A SEMANA ESTAVA PASSANDO DE FORMA
REPENTINA. Rafael começava a se acostumar com as pessoas de Vale
Verde, especialmente com os colegas de trabalho, Mathias e Dona Mocinha. Eles
faziam de tudo para que o novo delegado se sentisse à vontade nas instalações,
mimando-o com pequenos gestos de carinho, como trazer café fresco e doces
caseiros. Rafael, que não estava acostumado com demonstrações de afeto de
pessoas estranhas, sentia-se gradualmente mais acolhido. Ele estava ciente de
que todos no vilarejo se portavam como uma grande família.
Sentado na poltrona da delegacia, Rafael
observou um chuvisco se transformar em uma tempestade. Estava sozinho naquele
momento, apreciando o som da chuva batendo nas janelas, quando o telefone
começou a tocar. Era início da tarde, e ele prontamente atendeu. Assim que ouviu
a voz do outro lado da linha, reconheceu perfeitamente o sorriso típico do
senhor Cássio, seu sogro.
— Como estão as coisas, delegado Rafael? —
perguntou Cássio.
— Está tudo muito bem, sogro. Estamos
naquele momento de adaptação. O vilarejo é um lugar muito pacato, onde nada
parece acontecer. As pessoas aqui parecem estar vivendo em um folclore; são uma
graça. — respondeu Rafael, lançando um olhar para a manchete pendurada na
parede que lhe causava arrepios. — Além disso, a Luna acabou adotando um cachorrinho
para fazer companhia; o nome dele é Bob. Nunca nos sentimos tão felizes em
nossas vidas, senhor Cássio. A Luna me completa de várias maneiras. Acho que o
senhor deve sentir o mesmo pela dona Odete.
Cássio não respondeu de imediato. O
silêncio que seguiu durou alguns minutos, e a respiração audível através da
chamada mostrava que ele estava tentando encontrar as palavras certas. Era como
se Cássio estivesse cuidadosamente semeando a amizade com Rafael.
— Desculpa
pela demora. — pigarreou Cássio, tomando um pouco de água. — Acabei me perdendo
na própria consciência, parecia que estava andando nas estrelas. Como essas
palavras gratificam meu coração, ainda bem, que você foi o homem que Deus
colocou no caminho da minha Luna. Estamos pensando em ir sábado, visitar vocês,
quem sabe ficar para um jantar. A minha filha levou diversos livros de
receitas, com certeza deve ter aprendido muita coisa, quem sabe um macarrão à
bolonhesa.
— Vocês sempre serão bem-vindos em nossa
casa, podem vir nesse final de semana. No nosso primeiro dia, ela fez macarrão
à bolonhesa. Eu estava com tanta fome que parecia um manjar dos deuses, mas
para ela, estava sem tempero. A Luna está sendo incrível. Sendo bem sincero,
senhor Cássio... A Luna não é uma mulher para ficar presa dentro de casa. Ela é
independente e quer terminar a faculdade de pedagogia para seguir uma carreira.
Eu sinto que ela ainda não se encontrou.
— Fico muito contente em ouvir isso de
você. Isso só mostra que a Luna fez a escolha certa ao subir ao altar para
passar o restante da vida ao seu lado. Tem homens que não apoiam suas mulheres
a estudarem. Aqui na cidade mesmo, tenho um amigo que proibiu a esposa de
continuar a universidade, dizendo que mulher tem que ficar em casa, cuidar dos
serviços e ter filhos. Os tempos estão mudando. As mulheres hoje estão
começando a ocupar cargos importantes; elas não devem ser consideradas a sombra
de um marido.
A conversa não durou muito tempo. Rafael
logo foi surpreendido por Mathias, que precisava de uma orientação do delegado
para continuar um formulário. O anoitecer chegou repentinamente, e Rafael ligou
a picape para seguir em direção de casa. Havia muita lama na estrada, mas nada
que o atrapalhasse. Sentiu de longe o cheiro do feijão; a esposa havia comprado
linguiça e peças de porco para temperá-lo. Luna estava segurando uma bola de
cristal na mão ao receber o marido, seguindo em direção à cozinha para servir o
jantar. Depois de ouvir a notícia de que os pais os visitariam no sábado à
tarde, ela não demonstrou nenhum interesse e, inclusive, sua fome passou no
instante em que ouviu as boas novas ditas com alegria pelo marido. Em seguida,
tratou de colocar o prato de comida para o cachorro.
— Nunca imaginei que você iria reagir
dessa maneira. — disse Rafael.
