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Antologia Violência Urbana | Capítulo 3: Um Ladrão de Doces

Escutem as crianças. Elas dizem mais do que simples e fofinhas palavras... Confira mais um conto da antologia Violência Urbana.
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Ladrão de Doces
Fabiana Prieto


SINOPSE: Era um dia normal em uma delegacia, quando uma menininha surgiu desacompanhada para fazer uma denúncia. O que parecia fofo no início, acabou mostrando que havia algo de errado. Agora cabe ao policial Dênis Kayler resolver o caso.






Denúncias de brigas de vizinhos, furtos, algum acidente ocasional. Era mais um dia comum na rotina daquela delegacia, até a garotinha entrar pela porta. Não mais que uns cinco anos de idade, de uniforme e botas cor de rosa, seus cachinhos negros pulavam conforme ela se aproximava brava do balcão de atendimento.


— Moça, ô, moça! — ela chamou, batendo no balcão.


A policial que estava ali, distraída vendo documentos no computador, se surpreendeu ao ouvir a voz infantil e procurou por quem chamava até olhar para baixo e encontrar a criancinha.

— Olá. Em que posso ajudar, meu bem? — sorriu simpática. Procurou com o olhar o responsável pela menina, mas ninguém parecia tê-la acompanhado. Como uma garotinha chegara até ali sozinha?


— Eu vim fazer uma dena... denin... deníncia! — a criança falou com tanta convicção que a mulher se segurou para não rir, apesar da preocupação.


— E que “deníncia” a senhorita quer fazer? — perguntou enquanto mais policiais viam a cena e observavam.


— De rôbo! Meu amigo robô os meus doces!


Alguns não aguentaram e riram contidamente. Não dava para levar a sério uma coisinha tão fofa tentando parecer adulta. A policial tossiu para disfarçar o riso e entrou no clima.


— Certo, certo. Vamos registrar a sua ocorrência, venha comigo — ela deu a volta no balcão, pegou a menininha pela mão e levou-a para um local mais calmo na delegacia. — Qual o seu nome, querida?


— Angélica!


— Ok, Angélica — ela botou a criança sentada em um sofá de uma sala de espera. — Quero que fique aqui enquanto eu chamo um dos oficiais para te ouvir e registrar a sua “deníncia”, está bem?


— Tá bem! — a menina concordou mesmo sem entender muita coisa.


A policial a deixou ali e foi até o escritório de um dos oficiais de plantão. O investigador terminava de arquivar um caso quando ela bateu no vidro e abriu a porta.


— Tenho um caso pra você, Kayler — entrou após receber permissão.


— Qual caso? — ele perguntou sem tirar os olhos da papelada.


— Tem uma garotinha aqui querendo fazer uma denúncia de furto de doces.


O homem largou a pasta e a olhou com uma sobrancelha erguida.


— É sério isso?


— Sim. Ela veio até aqui sozinha e ninguém apareceu reclamando do sumiço de uma criança, pode tentar contatar os pais?


O investigador deu um suspiro e concordou com a cabeça.


— Traga-a aqui.


A policial assentiu e pouco depois surgiu com a garotinha e deixou-a com ele. Analisou rapidamente a menina, que parecia bem. Se não fosse o fato de ter chegado sozinha até ali, não diria que havia algo de errado com ela.


O homem sorriu, chamou gentilmente a criança mais para perto e ofereceu uma bala a ela, que aceitou alegre dando pulinhos e depois se sentou na cadeira enquanto comia o doce.


— Olá, eu sou o oficial Kayler, mas pode me chamar de Dênis. Qual o seu nome?


— Angélica!


— Oi, Angélica, pode me dizer como foi que você chegou aqui sozinha? ele puxou sua cadeira para perto da menina, pegou um papel e caneta, e fingiu anotar o que ela lhe contava.


— Eu fugi de casa e vim até aqui poqê queria fazer uma deníncia — ela explicou, tentando parecer mais madura enquanto balançava suas perninhas.


— O que aconteceu? — perguntou sério.


— Ele robô os meus doces! — a menina inflou as bochechas, indignada. Era uma gracinha.


Dênis fingiu um sorriso, sendo o mais paciente possível com a criança. Se a assustasse, seria difícil de fazê-la colaborar e descobrir o problema.


— E quem seria ele?


