tinha uns processos e quase foi preso, mas não tenho nem ideia do que ocasionou isso.


No meio do galpão de madeira em que eu trabalhava haviam dois pit bull amarrados a motores completos que estavam a venda, quase enfartei a primeira vez que vi um enquanto me dirigia ao banheiro e duvido muito que algum assaltante ouse passar por eles, mas no final das contas eram uns amores extremamente dóceis.


Foi o trabalho que consegui depois de diversos erros nas escolhas profissionais, muita falta de motivação, ego grande demais, que gerou pouco esforço em me manter nos diversos empregos que tive. No auge da minha boa vontade eu consegui ser gerente de um dos setores de uma empresa que vendia joias, entretanto como meu salário em boa parte era comissão ou bonificação por aumento nas vendas, acabei sendo demitido por ganhar demais. Isso acabou com toda e qualquer vontade de crescer que eu poderia ter em qualquer lugar.


Entretanto gosto de fantasiar neste trabalho no qual me encontro, pois realmente parece aqueles locais em que os mafiosos destroem os carros das pessoas que matam, eliminando as evidências. Claro que a maior parte de tudo isso vem apenas da minha mente fértil observando este galpão mal iluminado e sujo, os cachorros de guarda, a maneira que recebo...


Enfim, eu estava exausto, tudo que eu queria era assistir a final do Campeonato Brasileiro, tomar uma cerveja e comer uns amendoins. Quando se trabalha com serviços que você não pode errar, ou o cliente sempre achará que você deve algo pra ele. Não importa se você concerte o erro, devolva o dinheiro ou qualquer outra solução viável. Você errou com ele, ele tem prioridade de prazo, pagamento e mesmo quando estiver fazendo o melhor possível e já ter gastado comprando peças para resolver o problema deles, eles ainda ameaçam troca-lo pela concorrência. Para piorar o mercado está em crise e você precisa desse filho da puta, e este é o meu caso, não que eu receba comissão nem nada, mas se não vender bastante além de uma boa mijada, posso ficar sem emprego. Ai o motivo da minha jornada de dez horas de trabalho nesta quarta-feira. As vezes eu me perguntava como minha vida acabou assim, mas isso era irrelevante.


Decidi parar no caminho da minha casa e assistir o jogo em meio a semiconhecidos e completos estranhos, num boteco vagabundo, daqueles com donos mal humorados, comida gordurosa e cerveja barata e gelada. Infelizmente ao me aproximar pude perceber que o lugar estava lotado em virtude de jogo e tive que estacionar na rua debaixo, e ter uma boa caminhada até o estabelecimento.


- Uma original e uma porção de amendoins. – Gritei umas três vezes para o Beto, dono do boteco e único atendente do barzinho, a outra funcionária era sua esposa que fazia tudo na cozinha. A maioria da pessoas ali já estava bem alterada e falando muito mais alto do que o necessário, precisei gritar para ele uma quarta vez.


Vocês devem estar pensando por que não estou assistindo o jogo em casa, com minha família, ou até curtindo minha mulher e filhos. Que sou um péssimo pai e marido, como todos os outros. Poucos sabem que precisamos desestressar e que mesmo amando nossa família, eles não são os melhores em nos dar paz. Você entra em casa e tem que ouvir de como a vizinha foi uma vaca com a outra vizinha, ajudar o filho com a lição, cortar a grama, arrumar um cano... Quando percebe está caído na cama, sem forças para transar ou se matar. Sim você continua pensando em suicídio depois dos trinta, com família e filhos, principalmente por eles dependerem tanto de você.


