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Um Plano Perfeito: Capítulo 03

Novela de Marcelo Caronesi
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UM PLANO PERFEITO - CAPÍTULO 03

 

Genivaldo sai de casa quando o relógio marca 15:35. Neste horário já deu tempo suficiente para que o prefeito João Delmiro tivesse retornado do almoço. Genivaldo não se deu ao trabalho de ir até a prefeitura pela manhã, pois um vizinho comunicou que o prefeito não estivera lá neste período.

A família Delmiro domina a região desde muito tempo; alguns dizem que desde os tempo do Brasil-Colônia os “Delmiro” já detinham grandes propriedades na região, criando bovinos e caprinos. Membros da família vem se alternando no poder desde os anos 20, quando o pequeno distrito foi elevado à categoria de cidade. Bisavô, avô, pai, tios, irmãos e primos de João já foram prefeitos de São Miguel dos Confins, bem como ocuparam vários cargos públicos. Não é permitido que outros membros da família sejam vereadores municipais enquanto um Delmiro for prefeito, porém, eles têm tanta influência que a parentela está distribuída em outros cargos públicos, até em gabinetes de vereadores que fazem “oposição”.

João Delmiro é um homem peculiar; no alto de seus 64 anos, pesa 128 quilos, tendo 1,75 metro e tem o cabelo pintado na cor acaju. Exalta, sempre que pode, todas as glórias que a família já fez por São Miguel dos Confins. Sempre que pode, relembra a todos sobre como seu avô, Ernesto Delmiro, expulsou um grupo de cangaceiros que se aproximou da cidade na década de 1930. João Delmiro garante se tratar do grupo de Virgulino Ferreira, o Lampião, embora alguns moradores neguem até a possibilidade de algum dia, qualquer grupo de cangaceiros ter se aproximado dali.

João Delmiro também se gaba de todo o esforço que seu pai despendeu na luta contra um foco de um grupo guerrilheiro que lutava contra o regime militar, durante os anos 70. Como é de se esperar, há as pessoas que garantem que nunca nenhum grupo revolucionário tenha sequer chegado próximo da cidade de São Miguel dos Confins.

Talvez o maior opositor da família Delmiro, seja mesmo o velho Donato; um homem de pele branca e magricelo. Ele nunca “engoliu” a conversa nem dos cangaceiros e muito menos dos guerrilheiros. Sem poupar ninguém, Donato é um dos poucos moradores de São Miguel dos Confins que contesta a família Delmiro; até mesmo quando alguns deles já fizeram coisas boas para a cidade. Pode-se alegar que a idade fez de Donato um ranzinza, mas o fato é que em seus 68 anos de vida, muito provavelmente, logo que aprendeu a falar, foi para reclamar de algo. Apesar das implicâncias com os “Delmiro”, Donato nunca teve nenhum tipo ligação partidária. Mesmo influenciando e dando alguma coragem para que outras poucas pessoas também criticassem os “Delmiro”,


Donato nunca cogitou sair candidato a nenhum cargo, nem mesmo a vereador, como alguns sugeriam quando era época de eleição municipal.

Para muitos moradores da pequena São Miguel dos Confins, tanto João Delmiro quanto Donato, costumam exagerar. Para muitos, os dois pecam pelo excesso: Donato nas reclamações, João nas mentiras.

Genivaldo caminha pelas ruas da cidade debaixo de um sol muito forte e causticante. Protegendo sua cabeça, apenas um boné. Ele segue torcendo que, por um ou outro motivo que seja, Donato não esteja na praça à sua espera para seguirem juntos até a prefeitura. Mas não deu nem tempo de chegar até a praça; do bar do Jeremias, Genivaldo ouviu a voz do amigo:

 Valdo!

Genivaldo continua caminhando até ser alcançado por Donato.

 Rapaz, mas tu visse a merda que fizeram em Torres, Valdo?

 Agora nós fica numa situação complicada, né – responde Genivaldo.

