
4x02 - Ondulação
de Sergio C. Ávila
I
Sábado de sol. João Marcos, seguindo uma rotina que se repetia há anos, pegou o cooler com duas cervejas e um sanduíche, amarrou na alça uma canga, vestiu a sunga, colocou os óculos de sol e atravessou a rua.
Era esse o trajeto até a praia, onde se instalava em todos os finais de semana, férias e feriados, mais ou menos no mesmo lugar.
Chegava com suas coisas, se instalava e saía pra caminhar.
Mesmo fora de temporada, nesse horário a praia já estava enchendo e a caminhada era um tipo de distração da qual ele gostava.
As famílias conversando, as crianças correndo, a garotada jogando bola, eram situações que o faziam compensar as longas horas sozinho que passava, do fim da tarde até a manhã seguinte.
Era um solitário por natureza. Apesar de ser o único homem entre três irmãs, e talvez por isso mesmo, aprendeu desde criança a se bastar. E, com o tempo, foi ficando cada vez mais raro a mãe ou as irmãs virem para a cidade e ele foi se acostumando a vir sozinho.
Era bom por um lado, pois não tinha quem lhe impusesse horários ou obrigações e também porque não tinha que fazer nenhum programa que não o agradasse.
Mas, por outro lado, muitas noites ficavam longas demais, já que ali não havia cinema ou shopping, e ir a bares sozinho era uma coisa meio estranha.
A caminhada diária à beira—mar representava um fluxo de vida social, mesmo que não interagisse com ninguém, e quando voltava, tomava suas cervejas, comia o sanduíche e deitava ao sol. Muitas vezes cochilava.
Finalmente, ia para a água, onde ficava pelo maior tempo possível.
Quando o sol começava a baixar, por volta das quatro da tarde, recolhia suas coisas, se despedia do pessoal da barraca de bebidas e voltava para casa.
Tomava banho e ia pra cozinha preparar o almoço.
Abriu o armário e a geladeira. Avaliou que naquele dia a preguiça estava grande, então faria uma grande fritada de ovos com as sobras de tudo um pouco que havia nos potes da geladeira. Em apenas um prato, com tudo misturado, teria proteínas e carboidratos suficientes, sujando o mínimo de louça.
Terminando de comer, deitou no sofá e dormiu. Quando acordou, já era noite fechada. Havia dormido por quase três horas, o que sinalizava que a madrugada seria longa, passada jogando no computador e esperando algum sinal do sono reaparecer.
Por volta das nove horas resolveu dar uma volta, mais para passar o tempo, aproveitando o horário em que os turistas ainda estavam na rua.
Caminhou devagar, observando e, depois de quase duas horas, retornou para casa. Em seguida, mais um banho e era hora de ir para a frente do computador.
II
Sábado de sol. João Lucas, seguindo uma rotina que se repetia há anos, saiu do trabalho no início da tarde e foi direto para a praia.
Apesar de morar numa cidade de praia, de clima quente e com poucos dias de chuva no ano, aproveitava pouco o mar desde o final da infância, desde que começara a trabalhar.
Conciliar estudo e trabalho não tinha sido uma opção. Fora uma necessidade, com a morte da mãe e a saúde frágil do pai.
Não se lamentava, apenas aceitava o que a vida lhe oferecera. Mas sentia falta dos bons tempos em que podia ir à praia todo sábado de manhã, acompanhar o movimento dos turistas e não fazer nada.
Porém a realidade atual era a possibilidade de ir e ficar na praia somente aos domingos, e isso desde que o pai estivesse bem e não precisasse que ele ficasse em casa.
Além disso, quase sempre era possível dar uma escapada no sábado, depois do trabalho, pois nos dias em que trabalhava uma vizinha ficava de prontidão caso o pai precisasse de alguma coisa.
Trocou de roupa antes de sair do escritório, colocando o uniforme na mochila e, já de bermuda, chinelas e óculos de sol, caminhou as cinco quadras que o separavam da praia.
Deixou a mochila na barraca de bebidas cujos donos eram seus conhecidos e saiu para caminhar.
Fez a praia inteira e, na volta, comprou uma cerveja, sentando—se na areia para saboreá—la e acompanhar o movimento.
O sol já estava começando a ficar mais fraco e muitos turistas já haviam deixado a praia, o que dava a ele a chance de ficar com mais silêncio ao seu redor.