— O meu amigo! Ele disse que não me daria mais doces poquê eu não me compotei! Deve tê comido tudo sozinho! Tomara que tenha dô de barriga!


O oficial levara aquilo como uma brincadeira até aquele momento, mas agora as coisas começavam a ficar estranhas.


— E esse seu amigo... Quantos anos ele tem, Angélica?


— Eu não sei. Acho que a idade da mamãe — ela negou com a cabeça. — Quero água.


Dênis buscou para a menina e entregou o copo, esperando que ela bebesse antes de continuar.


— Onde está a sua mamãe?


— Em casa — ela respondeu, voltando a balançar as perninhas. — Ele disse que eu não posso vê ela poquê ela ta de castigo e disse que eu ficaria também se não me compotá. Aí quando eu sou boazinha ele me dá doces!


O homem se alarmou. Havia algo de muito errado naquela história e certamente a mãe da menina estava correndo perigo. Ele se levantou e fez um afago na cabeça da menina, sorrindo enquanto tentava lhe transmitir segurança para que ela não desconfiasse de nada.


— Angélica, pode deixar que eu vou resolver isso com o seu amigo, está bem? Você pode ficar aqui com a policial Filch por enquanto?


— Sim!


— Boa menina.


Dênis saiu da sala e chamou a oficial que atendera a garotinha.


— Tome conta dela para mim. Vou sair atrás de mais informações.


— O que houve?


— Parece um caso de prisão domiciliar. A mãe dela pode estar em perigo, mas não deixe que a menina saiba, entendeu? Fiquem em alerta, posso precisar de auxílio.


— Sim senhor — a mulher concordou, tensa, e o emprestou seu computador por um momento.


O oficial pesquisou rapidamente onde ficava a escola da menina, graças ao uniforme que ela vestia. Deixou a menina ali na delegacia sob o cuidado dos oficiais, entrou no carro e minutos depois chegou à instituição. Algumas crianças brincavam no pátio, inocentes e alheias ao que estava acontecendo. Preocupava-lhe não poder protegê-las por completo, era impossível sempre saber quando um perigo estava à espreita.


O homem caminhou até a secretaria e mostrou o instintivo para a recepcionista.


— Agente Dênis Kayler, 15º distrito. Gostaria de falar com o diretor da escola, por favor.


A mulher arregalou os olhos e concordou com a cabeça, preocupada.


— Algum problema, senhor Kayler? Aconteceu alguma coisa? — perguntou enquanto tirava o telefone do gancho e apertava o botão do ramal para a diretoria.


— É isso que quero descobrir — respondeu evasivo.


Depois de dado o recado, a moça o guiou até a sala correta. A diretora concordara em prontamente atendê-lo ao saber que o policial estava ali.


A mulher tremia enquanto o oferecia uma xícara de café, suando de nervoso. Nunca imaginara ter de receber um policial em sua escola e não sabia lidar muito bem com a situação.


— Em que posso ajudá-lo, oficial? Algo errado? Aconteceu algo com alguma criança nossa? — a diretora perguntou ansiosa.


— A senhora quem irá me dizer. — Ele tomou um gole do café. — Recebemos uma garotinha sem os pais em nossa delegacia. Seu nome é Angélica, tem cabelo preto encaracolado, olhos castanhos, aparentes cinco anos — ele respondeu e mostrou o celular, havia tirado uma foto da menina. — Poderia pegar a ficha dela para mim?


— Claro — a mulher se virou para o armário de ferro ao seu lado e começou a mexer nos papéis das gavetas. — Eu acho que sei de quem está falando. Recebi reclamações da professora dela.


— Que tipo de reclamações?


— O comportamento da Angélica anda estranho. Ela não faz as atividades e não responde nada quando perguntamos algo sobre sua família, chora quando se trata da mãe... — tagarelou. — Falando na mãe, essa nunca mais apareceu por aqui. Quem busca a garota agora é o namorado dela. Cara esquisito.


Aquilo sim eram informações úteis. E ainda mais preocupantes.


— Tem o endereço deles?


— Tenho sim. Aqui, encontrei, tome — a diretora falou e deu a ficha a ele.


Dênis apoiou a ficha sobre a mesa, anotou o endereço em seu bloco, depois devolveu os arquivos à mulher e a agradeceu.


— Caso se lembre ou saiba de mais alguma coisa, por favor, me contate. Qualquer informação pode ser importante — ele pediu e estendeu seu cartão.


