6x05 - O Triste fim de um Fumante Invertebrado
de Coelho de Moraes
1) Começa nossa história quando um desses tabagistas convictos, Cruzsouza, adentra com toda a pompa e circunstância o hospital dos cancerosos, com o intituito de salvar a sua vida de suicida em longo prazo, após sugar milhares de cigarros, cachimbos, charutos, cigarrilhas, enfim, todo o arsenal que se utiliza para ter “aquele” charme, segurança em si mesmo, status, posse, e o divertido ar intelectualóide que acompanha a cena dos que soltam fumaça pelas ventas.
Cruzsouza era um desses. Digo era, pois, conto já o fim da história, apesar da sua tentativa de tratamento, Cruzsouza veio a falecer meses depois. Em compensação foi enterrado sob o som da marcha fúnebre de Chopin e discretamente forrado por um tumor brônquico dos mais malignos. Graças exclusivamente ao cilindro branco do prazer inaudito. O cilindro dos imbecis.
2) Mas, voltemos no tempo e encontraremos Cruzsouza subindo em um ônibus em São Paulo. Ele fuma, mas, ao pisar os degraus do coletivo atira a guimba do cigarro para o chão. Ouviu alguém gritar:
— Fumante porco! Não viu a lata de lixo, dragão?
Era, notoriamente, um caçador de fumantes. Cruzsouza manteve-se quieto, pois é sabido que alguns desses caçadores são iracundos ao extremo e não poucas vezes já desandaram dragões, digo, fumantes a tapa. Algumas mulheres caçadoras andam de caçarola na mão, de aço inox, e por pouca coisa quebram cabeças nas ruas. Mas, continuando, em São Paulo Cruzsouza jogou o toco do cigarro no chão, antes de penetrar no ônibus.
No Rio de Janeiro, no entanto, o mesmo anti-herói sobe na locomoção levando no meio dos dedos o símbolo fálico do cigarro e, em largas aspiradas, solta rolos de fumaça branca para a atmosfera fechada do coletivo. Novamente ouve uma voz:
— Não tem respeito, dragão-porco-fumante? Passa pela sua cabeça esfumaçada que muita gente não quer ter essa névoa cinza nos pulmões? — enquanto o homem falava, Cruzsouza passou pela roleta, temeroso de tomar um tapa na cara. O sujeito tinha uma mão imensa, aliás.
— Já basta a atmosfera poluída da cidade. Não precisamos de mais uma fonte de sujeira. Não houve reação, pois, evidente, era mais um daqueles caçadores. Cruzsouza teve que ouvi-lo durante toda a viagem. Meia hora! Às vezes, um grupo de fumantes se reunia e não permitia que os caçadores se manifestassem, no entanto, naquele ônibus o acaso permitiu, ele sim, que Cruzsouza subisse sozinho e tivesse que aguentar olhares de repulsa e esgares de ódio por parte da vizinhança. É claro que jogou o cigarro todo no chão. E orou para São Plutão!
3) — O fumante, antes de tudo, é um babaca! — gritava na rua um associado do Movimento de Caçadores aos Fumantes Invertebrados, parafraseando o Euclides. Os transeuntes sentiam medo, pois os caçadores se tornaram de ativistas políticos a perigosos exterminadores de fumantes ou mesmo dos membros dos Adoradores do Tabaco.
Fumantes e Adoradores do Tabaco formavam grupamentos religiosos que, ao longo dos séculos, dominaram os povos com opressão desmedida, se bem que sutil. Tudo começou quando Phillipe Maurício Camelo fundou a primeira igreja da seita. Daí em diante, os adeptos, que já existiam apesar de esparsos, aglutinaram-se para praticar suas ações mesquinhas, ou seja, andar com aquele troço pendurado na boca (como se já estivessem fazendo muito) originando um dos maiores movimentos religiosos dos últimos tempos. Aglutinaram-se e receberam o nome final de Adoradores Anônimos do Tabaco.
A fundação da nova seita desmembrou as outras, uma vez que adorador de tabaco tem em qualquer religião. Fez-se a ruptura dos fiéis que passaram a frequentar a nova organização. Celeuma no mundo religioso. Questões antigas como o ar se fizeram ouvir? Adão fumava? A cobra era um charuto? Eva foi seduzida pela cobra-charuta? Deus era-é-será fumante?