Silêncio era uma das coisas que lhe faziam falta, silêncio e privacidade.
No escritório, eram cerca de vinte pessoas num único salão, sem paredes, falando entre si ou ao telefone, o tempo todo.
Se não estava trabalhando, ficava em casa com o pai. Podia pedir ajuda para a vizinha, que os apoiava desde a doença da mãe, mas não faria isso à toa. Sair no sábado de noite significaria sair sozinho e, provavelmente, ficar igualmente sozinho sentado em uma mesa, bebendo e ouvindo as conversas dos outros. Não valia a pena.
Terminou a cerveja e foi para a água, onde ficaria na parte mais funda, como de hábito, boiando ou nadando.
Saiu, vestiu a bermuda, pagou a cerveja e pegou o rumo de casa. Eram uns vinte minutos de caminhada, um trajeto fácil.
O pai era uma boa pessoa, mas era triste, depressivo. Ao mesmo tempo em que viu a esposa definhando, sua saúde também foi piorando. Seus dias se dividiam entre a saudade dela, suas próprias dores e a preocupação com o filho.
Quando ficava na escuridão do quarto, ele pensava que não era justo o que o destino reservara para o rapaz, que perdera a adolescência com a doença da mãe e agora desperdiçava a juventude com a doença do pai.
Muitas vezes desejava morrer logo, para libertar o filho, mas jamais tomaria qualquer atitude concreta nesse sentido, pois isso contrariava os seus princípios.
Sabia que o filho não guardava rancor, mas certamente sofria, por ele, seu pai, e por si mesmo, pela vida que sabia estar desperdiçando a cada dia.
III
Sábado de sol. João Marcos já estava na praia há algumas horas e já havia cumprido sua rotina de caminhadas.
Entrou no mar e ficou lá, na parte funda, ouvindo os ruídos das pessoas e o grasnado das gaivotas, deixando a mente vazia. Boiava, à deriva, naquela parte sem correnteza, subindo e descendo no ritmo das ondulações.
Alguém estava nadando por perto, ouvia o som das braçadas e a respiração forte. Mas permaneceu de olhos fechados, solto ao sabor das correntes, tentando permanecer alheio a tudo que acontecesse ao redor.
De repente, sentiu o esbarrão e afundou, lutando para não engolir água. O nadador, agora em pé ao seu lado, um rapaz que devia ter mais ou menos a sua idade mas era visivelmente mais baixo, estava claramente incomodado.
— Desculpa! Perdi a direção. Machucou?
— Não, tudo sossegado. Mas toma cuidado, né, rapaz! Não dá pra sair nadando sem rumo por aí.
— Você tem razão. Normalmente não sou perdido assim, mas hoje, sei lá, talvez não estivesse tão atento, perdido dentro da minha cabeça.
— João Marcos. Prazer.
— João. Lucas. Uma outra dupla de apóstolos.
Começaram a rir.
— Sabe que eu nunca tinha associado meu nome a isso? Sempre pensei que, como acontece com nomes duplos, minha mãe queria um e meu pai queria outro, e esse tinha sido o resultado do acordo entre eles.
— Você nunca teve a curiosidade de perguntar?
— Minha mãe nunca foi de ficar conversando sobre o que ela considera besteira e meu pai morreu quando eu era pequeno. Simplesmente não tive oportunidade de perguntar quando talvez fosse hora e, depois, não era mais importante.
— Eu perguntei para o meu pai. Ele disse que o nome foi escolhido por minha mãe, pois dos quatro livros bíblicos, os de João e Lucas eram os que mais gostava.
— Então sua mãe é religiosa.
— Era, mas morreu há uns dez anos.
— Mais uma coincidência então. Os nomes de um dos pais falecidos quando éramos crianças. Não fossem meu pai e sua mãe, eu diria que poderíamos ser irmãos.
— Você é daqui? Eu sou, nascido e criado.
— Sou não nascido e meio criado.
— Meio criado?
— É. Minha família tem casa aqui desde que a cidade ainda vivia mais do sal e da pesca. Sempre vínhamos nos feriados e férias. Para a minha mãe e irmãs, aqui deixou de ser um programa interessante, mas eu continuei considerando esse como o meu lugar, onde me sinto seguro e feliz. Então, apesar de não morar aqui, venho sempre que posso, quase todos os finais de semana. Por isso, me considero meio criado aqui.
