OS OLHOS VERMELHOS
O primeiro som foi sutil, um eco abafado
que se mesclava ao sono, como um sussurro vindo do além. Era um murmúrio
distante, perdido entre as sombras que habitam os cantos da madrugada. Mas, ao
norte do céu e ao oeste do inferno, o homem se remexeu sob os lençóis, o calor
escorrendo por sua testa em gotas lentas e sufocantes.
Quando o segundo barulho atravessou as
paredes da casa, era alto demais para ser um sonho ou delírio. O estrondo
reverberou nos ossos de Ademilson, arrancando-o da cama com um sobressalto. Ele
estendeu a mão trêmula para o copo de água sobre a mesa de cabeceira, tentando
acalmar os nervos enquanto seus olhos piscavam, ajustando-se à penumbra da
manhã. O relógio marcava quase seis horas, o sol recém-nascido ainda tingia o
horizonte com tons pálidos.
O susto o levou a vestir a primeira roupa
que encontrou jogada no chão — uma calça amassada e uma camisa desbotada. Ele
tropeçou pelos cômodos escuros da casa inacabada, o piso de concreto frio sob
os pés descalços, as paredes sem reboco revelando a aspereza do ambiente. O som
ainda ecoava em sua mente, misturado com a crescente inquietação que o
dominava. Algo estava errado, profundamente errado, e ele podia sentir o
presságio no ar denso que pesava sobre ele. Desde a última noite, não tinha
notícias de Gilberto e muito menos de Willis, os dois foram fazer um serviço,
precisavam encontrar Luna e matá-la, para que o vilarejo, se livrasse de toda a
nuvem negras que se acumulou durantes os últimos anos, não seria nenhum
delegado que atravessarias o seu caminho.
Ademilson sentiu o choque da notícia como
um golpe, uma punhalada fria que perfurou sua calma exterior. A mulher irrompeu
pela porta como uma tempestade, segurando uma criança nos braços, sua voz
tremendo de desespero e dor.
— O MEU MARIDO MORREU! — gritou ela, a voz
carregada de um sofrimento insuportável. A cada palavra, parecia que suas
pernas iam ceder, seus olhos sem foco refletindo a agonia em seu coração. — O
meu Willis está morto, Ademilson! AQUELE MALDITO! Os olhos vermelhos, os olhos
vermelhos! Ele tirou a vida do meu marido! Eu não consigo acreditar, Ademilson,
eu não consigo acreditar!
Com o coração pesado, Ademilson tirou a
criança dos braços dela, oferecendo um consolo silencioso enquanto a mulher, em
choque, se afundava numa cadeira próxima à mesa. O ambiente ficou carregado de
tensão quando outros homens e mulheres começaram a entrar na casa, formando um
círculo em torno de Ademilson. Para eles, ele não era apenas um líder; ele era
um farol, uma figura quase mítica, a quem seguiam com devoção cega.
Enquanto tentava acalmar a criança,
Ademilson sentiu os olhares dos outros sobre ele. Havia uma mistura de
admiração e expectativa em seus olhos, como se estivessem aguardando suas
próximas palavras ou ordens. Ele sabia que, naquele momento, não podia vacilar.
A confiança que depositavam nele era absoluta, e qualquer hesitação poderia
abalar essa lealdade.
Ademilson tinha se tornado uma figura de
grande importância em Vale Verde, especialmente nos tempos de eleição. Os
candidatos a prefeito da extrema direita cortejavam seu apoio, sabendo que ele,
junto com seu pai Chico, controlava uma parte significativa do eleitorado.
Ademilson tinha sido moldado desde jovem para liderar, crescendo sob o olhar
atento de seu pai e dos moradores, que agora o viam como uma força emergente.
Ele era candidato a vereador, porém seu verdadeiro objetivo era mais alto: a
prefeitura da costa do descobrimento.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu com o
seu marido, Fernanda! — disse ele, tentando manter a compostura, mas não
escondendo a dor que sentia pela perda de um amigo. — O Willis era um grande
homem, um grande amigo, e sempre foi querido por todos aqui em Vale Verde. Ele
e o Gilberto foram fundamentais para nossa comunidade. Agora, mais do que
nunca, precisamos ser fortes e permanecer unidos.
A multidão ao redor de Ademilson se
aquietou, absorvendo cada palavra com uma atenção reverente. Ele sabia que suas
palavras precisavam trazer não só consolo, também determinação.
— Precisamos lutar por essa causa.
Precisamos acabar com o Homem de Olhos Vermelhos, e dessa vez, temos uma chance
real! Não podemos repetir os erros do passado. Não podemos nos deixar cair
novamente nesse ciclo de medo e morte. A morte desses dois amigos, desses dois
pais de família, desses dois cidadãos de Vale Verde, não será em vão!
Ademilson fez uma pausa, sentindo o peso
da responsabilidade que carregava nos ombros. Ele sabia que a população o
seguia, mas a esperança precisava ser alimentada.
— Não podemos lutar até o final da lua
cheia, mas assim que a lua minguante chegar, nós iremos lutar com tudo o que
temos! Vamos preparar o terreno, fortalecer nossas defesas, reunir nossas
forças. Quando a lua começar a desaparecer, será o momento de agir. E eu
prometo a vocês, não descansarei até que esse mal tenha sido erradicado de Vale
Verde.
A escola não abriu naquela manhã. As
mortes recentes haviam lançado um manto de luto sobre o vilarejo, deixando o ar
denso, pesado, difícil de respirar. O carro funerário cruzava lentamente as
ruas estreitas, arrastando consigo uma pequena multidão silenciosa. Cada rosto
refletia o peso da perda, os olhos fixos nas fotos dos homens que jaziam no
topo do caixão, adornadas por coroas de flores murchas. Ninguém acreditava que
aqueles jovens, outrora tão cheios de vida, estavam agora destinados ao repouso
eterno no cemitério local.
Quando a última pá de terra caiu sobre os
caixões, a chuva começou a desabar, densa e implacável, como se o céu se unisse
ao sofrimento dos vivos. A água escorria pelos túmulos, misturando-se com a
terra recém-revolvida, enquanto Ademilson se aproximava de seu pai, Chico, que
segurava um gigantesco guarda-chuva preto.
— Eu vou fazer melhor que o senhor, pai! —
a voz de Ademilson estava carregada de uma raiva fervorosa, quase insana. — Eu
vou acabar com essa desgraça.
Chico o encarou, os olhos cansados e
sombrios refletindo o peso dos anos, das escolhas erradas, e do sangue
derramado. Sob o som constante das gotas de chuva batendo contra o
guarda-chuva, ele se aproximou do filho, o rosto duro, com uma tristeza profunda
nas palavras.
— Ademilson, — começou Chico, sua voz
baixa e rouca, como um sussurro vindo do além. — Não se entregue. Não faça como
eu fiz. Não deixe que mais sangue inocente seja derramado por suas mãos.
Gilberto e Willis morreram por sua causa. Você os mandou para a morte. Agora,
seus espíritos caminham entre nós, amaldiçoados por sua sede de vingança. Nós
precisamos destruir o Homem de Olhos Vermelhos, mas não deixe que ele nos
destrua primeiro. Olha ao redor, filho. Olha o sofrimento de todos. Essa chuva,
por mais que caia, não será capaz de lavar o horror que está marcado em nossas
almas.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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