6x06 - Palhaço
de João Maurício Ricci
Da pequena laje, Luz desafia a enorme lua. Sua alma punge.
Domingo, às sete horas da manhã. A criança acaba de acordar. Deitado em sua cama, para ele, um reino, Pedrinho observa o quarto. No canto direito, cavalinhos de pelúcia e uma bicicleta de madeira, feitos à mão por sua avó. No canto esquerdo, suas bolas de futebol, acompanhadas de pinos de boliche de plástico. Ao lado das bolas, há uma pequena mesa com seus cadernos escolares, Pedrinho está ansioso para começar o segundo ano e fazer novas amizades. As artes que preenchem o quarto foram feitas por seu pai, Rogério, pintor de paredes há vinte e cinco anos. O único local que não possui pintura é embaixo de sua enorme janela, por conta dos buracos de bala.
Pedrinho nunca ligou para os buracos. Na realidade, ele os utiliza em suas brincadeiras. Brincar de espião americano, como nos filmes, observando a rua pelos buracos, anotando as movimentações e as enviando para o governo. Brincar
de super-herói, desviando das balas que passam pelos buracos, com a velocidade da luz. Brincar de astronauta, como se em cada buraco existisse um novo planeta para ser explorado.
Porém, o que mais lhe garante prazer é de madrugada, quando seus pais estão dormindo. Pela impossibilidade de acender a luz, para não acordá-los, Pedrinho lê seus quadrinhos preferidos utilizando a luz da lua, que transpassa os buracos, iluminando suas histórias impossíveis.
— Vem comer, Pedrinho. Aproveita que está tudo quentinho. — Grita Luz, sua mãe, do primeiro andar da casa.
Pedrinho parte em disparada pelo corredor, descendo a escada com grandes saltos. Sua refeição preferida é o café da manhã de domingo, com pão na chapa, ovos mexidos e leite com achocolatado, batido no liquidificador. A criança ainda em alta velocidade, pula em uma grande cadeira, para se deliciar com a comida.
— Bom dia, Pedrinho! Dormiu bem? — Pergunta Luz, sorridente.
— Até que sim, mas escutei aqueles barulhos estranhos na rua de novo. — Responde a criança, com a boca cheia de pão.
— Já falei para você falar com seu irmão, Rogério, ele não pode fazer as coisas dele em outro horário?
— Você conhece o trabalho do meu irmão, Luz, sou um mero pintor, o que eu posso fazer? — Diz Rogério, tirando os olhos do jornal e mirando sua mulher.
— Bom, tudo bem, vou falar para Cintia dar um toque nele.
Pedrinho não dá muita bola para a conversa, ele mal conhece seu tio. Devorar o pão com ovos é muito mais atrativo e gostoso.
— Hoje é um grande dia, Pedrinho. O padre Hélio vai iniciar sua catequese! — Exclama Luz.
— Caticase? O que é isso? — A criança pergunta, fazendo uma grande cara de ponto de interrogação.
— O padre Hélio, neste ano, vai te ensinar muitas coisas sobre a história de Jesus Cristo, para você ter bastante fé nele.
— Tá bom.
— Vai Pedrinho, agora come rápido, não podemos chegar atrasados. — Diz Luz, observando o relógio de ponteiro pendurado ao lado da geladeira.
Quando os três já estão devidamente arrumados para a ocasião, e prontos para sair, Rogério tenta ligar o carro, mas sem resultados.
— Puta que pariu, carro velho! — Diz Rogério, desferindo golpes no volante.
— Não fala palavrão na frente do nosso filho, estamos indo para a igreja!
— Pede para o padre consertar meu carro!
— Ai Rogério, para de se estressar! Pede o carro emprestado para o seu irmão.
— Você sabe que não gosto de pedir favores a ele. — Responde o homem, coçando a parte traseira de sua cabeleira encaracolada.
— Só hoje, não podemos chegar atrasados, é um dia importante para o Pedrinho.
Rogério olha para seu filho pelo retrovisor, ele está cavucando seu nariz atrás das mais profundas melecas. Abrindo um espontâneo sorriso, o pai vai até a casa de seu irmão, para pegar o carro emprestado.