O fumante, antes de tudo, é uma besta! — uma pedrada fê-lo calar a boca. O homem desabou do alto do pedestal e uma batalha campal iniciou-se no meio da praça, alimentada pelo pretexto da pedrada. Fumantes e não-fumantes se desancavam em sovas e catiripapos homéricos, se bem que Homero teria dito que tudo fora culpa do Aquiles.
A polícia chegou para serenar os ânimos distribuindo cacetada para todo lado.
Cruzsouza, no entanto, apesar da seita, e do seu amplo desejo religioso, não era um fiel Adorador Anônimo do Tabaco, aliás, ele tinha nome. Que dizer, era um livre-pensador, fumante, mas não filiado a seitas de espécie alguma. Contudo, para quem não fumava todo aquele que se mostrasse em público, manipulando um nocivo aparelho fumígeno, aparelho de cabeça esbraseada, era logo rotulado e devidamente escorraçado, se não em pensamento, em palavras ou ações.
— Discriminadores! — gritava em seus pensamentos para a turba de não-fumantes. — Pensam que são os donos do mundo?! Pensam que têm todo o direito a toda a razão? — eram ideias que chegavam em nível de boca, pois uma intensa raiva se apossava de Cruzsouza naqueles instantes, mas, não se formava em vozes ou palavras inteligíveis, uma vez que a raiva de Cruzsouza passava logo.
Mas, pergunto, o que levou Cruzsouza a adquirir a vontade, o vício burro de fumar?
Com a palavra, o seu analista.
4) “Bem, pelas anotações secretas que aqui tenho — por favor, não publique o que lhes conto porque sempre pensam que nós, analistas, psiquiatras, confessores, párocos, psicólogos e prestidigitadores somos pessoas em que se pode confiar e, não é verdade. Não publique se não pega muito mal para mim, tá? –, continuando... nas anotações que tenho tirado desses trinta anos de pesquisas, o fumante tem um problema na esfera sexual, e, o cigarro representaria para ele o mito do pênis perdido”
— Não entendi.
“Bem, meu caro jornalista, na psique do fumante o desejo interior se manifesta. Disso concluo que, apesar de uma ou outra pessoa se manter ativa, sexualmente falando, isso não significa que não seja impotente. Aí está o caso. Falando sobre Cruzsouza, que representa a maioria, aquele que fuma, só é potente enquanto fuma. Há um problema na afetividade, na autoconfiança, algo como o intenso desejo de ter sempre à mão um pênis, daí o ato, de manipular o cilindro. É comum que tais fumantes urinam frequentemente, para ter acesso, sem desculpas, ao pênis escondido. No caso das mulheres fumante...”
— Ia perguntar sobre isso.
“Bem, no caso das mulheres, é mais aceitável o interesse pelo falo, digo, pelo fato de manusear o cigarro. É-lhes peculiar e normal tal atividade. Apesar de ser um ato doentio ainda mantém a ligação heterossexual, no entanto, no caso dos homens, o confronto homossexualidade e normalidade, lá na cabeça dos fumantes, é o confronto que os leva a usar o cigarro como atenuante dos apetites, uma vez que não assumem a sua condição de homossexuais”.
— E, aqueles que deixam de fumar?
“Olha, não acredito muito em ex-homossexuais... como dizem os evangélicos. Há muitos por lá... Digo, porém, que assumiram não mais participarem do jogo homossexual e passaram, então, a trilhar um caminho hetero. Mas, eu não acredito... É uma opção que fazem. E, além de decidirem seus caminhos, pois já não terão a sensação de adultério, quando forem casados, respirarão muito melhor, já que inteligentemente escolherão o ar como gás respiratório e não a nuvem cinza-pardacenta dos fumos”.
“Os que não conseguiram deixar de fumar sabem que estão no dilema do Hamlet: Ser ou não ser. Eis a questão. Não sabem se preferem os braços da companheira ou do garotão da esquina. Daí a pose, a falsa impressão de autoconfiança, e de segurança que os fumantes tentam passar. Por dentro tremem e rangem os dentes e ainda podem ficar carecas!, o que será mais uma alusão ao falo... à cabeça do falo”.
