
Cena 1/Ext./Padaria Camões/Dia.
Maya, Dante e Sérgio descem do carro. Maya olha em
volta, estranhando o lugar.
MAYA
(pouco
caso) É aqui que você mora, Sérgio?
SÉRGIO
(simpático,
sarcástico) Achou que eu morava num palácio, senhorita Maya?
MAYA
(acha
graça) Claro que não.
SÉRGIO
(sorri) O
dono da padaria era amigo do meu pai. Quando cheguei ao Brasil vim procurar por
ele, que acolheu-me aqui. Moro num apartamento por cima da padaria.
DANTE
Pelo cheiro
delicioso, fome você não passa.
SÉRGIO
Não, mesmo.
Tudo que eles fazem é muito bom. Mas vamos entrar... Vou apresentar-vos a eles
e despedir-me.
Maya, Sérgio e Dante entram na padaria.
Corta Para:
Cena 2/Int./Padaria Camões/Dia.
Manuel está varrendo a padaria, Leonor está no
caixa, Sérgio se aproxima de Manuel.
SÉRGIO
(sorri) Bom
dia, senhor Manuel.
MANUEL
(receptivo)
Sérgio! Que bom que chegaste. Acabaram de sair uns pastéis de Belém.
SÉRGIO
Isso não
posso negar. Quero, sim, mas antes quero apresentar-lhe a filha e o sobrinho do
meu patrão.
Maya e Dante se aproximam.
SÉRGIO
Estes são a
Maya e o Dante. Vieram ajudar-me com a mudança. (para Maya e Dante) Este é o
meu amigo, o senhor Manuel.
MANUEL
Prazer em
conhecer-vos. Também querem pastéis de Belém?
MAYA
Eu até
diria que sim... Se eu soubesse o que é.
SÉRGIO
(sorri) Eu explico: é um doce tradicional português... uma
massa folhada crocante com creme de nata, gemas e açúcar. Quando sai quente do
forno, torna-se impossível comer um só.
DANTE
(achando gostoso) Com certeza, eu quero! Pode trazer uns
quatro para mim.
MAYA
(acha graça) Eu também quero, mas não quatro... Quero apenas
um.
SÉRGIO
Garanto-lhe que a senhorita vai gostar.
MAYA
(sorri) Eu tenho certeza que sim. Se é aprovado por você, realmente deve ser bom.
Sol entra apressada,
cansada.
SOL
Desculpa o atraso, pai. Eu tive que ficar mais um pouco no
curso.
Dante acha Sol
bonita, fica encantado.
MANUEL
Não faz mal, filha. Vai arranjar-te para ficares no lugar da
tua mãe.
SOL
Já vou. (para Sérgio) Então, você vai, mesmo, embora?
SÉRGIO
Vou, Sol, mas não vou deixar de vir aqui.
SOL
(sorri) Que bom! Te desejo toda sorte no novo emprego.
SÉRGIO
Obrigado! Sol, estes são a Maya e o Dante.
DANTE
(encantado) Sol... Que nome bonito, combina com você.
SOL
(sorri sem jeito) Obrigada!
MANUEL
Filha, vai buscar pastéis de Belém para eles. É tão difícil
estar sem mais alguém para ajudar aqui... Mal posso esperar por ter um
ajudante.
SÉRGIO
(pensativo) Sabe, Manuel... Acho que posso indicar-lhe alguém. Só preciso de confirmar com uma pessoa. Pode esperar até mais logo?
MANUEL
Esperei até agora... Enfim, vou
para trás do balcão. E tu, Sérgio, sabes que serás sempre bem-vindo aqui,
principalmente como meu sócio... Não entendo como alguém como tu prefere
trabalhar como motorista.
Sérgio fica sem
reação, Maya fica curiosa.
MAYA
(sorri um pouco) Alguém como ele?... Como assim?
SÉRGIO
(disfarça) Ele acha que eu me sairia bem como sócio dele, só
isso. Vamos sentar-nos e, depois de terminarmos de comer, vamos buscar algumas
coisas.
