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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 25

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 25

OS OLHOS VERMELHOS

O primeiro som foi sutil, um eco abafado que se mesclava ao sono, como um sussurro vindo do além. Era um murmúrio distante, perdido entre as sombras que habitam os cantos da madrugada. Mas, ao norte do céu e ao oeste do inferno, o homem se remexeu sob os lençóis, o calor escorrendo por sua testa em gotas lentas e sufocantes.

Quando o segundo barulho atravessou as paredes da casa, era alto demais para ser um sonho ou delírio. O estrondo reverberou nos ossos de Ademilson, arrancando-o da cama com um sobressalto. Ele estendeu a mão trêmula para o copo de água sobre a mesa de cabeceira, tentando acalmar os nervos enquanto seus olhos piscavam, ajustando-se à penumbra da manhã. O relógio marcava quase seis horas, o sol recém-nascido ainda tingia o horizonte com tons pálidos.

O susto o levou a vestir a primeira roupa que encontrou jogada no chão — uma calça amassada e uma camisa desbotada. Ele tropeçou pelos cômodos escuros da casa inacabada, o piso de concreto frio sob os pés descalços, as paredes sem reboco revelando a aspereza do ambiente. O som ainda ecoava em sua mente, misturado com a crescente inquietação que o dominava. Algo estava errado, profundamente errado, e ele podia sentir o presságio no ar denso que pesava sobre ele. Desde a última noite, não tinha notícias de Gilberto e muito menos de Willis, os dois foram fazer um serviço, precisavam encontrar Luna e matá-la, para que o vilarejo, se livrasse de toda a nuvem negras que se acumulou durantes os últimos anos, não seria nenhum delegado que atravessarias o seu caminho.

Ademilson sentiu o choque da notícia como um golpe, uma punhalada fria que perfurou sua calma exterior. A mulher irrompeu pela porta como uma tempestade, segurando uma criança nos braços, sua voz tremendo de desespero e dor.

— O MEU MARIDO MORREU! — gritou ela, a voz carregada de um sofrimento insuportável. A cada palavra, parecia que suas pernas iam ceder, seus olhos sem foco refletindo a agonia em seu coração. — O meu Willis está morto, Ademilson! AQUELE MALDITO! Os olhos vermelhos, os olhos vermelhos! Ele tirou a vida do meu marido! Eu não consigo acreditar, Ademilson, eu não consigo acreditar!

Com o coração pesado, Ademilson tirou a criança dos braços dela, oferecendo um consolo silencioso enquanto a mulher, em choque, se afundava numa cadeira próxima à mesa. O ambiente ficou carregado de tensão quando outros homens e mulheres começaram a entrar na casa, formando um círculo em torno de Ademilson. Para eles, ele não era apenas um líder; ele era um farol, uma figura quase mítica, a quem seguiam com devoção cega.

Enquanto tentava acalmar a criança, Ademilson sentiu os olhares dos outros sobre ele. Havia uma mistura de admiração e expectativa em seus olhos, como se estivessem aguardando suas próximas palavras ou ordens. Ele sabia que, naquele momento, não podia vacilar. A confiança que depositavam nele era absoluta, e qualquer hesitação poderia abalar essa lealdade.

Ademilson tinha se tornado uma figura de grande importância em Vale Verde, especialmente nos tempos de eleição. Os candidatos a prefeito da extrema direita cortejavam seu apoio, sabendo que ele, junto com seu pai Chico, controlava uma parte significativa do eleitorado. Ademilson tinha sido moldado desde jovem para liderar, crescendo sob o olhar atento de seu pai e dos moradores, que agora o viam como uma força emergente. Ele era candidato a vereador, porém seu verdadeiro objetivo era mais alto: a prefeitura da costa do descobrimento.

— Eu sinto muito pelo que aconteceu com o seu marido, Fernanda! — disse ele, tentando manter a compostura, mas não escondendo a dor que sentia pela perda de um amigo. — O Willis era um grande homem, um grande amigo, e sempre foi querido por todos aqui em Vale Verde. Ele e o Gilberto foram fundamentais para nossa comunidade. Agora, mais do que nunca, precisamos ser fortes e permanecer unidos.

A multidão ao redor de Ademilson se aquietou, absorvendo cada palavra com uma atenção reverente. Ele sabia que suas palavras precisavam trazer não só consolo, também determinação.

— Precisamos lutar por essa causa. Precisamos acabar com o Homem de Olhos Vermelhos, e dessa vez, temos uma chance real! Não podemos repetir os erros do passado. Não podemos nos deixar cair novamente nesse ciclo de medo e morte. A morte desses dois amigos, desses dois pais de família, desses dois cidadãos de Vale Verde, não será em vão!

Ademilson fez uma pausa, sentindo o peso da responsabilidade que carregava nos ombros. Ele sabia que a população o seguia, mas a esperança precisava ser alimentada.

— Não podemos lutar até o final da lua cheia, mas assim que a lua minguante chegar, nós iremos lutar com tudo o que temos! Vamos preparar o terreno, fortalecer nossas defesas, reunir nossas forças. Quando a lua começar a desaparecer, será o momento de agir. E eu prometo a vocês, não descansarei até que esse mal tenha sido erradicado de Vale Verde.

A escola não abriu naquela manhã. As mortes recentes haviam lançado um manto de luto sobre o vilarejo, deixando o ar denso, pesado, difícil de respirar. O carro funerário cruzava lentamente as ruas estreitas, arrastando consigo uma pequena multidão silenciosa. Cada rosto refletia o peso da perda, os olhos fixos nas fotos dos homens que jaziam no topo do caixão, adornadas por coroas de flores murchas. Ninguém acreditava que aqueles jovens, outrora tão cheios de vida, estavam agora destinados ao repouso eterno no cemitério local.

Quando a última pá de terra caiu sobre os caixões, a chuva começou a desabar, densa e implacável, como se o céu se unisse ao sofrimento dos vivos. A água escorria pelos túmulos, misturando-se com a terra recém-revolvida, enquanto Ademilson se aproximava de seu pai, Chico, que segurava um gigantesco guarda-chuva preto.

— Eu vou fazer melhor que o senhor, pai! — a voz de Ademilson estava carregada de uma raiva fervorosa, quase insana. — Eu vou acabar com essa desgraça.

Chico o encarou, os olhos cansados e sombrios refletindo o peso dos anos, das escolhas erradas, e do sangue derramado. Sob o som constante das gotas de chuva batendo contra o guarda-chuva, ele se aproximou do filho, o rosto duro, com uma tristeza profunda nas palavras.

— Ademilson, — começou Chico, sua voz baixa e rouca, como um sussurro vindo do além. — Não se entregue. Não faça como eu fiz. Não deixe que mais sangue inocente seja derramado por suas mãos. Gilberto e Willis morreram por sua causa. Você os mandou para a morte. Agora, seus espíritos caminham entre nós, amaldiçoados por sua sede de vingança. Nós precisamos destruir o Homem de Olhos Vermelhos, mas não deixe que ele nos destrua primeiro. Olha ao redor, filho. Olha o sofrimento de todos. Essa chuva, por mais que caia, não será capaz de lavar o horror que está marcado em nossas almas.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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