O sol agora já estava ficando bem baixo e o mar gelado começava a incomodar. Decidiram sair da água, ainda conversando e contando coisas do dia—a—dia de cada um, rindo das coincidências e das convergências.
— Tem alguma coisa pra fazer hoje de noite?
— Normalmente fico cuidando do meu pai.
— Que pena, achei que a gente pudesse dar uma saída, para continuar essa conversa. Finalmente eu teria uma coisa diferente para fazer num sábado à noite, ao invés de somente caminhar e ficar no computador jogando.
— Posso tentar dar um jeito. Mas preciso ir pra casa e ver com uma vizinha, que nos ajuda, se ela pode dar uma força com meu pai hoje de noite.
Cadastrou o número do celular de João Marcos na agenda e avisou que daria notícias até às 7 horas, fosse para saírem ou não.
Por volta das 6 horas, João Marcos recebeu um aviso de mensagem e ficou contente porque o outro João avisava que tinha dado certo e poderiam sair.
Combinaram de se encontrar, por volta das 9 horas, num bar na região do largo, menos frequentado por turistas e sem música ao vivo.
Na hora marcada, vindo de direções opostas, os dois se viram, pouco antes de chegarem no lugar. Ambos, já rindo dessa nova coincidência, entraram e buscaram uma mesa num canto, mais longe da porta.
— Uma caipira de vodka, por favor.
— Pra mim também, mas de cachaça! Vocês têm daquelas tábuas com carne, linguiça e fritas? Se tiverem traga uma dessas, grande. Esse é um presente para nós, João e Joãozinho.
— Joãozinho? Devo ser eu, imagino.
— Lógico, você é mais baixo.
— Obrigado por lembrar.
— É verdade, só isso, você é mais baixo do que eu. Isso não quer dizer que seja baixinho, tampinha.
João dava risada e Joãozinho, que já havia assimilado o apelido, acabou rindo também.
E assim passaram duas horas, com conversas e risadas. Agora, mais próximos, acabaram compartilhando coisas de suas vidas pessoais.
João falou da sua solidão, já que, na sua cidade, somente estudava e trabalhava e ali, onde se refugiava nos finais de semana, não conhecia ninguém.
Joãozinho falou do seu isolamento, da frustração em não conseguir tempo para viver um pouco mais, preso no trabalho e nos cuidados com o pai.
Não se lamentavam, apenas mostravam, um ao outro, que cada um tinha uma vida bastante fora do comum para a sua idade, e isso de certa forma os reconfortava.
Era hora de cada um voltar ao seu lugar, um sozinho e outro ao lado do pai.
— Acho que temos que ir. Vamos conversando por mensagem, não vamos nos afastar.
— Pode deixar. Meio louco isso, não? Nos conhecemos de tarde, mas agora já parece que temos uma longa história de amizade.
— Nomes parecidos, histórias de vida com muitas coisas semelhantes, alguma coisa isso tem que significar, não?
— Com certeza, ainda estamos descobrindo essa história. Espero que ela continue por bastante tempo.
— Eu também. Obrigado pela noite!
Apertaram as mãos e deram um abraço meio desconfortável, não programado.
Novamente seguiram em sentidos opostos, um para a casa na orla da praia e outro para um bairro mais afastado.
Nos dias e semanas seguintes, a troca de mensagens virou rotina e, do mesmo modo, os encontros nos finais de semana, na praia ou saindo para beber e conversar.
Assim se passaram os meses, de uma forma leve para os dois rapazes, já que agora não se sentiam mais a sós, tendo a companhia, presencial ou virtualmente, um do outro.
IV
E o mês de outubro chegou, mês de férias para Joãozinho.
Ele avisou João que estava de férias e, nesse período, iria à praia sábado de manhã também.
No sábado, se encontraram como de costume, conversaram sobre a semana comum de um e a semana diferente do outro, em férias.
Saíram no sábado à noite.
— Tive uma ideia, não sei se vai dar certo.
— Fala.
— Você não quer ir comigo para a minha cidade, amanhã de noite, e passar a semana lá em casa?
— Fazendo o quê?
— Durante o dia você vai se virar sozinho, mas darei as dicas dos lugares para conhecer, as praias, lugares históricos e museus. Tem bastante coisa para fazer e não precisa nem cruzar a ponte. E, de noite, mato algumas aulas e podemos sair.