Minha mulher acha que não tenho amigos, talvez ela esteja certa. Eu tenho a turma para jogar futebol, a turma para assistir futebol, a turma do poker e a turma da sinuca. Não converso com nenhuma pessoa desses grupos sobre algo que não seja organizar o jogo e a janta, sobre como foi o jogo durante a janta e como estava a janta. Muitos deles eu nem sabia nada sobre a vida, nem o que faziam, o que viviam, o que gostavam além daquilo que fazíamos juntos. Pensando agora boa parte eu nem sei como ou quando começaram a sair com nosso grupo. Hoje eu não queria assistir o jogo com o grupo de assistir jogo, pois as jantas estavam caras e eu estava apertado. Minha mulher não gosta de nenhum deles e não quer que eu saia com nenhum deles. Quando nós saímos juntos, saímos com outro casais. Ou melhor dizendo com suas amigas que acabaram casando, ai ela conversa com as amigas, e eu sou empurrado para quartos com televisões ligadas em canais de esporte com homens que nem sempre sei o nome para interagir sem incomodar. Me sinto uma criança grande.


- Tá na mão. - disse o garçom, enchendo meu copo e largando a garrafa e a porção em cima da mesa.


Os times aqueciam e a torcida cantava ininterruptamente. No bar todos estavam com os olhos focados na tela, esperando o momento de xingar alguém, o que não demorou nada. Logo que o jogo começa o que parecia um clássico se torna um massacre, depois de um gol marcado em uma imperdoável falha do goleiro que erra o passe para o zagueiro logo nos primeiros dez minutos. Considerando que o time já precisava ganhar com dois gols de vantagem pela derrota em casa, isto deixou a todos desesperados, compensando a falta de chutes à gol com faltas desnecessárias. Três jogadores expulsos nos primeiros quarenta minutos e outros dois gols da equipe adversária que tinha oitenta por cento da posse de bola. Esperei o apito que dava fim ao primeiro tempo para ir ao balcão fechar a conta, estava totalmente broxado e só queria seguir o rumo de casa antes da passeata e dos diversos bêbados que dirigem como se estivessem indo tirar a mãe da forca.


- Que jogo de merda, não? – diz o garçom.


- Nem me fale, nos meus dezoito anos nós tínhamos que lutar por vagas nos times enquanto Zico, Pelé, Garrincha... Todos esses caras estavam lá dando um show e jogando com raça, ganhando menos de um décimo que esses moleques hoje em dia ganham para fazer pose pras câmeras. – Desabafei.


- Você jogava bem? – perguntou Beto.


- Eu fui profissional no time da cidade. Nós trabalhávamos de dia e treinávamos de noite. Fui convidado para jogar no Palmeiras, mas minha mãe não deixou. Na época não se ganhava nada, meu salário como vendedor numa loja de departamentos era maior que o que eu ganharia como atleta profissional e eu tinha que sustentar a casa, meu pai gastava toda a aposentadoria com bebida e prostitutas... Fora que eu era um vagabundo, ficava amarrando e desamarrando as chuteiras durante os treinos para não ter que correr. Não me ajudei e ninguém insistiu muito em me levar jogar, sabiam que eu ia ser aqueles que não duram nada por que estão sempre de ressaca. – respondi.


- É uma pena. Se você parar para pensar, quantos foram ídolos e hoje estão na miséria, abandonados por seus “amigos,” alguns até são mendigos de rua. Se bem que meu vizinho que era veterano da Segunda Guerra Mundial teve que trabalhar como pedreiro até os oitenta anos para não morrer de fome.


- É. Não adianta, este é um mundo de merda. – Não estava afim de ficar ouvindo tragédias, peguei meu troco e segui em direção ao carro.


Era um longo caminho de volta, a sensação térmica devia ter baixado uns dez graus desde a hora que cheguei, fui todo encolhido arrependido de estar de bermuda e chinelo de dedos. Nem olhava para o lado, seguia caminhando o mais rápido possível, pois só queria ir embora de uma vez.


Quando cliquei no controle para destrancar o carro percebo que ou as portas não haviam trancado antes, ou não destrancaram agora. Eu estava com esse problema a meses, mas nunca tinha dinheiro para arrumar e nem incomodava tanto, precisava trocar a cama do meu quarto com urgência, isso era o de menos. Tentei abrir e de fato não havia destrancado, botei a chave para abrir a porta manualmente e senti o cano uma arma encostar nas minhas costas, fiquei paralisado.