— Você tem alguma saída para estas pessoas?
“Bem, tenho sim. A mesma que eu disse para o paciente Cruzsouza. Tome vergonha na cara. Ou assume sua viadice ou para de fumar. Porque de outra forma me encontrará pela frente. Eu também sou membro dos caçadores e a minha meta é a solução final. Não pelo fato de serem ou não homossexuais, mas pela porcaria daquela fumaça nojenta que me dá ânsia de vômito. Acautelem-se, dragões abambizados!”.
5) Naquele dia, Cruzsouza foi para casa e lá, somente lá, fumou quatro cigarros de uma vez. Completamente deprimido, pois não sabia da gravidade psicológica do seu caso. Realmente a ciência da mente estava muita adiantada. Descobria o desajuste sexual de um indivíduo pela largura do seu cigarro.
Naquela noite, Cruzsouza pensou em todos os chamados grandes homens que fumavam charutões e pensou também, mas já era de madrugada, na complexidade dos casos dos cachimbeiros de boca torta. Seria o detetive Holmes um problemático? E, Watson, que apito tocava, naquela situação? Seria, o médico, apenas um analista do detetive inglês ou... quem sabe?, a manutenção de uma chama platônica naquelas vidas frias e sem amor, correndo, nas madrugadas londrinas, atrás de criminosos comuns e cães madrugadores? Churchill, Fidel, Stalin, os capitães de indústria, seriam produtos doentios oriundos da busca do poder, em detrimento do emocional? Sexo nada! Charuto sim?
Na manhã seguinte Cruzsouza tinha fumado para quarenta dias, então teve a sua grande crise de dificuldade respiratória. Foi parar no hospital do bairro, já roxo, locupletado de fumaça, atingindo, suponho, um orgasmo fumífero.
À tarde recebeu a visita da noiva. Muito chorosa. Abraçou-o.
O que foi que aconteceu? — pergunta típica das pobres pessoas que, leigas em questões médicas, se atemorizam antes a visão de um bisturi ou de uma roupa de paciente hospitalar, ambos fedendo a formol.
Querido, o que aconteceu com você? Eu o esperei a noite toda. Meus pais saíram e pensei que fossemos aproveitar a noite para que puséssemos pra fora todas as nossas frustrações íntimas e, você ficou aqui, deitado, dormindo?
Desculpe-me, Diocréia, mas, não foi minha a culpa. Saí muito deprimido da análise e acabei tomando uma fumarada. Vim parar a fim de tomar oxigênio. Já não respirava mais!
É claro que puseram a culpa no cigarro, — disse Diocréia.
Foi isso mesmo! Como é que você sabe? Minha Diocréia é uma profetisa! Mas, o que me deprimiu foi à sentença de morte que ouvi da boca do analista. Percebi que era um réprobo. Ele falou da nossa relação e eu fiquei em dúvidas. Já nem sei se quando nos encontramos à noite, todas as quintas-feiras, enquanto seus pais se retiram para o cinema, se sou eu ou meu cigarro quem “pratica as práticas” imundas que os íncubos e súcubos nos fazem cometer. Aquela coisa de enfiar o dedo no...
— Claro que é você, Cruzeta querido. Eu sei por causa do cheiro. — Diocréia sentou-se na cama e abraçou o noivo entristecido. — Por que você... — dizia ela, calmamente, como quem tenta seduzir uma pessoa — ... não se filia aos Adoradores Anônimos do Tabaco? Lá você terá suporte psicológico e um grupo que o defenderá contra os ataques dos caçadores de fumantes.
— Não sei... — Cruzsouza hesitava.
— Acho até que você deveria deixar de ir a essas análises. De nada adiantam, pois se os analistas soubessem alguma coisa, mudariam de emprego. Começa daí.
Mas, nesse instante, uns rapazes e moças adentraram violentamente o quarto de Cruzsouza. Espalhafato e porta arrombada.
— É aquele ali, chefe! — gritou uma jovem.
— Muito bem — e veio a ordem de um dos mais velhos. — Empunhem suas máquinas e fogo! Agora!
