
3x01 - O Açougueiro de Areal
de Reginaldo Cerqueira
Correio de Petrópolis 12/03/1976: Três corpos foram encontrados boiando nas águas do Rio Preto. A polícia ainda não identificou os corpos achados nas águas do Rio Preto. Os três aparentam idade entre 39 e 45 anos, do sexo masculino e com graves mutilações pelo corpo. As investigações ainda não indicam nenhum suspeito, quem souber qualquer informação, por favor, se dirija à delegacia para depoimento.
O Açougueiro de Areal
Os primeiros raios de sol iluminaram meu corpo coberto de sangue, estava sentado no banco de madeira na minha varanda. Levantei-me lentamente, com o corpo dolorido, e andei em direção ao açougue. Cruzei com alguns moradores que não notaram nada de errado no meu estado, pois eu sou o Antônio, o açougueiro da cidade, nada mais natural estar coberto de sangue. Enquanto eu andava, imagens do passado dançavam na minha frente. Isso sempre acontecia depois de uma noite como aquela, acho que estou ficando cansado dessa vida. Entrei no açougue, acendi as luzes, abri a geladeira, peguei um traseiro de boi, joguei em cima do cepo e comecei a descarnar a carcaça. Os fregueses foram chegando e pedindo os mais variados cortes, muitos deles não falavam comigo, talvez por causa da minha aparência e minha fama. Minha família tinha ligação direta com as antigas famílias de ex-escravos do quilombo da tapera. Meus pais morreram quando eu era bem pequeno, não tinha irmãos e perdi contato com o resto da família.
Fui uma criança problemática na escola, era violento, pouco afeito a atitudes e ações afetivas, e quando entrei na adolescência a coisa piorou muito. Cresci em demasia e de forma não proporcional, adquiri uma obesidade difícil de olhar, a cabeça enterrada nos ombros, pernas musculosas, abdome globoso, braços longos e igualmente musculosos. Não consegui seguir na escola, e o prof. Henrique, diretor do internato onde cresci, e que era para mim a figura mais próxima de um pai, achou melhor que eu tivesse uma profissão. Optamos pelo curso de açougueiro, não sei explicar o porquê. Se tinha alguma coisa boa na minha vida miserável era a força física, levantar o cutelo me era muito fácil e sentir o aço cortando a carne me dava muito prazer. Ainda no curso profissionalizante, ao destruir um osso do traseiro de um suíno, uma farpa se transformou em um projétil que vazou meu olho esquerdo, então minha aparência não era das melhores.
O dia passou preguiçosamente, e em alguns momentos uma paz inexplicável se instalava no ambiente, finalmente chegou a hora de eu descansar. Caminhei de volta para casa como um robô sem vontade, tomei um banho, sentei-me na sala quase sem móveis. Eu me dei conta de que passei o dia sem que nenhum pensamento cruzasse minha consciência, e foi inevitável que uma avalanche de lembranças povoasse novamente minha cabeça.
Eu me vi andando sem destino pelos barracos abandonados do antigo quilombo da tapera no município de Petrópolis. Era a origem da minha família, o vento quente trazia para meus ouvidos o ruído de papéis velhos sendo empurrados como folhas secas e, surpreendentemente, trouxe para minhas narinas o cheiro de comida feita na lenha. Essa foi a lembrança de meu primeiro encontro com o velho. Eu continuava andando quando ouvi um “psiu” seguido de um “ei garoto venha cá”. O chamado veio de um barraco ao lado de uma touceira grande de bananeiras. Algumas galinhas magras ciscavam despreocupadas na porta da casinha de paredes de barro rachado. Ao me aproximar vi na penumbra embaçada pela fumaça, uma silhueta sentada em um banco tosco de madeira. Meus olhos se acostumaram à pouca luz, e a figura que antes estava mergulhada na sombra, agora estava de pé, apontando para um outro banco.
— Senta, a comida está quase pronta — disse.
Sentei e observei meu estranho anfitrião. Era um negro franzino, com os cabelos já bem grisalhos, a barba branca emoldurando seu rosto enrugado. Ele pegou um prato de ágata velho e colocou a comida que estava fervendo na panela, estendendo o prato em minha direção.
— Toma Antônio, na moringa tem refresco de pitanga, pode pegar.
— Como sabe meu nome? — perguntei. Você me conhece?
— Conheci seu pai e sua mãe, é fácil te reconhecer, você é uma mistura dos dois.
Fiquei sem palavras, não sabia se comia ou se cobria o velho de perguntas.
— Termine seu prato, depois conversamos.
Comi em silêncio. O velho acendeu um cachimbo, cruzou as pernas, com a outra mão encheu um copo de vidro com café forte e ficou me olhando.
Abri os olhos, eu estava de volta na sala da minha casa, reprisava o dia que conheci quem se tornaria meu mestre, meu orientador e deste dia até hoje, já havia se passado vinte e três anos. A dor no abdome me trouxe de volta à realidade, eu estava com um corte profundo na altura do umbigo e o sangue escorria lentamente, mas continuamente. Levantei com algum esforço, fiz um arremedo de curativo e fui dormir.
Acordei com o corpo doído, troquei o curativo e fui para o açougue, as crianças como de costume me seguiam dando risada e jogando pedras. Eu fingia ficar com raiva e corria atrás deles grunhindo como um animal. Elas corriam gritando de medo, eu me divertia com a brincadeira, eles eram os únicos que me davam alguma atenção.
Estávamos na véspera da Semana Santa. Ninguém comprava carne nessa época, mas eu gostava de ir para o açougue, ficava sentado na calçada vendo o movimento da cidade. Novamente as lembranças flutuaram diante dos meus olhos, fui transportado para outro tempo, estava na casa de pau a pique com seu ambiente esfumaçado, o velho me olhava através do copo de vidro barato.
