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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 30 (Último Capítulo)

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 30

EU TE AMO RAFAEL!

LUNA OBSERVAVA A LUA MINGUANTE PELA FRESTA DA JANELA DA BIBLIOTECA, A LUZ FRACA MAL ILUMINANDO O INTERIOR. Ao seu lado, o senhor Chico respirava pesadamente, como se o peso de suas lembranças o afogasse. Ela ainda lutava para aceitar que Ademilson havia conseguido prendê-la ali, sem resistência dos moradores, mesmo após seu discurso. O vilarejo, silencioso em sua covardia, parecia cúmplice de seu destino. Chico chorou por longos minutos, até que a solidão o envolveu, arrastando-o para um estado de torpor. Nem ele, nem seu pai, escaparam da ira do monstro.

Luna ouvia os passos pesados dos homens rondando a biblioteca, mas sua mente estava com Rafael. A lembrança do rosto do marido, desfeito em lágrimas, a sufocava mais que qualquer corrente.

— Como eu sinto sua falta, Rafael... — sussurrou, com a voz quebrada.

Ela jamais imaginou estar presa no topo de uma "torre," aguardando o "príncipe encantado," como em um conto antigo. Mas aqui estava, cativa, não pela fantasia, mas por um pesadelo vivo. O Homem de Olhos Vermelhos. Sempre ele. Maldito seja. Tudo poderia ter sido diferente se, desde o início, tivesse convencido Rafael a deixarem aquele lugar, ou se nunca tivesse se casado. Talvez assim, as feridas não estariam tão abertas, e Rafael teria continuado sua vida sem jamais conhecer as sombras do inferno.

Uma moeda escapou do bolso de Chico e caiu no chão frio de cimento queimado, o som ecoando no espaço vazio. Ele se ajeitou, tremendo com o frio da noite, mas era um frio diferente, como o sopro da morte nas costas. Luna fechou os olhos por um momento e, nos minutos em que adormeceu, sonhou com chamas — o fogo consumindo sua casa, queimando não apenas as paredes, mas tudo o que ela havia sido.

LÚCIA!

LÚCIA!

LÚCIA!

LÚCIA!

Luna não queria que Rafael seguisse o mesmo destino de Rubens, vagando pelos cantos da vida, consumido pela dor de perder sua amada. Mas, no fundo, sabia que não havia outro caminho a ser trilhado. Ela se levantou do chão com dificuldade, as pernas pesadas e doloridas, clamando por descanso. O desejo de se entregar a um sono profundo era quase irresistível, mas seus olhos continuavam fixos na lua.

Aquela lua minguante parecia refletir a própria alma de Luna, como se estivesse observando a si mesma, vendo sua vida se aproximar de um precipício. A queda era iminente, e ela sabia que não havia como evitar. A lua, fria e distante, iluminava o caminho sombrio à sua frente, um caminho do qual ela não poderia escapar.

— Preciso de apenas uma resposta...

Antes que pudesse terminar seus pensamentos, o som dos corpos sendo brutalmente arremessados contra as paredes ecoou pelo ambiente. Luna não conseguia entender o que estava acontecendo do lado de fora, apenas ouvia o eco surdo dos tiros. O ar ao redor dela ficava cada vez mais gelado, como se a própria morte estivesse se aproximando. Quando o último homem caiu, e seu sangue foi violentamente arrancado do pescoço, Luna sentiu o gosto metálico encher sua boca, causando-lhe náuseas. Sua barriga se revirou, e por um instante, ela achou que iria vomitar.

— O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — Chico, em pânico, levantou-se do chão e se escondeu atrás de Luna, murmurando uma oração. Mas Luna sabia que não havia mais escapatória. Seu tempo havia chegado, e o peso de seus pecados, de alguma forma, já era evidente.

A porta da biblioteca foi arrancada de suas dobradiças com um estrondo. O vestido de Luna foi puxado pelo vento que invadiu o recinto. Ela caminhou lentamente, cada passo parecendo selar seu destino, enquanto o Homem de Olhos Vermelhos surgia diante dela. Quando ele se ajoelhou, ela o olhou como alguém que contempla uma obra-prima roubada, um ladrão admirando sua própria criação. Ela sabia que a penitência final estava próxima.

Um sorriso irônico tomou conta dos lábios de Luna, quando o grito desesperado de Chico rasgou o silêncio da noite, como um último suspiro de justiça tardia. Lúcia, enfim, havia sido vingada, mesmo após mais de vinte anos de dor e escuridão.

Luna continuou seu caminho, cada passo ecoando no vazio da madrugada. Era mais de uma hora da manhã, e as luzes dos postes ao longo da rua piscavam de maneira intermitente, como se hesitassem em iluminar aquele momento sombrio. Nos becos e janelas escuras, olhares furtivos se escondiam, espreitando por entre as sombras. Malditos. Todos eles iguais, cúmplices e medrosos, vivendo na penumbra de suas próprias culpas. Mas Luna sabia que, entre eles, havia inocentes, e não mais uma gota de sangue poderia ser derramada sem razão.

