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Flor-de-Cera: Capítulo 05

Novela de Carlos Mota
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FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 05


George se cala, curioso com o desenrolar da conversa.
– Diga-me, esse não é o seu verdadeiro nome?
– Sim! – limita-se.
– Se precisa tanto da família Dumont, mais precisamente da pobre Catharine e de seu sobrenome para se alçar ao poder e vender um status que sua origem não pode lhe proporcionar, por que então se prestou a um ato tão vil como aquele?
– Eu não estou entendendo...
– Não?! – corta-lhe o médico, com a surpresa estampada à face. – Faz  mais de quarenta anos que presto serviços a essa família e é a primeira vez que sou chamado para atender a uma vítima de espancamento – no íntimo, Rubens sabia que isso não era verdade. – Ou Catharine não foi espancada pelo senhor?


O vento desce do céu, bate a poeira, formando um vendaval, que corre pelas ruas carregando as folhas e outros dejetos acumulados às margens da sociedade. O relâmpago ilumina o céu enegrecido, aos poucos uma garoa fininha cai sobre Vila dos Princípios. Mulheres com filhos ao colo correm recolher as roupas do varal, enquanto os homens arrebanham o gado. A chuva engrossa, a energia escasseia e parte da cidade fica sem eletricidade. Os geradores da mansão são acionados quando as primeiras quedas de energia vitimam a casa.
Da janela dos aposentos de sua patroa, Ernestina presencia a cidade à meia luz.
– Lágrimas do céu!
– Hã?! O que disse, Ernestina? – pergunta Catharine, um pouco sonolenta.
– Que a chuva é a lágrima de Deus! Veja como o tempo mudou, o vento assopra, as gotas caem... Lembram uma pessoa em desespero! – diz, voltando-se para a herdeira dos Dumont.
– Talvez esteja chorando por mim! O que faz um pai quando um filho é injustiçado? O mínimo que se espera é o choro, talvez porque alivie a alma, tira aquele peso das costas – conclui Catharine, tentando se levantar.
– O que pensa fazer, senhora? Está em repouso! Ordens do doutor Rubens! – alerta a criada.
– Rubens esteve aqui? – pergunta, passando a mão sobre os pontos dados por ele no ferimento. – Então ele me viu dessa maneira? Quanta humilhação! Onde ele está?
– No escritório, com seu esposo, e, pelo andar da carruagem, a conversa não está sendo tão amigável.
– Tenho de impedir que Rubens comente algo com alguém; do jeito que ele é, será bem capaz de denunciar meu marido.
– E qual seria o problema se ele fizesse isso, dona Catharine? Alguém tem de pará-lo! Se não for a senhora, que seja a polícia. Ainda sonho com aquele traste saindo da mansão dentro de um camburão ao som de “Malandro é Malandro e Mané é Mané”, do grande Bezerra  da Silva.
– Não entende, Ernestina! Um escândalo desses acabaria para sempre com o futuro político de George e eu não me perdoaria.
– A... senhora... – remenda as palavras, indignada. – Desculpe- me a franqueza, mas está com dó dele ou... é impressão minha?
– Ele é meu marido! – surpreende Catharine.
– E a espancou! – completa a criada. – Acha isso certo? Não bastasse, aquele malandro foi capaz de atrocidades ainda piores.
Mostra-lhe o pingente. Catharine o recebe e chora de tristeza.
– Ele reparou o colar... – sussurra a mulher.
– E até agora me culpo pelo que aconteceu com a senhora.
– Não se culpe, no fundo, eu queria mesmo usá-lo, mas não tinha coragem. Você apenas me fez acreditar no impossível: que George não se prenderia a um detalhe como esse... E logo o colar, o ornato que adorna com um toque de elegância o colo feminino! Fui tola demais!
– E um homem que é capaz de espancar a mulher, arrebentar    o último presentinho da filha à sua mãe, merece a impunidade? O mundo está cheio de homens como ele, assim como também está cheio de homens que pagam por crimes iguais aos dele.
– Você não entende, minha querida! Ele... ele... bem...