— Puta que pariu! Oito horas da manhã e a gente parado nessa merda de rodovia! Qual a chance do Paulo passar por aqui? Ainda mais no carro dele, ele não é burro. — Exclama o cabo da PM.
— Porque a merda da rodovia é o único caminho da casa dele pro centro, para de ser preguiçoso! — Retruca o tenente.
— Tá bom, mas da mesma forma, qual a chance dele passar por aqui? — Sua voz suaviza, lembrando da hierarquia do batalhão.
— O filho da puta do Paulo matou dois civis e um PM no último assalto dele! Você acha mesmo que a gente tá trabalhando com chance aqui? Foda-se a chance dele passar! Se ele passar a gente mete bala, é ordem de cima. Tem equipe em todo o canto da rodovia. — O tenente aponta para todos os locais em que há armas do Estado, prontas para abrir fogo.
No carro, Luz e Pedrinho estão em alvoroço com a nova máquina do tio Paulo. Boca de toca-fitas, banco de couro, um belo carro importado, pintado em vermelho com as rodas brancas. A criança liga e desliga as luzes do banco traseiro, na dúvida de como ficaria mais divertido para brincar com os brinquedos que trouxe escondidos no bolso.
— Nossa, Rogério, olha só que carrão! Pede um bico para seu irmão. — Diz Luz, dando risada.
— Nunca mais fale isso, Luz. Não devia ter trazido vocês aqui, não estou com um bom pressentimento.
— Tenta dar uma relaxada, só estamos indo para a igreja, em quinze minutinhos chegamos. E aí, Pedrinho, o que você achou do carro do tio? — Luz segura no próprio banco e olha para trás, para enxergar o filho.
— É um possante, mãe!
— Puta que pariu, tamo fudido, um posto policial na frente! — Exclama Rogério.
— Se a gente for parado fala que estamos indo para a igreja, o carro é emprestado, não tem problema.
— Eles tão apontando as armas, caralho!
Disparos brilham de diversos pontos da rodovia. Rogério pisa fundo no acelerador, tentando fugir o mais rápido possível. Ele desvia de um, dois, três carros, mas então, um tiro no pneu. O carro desliza dez metros para a esquerda em alta velocidade, batendo na mureta de concreto e rodopiando duas vezes no ar, antes de parar de ponta cabeça.
Tudo escuro. Pedrinho sente sua cabeça apoiada em terra fértil. Ele escuta pássaros e árvores se movendo com a força do vento diurno. Seu abdômen queima. Ele apalpa a própria barriga, sua mão fica pegajosa. Abrindo os olhos, a criança se vê em uma trilha, que trespassa um aromático bosque. À frente, há dois caminhos. O da esquerda brilha como uma fogueira acesa em tempos de frio. O da direita é escuro, como a depressão pré-mortem de um ser que não merece partir.
Ele sente algo dentro de si querendo desesperadamente sair por sua ferida, seguir algum dos caminhos, o seu destino. Então, de repente, um clarão intenso preenche sua visão e a voz de Luz o desperta do devaneio:
— Pedrinho, você está bem? — A mãe pergunta, ofegante, machucada.
— Eu não sei, mãe. Estou me sentindo cansado. — Responde a criança, liberando pequenas lágrimas.
— Fique aí, Pedrinho, vou tentar te ajudar.
— Não, eu vou. — Diz Rogério. — Não deve ser seguro sair.
Rogério tenta mexer seu braço esquerdo, mas ele está completamente quebrado. Pedindo ajuda para Luz, ela consegue tirar seu cinto. Quando o homem coloca a mão na maçaneta para ajudar o filho, sua cabeça é fortemente jogada para trás. A bala perfurou seu crânio pelo lado esquerdo, descendo até sua mandíbula, saindo pelo lado direito. O sangue adentrou o toca-fitas, pronto para tocar uma melodia lynchiana. Luz começou a gritar desesperada, pedindo ajuda, mas ela não existe. Dois tiros perfuraram seu pescoço, e, em minutos, seu corpo estava completamente vermelho e gelado.
— Puta que pariu, não é a porra do Paulo! Tamo fudido, caralho, fizemos merda! — Exclama um PM, colocando as duas mãos na cabeça.