- Tu vai pro porta mala, o gordão. – disse para mim com uma voz agressiva, mas quase que sussurrando em meu ouvido.


Sempre imaginei que reagiria, que seria o herói do meu próprio filme de ação, mas não. Fui um covarde como fui durante toda a minha vida. Sem coragem de falar para meu antigo patrão que os outros gerentes desviavam e por isso na folha ganhavam menos do que eu, sem coragem de abandonar a casa da minha mãe para seguir meu sonho de ser um jogador de futebol, sem coragem para acabar com um relacionamento que já estava desgastado a anos com a amiga da mulher por quem fui apaixonado durante todo o ensino médio e nunca tive coragem para me declarar... Como sempre, sem coragem para nada. Fui amarrado ali mesmo, no meio daquela rua de calçamento mal iluminada, na quadra debaixo do bar que frequentei minha vida toda simplesmente por ser o mais próximo. Não fui capaz nem de ir aos melhores e provar as comidas e as bebidas que me recomendavam, estava fadado a mesmice pelo medo da mudança e a absoluta falta de vontade.


Enquanto era amarrado, pouco antes de me jogarem no porta malas do meu próprio carro, qual estava sujo a meses, pois nunca tive vontade de limpar. Reparei que estavam em dois, nenhum usava máscara, mas mesmo assim não consegui identificar seus rostos. Discutiam sem parar e se moviam rápido demais, possivelmente por um misto de medo e adrenalina parecido com o que eu sentia. Logo depois de me jogarem para dentro do porta malas como um saco de lixo, arrancaram violentamente com o carro e partiram em uma velocidade desesperada para longe daqui. Eram diversas freadas bruscas e aceleradas cantando pneu que me faziam bater em todos os cantos de onde me encontrava, com as mãos amarradas as costas não conseguia nem defender a cabeça das pancadas, e batida de testa, nuca ou face em intervalos de segundos. O que me deixou atordoado, zonzo e com uma forte vontade de vomitar. O que acabei fazendo em cima de mim mesmo antes da viagem chegar ao fim.


- Vamo mata o gordão, faze o que com esse bosta? – disse um dos assaltantes.


- Mata pra que? Vamo larga ele no mato e já era. Esse carango vai dá alta grana mano. – respondeu o que rendeu.


- Sei não, deixamo ele vivo dá vinte minuto tem polícia atrás de nós.


- Relaxa mano. Tá tudo esquematizado, o Paulão já tá esperando nói lá na Cabana Show, desmanchamo o carro e já era. Ninguém nunca vai sabe de onde vem as peça co número raspado. Até esse burro ai se solta das amarra ou alguém achar ele onde vou deixar já gastamo o dinheiro dessa caralha.


- Ainda acho que tinha que mata ele.


- Cala a boca, porra. Qué fode cum nói? Tá ligado que tipo, carro roubado é um lance. Assassinato é outro. Tá ligado? Os cara vão caça nói. Ai fodeu. Deixa ele vivo, que ai vão bota procura só o carro e nunca vão acha nada. Crime perfeito.


Enquanto isso eu continuava batendo a cabeça, nuca, rosto, costas, joelhos nos saltos e freadas, e me vomitei duas vezes como falei que faria. A situação estava tão ruim ali que eu só queria ser largado no mato e deixar que ficassem com o meu carro. Foda-se o carro, eu só sair desse inferno, não prestaria nem queixa, afinal nem seguro eu tenho nessa bosta.


Depois de mais algum tempo de viagem que pareceu horas, sinto que o carro sai do asfalto e entra numa estrada de chão reduzindo a velocidade e ficando um pouco menos terrível apesar do cheio do meu próprio vômito e das dores que já estavam presentes em boa parte do corpo sem pausas. Finalmente para. O porta mala se abre.