Corta Para:
Cena 3/Int./Mansão
Monteiro Diniz/Sala/Dia.
Estela está sentada
tomando vinho, Clara entra, está animada trazendo umas caixas, Elisa desce as
escadas.
CLARA
(feliz, empolgada) Elisa, meu amor, olha o que a mamãe foi
buscar.
Elisa se aproxima,
Clara abre as caixas.
CLARA
(animada) Os convites do seu casamento!
Clara segura a mão de
Elisa, as duas se sentam no sofá.
CLARA
(animada) Ficaram lindos demais, querida! Agora vamos pegar a
lista de convidados e ver se está tudo certo.
ELISA
(desanimada) Depois eu vejo isso, mamãe.
CLARA
(desfazendo o sorriso) Credo, Elisa... Que desânimo é esse,
minha filha? Até parece que não está ansiosa para o casamento.
ELISA
E não estou, mamãe... Para ser bem sincera, estou com
dúvidas.
CLARA
(assustada) Que dúvidas, Elisa? Para com isso. (volta ao
normal) Isso é nervosismo de noiva, é normal.
ELISA
Mamãe... Alguma vez você realmente me ouviu e prestou atenção
no que eu digo? Não é nervosismo de noiva; são dúvidas reais, mesmo. Álvaro e
eu somos muito diferentes... Eu acho que... Que nem o amo de verdade.
ESTELA
Elisa, vou ser sincera com você. O problema é que você ainda
vive como viúva de um homem com quem nem chegou a casar. E por isso você fica
colocando pedras no seu caminho.
ELISA
(inconformada) Não é nada disso, tia! Que absurdo!
Elisa se levanta.
ELISA
(nervosa) E mesmo se fosse isso, a vida é minha! E pedras é a
senhora que coloca, mas em seus pensamentos e no seu coração!
Elisa vai para a
cozinha, Clara encara Estela, a reprovando.
CLARA
Estela, você sabe muito bem que a minha filha passou por um
momento difícil.
ESTELA
Eu sei, mas já passou da hora dela acordar para a vida; e
você fica atenta, sua tonta. Elisa pode cancelar esse casamento a qualquer
momento. Não deixa. Álvaro é um excelente partido.
Clara fica pensativa
e preocupada.
Corta Para:
Cena 4/Int./Hospital/U.T.I/Dia.
Benício está
acordado, entediado, Lívia entra.
BENÍCIO
(sorri safado) Olha quem veio me visitar... A minha ficante
preferida.
LÍVIA
(inconformada, irritada) Nem assim você toma jeito né, Beny.
Tá aí todo arrebentado e falando porcaria. Nós (ênfase) fomos, ficantes. Agora
somos meros colegas.
BENÍCIO
(sorri) Você tá aqui... Veio me ver.
LÍVIA
Vim porque a minha mãe insistiu muito. Não sei por que mas
ela está tão preocupada com o alecrim dourado.
BENÍCIO
(ri) Confessa que você me ama, Lili.
LÍVIA
(irritada) Eu sou muito idiota por ter vindo. Tchau, Beny!
Lívia vai saindo.
BENÍCIO
Lívia, espera... Por favor.
Lívia volta, se
aproxima da cama de Benício.
LÍVIA
Para você ter pedido por favor, deve estar passando mal... O
que foi?
BENÍCIO
(sem jeito) Fica mais um pouco... Não aguento mais ficar aqui
sozinho e sem ter o que fazer.
LÍVIA
(pensativa) Tudo bem... Eu fico, mas só se você se comportar.
BENÍCIO
(sorri sarcástico) Não consigo me comportar por muito tempo,
mas vou tentar.
LÍVIA
Acho bom.
Lívia puxa uma
cadeira e se senta ao lado da cama de Benício.
Corta Para:
Cena
5/Int./Apartamento de Sérgio/Sala/dia.
Maya está olhando
pela janela, depois ela olha a sala, percebe que tem um baú preto perto da
porta, se aproxima curiosa, Sérgio vem do quarto trazendo duas malas.