— Eu nunca saí daqui, você sabe.
— Exatamente por isso. É uma oportunidade.
— Tem meu pai.
— Fale com ele, com a vizinha ou com outras pessoas. Todos sabem como você se sacrifica por seu pai e, se souberem que você tem a oportunidade de passear um pouco, certamente darão um jeito.
— Amanhã de manhã eu vejo e te digo.
— Basta chegar com a bagagem aqui em casa, você sabe onde é. Depois da praia não saio mesmo. Não comprei ainda a passagem da volta. Se for o caso, pegamos o último ônibus da noite. Não tem problema.
Naquela noite, ao chegar em casa, o pai percebeu que ele estava inquieto.
Perguntou do amigo, com quem havia saído, se eles haviam brigado ou se tinha acontecido alguma coisa de ruim. Não recebeu resposta e ficou sem insistir, pois sabia que era necessário respeitar o tempo do filho.
Quando foram para o quarto, o rapaz se abriu.
Contou ao pai do convite, que não teria muitos gastos porque ficaria hospedado na casa do amigo, mas deixou claro que se não fosse possível, não teria problema.
O pai ficou contente em ver o filho se permitindo viver uma experiência nova. Disse para não se preocupar pois daria um jeito, sem sobrecarregar a vizinha. Tinha outras pessoas que sabia que poderiam se revezar para ficar com ele nesse período curto.
Quando acordou o pai na manhã seguinte, recebeu de volta um sorriso e o aviso de que, logo depois do café, fosse arrumar suas coisas com calma, para não esquecer nada.
Ele passou mensagem para João, avisando que tudo tinha dado certo e iriam viajar.
Emprestou uma mochila grande de um vizinho, que sempre viajava, e aproveitou para pedir a ajuda dele para calcular o quanto de roupa levar e o que mais levar na bagagem. Foi arrumando tudo, com o auxílio do vizinho experiente que, quando ele ia fechar a mochila, colocou ali uma bolsinha fechada, que depois Joãozinho descobriu conter preservativos e sachês de gel. Não sabia a função do gel, mas não deu importância.
No final da tarde se despediu do pai, que o abraçou e beijou carinhosamente. Disse que ligaria todos os dias mas o pai falou que não era necessário, só se tivesse tempo e vontade.
Chegou na casa do amigo quando a noite caía e este abriu a porta com um sorriso enorme, realmente contente. O abraçou e pegou a sua mochila.
— Vamos tomar um café e fazer um lanche, para aguentar as três horas dentro do ônibus.
— Três horas?
— É, ele vai parando. Pena que será de noite, então você não poderá ir vendo a paisagem. Mas, na volta, viremos sábado pela manhã. Assim você pode aproveitar e ver o caminho.
— Nem as cidades vizinhas eu conheço, estou um pouco nervoso. E tem também a preocupação com meu pai, nunca o deixei tanto tempo sem mim.
— As duas coisas são normais, deixe apenas acontecer. Se for necessário você voltar antes, tudo bem, tem ônibus de duas em duas horas, no máximo.
Desembarcaram por volta das 11 horas e foram a pé até o prédio onde João morava, uns vinte minutos distante da rodoviária.
Ao chegarem no apartamento, Joãozinho viu que era um lugar pequeno, mas organizado, com apenas um quarto.
— Vou arrumar o sofá—cama da sala pra você. É bastante confortável, não se preocupe. E nesses dias tomarei café da manhã na padaria, para não te acordar.
— Não precisa. Eu sou acostumado a acordar cedo. Tomamos café juntos e depois, se eu precisar, tiro mais um cochilo.
— Você é quem sabe. São suas férias e não quero atrapalhar.
— Ficarei mais à vontade se fizermos assim. Me sentirei atrapalhando menos.
— Tudo bem, se prefere assim. Pode ir tomando banho enquanto organizo as coisas por aqui. Tem toalha debaixo da pia, pode pegar qualquer uma.
Enquanto Joãozinho tomava seu banho e vestia um pijama, João preparava a cama.
— Puxa, serviço profissional!
— Que nada, apenas treinamento. Minha mãe sempre me fez arrumar a cama como se eu estivesse em um quartel. Pode deitar. Boa noite e até amanhã.
Entrou no quarto e encostou a porta. Joãozinho se deitou no sofá—cama e ficou no escuro, de olhos abertos, com a cabeça funcionando em alta velocidade.
