RAFAEL DESCEU OS DEGRAUS DE MADEIRA QUE
DAVAM ACESSO À ÁREA EXTERNA DA MORADA, O CORRIMÃO AINDA ESTAVA UM POUCO ÚMIDO.
Ele divisou a picape estacionada e recusou a ideia de ir dirigindo em seu
primeiro dia de trabalho. Eram apenas dez minutos de caminhada, como dissera a
Luna, e isso não o mataria. Além disso, se acontecesse alguma coisa, a esposa
faria melhor uso do veículo. Estava um belo dia de sol, mesmo com o pé d’água
que caíra na madrugada. Observou de longe um cachorrinho brincando no papelão e
não deu muita importância, pegando a estrada de chão que continha muitas poças
de lama.
O canavial e a mata compunham o restante
do caminho. Aquilo não era nada para alguém acostumado a fazer trilhas na
serra. Ao chegar na metade do trajeto, Rafael sentiu uma ventania gelada
abraçando seu corpo, como se o guiasse em direção ao arvoredo, e escutou um
rápido chamado em seus ouvidos, com um ranger de dentes: "RAFAEL".
Ele parou, com coração batendo mais
rápido, e sua visão foi atraída para um imponente pé de jequitibá a poucos
metros. Entre os troncos maciços e a folhagem densa, ele viu uma sombra
indistinta. A figura era alta e parecia envolta em um manto escuro, como se a
própria escuridão tivesse tomado forma. Os contornos da sombra eram nebulosos,
oscilando levemente, como se estivesse em constante movimento. Rafael sentiu um
calafrio percorrer sua espinha ao perceber que a sombra parecia observá-lo.
A ventania cessou abruptamente com o som
de uma moto se aproximando. Um rapaz muito gentil parou ao seu lado e ofereceu
uma carona. Rafael, ainda atordoado, prontamente recusou, terminando o percurso
a pé. Só então notou que o motociclista era seu colega de trabalho.
— Muito
prazer em conhecê-lo, o meu nome é Mathias. O senhor deve ser o Rafael, o novo
delegado da cidade. — disse Mathias, cumprimentando Rafael com um aperto de
mãos firme. Rafael tratou logo de analisar a delegacia, que era muito simples.
Certamente, não deveria acontecer muitas ocorrências naquele lugar. Seu olhar
pousou na mesa da recepcionista, uma senhora baixinha e corpulenta, que chegava
com uma xícara de café e alguns biscoitinhos de maisena. — Essa senhora que pouco come é a dona
Mariana, ou dona Mocinha, como todos chamam por aqui.
A delegacia, na verdade, era uma antiga
casa de um fazendeiro que se tornou xerife e acabou sendo doada para uso da
prefeitura. Dona Mariana trabalhava lá há quarenta anos. Rafael viu uma foto
dela com uma equipe antiga em seu escritório. Ele olhou cuidadosamente o
ambiente ao redor e notou uma manchete de um jornal de 1949, emoldurada em um
quadro: “HOMEM DE OLHOS VERMELHOS É VISTO PELA PRIMEIRA VEZ POR MORADORES DE
VALE VERDE.”
— Somos
vizinhos! — disse Mathias com um timbre rouco. — Ou quer dizer, moramos um
pouco próximos. Minha casa fica quase no final daquela estradinha. Demora um
pouco mais de trinta minutos caminhando. Por sorte, consegui comprar aquela
motinha. Ainda não tirei minha habilitação, por falta de escolas em Porto
Seguro, mas estou tentando providenciar uma em Eunápolis em breve. A uso pouco,
apenas para ir de casa para o trabalho.
— Há quanto
tempo você trabalha aqui?
— Há uns
cinco anos, desde a mudança do último prefeito. É bem difícil as pessoas se
interessarem em prestar concurso para trabalhar aqui. Os delegados então, nem
se fala. No ano passado, mais de dez passaram por esse cargo. Espero mesmo que
você fique. Parece ser um cara muito educado e bem cético. Estou penando na
faculdade de direito, um dia quero me tornar um homem que nem você!
Rafael deu um pequeno sorriso ao escutar o
elogio de Mathias, enquanto tentava decifrar aquelas palavras penduradas na
parede da manchete do jornal, que estavam deterioradas com o tempo e
impossíveis de ler.
— O que
quer dizer "O Homem de Olhos Vermelhos"? — indagou Rafael.