SÉRGIO
Podemos ir.
MAYA
(olhando Sérgio nos olhos, curiosa) Sérgio... Você, realmente,
se conforma com essas coisas?
SÉRGIO
Que coisas?
MAYA
Olha em volta... Aqui não tem quase nada! Sinceramente, não
faz sentido...
SÉRGIO
A senhorita faz parte de uma família de classe alta, por isso
está impressionada com o que vê.
MAYA
(sorri um pouco) Não é isso... Você parece uma peça em um
quebra-cabeça que não se encaixa.
SÉRGIO
Lamento desapontá-la, senhorita,
mas eu sempre fui o que está a ver. Agora, vamos embora. O seu pai disse que
vou precisar de ir buscá-lo daqui a pouco.
Sérgio deixa as malas
no chão, pega o baú.
MAYA
O que tem aí?
SÉRGIO
Umas coisas velhas.
Sérgio vai saindo,
Maya sorri curiosa.
Corta Para:
Cena 6/Int./Mansão
Monteiro Diniz/Escritório/Dia.
Elisa está sentada, lendo
um livro de Fernando Pessoa, Berta entra trazendo uma bandeja com suco.
BERTA
Trouxe seu suco querida.
ELISA
E a Malu?
BERTA
Eu deixei aquela tagarela arrumando os quartos, quero falar
com você.
Elisa pega o suco,
toma um pouco.
BERTA
Você entrou no seu ateliê?
ELISA
Ainda não, Berta... Não tive coragem, mas eu vou entrar
quando for mostrar ele para o Sérgio.
BERTA
(estranha) Para o motorista? E por quê?
ELISA
Ele é o amigo que falei, Berta. Foi ele que me ajudou quando
tive a crise de pânico. Depois nos encontramos, por acaso, na Sala São Paulo,
conversamos bastante, descobrimos gostos em comum, enfim... Acabei falando que
eu pintava e ele quer ver meus quadros.
BERTA
(pensativa, sorri gostando) E é por causa dele que você está
mais leve, ultimamente?
ELISA
(sorri um pouco) Como assim, Berta?
BERTA
Ah, menina... Você não me engana! Te conheço desde que você
nasceu. Depois que esse rapaz apareceu, você não anda, flutua. Além de estar
enfrentando as pessoas, como sempre fez, desde pequena.
ELISA
(sorri tímida) Berta, você está vendo coisas demais. Como falei, Sérgio é um amigo.
BERTA
Se é assim... Que essa amizade dure muito, está te fazendo
bem.
Berta sai, Elisa
sorri, pensativa.
Corta Para:
Cena 7/Int./Mais
Tarde/Carro/Dia.
Sérgio está
dirigindo, Álvaro e Roberto estão conversando no banco de trás.
ROBERTO
Álvaro, eu quero que esse supermercado seja igual aos outros.
Só porque está num bairro pobre não precisa ser simples; quero manter o nosso
padrão.
ÁLVARO
(frio/prático) Roberto, sinceramente? Não vale a pena
investir tanto naquela unidade. O público dali procura preço baixo,
promoções... Não precisa dar pérolas aos porcos.
Roberto fica
pensativo. Sérgio está ouvindo discretamente enquanto dirige.
ROBERTO
Não fale assim, Álvaro. São seres humanos como nós... E eu
não sei se quero mudar o padrão.
O carro para em
frente a mansão, Roberto e Álvaro descem do carro, Sérgio desce em seguida, se
aproxima.
SÉRGIO
(com respeito) Posso dar uma opinião, senhor Roberto?
Álvaro sorri
debochado.
ÁLVARO
Você?... Além de ouvir conversa alheia, é capaz de opinar
sobre nossos negócios?
ROBERTO
Deixa ele falar, Álvaro... Fale, Sérgio.
SÉRGIO
Em Portugal, conheci pequenos
mercados que cresceram, justamente, porque tratavam bairros simples com mais
cuidado e não com menos... Quem trabalha muito e tem pouco dinheiro, talvez,
seja quem mais mereça entrar num lugar bonito, limpo e acolhedor. Isso cria
respeito... e o respeito cria fidelidade.
