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Flor-de-Cera: Capítulo 06

Novela de Carlos Mota
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FLOR-DE-CERA - CAPÍTULO 06


George cobre a vermelhidão da face com uma leve maquilagem, veste um Armani de cem mil e desce as escadarias, relegando a esposa ao esquecimento. Cantarolando “Brasil”, do gênio Cazuza, dispensa os serviços de Joaquim; prefere ir sozinho à Prefeitura, quer curtir a felicidade longe da ralé.
– Brasil!/Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/ Pra gente ficar assim/Brasil!/Qual é o teu negócio?/O nome do teu sócio?/ Confia em mim... – exprime com satisfação, espezinhando a empregada com olhos de águia.
Abre a porta do carro e segue para a prefeitura. Ao estacionar, percebe que há alguém à sua espera, atrás do veículo. Imagina ser Tanaka Santuku, o atual prefeito, com uma champanha à mão, pronta para ser bebericada. Mas ao deixar o veículo, fica frente a frente com o doutor Rubens Arraia.
– Está feliz, vereador? – aplaude. – E se sua verdadeira face viesse à tona, o que sobraria dessa fantasia toda? O que não escreveria o editorialista? Talvez “Homem de princípios subvertidos”! O que acha? Diga sua opinião, estou curioso para conhecê-la.