O bar do Jeremias fica numa esquina. Ele é o primeiro de outros pontos comerciais que compõem a principal rua da cidade. Um pouco antes do bar, fica a residência de Donato. O comércio de São Miguel dos Confins é muito deficiente. Alguns poucos pontos comerciais ou estão com as portas fechadas, ou estão apenas com os proprietários dentro. A maioria vende quinquilharias: capas de aparelhos celulares, fones de ouvidos, caixas de som, alicates de unha, tesouras. em frente à praça da igreja matriz, a uns 400 metros do bar do Jeremias, há o ponto comercial mais movimentado da cidade, depois de bares e botecos: a “FARMÁCIA IMPERIAL”, de propriedade de um dos “Delmiro”.

A praça, como pela manhã, ou qualquer outro horário do dia da semana, tem seus frequentadores assíduos. Muitos dos que estavam pela manhã, estavam ali na parte da tarde também. Outros já estavam concentrados em frente a Prefeitura Municipal, esperando por algum pronunciamento do prefeito. Donato e Genivaldo passam por uma calçada da praça, acenando para os conhecidos sem parar para conversar com nenhum deles. O destino é a Prefeitura. Ao chegarem lá, os portões estavam fechados e os funcionários explicando que o prefeito ainda não havia chegado.

 Faz tempo que tu aqui? pergunta Donato para uma homem.

 Rapaz, desde duas horas.

 E ninguém diz nada de Delmiro? questiona Genivaldo.

 Rapaz, sei não. Uma hora o povo diz uma coisa, outra hora diz outra. Eu já não sei mais de nada. Daqui a pouco eu vou é pra casa – responde o mesmo homem.

 Tu sabe o que o Delmiro devia fazer, Valdo? Devia arranjar um ônibus pra levar só gente da nossa idade pra ir pra Torres. Ir naquele ônibus da escola não dá certo – propõe Donato.

 E tu acha que ele vai se importar com a gente? Pra ele tanto faz a gente ir nesse ônibus véio de estudantes.

 Mas aí é que tá. Se fosse só os estudantes tava bom. O problema é que vai aquelas mulé com os pirraios; vai eles tudo berrando, quando não vomitam o ônibus todo, e a gente tem que vim no meio da catinga – reclama Donato.

 Bora esperar Delmiro chegar, pra ver se ele diz alguma coisa – comenta Genivaldo.

Com o passar do tempo, várias outras pessoas chegam até a frente do prédio da Prefeitura Municipal, um prédio antigo e mal conservado. Muitos, assim como Donato e Genivaldo, bem como suas respectivas esposas, são clientes do Banco Federal e necessitam sempre de uma ação urgente por parte da prefeitura em praticamente tudo, já que São Miguel não tem praticamente nada.

são mais de 16:30 quando a caminhonete luxuosa de cor prata de João Delmiro chega na rua da prefeitura. Lentamente, a população abre espaço e o veículo vai conseguindo se aproximar do prédio do órgão municipal. Tão logo a caminhonete estaciona, a porta se abre. João Delmiro então se equilibra com os pés no assoalho do veículo, apoiando um dos braços sobre a porta aberta e o outro sobre o teto. Automaticamente, vozes de homens, mulheres e crianças iniciam uma algazarra. Enquanto os adultos demonstram desespero sobre não terem mais a agência para poderem sacar e pagar suas contas, as crianças gritam palavrões e riem. João Delmiro faz um sinal, pedindo silêncio.

 Gente. Gente. Vamos cooperar, por favor – grita um dos funcionários da prefeitura. Vamos ouvir o que o prefeito tem pra dizer.

A algazarra continua.

 Tá. E nós vamos receber aposentadoria onde, cristão? – grita Donato.

 Minha gente. Vocês querem que eu explique ou não? – pede João Delmiro.

A população faz silêncio.

 Vamos ter um pouco de paciência. Não fácil pra ninguém. Todo canto acontecendo essas coisas de explodirem bancos e correios. Aqui a gente não tem esse problema explica o prefeito. E vocês sabem por quê?