– Não há como perdoar uma agressão dessas. Veja – mostra-lhe um pequeno espelho de bolso–, a senhora está com a face arroxeada, a fronte suturada e, sabe-se lá, poderia ter até morrido.
– Eu ainda o amo! – confessa aos prantos, escondendo-se de sua imagem com uma manta fina de linho.
– Dona  Catharine,  não  consigo  mesmo  entendê-la!  Não  é  a primeira vez que leva uma surra, entretanto, nunca foi capaz de tomar uma atitude para que o senhor George parasse com a violência doméstica. É como se a senhora gostasse... – Enche os pulmões de ar e continua: – A senhora pode até amá-lo, mas ele não a ama; quem ama não é capaz de tal brutalidade. Quem ama vive o ar que o outro respira, não o prende num “tronco” – porque seu casamento é um tronco – e o chicoteia como se estivéssemos nos tempos da Escrava Isaura. Querida, muitas mulheres passaram por humilhação semelhante - ou maior - e foram corajosas a ponto de pedirem ajuda. É para isso que existe a lei Maria da Penha. Para livrar pessoas como nós das mãos de psicopatas como George, que tratam as mulheres como se fossem objetos de uso particular. É isso que quer para sua vida? Ficar deitada em uma cama, escondendo o rosto com uma manta?
– Eu não posso fazer nada, Ernestina!
– E por que não? A senhora é forte, tem uma vontade enlouquecida de viver, mas prefere a dor ao amor; talvez porque não conheça mais esse sentimento! A mulher que vejo à frente não é a que enfrentou o marido no hospital, nem a que o desafiou há pouco, naquela sala de jantar... A mulher que vejo está perturbada pelo medo!
Catharine deixa de lado o cobertor e a abraça.
– O que posso fazer para me livrar desse mal? Como faço para esquecê-lo, ou melhor, contê-lo?
– A senhora deveria olhar para os lados, ouvir mais as pessoas, sair um pouco dessa casa, deixar os problemas de lado e viver a vida com a mesma intensidade da adolescência. Verá que há outros homens melhores, prontos para recebê-la nos braços... E quando isso ocorrer, perceberá que o que sente por George hoje não é amor, mas medo.
– E quem olharia uma mulher acabada como eu, marcada por cicatrizes?
– Homens que estão mais próximos à senhora...
– Quem em especial? – interessa-se a mulher. – Do que está falando, Ernestina?
– De que o dinheiro não é tudo na vida de uma pessoa, que há amor em todos os lugares, desde que esteja preparada para reconhecê-lo. E com certeza, em algum lugar desse planeta, há um homem capaz de amá-la de verdade, de fazê-la feliz como mulher, como ser – diz, com a face contornada por um brilho celestial. – Precisa desfazer-se desse casamento de fachada para ser feliz! Feliz! Sabe o que é isso?
Catharine balança a cabeça, negativando a pergunta.
– Quero apenas o seu bem! – cobre-a até o pescoço. – Pense no que eu disse, certo? Agora tente dormir um pouco...
– E se George resolver me bater de novo? – teme.
– Duvido, pelo menos por hoje ele não será capaz de fazer nada! Está com o rabo preso.
A empregada se retirava da alcova, quando Catharine a chama novamente.
– Feche a porta! Posso lhe confidenciar um segredo, Ernestina?
– Claro, madame! Diga o que quiser, sou um túmulo!
– Lembra-se daquele dia em que você ficou com Alana no hospital para que eu viesse tomar um banho?
– Sim... Continue!
– Estava determinada a pedir a separação, afinal, que casamento era aquele em que o marido abandonava a mulher no momento mais doloroso de sua vida para angariar recursos a uma campanha eleitoral? Ao chegar à mansão, percebi que George estava nesse mesmo quarto e pedi para trocar algumas palavras com ele. Quando se inteirou do assunto, movido por uma ira descomunal, ele me estapeou; caída ao chão, recebi vários chutes... Depois, feito um demônio, ameaçou-me de morte se eu o deixasse.