A bandeja do desjejum com cereais, um copo de leite desnatado e torradas com geleia é levada por Ernestina à alcova dos Dumont. A empregada está cabisbaixa, não havia se recuperado da noite passada, por isso, roda a maçaneta bem devagar; para, receia abrir a porta... A imagem de Catharine caída à cama, em sono profundo, fugindo de uma realidade tão vil, a incomodava, a ponto de ela dar um passo para trás e soltar a maçaneta. Seus olhos se enchem de lágrimas, porque enquanto George era aplaudido em público, elevado a mais alta insígnia da carreira política, sua esposa fadava-se ao fracasso, perdida numa sombria cova de lobos, devorada impiedosamente pelos sentimentos mais nefastos.
Sem Alana, Catharine não passava de um corpo vazio, atirado a um lodaçal de lamentações, afinal, para ela, a menina era mais que uma filha, era “a estrela que entre as névoas do inverno cintilava, apontando o caminho ao pegureiro. A messe de um dourado estio, o idílio de um amor sublime, a glória, a inspiração...”, como outrora escrevera o poeta Fagundes Varela em o Cântico do calvário. E o que seria da herdeira dos Dumont sem o seu amor, a sua glória e inspiração? Certamente deixaria de existir! Que outra coisa imaginar?
Ernestina deveria fazer alguma coisa, impedir que as desgraças preditas se revelassem verdades cruéis. Mas o que poderia fazer?
– Catharine precisará muito de seus ombros, Ernestina! Nunca lhe falte, por favor, boa amiga! E quando tudo estiver perdido, eis que a salvação está nesse envelope... Ouça-me, mulher! A única pessoa em quem posso depositar um fio de esperança é você! – correm-lhe à mente as palavras de Franceline no leito de morte.
Confusa, a criada pensa retornar à cozinha, deixar a bandeja sobre a mesinha e se deitar um pouco... Está estafada com tantas desgraças! Mas a consciência a impede de descer as escadarias, assim, mui receosa, retorna ao aposento. Põe a mão de novo na maçaneta, respira fundo, pede a bênção de Deus e abre a porta. Contrariando todas as previsões mais otimistas, à sua frente não estava uma mulher extenuada, mas uma outra, tão linda como antigamente, em um tailleur preto, com corte reto e debruns contrastantes.
– Como estou, Ernestina? – pergunta Catarine, em tom sereno, de frente para o espelho, enquanto completa o modelito com um delicado colar de pérolas.
– Linda, senhora! – suspira a mulher, completamente perdida.
– Tão linda quanto Carla Bruni, a ex-primeira-dama da França. Mas aonde irá desse jeito? Eu trouxe o desjejum do jeito como gosta.
– Irei ao cemitério, preciso depositar algumas flores no túmulo de Alana.
– Está preparada para voltar àquele local e reviver o momento mais triste de sua história, senhora? Não seria melhor que alguém as levasse? Se quiser, eu mesma as levarei!
– “Ajuda o teu semelhante a levantar a carga, mas não a levá-la”. Conhece essa frase, Ernestina?
– Seria de Pitágoras?
– Seria não... É de Pitágoras, o grande filósofo da antiguidade.
– O que a senhora quer dizer com isso? Não entendo!
– Que não devamos desejar fazer o papel do próximo; deixe-o fazer sozinho para que aprenda a sobreviver nos momentos mais difíceis – diz, com os olhos cintilando. – Fiquei pensando toda essa noite e há uma coisa em que George tem razão: eu sempre tive de tudo, estava superprotegida do tempo, guardada dentro de uma bolha, como se não fizesse parte do mundo real. Quando essa bola rompeu, o que me restou, Ernestina? Apenas a dor! A dor de toda uma vida!
– E quando essa suposta bolha rompeu?
– Ao receber a notícia de que Alana sofria de câncer. Você sabe o que é amar uma criança e saber que ela terá poucos meses de vida? Que terá de abrir mão da coisa que mais ama no mundo por um mero capricho do destino? Foi quando percebi que o mundo em que vivia era um faz-de-conta, criado, alimentado e manipulado para evitar que eu sofresse...