No dia seguinte, ao acordar, viu que João já tinha saído do banheiro e estava vestido para trabalhar. Quando saiu do banheiro, o café estava pronto e a mesa arrumada. Comeram e João se despediu, indo para o trabalho.
— Veja no seu celular as duas opções de roteiro que fiz para você. Escolha e, na hora do almoço, faça um lanche em algum lugar. De noite, sairemos para jantar. O chaveiro em cima da mesa é para você. Não precisa devolver.
Ficou sozinho, tomou banho, se vestiu e saiu. Por volta das 5 horas, retornou para o apartamento. Ficou no celular e lá pelas 6 e meia, João chegou.
Ele foi para o quarto e, dali, para o banheiro. Joãozinho permaneceu no sofá mas percebeu que ele não havia fechado a porta dessa vez, nem do quarto nem do banheiro.
Ainda estava mexendo no celular quando percebeu João perto dele. Não estava vestindo nada, nem a toalha.
— Vai ficar aí ou vai tomar banho?
— Vou tomar banho sim. Você não vestiu nada.
— Não acho que precise. Só estamos nós dois. Tudo o que você tem no corpo eu também tenho. Tire essa roupa logo e vai para o chuveiro, rapaz!
Sem graça, Joãozinho tirou a roupa ali mesmo e foi para o banheiro. Quando estava sob o chuveiro viu que João estava na porta, ainda nu, olhando para ele.
— O que foi? Alguma coisa errada?
— Mais ou menos.
— Sou tão feio assim, sem roupa?
— Muito pelo contrário. É mais bonito sem nada cobrindo você.
— Então, o que há de errado?
— Errado é continuarmos adiando isso.
Entrou e se beijaram, sob a água corrente, com um desejo que permanecera asfixiado não apenas por meses, mas talvez pela vida toda.
Não saíram naquela noite e nem na seguinte.
No sábado de manhã, embarcaram de volta. Mas nessa viagem, enquanto Joãozinho olhava a paisagem do interior que ligava as duas cidades litorâneas e se admirava com a imensa laguna de que tanto ouvira falar, estava de mãos dadas com João.
E, quando precisou dormir, encostou no ombro do namorado, não por descuido e sim por carinho, recebendo afagos no cabelo enquanto se perdia em sonhos.
V
Joãozinho chegou em casa. Ao vê—lo o pai sorriu e se levantou para um abraço apertado.
— Como ele se chama?
— João Marcos, João como eu.
— Sério, que coincidência. E quando conhecerei seu namorado?
Joãozinho ficou paralisado, pálido, sem saber como reagir nem o que falar. Não poderia mentir para o pai, mas nunca imaginou que ele desconfiasse. Na verdade, antes de conhecer João, nem ele desconfiava que sentisse esse tipo de coisa.
— Como você sabe, pai? Eu nunca falei nada.
— Posso viver trancado em casa, mas não sou bobo. Quem você acha que sugeriu para o vizinho colocar aquela bolsinha especial na sua bagagem?
— Pai! Nem eu imaginava qualquer coisa assim.
O pai ria, com uma alegria que não se via há anos.
— Aproveitou? Espero que sim. Na verdade, tenho certeza que sim, pelo que vejo na sua cara e no seu jeito.
— Tá certo, aproveitei e foi muito bom. Estou feliz.
— Então, também estou. Pense em algum cardápio para o almoço de amanhã, vá no mercado e convide esse João para almoçar conosco amanhã. Não precisa economizar, sair do orçamento de vez em quando não leva ninguém à falência. Capriche porque eu quero causar uma boa impressão para o meu genro!
E assim aconteceu o almoço de domingo e, naquele dia, o pai só foi para o quarto quando João retornou para a sua casa. Conversaram e trocaram histórias.
No início, eles se sentaram próximos, mas com uma certa distância.
— Vocês façam o favor de ficar juntos e se encostar, dar as mãos ou se abraçar! Casais jovens e apaixonados não ficam separados por um muro. Aqui dentro de casa é um lugar seguro. Na rua, sei que tem que se cuidar, mas aqui podem agir como namorados normais. Só não façam sexo na minha frente, por favor, pois para isso eu não estou preparado!
Os três riram e assim o dia passou e a vida seguiu.
CAL - Comissão de Autores Literários
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Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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