Donato cutuca Genivaldo:

 Esse bosta vai falar de novo da história do bando de Lampião. Quer ver?

 Apesar de pequeno, nosso efetivo policial, sob comando do delegado Nogueira, é muito eficiente. Aqui, a gente bota ordem. Cadê que a gente vê gente fumando crack no meio da rua ou cheirando maconha, como acontece em Torres ou em Carmosina? O povo de lá não tem sossego; isso garanto pra vocês: a nossa segurança – explica o prefeito.

 Mas a gente tá querendo saber do banco, seu Delmiro! – grita Genivaldo.

 Tenha calma, homi. Eu vou explicar.

 E o que tem a ver cabra que fuma crack com quadrilha que explode banco? – questiona um outro homem.

João Delmiro se irrita com a pergunta.

 Eu vou tentar explicar bem direitinho pra vocês. Prestem atenção, pra depois não ficarem dizendo “seu Delmiro falou uma coisa e fez outra”, como muita gente aqui gosta de fazer. Torres é uma cidade grande, e lógico que tem mais problemas que a nossa cidade, que é menor. Eu aposto que, se a gente colocar um caixa eletrônico na cidade, não vai ter bandido que bote o pé aqui. É só lembrar de meu avô e a equipe da polícia, que em 1936 combateu o grupo de Lampião e não deixou que o seu bando tomasse a cidade.

Donato cutuca Genivaldo e diz:

 Ó aí. Não disse? Esse cabra vive mentindo com essa história. Severino de Chica passou a vida toda dizendo que isso era mentira e todo mundo duvidava dele.

Donato se vira para o prefeito e grita:

 . E enquanto o seu caixa eletrônico não vem até a cidade, como é que a gente fica?

Outro homem se exalta.

 Seu Delmiro, seu Delmiro. Daqui a pouco a gente vai ter que viajar pra capital pra poder receber a aposentadoria. Diz logo o que o senhor vai fazer.

 Rapaz, vocês são muito dramáticos ironiza, João Delmiro.

A população se revolta e uma gritaria se inicia.

 Esse porra fala isso porque vai pra todo canto de carro – Donato incentiva a população contra o prefeito.

 Tu fala isso porque tem carro com ar condicionado pra ir pros canto, Delmiro. Tu fala assim porque tem dinheiro grita Genivaldo.

 Eu tenho respeito pela sua pessoa, Genivaldo; vou desconsiderar isso que tu acabou de dizer. Gente! Minha gente! Enquanto ficar essa zoada fica difícil de falar reclama João Delmiro.

A algazarra diminui.

 Por enquanto, nós vamos ter que fazer sacrifício. O ônibus da escola vai continuar saindo daqui no mesmo horário. Ele vai deixar os menino em Torres e, de lá, ele vai até Santa Ângela pra levar vocês. Quem precisar pegar dinheiro, pega no correio de lá. Depois o ônibus volta pra Torres; quem precisar fazer feira faz lá. E depois, volta no ônibus da escola.

Novamente a algazarra começa.

 Oxe! E a gente vai perder uma manhã inteira, é? – reclama uma senhora idosa.

 Minha gente, eu vou me reunir agora e tratar de uns assuntos. Nós vamos arrumar uma solução. Eu não vou adiantar nada por enquanto. Mas até ter uma solução, o jeito vai ser ir pra Santa Ângela. E se não me engano tem outro caixa eletrônico em Torres. Vocês decidem onde tirar dinheiro.

João Delmiro bate a porta do veículo e corre para dentro da prefeitura. Uma pequena parte da população, revoltosa, reclama. “Esse fi-di-rapariga não vai resolver porra nenhuma”, diz Donato.

 Ele não disse que vai resolver? – indaga um homem para Donato, com um tom de ameaça.

Enquanto a população se dissipa, Donato discute com o homem.

 O que ele diz é o mesmo que nada, rapaz responde Donato.

Genivaldo puxa Donato pelo braço, percebendo que o outro homem está se exaltando. Ele é mais jovem; tem por volta de 40 anos.

