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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 03

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 03: “A LENDA DOS CORREDORES”

RAFAEL DESCEU OS DEGRAUS DE MADEIRA QUE DAVAM ACESSO À ÁREA EXTERNA DA MORADA, O CORRIMÃO AINDA ESTAVA UM POUCO ÚMIDO. Ele divisou a picape estacionada e recusou a ideia de ir dirigindo em seu primeiro dia de trabalho. Eram apenas dez minutos de caminhada, como dissera a Luna, e isso não o mataria. Além disso, se acontecesse alguma coisa, a esposa faria melhor uso do veículo. Estava um belo dia de sol, mesmo com o pé d’água que caíra na madrugada. Observou de longe um cachorrinho brincando no papelão e não deu muita importância, pegando a estrada de chão que continha muitas poças de lama.

O canavial e a mata compunham o restante do caminho. Aquilo não era nada para alguém acostumado a fazer trilhas na serra. Ao chegar na metade do trajeto, Rafael sentiu uma ventania gelada abraçando seu corpo, como se o guiasse em direção ao arvoredo, e escutou um rápido chamado em seus ouvidos, com um ranger de dentes: "RAFAEL".

Ele parou, com coração batendo mais rápido, e sua visão foi atraída para um imponente pé de jequitibá a poucos metros. Entre os troncos maciços e a folhagem densa, ele viu uma sombra indistinta. A figura era alta e parecia envolta em um manto escuro, como se a própria escuridão tivesse tomado forma. Os contornos da sombra eram nebulosos, oscilando levemente, como se estivesse em constante movimento. Rafael sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao perceber que a sombra parecia observá-lo.

A ventania cessou abruptamente com o som de uma moto se aproximando. Um rapaz muito gentil parou ao seu lado e ofereceu uma carona. Rafael, ainda atordoado, prontamente recusou, terminando o percurso a pé. Só então notou que o motociclista era seu colega de trabalho.

— Muito prazer em conhecê-lo, o meu nome é Mathias. O senhor deve ser o Rafael, o novo delegado da cidade. — disse Mathias, cumprimentando Rafael com um aperto de mãos firme. Rafael tratou logo de analisar a delegacia, que era muito simples. Certamente, não deveria acontecer muitas ocorrências naquele lugar. Seu olhar pousou na mesa da recepcionista, uma senhora baixinha e corpulenta, que chegava com uma xícara de café e alguns biscoitinhos de maisena. — Essa senhora que pouco come é a dona Mariana, ou dona Mocinha, como todos chamam por aqui.

A delegacia, na verdade, era uma antiga casa de um fazendeiro que se tornou xerife e acabou sendo doada para uso da prefeitura. Dona Mariana trabalhava lá há quarenta anos. Rafael viu uma foto dela com uma equipe antiga em seu escritório. Ele olhou cuidadosamente o ambiente ao redor e notou uma manchete de um jornal de 1949, emoldurada em um quadro: “HOMEM DE OLHOS VERMELHOS É VISTO PELA PRIMEIRA VEZ POR MORADORES DE VALE VERDE.”

— Somos vizinhos! — disse Mathias com um timbre rouco. — Ou quer dizer, moramos um pouco próximos. Minha casa fica quase no final daquela estradinha. Demora um pouco mais de trinta minutos caminhando. Por sorte, consegui comprar aquela motinha. Ainda não tirei minha habilitação, por falta de escolas em Porto Seguro, mas estou tentando providenciar uma em Eunápolis em breve. A uso pouco, apenas para ir de casa para o trabalho.

— Há quanto tempo você trabalha aqui?

— Há uns cinco anos, desde a mudança do último prefeito. É bem difícil as pessoas se interessarem em prestar concurso para trabalhar aqui. Os delegados então, nem se fala. No ano passado, mais de dez passaram por esse cargo. Espero mesmo que você fique. Parece ser um cara muito educado e bem cético. Estou penando na faculdade de direito, um dia quero me tornar um homem que nem você!

Rafael deu um pequeno sorriso ao escutar o elogio de Mathias, enquanto tentava decifrar aquelas palavras penduradas na parede da manchete do jornal, que estavam deterioradas com o tempo e impossíveis de ler.

— O que quer dizer "O Homem de Olhos Vermelhos"? — indagou Rafael.