O carro é cercado por policiais observando o banho de sangue. Em meio às discussões de como proceder perante a mídia, os superiores e os barulhos de isqueiro, acendendo cigarros em uma tentativa inútil de amenizar o estresse, um PM escuta os gritos de desespero de Pedrinho no banco traseiro. Após longos minutos tentando abrir a porta e tirar a criança do matadouro, Pedrinho está nos braços de um policial, berrando, chorando:
— Monstros! Vocês são monstros! Pai… mãe…. — As lágrimas se mesclam com o sangue e o catarro, penetrando os cortes de seu pequeno rosto. Quando o caco de vidro é retirado de seu abdômen, a criança desmaia, sentindo parte de sua alma vagar ao além.
II.
A forte luz da lua brilha no descampado. A dupla está sentada em uma caixa d'água, afastados da área de maior movimentação, dividindo um baseado. O entorno é mata, com alguns lotes em início de construção. No lote mais a direita, passando por um pequeno buraco no muro, está o bairro em que a dupla cresceu. Correndo, brincando, namorando, descobrindo a vida.
— Meu negócio é matar. — Diz Palhaço, passando o baseado. — Não quero roubar, muito menos um cinema, lugar de família.
— Tu não tá entendendo a situação, Palhaço. Não tem mais ninguém pra roubar, tá geral de cana ou respondendo. Ou é você ou a gente tá fudido. — Madruguinha dá um longo trago, e segue dizendo com a boca cheia de fumaça. — As famílias tão precisando de dinheiro pros advogados. Esses filhos da puta cobram caro.
— Porra, Madruguinha, sou um puta matador. Mato alvo preciso. Quem precisa morrer, morre. Se der merda no cinema, vou ter que matar inocentes.
— Não vai dar merda, porra. A gente chega na manha, bem vestido e compra dois ingressos para a sessão da madrugada. Tá passando um terror com aquela loira, Naomi não sei o que, cê vai gamar. Quando chegar no final, você tranca a saída e eu anuncio o assalto. Eu pego o que for valioso e vazamos, sem falha. — Responde Madruguinha, devolvendo o cigarro de maconha. — O segurança da sala é tio do Zumbi, ta com nois.
— Eu não quero matar civis, você sabe que eu gosto de matar gambé. Sinto prazer.
— Fica tranquilo, Palhaço. Mas que raiva é essa que tu tem de PM? Algum dia vai dar ruim pro seu lado. O melhor é comprar eles, não matar.
— Já deu ruim pro meu lado. Não tenho nada, me tiraram tudo. — responde Palhaço, observando a fumaça da maconha perseguindo vagalumes próximos.
— Ninguém aqui tem nada, por isso tamo aqui.
— Tu tem, Madruguinha. Tu tem pai e mãe. Eu to sozinho.
Palhaço desce a caixa d’água, rumo à sua casa. Ele passa pelos terrenos em construção, imaginando quais casas terão buracos de bala. Remoendo memórias do passado, ele vê a luz da lua penetrando os pequenos furos de seu quarto, fazendo-o recordar de sua mãe. Ele nunca começou a catequese. A ferida do abdômen reabre, pintando sua camiseta branca. Novamente, sua alma vaga só.
Dentro da viatura, o cheiro é de fast food e cigarro. Ela percorre a rua lentamente, o céu projeta a noite. Botecos, puteiros e motéis, todos pontos de droga. O bairro foi completamente dominado pelas ratazanas da noite, como se não houvesse diferença entre rua e esgoto. Os vidros abertos, em uma tentativa falha de amedrontar. Silva abre uma lata de cerveja que estava no seu pé:
— Porra, não quero voltar pra casa. Minha mulher não para de encher o saco. Ontem foi porque eu não busquei minha filha na aula de canto. Se você visse ela cantando, também não buscava. — Silva observa um grupo de jovens atazanando prostitutas.
— Ta ficando foda, Silva. Toda noite você está falando mal da sua família. Arruma um psicólogo, porra. Vou começar a cobrar consulta.