– E-ELE FEZ ISSO? – pergunta a empregada, horrorizada.
– Por que a senhora não me disse nada? Eu poderia ter chamado a polícia, colocado esse traste atrás das grades.
Catharine lhe mostra as cicatrizes da agressão.
– Meu Deus! – assusta-se a empregada. – Co-como a senhora suportou essa dor sem demonstrar qualquer sintoma?
– Rubens me prescreveu alguns analgésicos. Ele sabe de tudo!
– E como ele soube, senhora?
– Ao retornar ao hospital naquele mesmo dia, eu desfaleci sobre Alana, assim que você partiu. E como todos os funcionários já sabiam que Rubens era o médico particular da família, chamaram-no. Quando me viu, não acreditou! Cobriu o rosto com as mãos, dizendo que esse casamento me levaria à cova. Disse que denunciaria George; mas eu o adverti! E em nome de minha família, pedi sigilo!
– Rubens está certo, a senhora precisa fazer alguma coisa antes que esse homem dê cabo de sua vida!
– Tenho medo dele... – chora. – Muito medo! Ele me ameaçou de morte.
– E morrerá do mesmo jeito se com ele permanecer! Não compreende, senhora? Ele não a ama, vive ao seu lado por causa do dinheiro de sua família.
– O que faço, Ernestina?
– E aquela tal história de que o ama ainda? É verniz?
– Não sei... Estou confusa! Muito confusa!
– Nenhum amor vale a dor que está sentindo agora... Venha cá! – dá-lhe a mão. – Como sofre! Dê-me um abraço!
– Me... me... ajude, por favor! – suplica a patroa.
Ernestina encontra aqueles olhos grandes e azulados tomados pelas lágrimas e se limita apenas a consolá-los com um leve beijo à face.
Retira-se da alcova e para a alguns passos da escadaria, quando é invadida por lembranças.
– Jamais deixe minha filha reviver minha história... Quando as coisas estiverem aparentemente perdidas, lembre-se, Ernestina, dentro desse envelope há a solução para todos os problemas. Guarde-o em um lugar que apenas você tenha acesso; se cair em mãos erradas, muitas vidas inocentes serão condenadas ao vale da morte – implora Dona Franceline Legrand Dumont, a mãe de Catharine, em meio às lágrimas.
– Nunca o abra, Ernestina! NUNCA!!!
– E o que há de tão importante dentro dele, senhora? – pergunta a mucama, num misto de curiosidade e aflição, correndo os olhos ao destinatário. – É para o senhor Rubens, o médico?
– DENTRO DELE ESTÁ O DESTINO DE CATHARINE!
– E por que para o doutor Rubens Arraia?
– Minha boa amiga Ernestina, não lhe posso falar mais nada!  Se o falar, você será a próxima vítima de Dilermando Dumont, o meu esposo. Por favor, não me faça mais perguntas... Apenas prometa-me ser fiel às recomendações de que lhe fiz.
– Eu prometo, senhora!
Ao ouvir a confirmação do pedido, a senhora Dumont se retira em prantos.
– Se voltar a pôr a mão em Catharine, prometo levá-lo aos tribunais, vereador! – ameaça o médico, no escritório, de frente para George.
– Quanto você quer para ficar com a boca calada, doutor?
– Como é que é? – revolta-se Rubens com a proposta indecente.
– REPITA O QUE DISSE!
– Todos têm um preço... Fale o seu, pagarei com prazer!
Um soco desferido pelo doutor joga o camarista contra a parede.
– ESSE É O MEU PREÇO! NÃO MEÇA MEU CARÁTER COM SUA RÉGUA, VEREADORZINHO! BEM SE VÊ O QUE VOCÊ É: UM MORTO EM VIDA!
– Isso terá troco, doutor Rubens! – metralha George com o sangue escorrendo desordenado pelos cantos da boca.