– Compreendo, Dona Catharine, mas a perda de Alana ainda     é recente, as cicatrizes estão expostas e, ao primeiro sinal de fraqueza, abrirão novas feridas, tão profundas como estas que ainda jazem em seu coração. Não acha melhor esperar mais um pouco? Eu levo as flores para a senhora!
– Era como se eu fosse uma dessas bonecas de louça, melhor, uma flor-de-cera, em cima de uma cômoda, longe da mão de uma criança, feita apenas para ser apreciada – continua, em meio a divagações -... assim eu me sentia!
– Flor... flor-de-cera? Por que uma flor-de-cera?
– Porque enquanto está lá, naquela cômoda, intocada, mantém- se bela; ao mínimo toque, pode se partir em muitos pedaços. Assim eu me sentia, aliás, ainda me sinto: uma flor-de-cera!
– A senhora está sendo ingrata... – indigna-se a criada.
– Com quem? – estranha a mulher, virando-se para ela.
– Com as pessoas que a amaram tanto a ponto de errarem, como agora pensa... Erraram por amá-la de mais! Não imaginavam que tanto cuidado causaria dano tão profundo.
– Não estou entendendo, de quem está falando?
– Uma dessas pessoas foi sua mãe. Ela fez de tudo para que tivesse uma vida distante do sofrimento...
– Minha mãe??? – interrompe-a, com ira. – Refere-se àquela mulher que fora flagrada com o amante? Do que fui poupada, Ernestina? Ela me conduziu à dor intensa, ou pensa que não sofri ao vê-la apanhando de meu pai? O que FRANCELINE DUMONT sempre desejou foi o corpo dos outros homens! Não se importava com ninguém, a não ser com sua libido.
– Não fale assim de sua mãe! – revolta-se, pondo a bandeja na cabeceira da cama. – Sua mãe não era nada do que seu Dilermando dizia. Ela a amava mais do que tudo! Sou testemunha ocular de sua preocupação.
– Que preocupação era essa que me arrastara para o limbo? – seus olhos engolem-na. – Se ela me amasse, não teria deixado meu pai para se encontrar com outro homem.
– A senhora não tem esse direito, Dona Catharine! Ninguém tem o direito de julgar o outro.
– Não estou julgando o outro, querida! Julgo minha MÃE! – finaliza o assunto. – Leve o café, não quero comer nada.
– A que se deve essa mudança, senhora? Porque ontem era uma outra pessoa, caída a um canto da sala, vítima de agressão; hoje, parece outra, engajada, com uma força interior de causar espanto. A que se deve, senhora?
– Preciso reescrever minha história! Veja o que minha inércia foi capaz de fazer! – mostra-lhe os pontos. – Essas marcas macularão para sempre minha face. Eu preciso reescrever minha história de algum modo, se é que isso seja possível. Eu preciso! – fixa-se à própria imagem refletida no grande espelho do closet. – Eu preciso!
E sem mais explicações, retira-se do quarto, deixando Ernestina sem palavras. Sentada à cama, a serviçal se encolhe, escondendo a face entre as mãos.
– Estou apaixonada, Ernestina! Nunca mais irei apanhar de Dilermando... Quero lutar pelo que acredito... E o que eu acredito é que a felicidade, diferentemente do que pregava Manuel Bandeira,  não é uma aventura. A felicidade faz parte de nossa existência, não é fantasia! Veja, a felicidade está ao nosso redor, exala o perfume das flores... Sinta o seu aroma! Que delícia! Quer vê-la, Ernestina?
A criada faz um sim com a cabeça.
– Feche os olhos... A felicidade não pode ser vista pelos olhares terrenos; apenas pelos olhos d’alma – afirma a mulher, enquanto cobre as marcas da surra da noite passada com uma fina camada de pó. – Viu? Não é linda?
Uma lágrima solitária desce o rosto da empregada, que nada diz, pelo menos com palavras.
– A que se deve essa mudança, senhora? Até ontem estava disposta a deixar de lado o caso que vive à espreita para se reconciliar com seu esposo. A que se deve?
– Eu preciso reescrever minha história de algum modo, se é que isso seja possível. Eu preciso! E ao lado de quem realmente amo! – responde Franceline.
– A história se repete... – sofre a mulher, voltando-se das lembranças. – E nada posso fazer para impedir que outras desgraças se abatam sobre essa casa. Nada!
Caminha até a janela e assiste as nuvens passearem pelo céu.