— É que você deu sorte, Paraná. Tem uma puta mulher foda, umas filhas lindas. Eu só me fudi. Acho que eu não nasci com o pé esquerdo, mas os dois são canhotos. — Silva passa uma cerveja para o Paraná.
— Eu construí minha família junto com a Paola, a gente se entende da nossa maneira. Nossa relação é formada no respeito e na confiança. Não sou igual a você que some por dias. Falando nisso, deu nossa hora, vamos voltar pro batalhão. — Paraná entorna sua lata.
— Ah, peraí cara, não vou voltar pra casa não. Vamos ver aquele filme novo lá, falaram que tem uma loira sensacional. — Diz Silva, tocando no próprio saco e dando uma fungada.
— Ver filme com você? Tu tá de sacanagem comigo. — Paraná responde, olhando para o parceiro e dando risada.
— Vamo aí, cara, é terror dos bons, coisa de japonês xing ling. Tem uma mina que te telefona e depois invade sua casa, to precisando de uma dessas.
— Porra, cara, você sabe que é doente, né? Sábado, o churrasco é na sua conta.
— Beleza, pode deixar. Segue para o cinema. — Silva arremessa sua latinha em um casal de mendigos.
A dupla estaciona a moto em frente ao cinema de rua. Palhaço e Madruguinha estão perfumados, vestindo camisas polo. Eles passam despercebidos, o local está abarrotado de pessoas querendo assistir o novo filme de terror. O chão forrado por um carpete vermelho os guia até a sala de exibição. No percurso, a dupla já imagina o quanto ganharão em relógios, colares e celulares.
— Vamos sentar aqui, Palhaço. Aqui tá confortável. — Diz Madruguinha, apoiando os pés na poltrona da frente. — Aqui de trás a gente tem a visão de geral, e você tá perto da porta, não esquece de trancar ela.
— Beleza, beleza. — Palhaço se aconchega ao lado do parceiro.
— Vamos assistir pelo menos um pouco, tão falando muito bem desse. — Madruguinha faz uma careta para Palhaço.
— Porra, tu é feião, nem precisa fazer careta pra botar medo. — Palhaço ri.
— Ah, se toca, mermão.
Após uma hora de sustos generalizados, Palhaço se levanta lentamente para trancar a porta da sala. No lado de fora, ele encontra o tio de Zumbi, que entrega a chave. Mandando um sinal com as mãos para Madruguinha, o parceiro entende que está tudo certo. Madruguinha se levanta, apontando a arma para cima:
— Ae, seus filhos da puta, eu sei que o filme ta bacana, mas essa porra é um assalto. — Madruguinha abre uma sacola. — Tudo de valor, vocês vão colocar aqui, tranquilo, sem pânico.
A sala vira um caos, gritaria e choradeira, homens e mulheres ficam nervosos. Madruguinha começa roubando a fileira em que estava, tudo está indo como nos conformes. Paraná e Silva, que estão mais abaixo, se entreolham:
— Puta que pariu, parece que a noite ainda não acabou. — Diz Paraná.
— Mantém a calma, esse cara não espera a gente aqui. Quando ele vier com a sacola, vou dar um tiro nele. — Responde Silva, destravando sua pistola e guardando-a.
— To ligado, esse já é presunto.
Alguns minutos depois, Madruguinha está na frente dos policiais.
— Vai tiozão, deixa eu ver seu celular aí!
— Claro, só não me machuca, por favor. — Silva coloca seu celular na sacola, fingindo nervosismo.
— Aí sim, esse aqui tem aquele jogo da cobrinha. — Madruguinha fica de costas para Silva, para abordar Paraná.
— E você maluco, tem o…
Silva dispara quatro vezes nas costas de Madruguinha. Seu corpo ensanguentado cai sobre um casal na poltrona da frente. Todas as pessoas da sala levantam desesperadas e partem correndo para a saída. Palhaço rapidamente destranca a porta e foge com a multidão, para passar sem ser notado. No meio do saguão do cinema, seu corte no abdome se abre, ele fica branco e deita no chão. O carpete se torna ainda mais vermelho.
— Que porra que aconteceu aqui, muleque? — Grita Paraná para o ferido.
— Tinha mais um, ele me furou e foi embora. — Palhaço está fraco, mal consegue falar.
