EU TE AMO RAFAEL!
LUNA OBSERVAVA A LUA MINGUANTE PELA FRESTA
DA JANELA DA BIBLIOTECA, A LUZ FRACA MAL ILUMINANDO O INTERIOR.
Ao seu lado, o senhor Chico respirava pesadamente, como se o peso de suas
lembranças o afogasse. Ela ainda lutava para aceitar que Ademilson havia
conseguido prendê-la ali, sem resistência dos moradores, mesmo após seu
discurso. O vilarejo, silencioso em sua covardia, parecia cúmplice de seu
destino. Chico chorou por longos minutos, até que a solidão o envolveu,
arrastando-o para um estado de torpor. Nem ele, nem seu pai, escaparam da ira
do monstro.
Luna ouvia os passos pesados dos homens
rondando a biblioteca, mas sua mente estava com Rafael. A lembrança do rosto do
marido, desfeito em lágrimas, a sufocava mais que qualquer corrente.
— Como eu sinto sua falta, Rafael... —
sussurrou, com a voz quebrada.
Ela jamais imaginou estar presa no topo de
uma "torre," aguardando o "príncipe encantado," como em um
conto antigo. Mas aqui estava, cativa, não pela fantasia, mas por um pesadelo
vivo. O Homem de Olhos Vermelhos. Sempre ele. Maldito seja. Tudo poderia ter
sido diferente se, desde o início, tivesse convencido Rafael a deixarem aquele
lugar, ou se nunca tivesse se casado. Talvez assim, as feridas não estariam tão
abertas, e Rafael teria continuado sua vida sem jamais conhecer as sombras do
inferno.
Uma moeda escapou do bolso de Chico e caiu
no chão frio de cimento queimado, o som ecoando no espaço vazio. Ele se
ajeitou, tremendo com o frio da noite, mas era um frio diferente, como o sopro
da morte nas costas. Luna fechou os olhos por um momento e, nos minutos em que
adormeceu, sonhou com chamas — o fogo consumindo sua casa, queimando não apenas
as paredes, mas tudo o que ela havia sido.
LÚCIA!
LÚCIA!
LÚCIA!
LÚCIA!
Luna não queria que Rafael seguisse o
mesmo destino de Rubens, vagando pelos cantos da vida, consumido pela dor de
perder sua amada. Mas, no fundo, sabia que não havia outro caminho a ser
trilhado. Ela se levantou do chão com dificuldade, as pernas pesadas e
doloridas, clamando por descanso. O desejo de se entregar a um sono profundo
era quase irresistível, mas seus olhos continuavam fixos na lua.
Aquela lua minguante parecia refletir a
própria alma de Luna, como se estivesse observando a si mesma, vendo sua vida
se aproximar de um precipício. A queda era iminente, e ela sabia que não havia
como evitar. A lua, fria e distante, iluminava o caminho sombrio à sua frente,
um caminho do qual ela não poderia escapar.
— Preciso de apenas uma resposta...
Antes que pudesse terminar seus
pensamentos, o som dos corpos sendo brutalmente arremessados contra as paredes
ecoou pelo ambiente. Luna não conseguia entender o que estava acontecendo do
lado de fora, apenas ouvia o eco surdo dos tiros. O ar ao redor dela ficava
cada vez mais gelado, como se a própria morte estivesse se aproximando. Quando
o último homem caiu, e seu sangue foi violentamente arrancado do pescoço, Luna
sentiu o gosto metálico encher sua boca, causando-lhe náuseas. Sua barriga se
revirou, e por um instante, ela achou que iria vomitar.
— O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — Chico, em
pânico, levantou-se do chão e se escondeu atrás de Luna, murmurando uma oração.
Mas Luna sabia que não havia mais escapatória. Seu tempo havia chegado, e o
peso de seus pecados, de alguma forma, já era evidente.
A porta da biblioteca foi arrancada de
suas dobradiças com um estrondo. O vestido de Luna foi puxado pelo vento que
invadiu o recinto. Ela caminhou lentamente, cada passo parecendo selar seu
destino, enquanto o Homem de Olhos Vermelhos surgia diante dela. Quando ele se
ajoelhou, ela o olhou como alguém que contempla uma obra-prima roubada, um
ladrão admirando sua própria criação. Ela sabia que a penitência final estava
próxima.
Um sorriso irônico tomou conta dos lábios
de Luna, quando o grito desesperado de Chico rasgou o silêncio da noite, como
um último suspiro de justiça tardia. Lúcia, enfim, havia sido vingada, mesmo
após mais de vinte anos de dor e escuridão.
Luna continuou seu caminho, cada passo
ecoando no vazio da madrugada. Era mais de uma hora da manhã, e as luzes dos
postes ao longo da rua piscavam de maneira intermitente, como se hesitassem em
iluminar aquele momento sombrio. Nos becos e janelas escuras, olhares furtivos
se escondiam, espreitando por entre as sombras. Malditos. Todos eles iguais,
cúmplices e medrosos, vivendo na penumbra de suas próprias culpas. Mas Luna
sabia que, entre eles, havia inocentes, e não mais uma gota de sangue poderia
ser derramada sem razão.
