
O sol raia entre nuvens azuis. A sua claridade
mostra uma região de caatinga; com vegetação
rasteira, cinzenta e retorcida. Algumas pedras se elevam no alto das colinas.
Ao longe, bem distante, há uma serra azulada.
No meio dessa região seca há uma pequena
cidade. O sol começa a clareá-la.
Muito pequena, São Miguel dos Confins não tem mais do que treze mil habitantes.
À sua entrada, onde termina a estrada e começa a zona urbana, há uma ponte que
cobre uma estrada de areia e pedras; intermitente, nesta época, o riacho está
seco. Distante, um morro tem uma cruz e um mirante.
A cidadezinha de pequenas casas humildes acorda. As ruas de paralelepípedos recebem seus primeiros habitantes. De uma das casas, sai um homem; ele carrega uma gaiola com um pássaro preto dentro. Ele a pendura numa árvore, senta-se na calçada e acende um cigarro.
O tempo passa. Homens conversam nas calçadas.
Em outra rua, uma mulher leva duas crianças
uniformizadas carregando mochilas nas costas. Na praça da igreja matriz, homens
das mais variadas idades estão reunidos. Alguns estão sentados nos bancos;
outros estão em pé. Alguns fumam, enquanto
outros tomam café vendido
por um rapaz de bicicleta. Por toda a praça, há grupos reunidos.
Cortando o canto dos pássaros, o ruído do ônibus escolar carrega crianças maiores e adolescentes para a cidade de Torres, o maior centro urbano da região, distante 62 quilômetros dali. Saindo de São Miguel às cinco e quinze da manhã, com pouco mais de uma hora e meia de viagem estará em seu destino. A estrada de terra, ruim, não permite ao ônibus escolar trafegar a mais de 50 quilômetros por hora. De dentro do ônibus podemos ver uma cidade bastante humilde, sem esgotamento sanitário e com infinitos rios de água podre por praticamente todos os meios-fios.
O ônibus passa em frente a uma casa. O motorista
buzina e recebe o aceno de um senhor que está sentado numa cadeira de balanço
de plástico espaguete trançado. Genivaldo é um homem baixinho e um pouco calvo,
aposentado, de seus 67 anos e com sobrepeso. Trabalhou a vida toda em uma das
fazendas da família do atual prefeito.
A família Delmiro
não só tem, como sempre
teve várias fazendas
na região. A família
Delmiro, também, não só tem, como sempre teve vários cargos políticos em São Miguel dos Confins durante a sua
história. Ali praticamente não existe oposição. Pouquíssimas pessoas se opõem à
família Delmiro. E muitas se arrependem amargamente disso.
Genivaldo vê o ônibus se dirigindo rumo à estrada.
Ele se levanta e entra pela porta de
sua casa. A cadeira fica na calçada; ninguém mexe, afinal a cidade é
tranquilíssima. São Miguel dos Confins tem como uma de suas principais
características a tranquilidade, praticamente inexistindo criminalidade. O
efetivo policial da cidade praticamente não tem serviço, a não ser quando algumas pessoas
se excedem na bebida ou vizinhos que brigam devido ao volume alto do aparelho de som ou algum
outro motivo fútil. O chefe policial da cidade, apesar de ser militar, é
tratado como delegado. Afonso Almeida Nogueira é um homem de porte físico
médio, que conta exatos 55 anos. Delegado Nogueira e seus sete homens dão conta
perfeitamente dos problemas que ocorrem ali.
A sala da casa de Genivaldo é simples, assim como
todo o restante dela. Um sofá e uma poltrona estão cobertos com capas. Numa das
paredes há dois quadros: um com o sagrado coração
de Jesus, outro com
o sagrado coração de Maria. No rack, alguns livros, um exemplar da Bíblia
Sagrada, alguns bibelôs, e a televisão, que é ligada por Genivaldo logo que ele
entra. Ele vai para a cozinha.
Passam-se alguns minutos, até que Genivaldo volta,
agora acompanhado de uma senhora. Ela, da mesma altura dele, mas também com
sobrepeso, aparenta ter poucos anos a menos; seu nome é Neuza. Ele tem em suas mãos uma xícara de café preto
e um pão com margarina. Sentam-se no sofá e logo tem
início o jornal que cobre todo o Estado.
Após a vinheta inicial, o apresentador comunica a
explosão de todos os caixas eletrônicos do Bando Federal da cidade de Torres. A
emissora já tem uma repórter lá, que começa a passar as informações
preliminares. Genivaldo e Neuza arregalam os olhos, atentos à notícia.
A mulher que segura o microfone tem cabelos castanhos longos e usa uma saia preta e camisa de botão azul claro; ela não tem mais do 35 anos. Atrás dela há uma fita policial, impedindo a entrada de pessoas não autorizadas. Ela então começa a falar, olhando para a câmera.
– O cenário aqui em frente a agência bancária é de guerra e
o clima na cidade ainda é de muito medo. Eu conversei com alguns moradores, que me relataram os momentos de tensão e horror na hora do ataque.