— Como você conheceu meus pais?
— Primeiro você deve conhecer sua história. O imperador D. Pedro II costumava passar longos períodos na fazenda do Pe. Correia lá pelos idos de 1857 e notou a melhora da saúde da sua filha, a Princesa Paula Mariana, menina de saúde delicada. Por esse motivo, e aproveitando a abertura do caminho novo que trazia ouro de Minas Gerais, decidiu construir um palácio no alto da montanha. Para isso o imperador comprou a Fazenda do Córrego Seco. Esse foi o início do que hoje é o município de Petrópolis. A construção precisava de muitos materiais, entre eles areia de rio. Usada até hoje em construções de alvenaria, essa areia era retirada no entroncamento dos Rios Preto com o rio Piabanha. A princípio alguns índios coroados foram forçados a fazer esse trabalho, mas não deu muito certo. Os índios eram muito agressivos e revoltosos e frequentemente eram abatidos pelos soldados do império ou então desapareciam na mata fechada. Ao mesmo tempo o Imperador começou a receber denúncias do aparecimento de corpos mutilados de índios que tentavam a fuga pela mata, e dos soldados que tentavam recapturá-los. Os índios falavam de uma antiga maldição, em que em determinadas épocas se abria um portal para o aparecimento de monstros no encontro dos dois rios. Temendo pela vida de seus soldados e até de sua própria família, o imperador resolveu trazer guerreiros da África para descobrir e combater o que quer que fosse o causador das mortes violentas, e os que melhor se adaptaram foram os guerreiros Massai vindos do Quênia. Seu pai e sua mãe são descendentes diretos desses nobres guerreiros, eles fundaram o que agora é conhecido como quilombo da Tapera. Antes aqui tinha muitos moradores, todos descendentes dos massai, mas aos poucos eles foram tombando na guerra com o desconhecido. Você é o último representante desta linhagem.
— E porque eles sumiram, por que me abandonaram? Perguntei com os olhos marejados de lágrimas.
— Eles não sumiram garoto, eles tombaram em batalha, cabe a você agora tomar o lugar deles e honrar suas mortes.
— E como vou fazer isso?
— Seu treinamento começa agora.
Fui trazido de volta à realidade por uma chuva de pedras jogadas pelos meus pequenos amigos, que correram rindo quando me levantei da cadeira ameaçadoramente.
Por algum sortilégio desconhecido o meu mestre conseguira transmitir diretamente para minha mente as orientações necessárias.
Minhas feridas já estavam cicatrizadas quando uma nova lua se aproximava, me preparei para ir ao ponto em que o Rio Preto e o Rio Piabanha se encontravam. Neste local uma tronqueira de bambu fechava a vista para uma pedra com antigas inscrições. Amolei a minha arma favorita, o cutelo. Essa noite tem batalha.
Correio de Petrópolis 27/04/1976: Mais dois corpos foram encontrados boiando nas águas do Rio Preto. A polícia já trabalha com a hipótese de um serial killer, a população assiste preocupada o trabalho da polícia em encontrar o responsável pelas mortes e orienta a população a não sair de casa em noites de lua minguante.
Olhei para o firmamento, a lua minguante estava em seu ponto mais alto no céu, estava na hora. Andei com cuidado pelos becos da cidade até chegar na beira do rio. Com meu mestre me orientando com seu jeito mágico de colocar palavras em minha cabeça, observei admirado o encontro dos rios e o bambuzal que crescia na margem oposta. Era lá que as bestas se escondiam há séculos, e que minha família tinha a obrigação de combater, como sempre acontecia. O bambuzal começou a se contorcer e produzir um barulho como o sibilar de serpentes. Eu estava pronto, mas o que não sabia era que naquela noite as coisas sairiam errado, muito errado.
Lancei-me em direção à floresta de bambu. Olhos brilhantes me observavam. Fiz meu primeiro movimento de ataque, a criatura que emergiu do bambuzal se esquivou com incrível agilidade, desferi o segundo e o terceiro golpe, a besta continuava a se mover com agilidade, meus braços e pernas já sentiam a dor da fadiga, mas o cutelo estava pintado de vermelho, eu havia acertado alguma coisa. Os primeiros raios de sol já despontavam no horizonte.
Por um descuido, ou talvez pelo cansaço, fui derrubado pelo monstro que fugiu em direção à cidade. Com ferimentos pelo corpo me levantei e corri na tentativa de impedir que ele chegasse na cidade, mas por mais que eu me esforçasse não consegui alcançá-lo. A cidade já estava despertando para seus afazeres, as lojas abriam suas portas, as crianças caminhavam para a escola e esse era meu maior medo. Corri para tentar impedir o monstro de entrar no pátio onde as crianças brincavam antes do início das aulas, notei que o ser escorregadio se esgueirava pelas sombras do muro alto e se aproximava dos meus amigos.
— Fiquem juntos crianças! — gritei.
Atrás de mim ouvi uma voz alta que dizia: — Pare Antônio!
Olhei para trás e vi um grupo de policiais com armas em punho, eles não estavam entendendo o que estava acontecendo. Olhei em direção às crianças, o asqueroso estava se aproximando perigosamente do grupo de pequeninos. Gritei para os policiais:
— Tenho que salvá-las, vocês não estão vendo?
Virei-me levantando o cutelo acima da minha cabeça, corri para golpear a fera. Senti um forte impacto no meu ombro esquerdo e logo depois minha nuca explodiu silenciosamente, meu corpo foi desabando enquanto eu via a criatura se desfazer em uma neblina brilhante.
Conto escrito por
CAL - Comissão de Autores Literários
Telma Marya
Produção
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO

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