Os pensamentos de Luna rodopiavam como uma tempestade, tão densa e imprevisível quanto a própria escuridão que a cercava. Cada vez mais, o caminho à sua frente parecia fechar-se, devorando-a com as sombras que se tornavam parte de seus próprios olhos. Ela caminhava, imersa em um mundo que a isolava, cada vez mais distante de tudo o que um dia conheceu como certo.
※※※※
— Eu te amo, Rafael.
As palavras de Luna pareciam ressoar no
quarto, embora Rafael estivesse deitado na cama, alheio à dor invisível que ela
carregava. Aquele lar, que antes abrigava seus momentos mais felizes, agora era
um reflexo cruel das memórias que jamais poderia recuperar. Foi naquela cozinha
que desembrulhou sua primeira caixa de panelas, onde preparou incontáveis cafés
da manhã, e naquele sofá onde, exausta, adormeceu pela primeira vez, sentindo o
carinho inocente de Bob. Naquela cama, ela havia vivido sua primeira noite de
prazer, e ao lado de Rafael, sentiu-se única, amada.
Mas, na beira do penhasco, foi ali que conheceu a verdadeira morte. No coração da floresta, o Homem de Olhos Vermelhos havia reivindicado sua alma, tornando-a uma maldita hospedeira. Agora, mesmo viva, Luna sabia que estava condenada. Fugir de Vale Verde seria inútil; sua alma estava irremediavelmente corrompida. A morte era a única promessa de paz que restava, o brilho tênue no final de um túnel escuro e interminável.
※※※※
A noite permanecia quieta, o vento gélido
cortava o ar com um sussurro áspero, trazendo um frio que parecia penetrar até
os ossos. A lua minguante, pálida e distante, pairava no céu como uma
testemunha silenciosa. Cada passo de Luna sobre o solo úmido parecia um
desafio, o peso de sua decisão a arrastando como se a própria terra tentasse
impedi-la de seguir. Suas mãos, firmes no galão de gasolina, tremiam levemente
enquanto o líquido escorria sobre seu corpo, encharcando cada parte de si.
O cheiro da gasolina se misturava ao ar da
madrugada, criando uma atmosfera sufocante. A respiração de Luna era lenta,
pesada, enquanto sentia a inevitabilidade de seu destino. Dor e alívio se
misturavam em seu peito, formando um fardo que ela carregava com resignação.
Não havia retorno.
Uma sombra surgiu no limiar da porta.
Rafael, com o olhar desesperado, estava paralisado pela cena à sua frente. Seus
olhos, arregalados de horror, refletiam o brilho fraco da lua.
— Luna, não... — sua voz saiu em um fio,
quebrada, os lábios tremendo de medo. Ele estendeu as mãos, implorando
silenciosamente por uma mudança. Seus joelhos cederam, e ele caiu, impotente, o
corpo sacudido por soluços.
Luna o observou por um instante, sentindo
uma pontada de dor, que logo foi substituída pela certeza inabalável do que
precisava fazer. Ela manteve o olhar fixo nele, como se quisesse gravar seu
rosto para sempre em sua memória.
— Eu te amo, Rafael... sempre te amei — as
palavras saíram quase como um sussurro, carregavam todo o peso de sua verdade.
Sem hesitar, Luna acendeu o isqueiro.
O fogo irrompeu em um rugido implacável,
serpenteando por seu corpo com uma rapidez desnivelada. As chamas subiram
ferozmente, envolvendo-a na brasa do inferno. O calor era sufocante, porém Luna
permaneceu em silêncio, os olhos fixos em Rafael, que observava com o rosto
molhado de lágrimas, preso pela dor e pelo terror. Ele gritava, impotente,
incapaz de mover um músculo, como se o próprio ar ao redor o aprisionasse.
O som de outro grito ecoou na noite. O
Homem de Olhos Vermelhos, oculto nas sombras, lançou um urro ensurdecedor, um
som que parecia vir das profundezas da terra. Sua figura se contorcia, os olhos
flamejantes agora cheios de ódio e desespero. Ele vacilava, sentindo o vínculo
que o mantinha com Luna se romper de forma brutal. A dor de perder sua
hospedeira o consumia por dentro, corroendo sua força.
O grito da criatura rasgava a noite,
preenchendo o ar até que, lentamente, começou a enfraquecer. O monstro caiu de
joelhos, impotente diante do sacrifício de Luna, enquanto as chamas a consumiam
por completo. A lua, até então silenciosa testemunha, pareceu se esconder atrás
de nuvens densas, recusando-se a assistir ao fim daquele terror.
Luna, envolta em chamas, mantinha o olhar
calmo, quase sereno, até o último momento. Em seus olhos, não havia mais medo,
apenas a certeza de que seu sacrifício havia libertado Rafael e Vale Verde do
mal. As chamas continuaram a arder até que seu corpo não fosse mais nada além
de cinzas, levadas pelo vento que soprava frio, carregando o fim da maldição.
Rafael, ainda ajoelhado, soluçava
incontrolavelmente. O som de sua dor ecoava na escuridão, enquanto o grito do
Homem de Olhos Vermelhos finalmente desaparecia, deixando apenas um silêncio
opressivo na floresta.
O ciclo havia sido quebrado, mas o preço
era irreversível.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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