Aqui ao meu lado está o Sargento Antunes, da Polícia Militar, que vai nos
explicar um pouco mais como foi essa ação criminosa no município de Torres. Bom
dia, Sargento, o que a polícia tem de informações até o momento?
Enquanto a repórter falava sobre a presença do
policial, a câmera abriu em zoom, mostrando um pouco mais do estrago feito
durante o ataque. Sargento Antunes responde a indagação da repórter:
– Bom dia. O que temos até o momento é que quatro veículos foram utilizados e ao menos quinze bandidos participaram desta ação violenta contra a agência bancária da nossa cidade. Dois veículos vieram até aqui, enquanto outros dois permaneceram em frente à delegacia, disparando contra a nossa guarnição.
– Houve feridos durante esse ataque, Sargento? – indaga a repórter.
– Felizmente não tivemos nenhuma vítima, nem entre policiais
e nem entre moradores. Foi somente o susto mesmo. Tivemos o caso de uma senhora que passou mal e que teve que ser transferida para a capital. Só tivemos moradores
que deram entrada
no hospital por causa
do nervosismo ou com pressão
arterial alta.
– O banco já se pronunciou, se tem alguma estimativa de
quanto esse bando pode ter levado?
– Estamos aguardando a chegada de policiais federais,
peritos e gente da auditoria
do banco, para que as investigações mais aprofundadas possam ser iniciadas.
Até o momento, a gerência não nos passou nenhuma informação referente a valores
– explica o sargento.
– Existe alguma suspeita pra onde esse grupo possa ter
fugido, Sargento?
– Não. Até o momento não há nenhuma suspeita para onde esse
bando possa ter se dirigido.
Foram espalhados grampos
em todas as saídas da cidade de Torres, tanto pela
BR no sentido de Santa Ângela, quanto no sentido de Carmosina e capital. Na
estrada que dá acesso à cidade de São Miguel dos Confins também foram
encontrados grampos, bem como em estradas que passam por dentro de fazendas próximas.
– Muito obrigada, pelas informações, Sargento Antunes. E é isso, Fábio Lucas, mais um ataque com explosivos na região de Torres, agora na agência do Banco Federal. A população fica ainda mais prejudicada; não só os moradores de Torres, mas também das cidades vizinhas. Outra informação que chegou de última hora aqui é que vários veículos de várias cidades e distritos vizinhos que vinham aqui pra Torres, incluindo ônibus escolares tiveram os pneus furados pelos grampos que esses marginais espalharam, e as pessoas estão tendo que fazer o restante do trajeto a pé. Volto aí com você no estúdio. E qualquer novidade, pode chamar.
Antes que se pudesse escutar o comentário do apresentador do noticiário, Genivaldo solta um palavrão:
– Mas isso é uma porra mesmo!
– Olha a boca, rapaz – Neuza repreende.
– Oxe, mas isso é uma esculhambação mesmo, Neuza!
– Mas o que a gente pode fazer? Os bandido tão tomando conta do mundo – diz Neuza, meio que conformada
com a situação mostrada pela TV.
– E fica essa peste desse governador dizendo que a polícia tá equipada, que a bandidagem tá diminuindo. Esse cabra é um mentiroso da gota! – se exalta Genivaldo.
– Mas não vamos aperrear não. A gente vê com o seu Delmiro como faz, e ele dá um jeito.
– Neuza, pelo amor de Deus.
Explodiram o correio
de Torres; agora o
banco. Tu sabe onde
a gente vai receber? A gente vai ter que pegar esse ônibus da escola até Torres e pegar
uma fila do tamanho do mundo nos caixa 24
horas. Ou então, pegar alternativo pra Santa Ângela.
– Mas a culpa também não é dele, né? Ele deixa a gente ir no
ônibus da escola e já tá errado por aí porque é ônibus escolar. A culpa é
desses bandidos que explodem tudo. Pessoal ajeita, eles vão lá e explodem. Pessoal vai e ajeita de novo, eles vão de
novo, e explodem tudo de novo – explica Neuza.
Genivaldo passa as mãos pela cabeça, entre os
poucos cabelos grisalhos, se recostando no sofá. Ele respira fundo.
– É. O jeito vai ser ir lá na prefeitura de tarde pra ver se
o Delmiro atende a gente, pra saber como que vai ficar a nossa situação.
– Tem que ver se as pessoas vão pra conversar e não deixar Donato ir junto. Ele só faz atrapalhar.
Genivaldo ri.
– Donato não ir? Ainda mais pra reclamar? – ironiza Genivaldo. Com certeza ele vai ser o primeiro a chegar na prefeitura, Neuza.

NOVELA ESCRITA POR:
Marcelo Caronesi
ELENCO
Donato
Genivaldo
João Delmiro
Neuza
Delegado Nogueira
Judite
Comandante Couto
Artur Vieira
Raul Delmiro
Cabo Jonas
TRILHA SONORA
Forró Esferográfico - Cabruera
DIREÇÃO
Carlos Mota
PRODUÇÃO
Bruno Olsen
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO
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