— É apenas uma lenda urbana. Esse mito é contado desde que Vale Verde é Vale Verde. Eu não levo fé nessa balela. Coisas de cidade pequena. Não quero te preocupar com isso. Já fiz vários testes, saí à meia-noite com uns amigos e acampamos na floresta em plena lua cheia e nunca vimos nada. — Mathias começou a comentar, arrumando um objeto em cima de uma mesinha. — A única lenda que acredito é da Caçada Selvagem, que acontece nas noites de lua crescente. Onde moro, no final da estrada, muitas vezes escuto o barulho de flechas, como se houvesse uma briga, como se estivéssemos em uma guerra. Minha mãe me disse que era porque aqui os índios eram enterrados pelos portugueses e muitos lutavam pela própria vida. Moramos praticamente em cima de um cemitério indígena. Nossa terra tem a cor do sangue de nossos descendentes. É por isso que os delegados precisam ser céticos. A maioria acredita nessas besteiras e acabam com medo dos espíritos de nossos antepassados. Muitos somem como um ladrão na madrugada.

Rafael não considerou nem um pouco as palavras ditas por Mathias. Sentou-se na poltrona de couro, ficando sozinho no escritório para revisar algumas informações sobre a região. Logo, seus pensamentos voltaram-se para a tarde do dia anterior; ele havia avistado um homem de olhos vermelhos na floresta. Seria apenas fruto de sua imaginação, fome ou uma série de coincidências desde que chegara a Vale Verde?

— Eu ouvi o que o Mathias falou para o senhor, delegado. — A senhora entrou na sala, sentando-se na poltrona à frente da mesa de Rafael, com uma voz baixinha, quase trêmula. — Muitas coisas podem parecer besteira para o senhor. Talvez o senhor seja de uma cidade grande ou tenha mais conhecimento que nós, mas tudo pode acontecer na noite de lua cheia. Ela é diferente para cada um de nós, especialmente quando é época do lado oculto.

— Dona Mocinha, sou apenas formado em direito, isso não significa que seja melhor ou mais qualificado do que outras pessoas daqui. Estou ansioso para conhecer Vale Verde, fiquei encantado com essas histórias; adorava ouvir folclore quando criança. Eu entendo que muitas desses entrechos não são verdadeiros, como o próprio Mathias mencionou, e precisamos ser bastante céticos.

Mathias buzinou algumas vezes com a viatura da polícia. Rafael o repreendeu e assumiu o volante do carro, pois precisavam dar exemplo para a população, mesmo sendo um povoado pequeno.

Mathias conduziu Rafael pelas ruas da cidade, o principal ponto era um quadrado feito de praça, muito típica das cidades baianas, cercada por muitas casas e pontos comerciais. Ao fundo, encontrava-se a igreja, seguida por uma escola municipal e, mais adiante, um cemitério.

O estômago de Rafael começou a embrulhar; eram apenas nove horas da manhã, mas ele já sentia um pouco de fome e desejava uma coxinha com uma lata de Coca-Cola. Eles decidiram parar em um barzinho na ponta do quadrado do Sr. Chico.

— O dia da lua cheia está chegando... — disse o senhorzinho, enquanto servia uma coxinha e uma lata de coca para o delegado. — O Mathias com certeza não deve ter te preparado para isso, mas preste atenção, Dr. Rafael: quando chegar no dia 25, comece a fechar muito bem suas portas com trancas de ferro e coloque uma bíblia embaixo da cama. O Homem De Olhos Vermelhos só começa a sair na lua cheia. Antes disso, ele apenas observa as pessoas, principalmente os novos residentes. Ele não ataca qualquer um; ele é esperto, fica escondido na floresta esperando o melhor momento para invadir sua casa ou transformar alguém em um hospedeiro. E principalmente a sua casa, aquela fazenda aconteceu muita coisa há 20 anos atrás...

Mathias pigarreou, mudando os rumos da conversa. Rafael ficou sem compreender ao certo. Aquela fazenda fora vendida a preço de banana. Alguns pontos começaram a ficar claros em sua consciência: por que ninguém do vilarejo sequer se prestou ao trabalho de comprar? Na tentativa de tomar um ar na varanda, Rafael acabou esbarrando em um rapaz, que logo se apresentou como Vicente.

— Conhecendo as lendas dos corredores? — questionou Vicente.

— As pessoas aqui são muito parecidas, pelo que vi até agora.

— A maioria tem o mesmo vocabulário, tudo com um conto na ponta da língua, mas ninguém tem provas do que falam. No final do dia, são só mentiras, histórias da carochinha para botar medo nas pessoas e fazer alguns serem machucados. Enredos mal contados, histórias escritas erradas, ferem muitas pessoas.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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