Os pensamentos de Luna rodopiavam como uma tempestade, tão densa e imprevisível quanto a própria escuridão que a cercava. Cada vez mais, o caminho à sua frente parecia fechar-se, devorando-a com as sombras que se tornavam parte de seus próprios olhos. Ela caminhava, imersa em um mundo que a isolava, cada vez mais distante de tudo o que um dia conheceu como certo. 

※※※※

— Eu te amo, Rafael.

As palavras de Luna pareciam ressoar no quarto, embora Rafael estivesse deitado na cama, alheio à dor invisível que ela carregava. Aquele lar, que antes abrigava seus momentos mais felizes, agora era um reflexo cruel das memórias que jamais poderia recuperar. Foi naquela cozinha que desembrulhou sua primeira caixa de panelas, onde preparou incontáveis cafés da manhã, e naquele sofá onde, exausta, adormeceu pela primeira vez, sentindo o carinho inocente de Bob. Naquela cama, ela havia vivido sua primeira noite de prazer, e ao lado de Rafael, sentiu-se única, amada.

Mas, na beira do penhasco, foi ali que conheceu a verdadeira morte. No coração da floresta, o Homem de Olhos Vermelhos havia reivindicado sua alma, tornando-a uma maldita hospedeira. Agora, mesmo viva, Luna sabia que estava condenada. Fugir de Vale Verde seria inútil; sua alma estava irremediavelmente corrompida. A morte era a única promessa de paz que restava, o brilho tênue no final de um túnel escuro e interminável. 

※※※※

A noite permanecia quieta, o vento gélido cortava o ar com um sussurro áspero, trazendo um frio que parecia penetrar até os ossos. A lua minguante, pálida e distante, pairava no céu como uma testemunha silenciosa. Cada passo de Luna sobre o solo úmido parecia um desafio, o peso de sua decisão a arrastando como se a própria terra tentasse impedi-la de seguir. Suas mãos, firmes no galão de gasolina, tremiam levemente enquanto o líquido escorria sobre seu corpo, encharcando cada parte de si.

O cheiro da gasolina se misturava ao ar da madrugada, criando uma atmosfera sufocante. A respiração de Luna era lenta, pesada, enquanto sentia a inevitabilidade de seu destino. Dor e alívio se misturavam em seu peito, formando um fardo que ela carregava com resignação. Não havia retorno.

Uma sombra surgiu no limiar da porta. Rafael, com o olhar desesperado, estava paralisado pela cena à sua frente. Seus olhos, arregalados de horror, refletiam o brilho fraco da lua.

— Luna, não... — sua voz saiu em um fio, quebrada, os lábios tremendo de medo. Ele estendeu as mãos, implorando silenciosamente por uma mudança. Seus joelhos cederam, e ele caiu, impotente, o corpo sacudido por soluços.

Luna o observou por um instante, sentindo uma pontada de dor, que logo foi substituída pela certeza inabalável do que precisava fazer. Ela manteve o olhar fixo nele, como se quisesse gravar seu rosto para sempre em sua memória.

— Eu te amo, Rafael... sempre te amei — as palavras saíram quase como um sussurro, carregavam todo o peso de sua verdade.

Sem hesitar, Luna acendeu o isqueiro.

O fogo irrompeu em um rugido implacável, serpenteando por seu corpo com uma rapidez desnivelada. As chamas subiram ferozmente, envolvendo-a na brasa do inferno. O calor era sufocante, porém Luna permaneceu em silêncio, os olhos fixos em Rafael, que observava com o rosto molhado de lágrimas, preso pela dor e pelo terror. Ele gritava, impotente, incapaz de mover um músculo, como se o próprio ar ao redor o aprisionasse.

O som de outro grito ecoou na noite. O Homem de Olhos Vermelhos, oculto nas sombras, lançou um urro ensurdecedor, um som que parecia vir das profundezas da terra. Sua figura se contorcia, os olhos flamejantes agora cheios de ódio e desespero. Ele vacilava, sentindo o vínculo que o mantinha com Luna se romper de forma brutal. A dor de perder sua hospedeira o consumia por dentro, corroendo sua força.

O grito da criatura rasgava a noite, preenchendo o ar até que, lentamente, começou a enfraquecer. O monstro caiu de joelhos, impotente diante do sacrifício de Luna, enquanto as chamas a consumiam por completo. A lua, até então silenciosa testemunha, pareceu se esconder atrás de nuvens densas, recusando-se a assistir ao fim daquele terror.

Luna, envolta em chamas, mantinha o olhar calmo, quase sereno, até o último momento. Em seus olhos, não havia mais medo, apenas a certeza de que seu sacrifício havia libertado Rafael e Vale Verde do mal. As chamas continuaram a arder até que seu corpo não fosse mais nada além de cinzas, levadas pelo vento que soprava frio, carregando o fim da maldição.

Rafael, ainda ajoelhado, soluçava incontrolavelmente. O som de sua dor ecoava na escuridão, enquanto o grito do Homem de Olhos Vermelhos finalmente desaparecia, deixando apenas um silêncio opressivo na floresta.

O ciclo havia sido quebrado, mas o preço era irreversível.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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