– CURTA UM POUCO DO PRÓPRIO VENENO! – ironiza, apalpando o punho. – SE TOCAR EM UM FIO DE CABELO DE CATHARINE, QUE NÃO SEJA PARA FAZER UM AFAGO, ESTAREI NO TRIBUNAL, À SUA ESPERA, COMO TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO... SERÁ UM ESCÂNDALO INCALCULÁVEL, PORQUE TUDO O QUE FIZERA ÀQUELA DAMA, TUDO MESMO, INCLUSIVE A SURRA QUE LHE DERA POR CAUSA DO PEDIDO DE SEPARAÇÃO, VIRÁ À TONA.
– E o que ganhará com isso? – pergunta o receado vereador, com as mãos pressionando o queixo.
– A CERTEZA DE QUE HOMENS ORDINÁRIOS COMO O SENHOR ESTARÃO ATRÁS DAS GRADES!
– Não posso ser julgado por uma Corte comum, gozo de foro privilegiado! Benesses do cargo, meu querido – debocha o camarista.
– Aí que se engana! O senhor conta com imunidade parlamentar, não com foro privilegiado - corrige-o. – Mas o que isso importa? O escândalo e a fofoca não precisam de foro, estourarão em Vila dos Princípios como rojões desordenados. Tenha certeza de uma coisa: por mais dúbio que seja o caráter de seus eleitores, eles não votarão em quem espanca uma mulher. Será o seu fim político! Pense bem antes de tocá-la novamente! Estou de olho, “honrado” vereador Jorge da Silva... ou melhor, George Dumont.
Retira-se da sala feito um trovão, batendo a porta com gosto. A ira o faz ignorar a empregada, que quase esbarra nele ao descer o último degrau da escadaria. Virando-se para o escritório, Ernestina vê George com a boca e o nariz ensanguentados e, antes que fizesse qualquer pergunta, o vereador leva os dedos à nuca simulando o cano e o gatilho de uma arma, enquanto a boca reproduz o som de um disparo. É uma ameaça escancarada à empregada, que mesmo estarrecida, mantém a pose, afastando-se devagar.
Já no quarto, ela não consegue adormecer, a voz da ex-patroa   a assombra. Sentada na cama, pensa se deveria ou não entregar o envelope ao doutor Rubens Arraia. E se não fosse o momento ideal? Aliás, que revelações guardariam as páginas daquela encomenda?
Abre o guarda-roupa, dele retira uma caixa de sapato empoeirada e de dentro dela um envelope pardo, amassado pelo peso dos pares de rasteirinha. E se o abrisse?
Não! D. Franceline havia sido clara em suas recomendações, apenas doutor Rubens Arraia poderia fazê-lo. Mas se ela o abrisse, lesse o conteúdo e o fechasse com cuidado? Até poderia, mas como justificaria a quebra de juramento à sua consciência?
Com o envelope contra a luz, ela pensa... e pensa! Resiste por um momento, mas acaba completamente hipnotizada pela curiosidade
– o verme impiedoso que encarcera a alma humana, a ponto de se esquecer, por segundos, das restrições da ex-patroa.
Em transe, puxa uma das dobras do envelope, não se atinando às consequências desse ato.
O galo ainda canta quando os primeiros raios solares beijam os montes de Vila dos Princípios. As ruas do centro estão tomadas por uma preguiçosa neblina, que não se dissipa. Os faróis da carcaça de um ônibus da década da ditadura se alumiam em meio à escuridão e param numa das esquinas da periferia. Nele entram homens com vestimentas surradas e bonés de todas as cores; alguns magricelas de causar dó, outros desdentados, esquivam-se da prosa por sono ou desdém. O assunto do dia é o empate entre o Corinthians e o Palmeiras. Nas sacolas de supermercado trazem a refeição do dia, que, a julgar pela madrugada, seria úmida e fria.
Aos poucos o comércio reabre. A padaria primeiro, depois a farmácia e, por último, uma lojinha de roupas de chita. O barbeiro é o único que não abre, seu estabelecimento havia inundado com a chuva. Alguns munícipes o ajudam a retirar o que restou. Com a aparência de um septuagenário, o homem com barbas longas e esbranquiçadas pergunta em meio a toda aquela destruição:
– O que será de mim sem meu servicinho, meu Deus?
