CORDÃO
UMBILICAL
Luna permaneceu no
velho balanço pendurado no pé de eugenia, suas mãos apertando as cordas gastas
enquanto o vento brincava com suas madeixas onduladas. A brisa que costumava
trazer paz agora carregava um peso insuportável, como se sussurrasse temores
que ela desejava esquecer. Sua barriga, agora em visível formação, é um
lembrete constante de algo sombrio e sem vida, que não deveria estar ali. A
sensação de estar aprisionada em seu próprio corpo a consumia, cada movimento
do ser que se nutria de seu sangue se transformava em uma lembrança dolorosa de
que aquilo não era fruto do amor que compartilhava com Rafael. Era uma invasão,
uma violação de tudo que ela acreditava ser sagrado.
Enquanto observava
as galinhas correndo em direção ao milho jogado pelo empregado da família
Castro, uma sensação fria percorreu sua espinha. De repente, um movimento lento
e deliberado começou em sua barriga, como se o ser dentro dela estivesse se
agitando, reivindicando seu espaço. Luna ofegou, o desconforto crescendo até se
transformar em algo estranho. Então, do nada, sentiu uma umidade fria em seu
peito, um líquido escorrendo lentamente por sua pele. Seus olhos se arregalaram
em pânico ao perceber o que era.
Luna se levantou
lentamente, seus pés descalços tocando o chão frio enquanto o som das galinhas
correndo e o farfalhar das folhas pareciam distantes, quase irreais. O peso em
sua barriga tornava cada movimento uma luta, porém o horror de sua condição era
muito mais opressor. O líquido escuro que escorria de seus seios não era um
simples sinal de gravidez, sobretudo uma evidência de algo profundamente
errado, uma corrupção silenciosa que estava tomando conta de seu corpo. Ao se
olhar no espelho do banheiro, ela mal reconheceu a mulher que a encarava de
volta. Suas estrias pareciam cicatrizes de uma batalha interna, e o sutiã
manchado com o líquido negro era um testemunho sombrio do que estava se
desenvolvendo dentro dela. Não era leite; era algo antinatural, como uma
mistura de sangue e veneno, algo que não deveria existir.
Luna continuou debaixo do chuveiro, as
gotas d’água se misturando ao suor frio que escorria por sua pele. Cada vez que
sentia o movimento em sua barriga, um arrepio de medo corria por sua espinha.
Ela estava sendo transformada em algo que não compreendia, um receptáculo para
uma força maligna que se alimentava de sua vida. A água quente não conseguia
aquecer a frieza que se alojava em seu coração. As palavras “VOCÊ É A MINHA
HOSPEDEIRA!” ecoavam em sua mente, repetidas por aquele timbre masculino
que a assombrava.
O rosto do Homem de Olhos Vermelhos
continuava a surgir em seus pesadelos, um espectro que não a deixava em paz,
sugando cada grama de esperança que ela ainda tentava manter viva. Cada batida
de seu coração parecia um passo mais perto de um destino inescapável. Ela se
sentia encurralada, não apenas pelo monstro dentro de si, também pela escuridão
que parecia cercar o vilarejo, como uma sombra crescente prestes a engolir tudo
e todos que amava. O futuro era um abismo, e Luna estava à beira de cair, sem ninguém
para segurá-la.
— Faltam poucos
dias, minha filha — disse Dona Mocinha, com uma voz suave, segurando as mãos
trêmulas de Luna. A jovem permanecia estática, os olhos fixos na janela, mas
sua mente parecia estar a quilômetros dali, perdida em um abismo de medo e
desespero. Ela já não era mais a mesma, estava sendo sugada para o vazio, um
pedaço de sua alma arrancado a cada dia que passava. — A Lúcia também passou
por essas mesmas sensações, minha querida. Mas faremos de tudo para que a
cidade esteja ao seu lado. Iremos arrancar esse mal de dentro de você, e em
breve, você estará livre...
Luna sentiu as
mãos frias de Dona Mocinha apertando as suas, contudo a sensação de conforto
que a senhora tentava transmitir não conseguia romper o muro de desespero que a
cercava. Ela permanecia imóvel, os olhos fixos na janela, mas o que enxergava
não era a paisagem lá fora; era o nada dentro de si. Suas palavras saíram
arrastadas, como se tivessem sido puxadas de um poço.
— Eu não sei se um
dia serei realmente livre, Dona Mocinha. A marca desse inferno está gravada na
minha alma, e ela nunca vai desaparecer. Isso me quebrou, esse lugar destruiu
tudo que eu era. Não consigo mais enxergar um futuro, não tenho mais desejo de
viver. Todas as noites, eu penso... o mundo não ficaria melhor sem mim? Se eu
morresse agora, essa maldição não continuaria.
Dona Mocinha
respirou fundo, tentando segurar o peso daquelas palavras. Ela sabia que nada
do que dissesse poderia realmente aliviar a dor de Luna, mas tentou, mesmo
assim.
— Luna, mesmo que você se vá, a maldição não
acabaria. Ele encontraria outra mulher, outra vida para destruir.
— Mas por que eu?
— sussurrou Luna, com a voz trêmula, quase inaudível. — Por que tinha que ser
comigo?
Dona Mocinha sentiu o peso daquela
pergunta cair sobre ela como uma pedra. As palavras de Luna ecoaram em sua
mente, enquanto a imagem de sua amiga Lúcia se misturava com a jovem à sua
frente. Por um breve instante, era como se Lúcia e Luna fossem uma só, vítimas
de uma maldição que não faz distinção entre o passado e o presente. O coração
de Dona Mocinha apertou ao perceber que o brilho de Luna, outrora tão vibrante,
estava desaparecendo, apagado lentamente pela escuridão que a cercava. Ela
sabia que a jovem não merecia aquele destino, porém temia que a história
estivesse prestes a se repetir.
No final daquela tarde, Luna ouviu a voz
do patriarca através da linha do telefone, e seus olhos marejaram de tristeza,
um desejo desesperado de estar ao lado do pai, pelo menos mais uma vez. Ele
sempre fora seu melhor amigo, sua rocha em momentos difíceis, agora estava tão
distante, justamente quando ela mais precisava dele. A saudade apertava ainda
mais ao ouvir a voz de Odete, a matriarca, que, de repente, parecia ter se
transformado em outra pessoa. Luna se perguntava como sua mãe podia seguir em
frente, como se o passado não tivesse existido, como se as cicatrizes da vida
tivessem sido apagadas.
Odete, a quem Luna tantas vezes julgara
por sua frieza, agora parecia ter se tornado uma vítima do destino, uma mulher
que, à força, aprendera a ser mãe. Luna sentia-se conectada àquela dor, vendo
sua própria história refletida nos olhos da mãe. Sobretudo, ao contrário de
Odete, Luna desejava que o ser que crescia dentro dela nunca visse a luz do
dia. O ódio fervia em seu coração, e ela sonhava, que aquele demônio nascesse
morto, degolado pelo próprio cordão umbilical.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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