Uma rajada de vento alcançou o casal desalentado, vento que saía dos ventiladores que os jovens seguravam galhardamente; e, aos gritos de “Desapareçam fumantes!”, ou então, “Chaminés desequilibradas, fora!”, e ainda, “Dragões devassos!!”, tinha um sem educação que disse: “Fora seus putos!”, mas foi repreendido imediatamente, pois a única coisa que os anti-tabagistas sempre tiveram a seu favor foi educação e sabedoria gramatical; os caçadores de fumantes desapareceram pelo corredor, sob o apoio do diretor do hospital, que permitiu a ação somente após o pagamento de seus honorários pelo tratamento do Cruzsouza.
6) Sai de uma, entra em outra.
A pneumonia avassalou Cruzsouza. Com as defesas diminuídas, o anti-herói nosso, ia e voltava dos hospitais. Cruzsouza antevia a morte. Por isso chamou seu tabelião preferido e ditou, em papel adequado, o seu testamento, o qual aqui transcrevemos em resumo: (Deixo para Diocréia minhas piteiras de ouro maciço e a coleção Cinzeiros Roubados dos Hotéis. Deixo vinte mil folhas de papel especial para a Fundação pelo Estar do Fumante) — mal sabia ele que naquela mesma semana uma guarnição de caçadores tinha invadido a Fundação, depredando-a por completo. Tomaram do presidente, enrolaram-no em folhas de papel bem grosso e, após formarem uma fogueira com os quilos de rolo ali encontrados para se fazer pito, moquearam o presidente, defumando junto as paredes do local destruído. — (Deixo as garrafinhas com fumaça expelida por pessoas famosas, compradas na zona franca, para os meus amigos em dificuldade econômica, impossibilitados de conhecerem pessoalmente seus ídolos. E, por fim, deixo todos os meus cigarros para as gestantes que pretendem fazer de seus filhos bons fumantes, o que compensará a inferioridade mental com a qual eles fatalmente nascerão.)
7) No fim de semana sentiu dores no peito e foi passar por observação no hospital do câncer onde se constatou anomalia pulmonar e pouco tempo de vida. À medida que caminhava pela rua, vendo as pessoas caídas na calçada, relembrava neuroticamente quando o médico leitor da radiografia fez cara de quem não gosta, ao notar os problemas. O radiologista olhou para Cruzsouza, deu a volta à mesa e perguntou: — É fumante?
— Sim, sou. Mea culpa, mea culpa, mea culpa — disse, batendo no peito magro. O radiologista sentou-se para escrever a sentença, ou melhor, o laudo da futura morte e falou:
— Bem feito, palhaço! — e ainda riu.
Pela rua, Cruzsouza meditava sobre isso; via, como já foi dito, muita gente deitada, sufocada, desmaiada: violetas e púrpuras faces voltadas para o céu. Nisso...
Nisso o cerco formou-se. Eram os caçadores de fumantes. Eles não descansavam um minuto. Um deles, muito irônico, torcendo os lábios, falou:
— Temos uma surpresinha pra você, dragão.
— Que tipo de surpresa?
— Já que gosta tanto de fumaça, resolvemos construir um habitat para você, caro dragão.
— Algo assim como um nicho ecológico próprio, disse um outro.
— Não estou entendendo.
— Mas já vai entender, seu pústula!
A um sinal do irônico, todos puseram máscaras respiratórias e apertaram os gatilhos de seus aparelhos fumegadores. Cruzsouza ficou envolto durante quinze minutos, numa espessa nuvem de fumo. Conseguiu distinguir vários sabores e texturas, adivinhou marcas, descobriu misturas interessantes, mas, o que parecia prazer no início foi se transformando em verdadeiro suplício. A asfixia tomou conta do seu ser. As nádegas se contraíram.
— Não é de fumaça que vocês gostam? Então engulam tudo! — Gritavam atrás da parede de gases e, tonto, muito mais que peru em véspera de Natal, cambaleou, tropeçou, tombou, rolou e lambeu a calçada.
Certamente, os caçadores de fumantes estavam bem equipados e bastante decididos em exterminar os fracassados engolidores de fumaça.
Seu lema, escrito numa imensa bandeira amarela, era: “DURA LEX FUMUS FAGATUS EST”.
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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