No casarão, George está à mesa da varanda tomando um suco verde preparado com orgânicos e brotos germinados. Um lado da face está roxeada, resultado da rixa com o doutor Rubens Arraia. Percorre os olhos pelos dois jornais da região enquanto degusta a iguaria. É uma mania sua, acordar com a lua no céu, sentar-se à varanda, pedir à criada o seu desjejum e ler os noticiários com um olhar de leitor instruído.
O clima na mansão estava carregado, a ventania corria solta, a ponto de ele fechar a vidraça e cobrir as pernas com um manto de lã. Ao longe se avistava o ônibus com os boias-frias; parecia sem freio tal como corria. George se atenta ao veículo até ele sumir numa curva.
Cobre-se até a cintura, enquanto folheia o “Tributo ao Povo”. Para sua alegria, a matéria que o outro periódico deixara de publicar, era agora o editorial do principal jornal da cidade. Mário Merlino, um primo distante do jornalista Luiz Eduardo Merlino¹, rendia-se, enfim, aos encantos maquiavélicos do digníssimo vereador George Dumont. Escreve ele:
“... É, meus amigos, leitores de toda região de Vila dos Princípios, pela primeira vez na vida, tive a honra de ver um político de verdade. E trabalhando! E político trabalha? Rouba! E ladrão rouba? Quem sabe trabalha! Milagre, mas é verdade, vi com esses próprios olhos que a terra há de comer...E confesso estar enfeitiçado por isso. Que coisa!
O excelentíssimo vereador George Dumont, estando na Capital com uma ilustre comitiva de empresários principienses, além do prefeito e três outros camaristas, conseguiu tirar do bolso do ‘corrupto’ governador a quantia necessária à construção do tão almejado Centro de Saúde, no alto do Bairro das Flores, um dos lugarejos mais humildes do município. Sem dúvida alguma, essa benfeitoria salvará dezenas de vidas.
Essa foi sua promessa de campanha e está cumprida. Que os outros aprendam com o seu gesto, porque de politiqueiros o mundo está cheio; mas de políticos que pensam no povo como se fossem partes dele, está para nascer. Aliás, já nasceu! E seu nome é George Dumont! Ah se os Congressistas de Brasília pudessem fazer um estágio com ele... O Brasil seria melhor!”
A leitura é compartilhada com Rubens, que à frente da tevê, não acredita no que lê. Aquele monstro havia se tornado um ídolo da plebe. Alguma dúvida de que seria eleito prefeito nas próximas eleições? Só se algo muito ruim fosse aventado, como a brutalidade com que trata a mulher ou o descaso com o sofrimento da filha, vítima do câncer. Se Catharine o deixasse denunciá-lo, toda essa farsa cairia por terra.
Muito indignado, Rubens pega uma outra xícara de cappuccino e se dirige ao escritório, nos fundos da casa. Lá é o seu refúgio, lugar onde ninguém jamais entraria sem seu  consentimento,  porque  lá  nas gavetas daquela escrivaninha estão guardados todos os seus mais íntimos devaneios. A cabeça apoiada às mãos, não entende o que impede Catharine de pôr fim às cenas de tortura. Seria pela imagem de felicidade que vende à sociedade principiense, o chamado status? Seria por pena daquele miserável, por ainda amá-lo? Seria pelo medo de enterrar o sobrenome da família em um lodaçal de fofocas? Quaisquer que fossem as justificativas, nenhuma delas seria capaz de lhe arrancar as cicatrizes e a depressão em que mergulha.
Abre uma gaveta e dela retira um retrato. Nele estão Franceline e ele, juntos em uma praia do litoral paulista. O ano é o da morte de Tancredo Neves. Olha-o com saudosismo! Com uma das mãos acaricia a face da mulher, como se estivesse ali, à sua frente, e não sepultada para sempre no livro do tempo.
– O que faremos se Dilermando descobrir? – pergunta Franceline, num modelito de praia à la Brigitte Bardot.
– Cristo! O que importa Dilermando? Se descobrir, hei de me tornar o homem mais feliz desse mundo, porque farei de minha humilde casinha o ninho de nosso amor, se é que você realmente me ama.