— Puta que pariu, que merda. — O policial põe a mão na testa do ferido. — Trabalheira da porra.
— O bandido que estava lá dentro, morreu?
— Virou estatística, meu parceiro tá com o corpo. — Paraná acende um cigarro. — Vou chamar uma ambulância pra você.
— Não senhor, não precisa de ambulância.
— Tu ta devendo? — Paraná olha nos olhos de Palhaço, desconfiado.
— Queria dar um presente pra minha mãe, fui pego vendendo maconha. Se eu for pro hospital, a polícia me pega.
— Só maconha, é? O que você deu pra sua mãe?
— Nada. — Lágrimas escorrem do olho de Palhaço. — Ela faleceu.
— Você tem sorte, se fosse meu parceiro aqui, você tava fudido. — Paraná pega seu radinho e diz. — Silva, to com um ferido aqui, vou cuidar dele. Leva o abate pro IML. Um vagabundo fugiu.
— Beleza, talvez eu durma lá, é mais confortável que minha cama. — Silva dá uma gargalhada. — Noite agitada, Paraná.
— Nem me fale.
Paraná ajuda Palhaço a se levantar e o leva até a viatura. O rapaz desaba no banco, branco e vermelho.
— Obrigado, senhor. — Sua voz é entrecortada. — Para onde a gente vai?
— Para casa, minha mulher é médica. — Paraná liga a sirene e parte em disparada. A luz vermelha e azul se mescla com o branco da lua.
III.
O apartamento fica no centro da cidade. Uma enorme televisão de tubo preenche a sala, com DVD player e um videogame de última geração. No centro, uma mesa vermelha em formato de infinito, sobre um tapete branco. Diversos quadros de pop art espalhados pelas paredes. Eles seguem para a cozinha, com geladeira de duas portas, micro-ondas, liquidificador e tudo que a família necessita.
— Senta aí, vou chamar a Paola. — Paraná puxa uma cadeira. — Qual o seu nome mesmo?
— Pedro. Palhaço senta. — Obrigado.
Paraná segue pela porta. Palhaço espera, refletindo se esse policial merece morrer, como os outros que ele matou. Seria tão fácil. Uma facada no coração ou na jugular. Ou talvez, encontrar um martelo de cozinha, seria mais divertido.
Paola entra no recinto, depositando seu kit médico à mesa e sentando perto do ferido. Paraná aguarda na sala:
— Pedro, né? Como você fez esse corte? É profundo. — Diz a médica, apalpando a barriga do ferido.
— Fiz quando era criança, em um acidente de carro. — Palhaço fita o chão.
— É raro um corte ficar tanto tempo sem cicatrizar. Você é diabético?
— Não, senhora.
— Possui alguma doença sistêmica?
— Não sei o que é isso.
— Uma doença que atinge seu corpo inteiro.
— Não.
— Então é um corpo estranho, vou analisar dentro da ferida. — Paola coloca sua luva e penetra a mão dentro de Palhaço, o ferido faz movimentos de dor. — Que estranho, não tem nada aqui.
— Todo dia sinto que falta algo aí.
— Você é um caso grave, rapaz, vai aparecer na televisão. — Diz Paola, sorrindo. — Sinceramente, aqui em casa não há muito o que fazer. Vou costurar e você ficará bem, pelo menos por alguns dias.
— Muito obrigado.
Paola se prepara para costurar palhaço:
— Você vai sentir um pouco de dor agora. — A médica enfia a primeira agulha. Palhaço segura firme nos braços da cadeira.
— Eu aprendi a costurar minha própria ferida. — Diz Palhaço, com a testa molhada de suor.
— O corte abre frequentemente?
— Quando ocorre algo importante na minha vida, algo que pode mudar meu destino.
— Muito bonito, Pedro. Você devia ser poeta, mas eu, como médica, não posso pensar assim.
— Ossos do ofício. — Pedro abre um meio sorriso.
— Pode se dizer que sim. — Paola realiza a última costura. — Feito, rapaz, por alguns dias ele não abrirá. Tente não moldar muito seu destino. — Ela ri.
— Obrigado, doutora, mas não posso prometer isso. — Paraná adentra a cozinha.
