
Genivaldo e Neuza sobem no ônibus escolar. Crianças e adolescentes de várias idades falam, gritam, correm, pulam e atrapalham os adultos, os empurrando a todo momento. No fundo do veículo estão algumas outras pessoas, que não são estudantes. Alguns homens e mulheres mais jovens e outros de idades mais avançadas. Neuza puxa Genivaldo para perto de Donato e Judite. A esposa de Donato tem idade aproximada da dele, e também é magrela feito ele; entretanto, parecem ser o oposto um do outro. Donato é ranzinza e reclama de tudo, Judite é alegre, sempre está com um sorriso no rosto cheio de rugas e trata todos com atenção e carinho. Única coisa capaz de lhe tirar do sério é a encrenca de Donato em relação à política. Donato se levanta do banco e dá seu lugar para Neuza, que se senta ao lado de Judite.
– Bom dia, gente! – cumprimenta, Neuza. Todos respondem.
Donato, pra variar, está de “cara amarrada”. Genivaldo encosta ao seu lado e coloca a mão no seu ombro.
– E então! Tudo bem?
– Valdo, como pode tá tudo bem? Ó essa situação!
Realmente Donato tinha razão. Ao reparar bem direitinho no ônibus, Genivaldo pôde perceber o caos em que eles estavam; e eles não tinham mais idade para aquele tipo de coisa. Enquanto Neuza conversa animadamente com Judite, Genivaldo percebe o pandemônio em que estão enfiados. Ao ver crianças berrando e pulando, mães com crianças de colo que não paravam de chorar, adolescentes ouvindo músicas com conteúdo sexual em volume alto, ele concordou com Donato. “Tudo culpa do filho da puta do João Delmiro, que uma hora dessa deve estar em seu carrão com ar condicionado”, pensa ele, enquanto observa aquele inferno todo.
Enfim, depois de cerca de 15 minutos, o motorista aparece.
– Bora, bora, minha gente! Bom dia pra todos! Quem subiu vai, quem não
subiu vai ficar!
Liga o veículo e parte em seguida. O ônibus, muito mal conservado já balança nas ruas pavimentadas de paralelepípedos da cidade; quando chegasse na estrada de terra tudo seria bem pior. O ônibus não andou 400 metros uma pessoa pediu parada; o motorista parou. Trafegou mais um trecho, parou novamente. E dessa forma, o veículo foi lotando e demorou mais de meia hora para sair de São Miguel. Na estrada, a mesma coisa. Só depois de uns 20 quilômetros após sair da cidade, o motorista não parou mais. Também pudera, não cabia mais ninguém dentro do veículo. Uma mulher que subiu, fica ao lado de Donato; ela segura uma criança de cerca de 4 anos no meio das pernas. Se segura na barra de ferro com uma mão e a criança do sexo masculino com a outra.
O balanço do ônibus é irritante. Donato
mal fala. Das vezes em que
fala, é para reclamar que “essas pestes, ouvindo essas músicas do inferno, não
oferecem seus lugares pros mais velhos e pra mulheres. Bando de fi-di-rapariga”. Genivaldo também está
irritado. Se fosse mais jovem arrancaria um daqueles moleques do banco e o
daria para uma mulher grávida se sentar.
– Esses meninos não são como na nossa época, Donato. Povo bota filho no mundo e não tão nem aí.
O ônibus continua a viagem, lenta e sacudida.
Quando passam em frente a uma granja, um dos adolescentes coloca a cabeça para fora da janela e grita para alguns homens que conversam:
– Aê, seu bando de corno! – grita.
Meninas e garotos riem. Donato balança a cabeça.
– Eu queria que um filho meu fizesse um negócio desse pra
tomar um cacete – diz Donato, vermelho
de raiva.
A mulher que se equilibra segurando a criança ao
lado de Donato quase cai quando o ônibus dá um balanço mais forte. Os homens
gritam para o motorista tomar mais cuidado.
– Nós já tamo atrasado!
Eu tenho que ir um pouco mais rápido, gente – responde o motorista.
O menino se equilibra, segurando-se nas pernas da mãe. Genivaldo percebe que ele não está bem. Sua fisionomia é parecida com a de um homem que passou a madrugada na farra bebendo. A criança dá uma leve golfada. Donato não repara. Antes que Genivaldo pudesse pedir para que ele se afastasse, a criança vomita. Genivaldo que já estava mais ou menos preparado, se afasta rapidamente; Donato recebe aquela mistura nojenta nos pés e em parte da calça.
– Puta que pariu! – grita Donato.
– Oxe! O menino tá doente, rapaz – reclama a mulher, exaltada.
– E por que tu não ficou com ele lá na frente?
Genivaldo pede para Neuza se levantar e dar o lugar para a mulher. Como era de se esperar, Donato se afasta da mulher, porém, reclamando e de cara feia. Tentam caminhar por entre os passageiros mais para o fundo do ônibus, porém, muitos reclamam: “Não. Tu fica aí na frente mesmo, seu Donato. Vai bem vim aqui pra trás com essa catinga?”.
O restante da viagem é feita como se iniciou: com a gritaria de crianças e adolescentes, crianças de colo chorando, alguns jovens escutando músicas obscenas... e o pobre do Donato com pés e calça sujos de vômito.
NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi
ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas
TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera
DIREÇÃO
Carlos Mota
PRODUÇÃO
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO
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