— É apenas
uma lenda urbana. Esse mito é contado desde que Vale Verde é Vale Verde. Eu não
levo fé nessa balela. Coisas de cidade pequena. Não quero te preocupar com
isso. Já fiz vários testes, saí à meia-noite com uns amigos e acampamos na
floresta em plena lua cheia e nunca vimos nada. — Mathias começou a comentar,
arrumando um objeto em cima de uma mesinha. — A única lenda que acredito é da
Caçada Selvagem, que acontece nas noites de lua crescente. Onde moro, no final
da estrada, muitas vezes escuto o barulho de flechas, como se houvesse uma
briga, como se estivéssemos em uma guerra. Minha mãe me disse que era porque
aqui os índios eram enterrados pelos portugueses e muitos lutavam pela própria
vida. Moramos praticamente em cima de um cemitério indígena. Nossa terra tem a
cor do sangue de nossos descendentes. É por isso que os delegados precisam ser céticos.
A maioria acredita nessas besteiras e acabam com medo dos espíritos de nossos
antepassados. Muitos somem como um ladrão na madrugada.
Rafael não considerou nem um pouco as
palavras ditas por Mathias. Sentou-se na poltrona de couro, ficando sozinho no
escritório para revisar algumas informações sobre a região. Logo, seus
pensamentos voltaram-se para a tarde do dia anterior; ele havia avistado um
homem de olhos vermelhos na floresta. Seria apenas fruto de sua imaginação,
fome ou uma série de coincidências desde que chegara a Vale Verde?
— Eu ouvi o
que o Mathias falou para o senhor, delegado. — A senhora entrou na sala,
sentando-se na poltrona à frente da mesa de Rafael, com uma voz baixinha, quase
trêmula. — Muitas coisas podem parecer besteira para o senhor. Talvez o senhor
seja de uma cidade grande ou tenha mais conhecimento que nós, mas tudo pode
acontecer na noite de lua cheia. Ela é diferente para cada um de nós,
especialmente quando é época do lado oculto.
— Dona
Mocinha, sou apenas formado em direito, isso não significa que seja melhor ou
mais qualificado do que outras pessoas daqui. Estou ansioso para conhecer Vale
Verde, fiquei encantado com essas histórias; adorava ouvir folclore quando
criança. Eu entendo que muitas desses entrechos não são verdadeiros, como o
próprio Mathias mencionou, e precisamos ser bastante céticos.
Mathias
buzinou algumas vezes com a viatura da polícia. Rafael o repreendeu e assumiu o
volante do carro, pois precisavam dar exemplo para a população, mesmo sendo um
povoado pequeno.
Mathias
conduziu Rafael pelas ruas da cidade, o principal ponto era um quadrado feito
de praça, muito típica das cidades baianas, cercada por muitas casas e pontos
comerciais. Ao fundo, encontrava-se a igreja, seguida por uma escola municipal
e, mais adiante, um cemitério.
O estômago
de Rafael começou a embrulhar; eram apenas nove horas da manhã, mas ele já
sentia um pouco de fome e desejava uma coxinha com uma lata de Coca-Cola. Eles
decidiram parar em um barzinho na ponta do quadrado do Sr. Chico.
— O dia da lua cheia está chegando... —
disse o senhorzinho, enquanto servia uma coxinha e uma lata de coca para o
delegado. — O Mathias com certeza não deve ter te preparado para isso, mas
preste atenção, Dr. Rafael: quando chegar no dia 25, comece a fechar muito bem
suas portas com trancas de ferro e coloque uma bíblia embaixo da cama. O Homem De
Olhos Vermelhos só começa a sair na lua cheia. Antes disso, ele apenas observa
as pessoas, principalmente os novos residentes. Ele não ataca qualquer um; ele
é esperto, fica escondido na floresta esperando o melhor momento para invadir
sua casa ou transformar alguém em um hospedeiro. E principalmente a sua casa,
aquela fazenda aconteceu muita coisa há 20 anos atrás...
Mathias
pigarreou, mudando os rumos da conversa. Rafael ficou sem compreender ao certo.
Aquela fazenda fora vendida a preço de banana. Alguns pontos começaram a ficar
claros em sua consciência: por que ninguém do vilarejo sequer se prestou ao
trabalho de comprar? Na tentativa de tomar um ar na varanda, Rafael acabou esbarrando
em um rapaz, que logo se apresentou como Vicente.
—
Conhecendo as lendas dos corredores? — questionou Vicente.
— As
pessoas aqui são muito parecidas, pelo que vi até agora.
— A maioria
tem o mesmo vocabulário, tudo com um conto na ponta da língua, mas ninguém tem
provas do que falam. No final do dia, são só mentiras, histórias da carochinha
para botar medo nas pessoas e fazer alguns serem machucados. Enredos mal
contados, histórias escritas erradas, ferem muitas pessoas.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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