– A não ser que entregue o envelope... – continua a empregada, quando encontra a patroa entrando na limusine. – Não! Não estou preparada para isso.
– Leve-me ao cemitério, Joaquim. Por favor! – pede Catharine. – Só agora percebi, onde está meu marido? Por acaso ele lhe deu o dia de folga?
– Parece que saiu uma notícia no jornal falando do trabalho dele como vereador... – diz, admirando-a pelo retrovisor. – Estava tão eufórico que preferiu ir sozinho para a prefeitura.
– Típico dele: curtir a felicidade a sós! – confidencia-se a herdeira dos Dumont.
A seara por onde o chofer conduz o veículo é extensa e se comprime, em alguns trechos, às encostas da viela. A visão da região é bucólica. Homens de família conduzem o gado, outros roçam a terra em meio à fina garoa, enquanto as crianças, descalças e com roupas feitas com retalhos, brincam de pega-pega. Catharine se prende a uma meninazinha... Como se parece com Alana! Seria o seu retrato, não fosse o sangue plebeu que lhe corre à veia.
Ao contornarem a rotatória que liga o norte ao oeste do município, chegam ao cemitério.
– Deixe-me aqui, Joaquim! Daqui a pouco estarei de volta.
– Quer que eu a acompanhe, senhora? Está chovendo! Olhe... tenho um guarda-chuva.
A mulher resiste por um instante, mas termina por aceitar a oferta à medida que a chuva aumenta. A passos vagos, eles se dirigem ao túmulo da garota – o mais extravagante daquele mísero lugar, como se os vermes se importassem com esse detalhe.
– O que deseja, Rubens? – inquire o contrariado vereador, em frente ao prédio da prefeitura.
– Apenas cumprimentá-lo, excelentíssimo vereador.  O senhor  é mesmo um exemplo para nossa cidade. O Centro de Saúde que conquistou salvará muitas vidas... Quem sabe até mesma a de sua esposa, quando para lá ela for, após um novo espancamento.
– PARE COM ISSO! – exige o edil. – Sou um homem de bem, que luta pelos interesses do povo...
– E que bate sem dó na mulher, como alguns desses covardes que vez ou outra aparecem na tevê – completa o médico, cochichando-lhe aos ouvidos. – Não se esqueça de que lhe falei, hein? Um simples passo em falso e toda sua carreira irá para o espaço. Aliás, o que foi isso no seu rosto? Parece marca de um soco! O mundo está mesmo perigoso, não é vereador? – debocha, afastando-se. – Deixe-me ir, a reunião com todos os membros ilustres da comunidade principiense está começando... Não virá? Que eu saiba, essa reunião também lhe diz respeito.
O homem não responde à provocação, vira-se para a rua e esmurra a palma da mão, dizendo:
– Preciso acabar com esse infeliz! E já!
– Senhora, está bem? – pergunta Joaquim, no cemitério, à mulher que limpa as lágrimas.
– OH, minha queridinha – olha para a fotografia que está na lápide–, por que se foi tão cedo? Por quê? Como estou infeliz!
– Senhora... senhora...acalme-se!
O som de um trovão estremece o lugar.
– Precisamos ir, o tempo está piorando.
– E o que é pior que perder uma filha, Joaquim? Nada é maior que essa dor, pode ter certeza, meu anjo!
A chuva se avoluma e faz com que Joaquim se aproxime ainda mais dela. Aos poucos, está ao seu lado, roupa com roupa, pele com pele. O perfume dela o inebria, é uma dádiva do céu, um beijo de Deus. As chamas do desejo se reacendem no coração do homem simples cujo único intento em vida é amar... Amar aquela mulher com o corpo e a ALMA.
Desolada, deita a cabeça nos ombros dele; está mais frágil que outrora, com a respiração ofegante e as mãos gélidas como a dos mortos; diferentemente dele, que suspira agitado, não um suspiro qualquer, mas o de um homem que enfrentou todas as intempéries do mundo para viver um grande amor. Um amor tão lindo que beira à surrealidade!
E aos poucos ele se solta, vira-se para ela, limpa-lhe as lágrimas, uma a uma, e sem pensar nas consequências, aproxima sutilmente seus lábios aos dela e, como que instado pelas faíscas da volúpia, beija-a... Beija-a tão profundamente como nunca beijou outra mulher!