 Bora, rapaz.

 Povo também só sabe criticar. Quando Delmiro faz alguma coisa boa, cadê que o povo vem aqui pra prefeitura pra agradecer? discursa o homem para a multidão.

se distanciando da multidão, Donato ainda continua irritado.

 Rapaz, eu não tenho nem tanta raiva de Delmiro. Eu tenho raiva desse povo abestalhado que fica bajulando ele.

 Mas tu não sabe que o povo é assim? Pra que se estressar? – aconselha Genivaldo. Bora lá pro bar do Jeremias.

E é exatamente isso o que os dois amigos fazem.

Jeremias é um homem pardo, calvo e de bigode fino e grisalho, que está sentado em uma cadeira. O seu bar é simples: cadeiras e mesas de metal dobráveis, um balcão expositor e armários de metal com bebidas.

Alguns homens estão sentados, bebendo e conversando. Quando Genivaldo e Donato entram, um deles questiona:

 E, então? O que Delmiro disse?

 A mesma ladainha de sempre responde Donato, irritado.

 Por isso que eu nem perco meu tempo de ir lá escutar ele falar bosta – responde o homem.

Logo outro homem entra na conversa.

 Oxe! Mas cês têm que ver que Delmiro é prefeito de São Miguel. Cês querem que ele seja responsável pelo que acontece em Torres, é?

 Tu fala isso porque não precisa ficar indo naquele ônibus porco pra pegar dinheiro e fazer feira – diz Donato, começando a se exaltar novamente.

 Se acalme, seu Donato. Não precisa se irritar, não – diz o homem que defendeu Delmiro.

 E agora tu acha que pra acreditar no que Delmiro diz, rapaz?  questiona o primeiro homem.

Jeremias que até o momento estava sentado se levanta.

 Bora parar com essa merda de conversa aqui! Quantas vezes eu já disse que não quero conversa de política aqui? Cês parece que gostam de criar confusão.

Delmiro e Donato, que já estavam acomodados numa mesa fazem um sinal para Jeremias, pedindo uma cerveja. O homem que questionou sobre o que João Delmiro falara se junta a eles.

 O que que ele disse? – cochicha. Donato, já irritado, comenta baixinho:

 Home, tu não sabe que aquilo mente com a porra?! Ele disse que ia botar um caixa eletrônico aqui. Valdo, Foi isso? – responde Donato, se virando para Genivaldo.

 Rapaz, sei não. Ele disse que se tivesse um caixa eletrônico aqui, nenhum bandido vinha explodir, porque a polícia não ia deixar.

 Aposto que ele falou daquele corno do avô dele, que expulsou Lampião. Não falou? – pergunta o homem.

Donato sorri.

 Rapaz, eu tenho 42 anos. Vovô cansou de dizer que isso era invenção da família de Delmiro explica o homem. Delmiro mente demais.

Jeremias chega com a cerveja.

 Puta que pariu. Cês tão falando de política de novo?

 Mas a gente falando baixo, seu Jeremias. Vai ter confusão não    explica o homem mais jovem.

Jeremias coloca a garrafa e os copos sobre a mesa e sai contrariado, balançando a cabeça e bastante irritado.

 Bora mudar de assunto que Jeremias já tá se irritando. Daqui a pouco ele pede pra gente ir embora daqui propõe Genivaldo.

Donato e o homem demonstram insatisfação pela proposta de Genivaldo. Todos se mantém calados por alguns instantes. Então, o homem pergunta para Donato:

 Seu Donato, tu visse o jogo do Flamengo ontem?

O homem que está na outra mesa e que defendeu João Delmiro anteriormente começa a rir.

 Flamengo? Aquilo é uma bosta! Perdeu foi de pouco.

Jeremias, sentado em sua cadeira, coloca a mão na testa e balança a cabeça.

 Puta que pariu! Agora vão falar de futebol. 

NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi

ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas

TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera

DIREÇÃO
Carlos Mota

PRODUÇÃO
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.



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