A diretora assentiu e se despediu dele com um sorriso forçado. Dênis saiu dali e dirigiu direto para o endereço anotado. Era uma casa normal em uma vizinhança normal, de classe média alta. Nenhum sinal aparente de anormalidade. Ele desceu do veículo e caminhou até a entrada da residência.


— Aqui é a polícia, por favor, abra a porta! — exclamou.


Esperou por um tempo e chamou mais duas vezes, como não obteve resposta, sacou a arma, se pôs em posição e arrombou a porta com dois chutes. Entrou apontando a pistola para frente, verificando cômodo por cômodo, mas não havia ninguém. Os moradores pareciam ter saído às pressas.


Após vistoriar todo o primeiro andar, Dênis seguiu para o andar de cima. Encontrou o quarto da menina, além de uma suíte de casal e um banheiro comum. O quarto da garotinha parecia ter sido usado há pouco tempo, o que condizia com o que ela dissera sobre fugir de casa. Já no quarto do casal, as roupas da mulher estavam intocadas, mas havia algumas peças masculinas espalhadas pelo cômodo e pelo banheiro da suíte. De novo, sem sinal dos moradores.


O policial continuou a procurar, dessa vez seguindo para o sótão. O cômodo estava empoeirado e fora de uso como na maioria das casas. Só restava verificar o porão. Tornou a descer até o andar de baixo, abriu a porta do cômodo e acendeu a luz. Das escadas não era possível ver o que tinha ali. Com cuidado, desceu os degraus e o que viu o fez ter certeza que aquele era o local de um crime.


O porão mais parecia um cativeiro. O cheiro era terrível e o chão estava coberto de sujeira, havia também uma corda ensanguentada largada a um canto. A mãe de Angélica, no entanto, não estava lá.


O policial correu de volta para a viatura e emitiu o alerta.


— Encontrei um cativeiro no porão da casa, mas não havia mais ninguém, o desgraçado fugiu às pressas. Procurem pelo veículo da família, cartões, tudo o que conseguirem para descobrir quem é e onde esse desgraçado está! Temos que encontrá-los antes que seja tarde demais!


Depois disso, entrou em contato com a diretora da escola e pediu para que as pessoas que já o tivessem visto fossem até a delegacia para ser feito um retrato falado. Com a ajuda de outra funcionária da escola e das redes sociais, descobriram o nome do suspeito.


Com base naquilo, pesquisas foram feitas rapidamente sobre a família da menina e o suposto sequestrador. Descobriram que a mãe da criança recebera uma herança gorda do falecido marido há pouco mais de dois anos e que, desde alguns meses antes, fazia saques mensais, de um valor constante, porém mais alto do que as possíveis despesas que a família aparentava ter. Aquilo era um motivo perfeito para um aproveitador fazer uma mulher e sua filha de reféns.


Em alguns minutos conseguiram a placa do carro do meliante e, graças às câmeras de segurança, encontraram o veículo. O homem fizera um saque de limite máximo diário em um caixa 24h e fugira para a fora da cidade, possivelmente usaria o dinheiro para pagar algum hotel. O meliante não era um homem estúpido, depois que Angélica sumira ele sabia que viriam atrás dos pais negligentes e que isso o poria em maus lençóis.


A polícia não tinha muito tempo antes de perder seu rastro e ser tarde demais. Enviaram todas as viaturas próximas e o agente Kayler se juntou a eles em perseguição. Horas depois descobriram que o homem se hospedara em um motel de beira de estrada.


Já era noite quando os policiais fizeram um cerco no local. O recepcionista do estabelecimento, assustado, não resistiu à delatar qual fora o quarto alugado pelo bandido.


Os agentes correram até o local e se posicionaram para a operação. Dênis bateu na porta do apartamento com a arma em punho.


— Sabemos o que fez, senhor Wess. Abra a porta e libere a refém, agora!


— E o que eu ganho com isso?! — a voz masculina gritou de dentro.


— Se colaborar com a polícia, podemos reduzir a sua pena e lhe garantir a condicional — gritou em resposta.


— Eu não quero essa porcaria! Pode esquecer, eu não pretendo ser preso!


— O senhor vai ser preso de uma forma ou de outra, senhor Wess. Colabore conosco ou seremos obrigados a entrar à força!