Álvaro ouve com
desprezo e deboche.
ROBERTO
(pensativo) É exatamente isso o que eu penso, Sérgio... O Grupo
Monteiro Diniz não olha classe social. (para Álvaro) Vamos manter o projeto
original. Quero o meu supermercado igual em todos os lugares.
Álvaro fica sério,
com raiva, encara Sérgio. Roberto coloca a mão no ombro de Sérgio.
ROBERTO
(sorri) obrigado, rapaz. Vamos entrar.
Sérgio e Roberto
entram.
ÁLVARO
(raiva) Eu preciso dar um jeito nesse português... Antes ele
era uma pedra no meu sapato, agora é uma pedra no meu caminho e eu vou chutar
para bem longe!
Corta Para:
Cena 8/Int./Portugal
– Lisboa/Palácio Castro Figueroa/Sala/Dia.
Gonçalo está em pé,
Manuela se aproxima.
MANUELA
Isso que é surpreendente... Você por aqui?
GONÇALO
Como vai, Manuela?
MANUELA
Ótima... Veio trazer-me notícias do seu amigo?
GONÇALO
De certa forma, sim... Mas, talvez, não vá gostar.
MANUELA
(sorri misteriosa) Diga... E vamos ver se vou gostar ou não.
GONÇALO
Manuela, chegou o momento de o António Sérgio assumir o lugar
dele na multinacional. Em poucos dias, tudo será legalmente dele.
MANUELA
(fica séria) Mas ele desapareceu, Gonçalo... E, com isso,
tudo o que o meu marido lhe deixou, fica comigo.
GONÇALO
(sorri) As coisas não são assim, Manuela. O António Sérgio
nunca disse que não aceita a herança, nem abriu mão dos negócios. Ele só não
quer ser encontrado pela senhora. Comigo ele fala.
MANUELA
(raiva) Então, onde diabos ele se meteu?
GONÇALO
Não vou dizer... Mas, a pedido
dele, vim avisá-la de que, em breve, ele vai assumir tudo o que o pai lhe
deixou.
Manuela encara
Gonçalo, com raiva.
Corta Para:
Cena 9/Int./Brasil –
São Paulo/Mansão Monteiro Diniz/Mais Tarde/Corredor dos quartos/Dia.
Elisa está parada em
frente a porta do ateliê, Sérgio se aproxima.
SÉRGIO
(sorri) Desculpe a demora, Elisa. Estava a arrumar as minhas
coisas.
ELISA
Tudo bem, Sérgio... Bem, o meu ateliê é aqui.
SÉRGIO
Elisa... Se não te sentires confortável para entrar aí, eu
compreendo. Espero que te sintas à vontade para me mostrares os teus quadros.
ELISA
(sorri) Esta porta está fechada há anos... Acho que agora é a
hora de abrir novamente.
SÉRGIO
(sorri) Então, vamos lá.
Elisa encara a porta,
está com receio, Sérgio segura a mão de Elisa, que observa a mão dele na sua, vira
a chave que está na porta, abrindo-a devagar. Estela sai de seu quarto, não
gosta de ver Elisa e Sérgio de mãos dadas.
ESTELA
(altiva) Mais que atrevimento é este? Se afaste da minha
sobrinha!
Sérgio e Elisa olham para Estela, estão surpresos.
Novela escrita por
Débora Costa
Releitura da Novela
Antônio Maria de Geraldo Vietri
Revisão de Texto
Eduardo Gouvêa
Elenco
Elisa
António Sérgio
Álvaro
Maya
Roberto
Clara
Manuela
Gonçalo
Benício
Lívia
Dante
Sol
Manuel
Leonor
Berta
Gustavo
Malu
Diana
Bruno (in memoriam)
Núcleo
Entretenimento em Foco
Trilha Sonora
Canção do Mar - Dulce Pontes
Produção
Bruno Olsen
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REALIZAÇÃO
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