George arrebenta o colar com o pingente feito por Alana, para o sofrimento de Catharine...


* (Inserir a canção Lágrimas da mãe do mundo)

Catharine cede aos encantos do motorista e o abraça com força, retribuindo o beijo. Sente-se a pombinha livre do cativeiro, sobrevoando o céu infinito... Com os ponteiros parados, o tempo parece ser a única testemunha daquele momento ímpar, cuja felicidade transcende a qualquer lógica humana. Era um beijo diferente, com um toque angelical, para não dizer mítico, dado por um homem humilde a uma mulher de classe, como aquele que Donald O’ Connor deu em Gene Kelly, em Cantando na Chuva¹. Talvez, comovente seria a palavra correta. *(Finalizar a música) 
A chuva intensifica, as árvores balançam, folhas voam para todos os cantos, perdem-se no temporal, mas o beijo não finda, ferve o sangue daqueles corpos, elevando-os ao êxtase da paixão.
– O que há, George? Por que está amuado? – pergunta o prefeito, durante a reunião com os membros da sociedade principiense. – Parece que viu um fantasma?
– Alguma coisa está me apertando o coração! – responde, visivelmente desconfortável.
– Lá vem você com essa história... Ave! Deve ser macumba! Já procurou um centro para limpar o espírito, sinto que está carregado – escarnece Tanaka, gargalhando. – Olhem para esse indivíduo – pede aos presentes–, não parece que viu fantasma?
– Deve ter mesmo visto, não é vereador? – incita Rubens, bebericando uma xícara de café. – Aliás, seu rosto está roxo... O que lhe aconteceu?
Os olhos de George faíscam de ódio ao se encontrarem aos do médico.
– Não foi nada, apenas bati a cabeça no guarda-roupa...
– No guarda-roupa? – interrompe o médico. – Fez como a Perpétua de Jorge Amado? Que coisa!
– Perpétua? Quem é essa? É alguma eleitora nova? Se for, vou mandar um santinho já... Adelaide, Adelaide, anote aí, minha filha – determina o prefeito, afoito, à assessora, desconversando em seguida, ao perceber a gafe.
– Perpétua é a irmã de Tieta do Agreste – esclarece Adelaide.
– Não se lembra, prefeito? Teve até uma novela com ela e, se não me falhe a memória, sua intérprete era Joana Fomm.
– Sim... claro! Claro! E quem não se lembra da Perpétua? Imagine! Teve lá em casa esses dias... quer dizer, o Jorge.
– Quem? Jorge Amado esteve em sua casa? – desdenha o médico.
– Só se for em espírito, meu caro prefeito, porque o homem já bateu com as botas... E faz tempo! Acho que o senhor e o ilustríssimo vereador George Dumont deveriam mesmo procurar um centro, tomar um banho de sal grosso, porque a coisa está feia aqui.
Todos riem.
– A gente não veio a essa reunião para falar dessa tal de Tieta...
– ... Perpétua, prefeito! – corrige a assessora. – Tieta era a irmã dela.
– Que seja! – mostra-se contrariado com a brincadeira do médico.
– É tudo farinha do mesmo saco. O que a gente está fazendo aqui? Não é para discutir onde será o postinho? Então? Dê sugestões, meu povo! Hum! Cada coisa! – Volta-se para a secretária: – Ô, Adelaide, vê se faz alguma coisa de útil, enche o meu caneco com saquê¹.
Tanaka encara George e dispara:
– É mesmo, o que é isso na sua testa? Até parece marca de um soco; por acaso apanhou da mulher, vereador?
– É... fale, vereador, apanhou da mulher? – desafia Rubens, fitando-o com asco.
– Cadê meu saquê, Adelaide? Ô mulher lenta, devia mandar a senhora embora! Nem para me servir uma bebida, presta! Ave!
– A braveza de Tanaka desvia o foco da conversa.
– O QUE ESTOU FAZENDO AQUI? – inquire Catharine, como se tivesse acordado de um sonho mágico, vendo-se atirada aos braços de Joaquim. – O que pensa estar fazendo comigo, cri-CRIADO?
Afasta-se dele, demonstrando incompreensão.
– Quem você pensa que é para tocar em mim desse jeito? Sou uma mulher casada! Exijo respeito, entendeu?
– Senhora... senhora... – hesita o empregado. – Eu... bem, nós....
– Como pôde fazer isso comigo, Joaquim? Eu confiava em você! Como fui tola!
Ele a pega pelo braço e tenta se explicar.
– Largue-me, cretino! – grita. – Aproveitou-se de um momento de carência para me roubar um beijo. Isso não se faz com ninguém, aliás, o que esperar de pessoas como você?
– SENHORA. diz, soltando-a.
– Esse título já pertence à Aurélia Camargo, a dama imponente de José de Alencar – o motorista não alcança a ironia. – Chamo-me Catharine Dumont! Entendeu? Sinto-me enojada com o seu hálito infecto – limpa os lábios em desespero.
O homem assiste à agressão sem retribuir uma só palavra.
– A senhora deveria olhar para os lados, ouvir mais as pessoas, sair um pouco dessa casa, deixar os problemas de lado e viver a vida com a mesma intensidade da adolescência. Verá que há outros homens melhores,  prontos  para recebê-la nos  braços E  quando  isso  ocorrer, perceberá que o que sente por George hoje não é amor, mas MEDO –   batem-lhe à consciência as palavras de Ernestina, pronunciadas algumas horas antes. – Então era de você que ela falava? – constata Catharine. – Meu Deus! Como eu estava cega.
Mesmo assistindo-a com toda aquela ira, Joaquim não se aguenta e arrisca outro beijo, mil vezes mais caliente, o que faz as pernas da mulher trepidarem. Que amor era aquele que nutria pela herdeira dos Dumont? Parecia até alçado de um romance shakesperiano para a vida real.
– PAAAAAAAAAAAAAAARE!!!!!!!!!!!!! – ela o empurra e corre até sumir entre as sepulturas.