— Tenta se quiser, policial! — o cara riu, sem sinal de que colaboraria. — Arrombem a porta e eu estouro os miolos dela!


Dênis cerrou os dentes, não podiam agir enquanto ele estivesse com a refém.


— O que quer para libertá-la? — tentou negociar. Odiava fazer aquilo, mas não tinha escolha, a prioridade no momento era libertar a mãe de Angélica.


— Quero dinheiro, um carro para cair fora daqui e a garantia que não vão atrás de mim!


“Esse cara só pode ser um imbecil” o oficial bufou. Até parece que ele conseguiria ir longe depois de fugir dali.


— Vai sonhando!


— Faça isso ou eu a mato! — o bandido exigiu.


— E fará o que depois? Acha que vai escapar? A única forma de sair daqui é preso ou morto!


O homem rosnou lá dentro e Dênis se alarmou ao ouvir o som do gatilho armado.


— Então eu vou morrer, mas vou levar mais alguém comigo!


No primeiro momento, os policiais acreditaram que Wess mataria a refém. No entanto, ao invés disso, a porta se abriu de sopetão e o homem saiu com a arma em punho, já atirando no primeiro que viu.


Dênis não teve tempo de reagir antes que os tiros o atingissem. Caiu baleado, urrando de dor. Estava com o colete à prova de balas, o que o protegeu de danos maiores, mas tomar alguns tiros no braço e um de raspão na cabeça não era nada agradável.


Fora de ação e caído no chão, o policial viu quando os demais atiraram de volta. Sem proteção, o seqüestrador caiu, abatido. Seus colegas passaram pelo corpo e invadiram o quarto do motel atrás da vítima. Por sorte, a mãe de Angélica não estava gravemente ferida.

Dênis estava aliviado ao ver a mulher viva, mas sabia que seu estado não era tão bom assim. Estava perdendo sangue muito rápido. Provavelmente o tiro atingira alguma veia importante do braço. Ele se recostou e mal sentiu quando um dos colegas se agachou ao lado e começou a improvisar um torniquete para estancar a hemorragia e ele poder aguentar até a chegada da ambulância. Antes que terminasse, sua visão ficou turva e ele desmaiou.


***


Layla sorria enquanto caminhava pelo hospital de mãos dadas com a menina. Tinha que andar pelos corredores ainda carregando o apoio do soro conectado à sua veia, mas valia a pena aquele pequeno incômodo. Angélica sorria e tagarelava com a mãe, enquanto a mulher pensava e dava graças a Deus pelo maldito namorado não ter feito mal algum à criança. Como fora idiota de se apaixonar por um desgraçado... Jurou internamente que nunca mais poria a filha em um perigo daqueles, mesmo que isso significasse nunca mais namorar.


As duas pararam diante de uma porta e Layla perguntou:


— É esse o quarto?


— Sim! — Angélica saltitou alegre.


Layla sorriu, abriu a porta e elas entraram. Havia um homem deitado na cama do hospital, que sorriu ao vê-las.


— Tio Dênis! — a garotinha gritou e correu até ele.


O oficial sorriu e afagou os cabelos dela. Por sorte nenhum tiro atingira partes vitais, apesar da grande perda de sangue. Alguns dias de molho e ele logo estaria pronto para voltar ao trabalho.


Dênis olhou para a mãe de Angélica e reparou no soro que ela trazia e nas ataduras que cobriam os pulsos e pescoço. Os ferimentos na carne não eram tão graves, mas ele sabia que o que ela passara a marcaria para o resto de sua vida. Por pouco aquela história tivera um final feliz.

— Viemos para agradecer a sua ajuda, oficial Kayler.


— Eu trouxe doces! — Angélica estendeu um saco generoso de guloseimas para ele.


Dênis riu e pegou com dificuldade por causa do braço ferido.


— Obrigado. Prometo que vou visitá-las e pagar todos esses doces que está me dando — falou para a menina.


— Obaaa! — a criança saltitou.


As duas ficaram ali por mais algum tempo e depois Layla levou a filha de volta, para deixá-lo descansar. Dênis sorriu e acenou enquanto as via ir embora. Quase perdera sua vida, mas realizara seu trabalho. Devolvera a mãe para uma garotinha.


E resolvera o caso do ladrão de doces.


Fim.



conto escrito por

Fabiana Prieto

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

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