Luna ignorou o marido, levantou-se da
cadeira e buscou no armário da cozinha uma tigela de porcelana florida,
colocando uma fatia de bolo de chocolate que estava na geladeira como sobremesa
para Rafael, que estava terminando o jantar. Assim que ela colocou o objeto na
mesa, sentiu as mãos geladas de Rafael em sua cintura, aguardando um
pronunciamento.
— Rafael, eu não estou feliz com isso, não
vou demonstrar o oposto. A minha mãe vai vir até aqui para ver todos os
defeitos da minha casa, mesmo se não existir nenhum deles, ela irá procurar!
Você não conhece a Dona Odete, eu passei a minha infância e juventude me
sentindo um peso dentro da minha própria casa, só ficava feliz quando estava do
lado do meu pai, apenas.
A raiva de Luna dissipou ao ver o sorriso reconfortante de Rafael. Não houve tempo para diálogo ou para resolver a briga; eles foram diretamente para o quarto, sem sequer fechar as portas dos fundos, para manchar os lençóis de prazer. Dessa vez, houve mais intensidade, mais química. Luna entregou-se ainda mais ao marido, deixando suas marcas nas costas dele. Rafael era sua propriedade.
※※※※
O copo de
uísque esvaziou rapidamente nos lábios do Senhor Cássio. Luna logo buscou a
garrafa do tradicional Jack Daniels no rack da sala de estar, preparando um
café preto enquanto aguardavam o marido chegar da delegacia, que sempre trazia
uma sacola de pão de leite com açúcar. Se pudesse, Luna ignoraria por completo
a presença da matriarca, cuja feição amarga denotava seu desagrado por estar
naquele lugar, que ela constantemente se referia como uma "selva".
Os pais
passaram boa parte da tarde sem realmente conhecer o vilarejo, chegando por
volta das três horas. Os mosquitos começaram a incomodar Odete ao anoitecer,
levando-a a aplicar um pouco de repelente nas pernas, sentindo leve ardência
onde o produto tocou sua pele, devido às picadas.
— Que café
horrível é esse? — disse Odete, tomando a primeira xícara. — Realmente, não
consegui te ensinar nada, Luna. Não tem sabor nenhum. Estou com receio de
provar essa gororoba que está fazendo. É alguma lavagem para porcos ou vai
jogar para esse cachorro morto de fome?
— ODETE! —
repreendeu Cássio, lançando um olhar para a esposa.
— O prato é
Mignon com Fettuccine ao Molho Alfredo, aprendi em um livro de receitas. — Luna
falou, ignorando o comentário maldoso da matriarca. — Espero que a senhora
goste. Fiz especialmente pensando em vocês e também no Rafael; a família dele é
italiana, então adora massa fresca.
— Deve estar sem tempero nenhum, sem graça
assim como a sua cara. E também olha essa casa, nem sequer se preocupou em dar
um toque feminino; passou uma semana no lugar, parece mais uma casa abandonada,
daquelas de filmes de terror. — Odete disse, sorvendo um pouco mais da bebida,
que segundo ela estava horrível. — Certamente muitos dos móveis devem ser de um
brechó, não têm nenhum gosto; é uma péssima dona de casa, sempre foi o meu
maior desgosto.
— E O QUE A SENHORA VEIO FAZER AQUI? —
Luna gritou, o rancor entalado na garganta.
Odete
terminou o café calmamente, observando a filha em um pequeno estágio de
desequilíbrio emocional, e aquilo a fez sentir prazer, levando-a a desenhar um
sorriso. A senhora se levantou da cadeira de madeira, chutando o cachorro para
que ele liberasse o caminho do pavimento, e contemplou o rosto de Luna em
lágrimas.
— Não
contou para o seu marido que não pode engravidar? Que é incapaz de construir
uma família para o Rafael?
Em meio à penumbra dos seus pensamentos,
Luna fitou o marido, segurando a sacola de pão nas mãos. Não conseguia mais
fingir. As lágrimas escorriam pelo seu rosto, e ela não queria dar a satisfação
de ver Odete triunfar. Luna então saiu disparada em direção à floresta, ouvindo
os latidos de Bob atrás dela. Não podia mais suportar um minuto sequer trancada
naquela casa, ao lado de Odete. Sempre fora assim desde o dia que nasceu. Por
pouco não tropeçou nas raízes de uma árvore. Precisava de ar, mesmo que fosse à
beira de um penhasco. E lá estava ele, imponente sob a luz da lua, enquanto seu
coração se despedaçava em lágrimas. Luna se sentia arrasada, sabendo que talvez
nunca realizaria seu maior sonho: o de gerar um filho.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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