– E tem dúvidas disso, tolinho? Não atravessei parte do Estado para encontrá-lo à toa. Você me devolveu a vida, Rubens! Há muito eu não sabia o que era um beijo, uma carícia, um abraço apertado; como se eu não fosse casada, não é? O prazer de Dilermando é me humilhar ante as criadas, me espancar por qualquer coisa naquela alcova em silêncio. Se meus pais estivessem vivos, jamais me deixariam na companhia de um louco como ele.
– Esqueça-o! O que importa é que estamos juntos... E para SEMPRE!
– Não existe o SEMPRE! – sentencia a dama dos Dumont. – Vivemos o presente enquanto o destino prepara o futuro.
– Por que toda essa descrença...? – incomoda-se o médico. – Quer me deixar?
– Não é isso meu querido – rouba-lhe um beijo. – Estou cansada de esperar... esperar... e nada! Talvez os Céus estejam magoados comigo – sorri. – Devo não ser uma boa menina!
Rubens não entende as palavras da mulher; como enigmas, inquietam-no o humor.
– Senhor, posso entrar? – pergunta Maria, a governanta do médico, à porta. – É o secretário da saúde no telefone.
– Obrigado, Maria! Vou atendê-lo! Pode ir! – diz, resgatando-se da letargia.
Antes de aceitar a ligação, guarda o retrato com desvelo numa caixinha de presente dado a ele por Franceline.
Já George, irradiante com o editorial, dança pela varanda feito um louco. Imaginava-se prefeito e com os poderes que ganharia ao ocupar aquela cadeira tão almejada. Que o povo se dane – pensa ele, o importante mesmo era que realizaria todos os seus caprichos mais fúteis, sem se importar com as consequências. Compraria um jatinho, viajaria para o exterior, desviaria as verbas do município para alguma conta num desses paraísos fiscais e viveria a vida numa boa, como diria Manoel Carlos, porque o que estava em voga era o seu próprio prazer, não o da plebe que encena amar por conveniência.
– O que deu nesse homem? – pergunta-se Ernestina, curiosa.
Assim que ele deixa a varanda e sobe as escadarias, ela pega    os jornais e os folheia. Ao encontrar o título “Homem de princípios”, atém-se à leitura. E não é que o tal homem era o seu patrão, aquele demônio em forma de gente.
– Valha-me, Deus! Esse jornalista perdeu o juízo! Desde quando seu George é um homem de princípios?
– O que houve, mulher? Por que está pálida? – indaga o motorista, ao encontrá-la.
– Leia isso... – dá-lhe o jornal e senta. – O mundo está mesmo perdido!
O telefone toca. É o prefeito Tanaka Santuku convocando o vereador para uma reunião extraordinária.
George cobre a vermelhidão da face com uma leve maquilagem, veste um Armani de cem mil e desce as escadarias, relegando a esposa ao esquecimento. Cantarolando “Brasil”, do gênio Cazuza, dispensa os serviços de Joaquim; prefere ir sozinho à Prefeitura, quer curtir a felicidade longe da ralé.
– Brasil!/Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/ Pra gente ficar assim/Brasil!/Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/ Confia em mim... – exprime com satisfação, espezinhando a empregada com olhos de águia.
Abre a porta do carro e segue para a prefeitura. Ao estacionar, percebe que há alguém à sua espera, atrás do veículo. Imagina ser Tanaka Santuku, o atual prefeito, com uma champanha à mão, pronta para ser bebericada. Mas ao deixar o veículo, fica frente a frente com o doutor Rubens Arraia.
– Está feliz, vereador? – aplaude. – E se sua verdadeira face viesse à tona, o que sobraria dessa fantasia toda? O que não escreveria o editorialista? Talvez “Homem de princípios subvertidos”! O que acha? Diga sua opinião, estou curioso para conhecê-la.
___________________________
1. Jornalista assassinado aos 23 anos, no auge do regime militar, após uma sessão de torturas na sede do DOI-Codi.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)

desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO




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