- Meu deus ele se vomitou todo, puta que pariu que fedor caralho.


- Anda tira ele logo dali.


Era uma escuridão total, agora sim não tinha mais chances de ver nenhum deles. Um que estava a direta como se fazendo vigia e segurava um flash de celular em mim para que o outro pudesse me tirar do carro e me despejar por ali seja o que fosse aquele lugar. Fui jogado no meio do que eu esperava que fosse barro. Não sabia onde eu estava, não ouvia carros ou qualquer som urbano. Na verdade nada além da conversa daqueles homens desconhecidos e alguns mosquitos que insistiam e pousar em meu ouvido.


A adrenalina e o medo daquele momento estavam estranhamente passando, não por uma segurança em estar ali jogado o que poderia ser fatal de diversas maneiras por si só. Possivelmente este seria meu fim, nunca conseguiria me soltar ou encontrar ajuda, eu morreria de inanição, ou picado por uma cobra, devorado por algum animal selvagem. As chances contra mim eram imensas, e eu sabia disso, tive um momento de tranquilidade e clareza, uma espécie de total rendição e aceitação do meu destino.


- Vamos deixar ele aqui?


- Sim só larga ai e vamos embora.


- Vamos ao menos dar uns chutes nele para ele ficar desacordado.


- Cala a boca mano, vamo pro carro agora. O Paulão está nos esperando.


Neste instante parei pare refletir o que ainda não havia chamado minha atenção: Paulão era o nome do meu chefe, e claro que as acusações que ele recebia era de ter peças sem nota fiscal, o que ele alegava ser apenas desorganização e perda de documentos. Eu podia estar apenas delirando agora, e tudo ser uma grande coincidência, ou ironicamente outro cara iria ser mal pago para desmanchar o meu carro, por não ter um emprego melhor e nem entender o que se passa na empresa. Estes caras talvez eram também contratados para roubar os carros e era tudo um grande esquema. Ou eles podiam forçar o Paulão a comprar e ele ser uma boa pessoa que se meteu em uma fria, comprando uma vez por precisar urgentemente do dinheiro e nunca mais ter conseguido parar. Ou quem sabe nunca nem quis comprar e só foi forçado por estes bandidos como fui forçado a vir parar aqui. Também pode ser que eles nem estejam falando do meu chefe, afinal quantos homens no mundo tem o apelido de Paulão?


Não ouvi seus passos ganhando distância, pois estava distraído demais com meus próprios pensamentos e teóricas, o que foi abruptamente cessado com as portas do carro batendo forte e o motor de partida sendo acionado. Eu estava de volta ao presente e pensando no que realmente importa, que é o que diabos farei depois que eles forem embora?


Eu estava com os braços e pernas amarrados, deitado de lado esperando que eles fossem embora para tentar me soltar, por alguma razão neste exato momento achei que era uma possibilidade real. Todavia, antes do carro arrancar a porta se abriu, desta vez ouvi os passos se aproximando de mim. O homem ligou o flash do celular e mirou-o em mim, eu só via aquela luz, as luzes vermelhas dos faróis traseiros do carro e uma lua minguante.


- Cê tá indo aonde? – gritou o bandido que ficou no carro.


- Peraê. – respondeu o outro.


Ouvi dois disparos e senti como se duas brasas atravessassem meu corpo, era uma sensação estranha. Havia dor obviamente, mas não era exatamente como eu imaginava que seria, sentia algo mais como uma queimadura. Era estranho mesmo.


- Pra quê mantar ele? – berrou enfurecido o que estava no carro.


Eu meio que já havia aceitado isto desde que entrei no porta-malas, então fiquei em um silêncio apático. O sangue quente que saia de mim encharcava minhas roupas, e junto com ele um frio febril tomava conta do meu corpo. Ouvi os passos se afastarem, a porta bater novamente. Vi as luzes do carro se afastando até não conseguir ver mais nada.


conto escrito por

JF Martignoni

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

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