— Tudo certo aqui?
— Tudo, o rapaz aguentou firme.
— Obrigado aos dois. — Palhaço se sente mais relaxado. — Acho que vou indo, não quero causar mais problemas.
— Imagina, não foi nada. — Responde Paola. — Boa sorte no futuro, Pedro.
— Vamos, vou te levar à porta. — Diz Paraná.
A dupla sai da cozinha, passando pela sala de estar. Paraná abre a porta de saída.
— Liberado, rapaz.
— Por que você fez isso?
— Não sei. Talvez eu seja bom em um mundo de loucos. Ou quero fazer algo bom, porque no fundo sou ruim. Nós sabemos que houve mentiras na sua história.
— Então, por que? Me diga, por favor.
— Nem tudo precisa de explicação, Pedro. — Paraná põe sua mão no ombro de Palhaço. — A vida é muito mais complicada do que sim ou não, branco ou preto. Não temos resposta para tudo, e, sinceramente, sinto conforto nisso.
— É, acredito que sim. Obrigado, de qualquer forma. — Palhaço se despede, e entra no corredor, rumo ao elevador. Porém, ele não desce, ele aguarda, esperando a hora perfeita para invadir o apartamento.
Passadas duas horas, tendo certeza de que todos da casa estão em seu momento de sagrado descanso, Palhaço abre a porta com a ajuda de um clipe de cabelo. Com passos de pena, ele adentra a cozinha, pegando uma enorme faca. A luz da lua bate na lâmina, projetando o reflexo do assassino.
Palhaço entra no corredor principal, e observa uma porta cor de rosa. Abrindo-a, ele enxerga duas pequenas camas, abrigando seres inofensivos. Ao lado das camas, diversas bonecas e animais de pelúcia estão espalhados. Duas mesinhas infantis, uma ao lado da outra, para as meninas pintarem e escreverem seus inocentes pensamentos. Palhaço não vê nenhum buraco de bala. Seu corte ameaça abrir. Ele deixa o cômodo.
Abrindo a porta mais ao fundo, Palhaço adentra o quarto principal. Paraná e Paola estão dormindo o sono mais pesado que existe. O sono depois de um dia de lutas cheio de tarefas, tarefas que de alguma forma beneficiam ao próximo. O casal está grudado, o peito do policial contra as costas da médica, coxa com coxa, um sinal de amor. Vulneráveis.
Palhaço segue pelo lado que está Paraná, parando ao lado da cama, na frente do criado mudo. Segurando a faca, ele observa o móvel. Uma luminária, o livro “O Estrangeiro”, e um pequeno retrato com a foto da família do policial, se abraçando em um lindo dia de sol no parque. Os sorrisos demonstram a felicidade de um dia passado.
O corte de Palhaço se abre por completo, ignorando os pontos feitos por Paola. Lágrimas escorrem de sua face. Ele estende o braço, pronto para matar Paraná, porém solta a faca, e sai do quarto. Deixando um rastro de sangue até o elevador, ele parte.
Palhaço caminha até sua casa, atordoado. A enorme lua ilumina seu trajeto. A rua está vazia. Ninguém para enxergar o enorme rastro de sangue atrás dele, sangue que o perseguiu durante sua vida inteira. Uma vida de morte.
Ele entra em sua casa; vazia, como sempre. Pegando um revólver, ele sobe na pequena laje, pronto para desafiar a enorme lua, sua alma punge. Sentando, Palhaço observa o horizonte. A cidade meio acesa, meio apagada. Formada por um milhão de vidas, de luta e sofrimento.
Palhaço sente sua ferida vibrando, ansiando por algo. Aceitando seu destino, ele abre a boca, posiciona o revólver, e atira. O corpo desfalecido tomba na cadeira. Do buraco que abriu na parte de trás da cabeça, uma fina camada de fumaça branca voa. Palhaço finalmente decide partir junto de sua alma. Ela sobe, e sobe…
Na infinitude do espaço, a ansiosa alma de Palhaço enxerga, ao além, duas pequenas luzes, excitadas e vibrantes. Duas lindas almas, na órbita da lua, aguardando a chegada de seu querido filho. Novamente reunidos, os três partem.
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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