Catharine e Joaquim se beijam...

Completamente enfeitiçado pelos lábios da mulher, Joaquim não distingue o esmero do grotesco e acaba violando todos os mandamentos dos apaixonados. Quando cai em si, percebe o silêncio do lugar – vez ou outra quebrado pelo assoviar da ventania, olha para os lados e se defronta com a fotografia de Alana. Os olhos dela são de repreensão. Aturdido, solta o guarda-chuva, que voa para bem longe, inspira fundo e vai à procura dela.
Do lado de fora do cemitério há apenas o vigia. Incansável, Joaquim revista de novo todos os cantos, mas a busca é vã. A realidade, nesse momento, penetra sua alma e o faz refém do medo; gemidos são ouvidos.
Desorientado, abre a limusine e percorre alguns metros, quando a avista, sob os efeitos da insanidade, correndo dentro do matagal, à beira da estrada. Deixa o carro e adentra a seara, gritando o nome dela o mais alto que pode.
Catharine continua em surto, como se incorporada por um espírito ruim, com as roupas em frangalhos e respingadas por barro. Convulsiona em pranto, como se o mundo não mais existisse.
– A senhora não vale nada! – Catharine ofende Franceline, ao conhecer sua traição.
– Filha, não fale assim comigo... Eu apenas estou apaixonada! Sabe o que é isso? É como sentir o sopro da vida invadindo um corpo morto; o desejo em sua forma mais pura. Sinto-me assim! Por que me condena se o “meu crime” tem o nome de AMOR? Aliás, desde quando AMAR seria um CRIME?
– Desde o momento em que as alianças foram trocadas de mãos ou se esqueceu de que a que está em sua mão esquerda leva o nome de meu pai?
– Você nunca amou na vida, por isso diz isso. Quando o seu coração bater descompassado por alguém, perceberá que essa aliança é uma farsa e o seu valor insignificante.
– VAGABUNDA! – desfere um tapa contra a face da própria mãe. – VOCÊ NÃO VALE NADA! NADA! AO MENOS RESPEITE O MEU PAI!
Franceline lamenta a agressividade da filha.
– Um dia entenderá o que é o amor de verdade; quando isso ocorrer, o que lhe virá à mente, de súbito e sem qualquer receio, será esse tapa, que levarei comigo para o túmulo. Tens o meu perdão; não minha compreensão! Espero que o seu desejo nunca fuja do ninho do casamento; porque se fugir como o meu, sentirá na pele o que eu sinto e se verá no espelho como uma TRAIDORA, não como uma mulher que ousou se libertar de uma jaula para viver o mais nobre dos sentimentos...
– Nããooooooooo!!!!!!!!!! – grita Catharine, sendo resgatada das lembranças pelas mãos de Joaquim.
– PARE! PARE – implora o rapaz com a voz atropelada. – Por que faz isso? Por quê?
Ela cai a seus pés e chora, mas ele a levanta e diz:
– Não tem do que se envergonhar! A senhora apenas recebeu o beijo de um homem apaixonado... Quem cometeu o crime fui eu, se é que amar seja um crime, não a senhora! Acalme-se! Se alguém deve ir à forca, que seja EU!
Ela geme de causar dó, atordoada pelas lembranças.
– SOU UMA TRAIDORA! – confidencia-se, tentando suportar a dor do coração.
Um prato desaba da cristaleira da mansão, assustando Ernestina, que varria a cozinha.
– O que será que está acontecendo, meu Deus? – indaga, atendo- se aos cacos. – Isso não é bom sinal!
Retira o terço do pescoço e reza. Os pressentimentos que costumam visitá-la não falham. Uma tragédia, assim como uma tempestade é anunciada pelos trovões, se aproxima. E isso a inquieta!
– Onde está minha mulher, criada? – pergunta o vereador, chegando à mansão.
_______________________
1. Um dos maiores sucessos do cinema norte-americano, lançado no ano de 1952, com duas indicações ao Oscar.
2. Bebida tradicional do Japão, fabricada a partir da fermentação do arroz. Sem ser diluído, chega à marca de 20% de teor alcoólico, um dos maiores entre os fermentados do mundo.



autor
Carlos Mota

A novela "Flor-de-Cera" é remake de "Venusa Dumont - da memória à ressurreição" de Carlos Mota
 
elenco
Grazi Massafera como Catharine Dumont
Thiago Lacerda como George Dumont
Ricardo Pereira como Joaquim
Elisa Lucinda como Ernestina
Carlos Takeshi como Tanaka Santuku
Miwa Yanagizawa como Houba Santuku
Jesus Luz como Pietro Ferrara
Lucinha Lins como Franceline Legrand Dumont
Lima Duarte como Dilermando Dumont
Herson Capri como Doutor Rubens Arraia
Tonico Pereira como Moacir
Werner Schünemann como Paineiras Ken
Rosi Campos como Adelaide
Humberto Martins como Alberto Médici
Cauã Reymond como Ricardo
César Troncoso como Zé dos Cobres
Ilva Niño como Josefa
Selton Mello como Zelão
Matheus Nachtergaele como Meia-noite
Caio Blat como Delegado de Vila Bonita
Caio Castro como Leandro
Alexandre Borges como Doutor Jaime
Caroline Dallarosa como Carmem
Fernanda Nobre como Stela

participação especial
Stênio Garcia como Doutor Lúcio
Drica Moraes como Desirê
Marco Nanini como Chico Santinho

atores convidados
Ary Fontoura como Doutor Tobias
Alexandre Nero como Júlio Avanzo
Elizangêla como Maria

a criança
Valentina Silva como Alana

trilha sonora
Lágrimas da Mãe do Mundo - Sagrado Coração da Terra (abertura)

desenhos
Andrea Mota

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO




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