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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 26

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 26

CORDÃO UMBILICAL

Luna permaneceu no velho balanço pendurado no pé de eugenia, suas mãos apertando as cordas gastas enquanto o vento brincava com suas madeixas onduladas. A brisa que costumava trazer paz agora carregava um peso insuportável, como se sussurrasse temores que ela desejava esquecer. Sua barriga, agora em visível formação, é um lembrete constante de algo sombrio e sem vida, que não deveria estar ali. A sensação de estar aprisionada em seu próprio corpo a consumia, cada movimento do ser que se nutria de seu sangue se transformava em uma lembrança dolorosa de que aquilo não era fruto do amor que compartilhava com Rafael. Era uma invasão, uma violação de tudo que ela acreditava ser sagrado.

Enquanto observava as galinhas correndo em direção ao milho jogado pelo empregado da família Castro, uma sensação fria percorreu sua espinha. De repente, um movimento lento e deliberado começou em sua barriga, como se o ser dentro dela estivesse se agitando, reivindicando seu espaço. Luna ofegou, o desconforto crescendo até se transformar em algo estranho. Então, do nada, sentiu uma umidade fria em seu peito, um líquido escorrendo lentamente por sua pele. Seus olhos se arregalaram em pânico ao perceber o que era.

Luna se levantou lentamente, seus pés descalços tocando o chão frio enquanto o som das galinhas correndo e o farfalhar das folhas pareciam distantes, quase irreais. O peso em sua barriga tornava cada movimento uma luta, porém o horror de sua condição era muito mais opressor. O líquido escuro que escorria de seus seios não era um simples sinal de gravidez, sobretudo uma evidência de algo profundamente errado, uma corrupção silenciosa que estava tomando conta de seu corpo. Ao se olhar no espelho do banheiro, ela mal reconheceu a mulher que a encarava de volta. Suas estrias pareciam cicatrizes de uma batalha interna, e o sutiã manchado com o líquido negro era um testemunho sombrio do que estava se desenvolvendo dentro dela. Não era leite; era algo antinatural, como uma mistura de sangue e veneno, algo que não deveria existir.

Luna continuou debaixo do chuveiro, as gotas d’água se misturando ao suor frio que escorria por sua pele. Cada vez que sentia o movimento em sua barriga, um arrepio de medo corria por sua espinha. Ela estava sendo transformada em algo que não compreendia, um receptáculo para uma força maligna que se alimentava de sua vida. A água quente não conseguia aquecer a frieza que se alojava em seu coração. As palavras “VOCÊ É A MINHA HOSPEDEIRA!” ecoavam em sua mente, repetidas por aquele timbre masculino que a assombrava.

O rosto do Homem de Olhos Vermelhos continuava a surgir em seus pesadelos, um espectro que não a deixava em paz, sugando cada grama de esperança que ela ainda tentava manter viva. Cada batida de seu coração parecia um passo mais perto de um destino inescapável. Ela se sentia encurralada, não apenas pelo monstro dentro de si, também pela escuridão que parecia cercar o vilarejo, como uma sombra crescente prestes a engolir tudo e todos que amava. O futuro era um abismo, e Luna estava à beira de cair, sem ninguém para segurá-la.

— Faltam poucos dias, minha filha — disse Dona Mocinha, com uma voz suave, segurando as mãos trêmulas de Luna. A jovem permanecia estática, os olhos fixos na janela, mas sua mente parecia estar a quilômetros dali, perdida em um abismo de medo e desespero. Ela já não era mais a mesma, estava sendo sugada para o vazio, um pedaço de sua alma arrancado a cada dia que passava. — A Lúcia também passou por essas mesmas sensações, minha querida. Mas faremos de tudo para que a cidade esteja ao seu lado. Iremos arrancar esse mal de dentro de você, e em breve, você estará livre...

Luna sentiu as mãos frias de Dona Mocinha apertando as suas, contudo a sensação de conforto que a senhora tentava transmitir não conseguia romper o muro de desespero que a cercava. Ela permanecia imóvel, os olhos fixos na janela, mas o que enxergava não era a paisagem lá fora; era o nada dentro de si. Suas palavras saíram arrastadas, como se tivessem sido puxadas de um poço.

— Eu não sei se um dia serei realmente livre, Dona Mocinha. A marca desse inferno está gravada na minha alma, e ela nunca vai desaparecer. Isso me quebrou, esse lugar destruiu tudo que eu era. Não consigo mais enxergar um futuro, não tenho mais desejo de viver. Todas as noites, eu penso... o mundo não ficaria melhor sem mim? Se eu morresse agora, essa maldição não continuaria.

Dona Mocinha respirou fundo, tentando segurar o peso daquelas palavras. Ela sabia que nada do que dissesse poderia realmente aliviar a dor de Luna, mas tentou, mesmo assim.

 — Luna, mesmo que você se vá, a maldição não acabaria. Ele encontraria outra mulher, outra vida para destruir.

— Mas por que eu? — sussurrou Luna, com a voz trêmula, quase inaudível. — Por que tinha que ser comigo?

Dona Mocinha sentiu o peso daquela pergunta cair sobre ela como uma pedra. As palavras de Luna ecoaram em sua mente, enquanto a imagem de sua amiga Lúcia se misturava com a jovem à sua frente. Por um breve instante, era como se Lúcia e Luna fossem uma só, vítimas de uma maldição que não faz distinção entre o passado e o presente. O coração de Dona Mocinha apertou ao perceber que o brilho de Luna, outrora tão vibrante, estava desaparecendo, apagado lentamente pela escuridão que a cercava. Ela sabia que a jovem não merecia aquele destino, porém temia que a história estivesse prestes a se repetir.

No final daquela tarde, Luna ouviu a voz do patriarca através da linha do telefone, e seus olhos marejaram de tristeza, um desejo desesperado de estar ao lado do pai, pelo menos mais uma vez. Ele sempre fora seu melhor amigo, sua rocha em momentos difíceis, agora estava tão distante, justamente quando ela mais precisava dele. A saudade apertava ainda mais ao ouvir a voz de Odete, a matriarca, que, de repente, parecia ter se transformado em outra pessoa. Luna se perguntava como sua mãe podia seguir em frente, como se o passado não tivesse existido, como se as cicatrizes da vida tivessem sido apagadas.

Odete, a quem Luna tantas vezes julgara por sua frieza, agora parecia ter se tornado uma vítima do destino, uma mulher que, à força, aprendera a ser mãe. Luna sentia-se conectada àquela dor, vendo sua própria história refletida nos olhos da mãe. Sobretudo, ao contrário de Odete, Luna desejava que o ser que crescia dentro dela nunca visse a luz do dia. O ódio fervia em seu coração, e ela sonhava, que aquele demônio nascesse morto, degolado pelo próprio cordão umbilical.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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