ATENÇÃO: As imagens de artistas utilizadas no vídeo de abertura e na arte de divulgação deste episódio possuem caráter meramente ilustrativo, sendo usadas apenas para representar os personagens e a narrativa, sem fins lucrativos ou vínculo oficial com os artistas citados.

FADE IN
Tocando: The Great Disappoitment - AFI
CENA 1 CASA Nº 77 - PORÃO [INT./MANHÃ]
A cena abre com a
mão de um homem tocando um pequeno frasco com substância transparente.
Uma voz de homem é
ouvida ao fundo.
CIPRIANO (O.S): A Raíza é um problema pra
você?
A imagem mostra o rosto de Cipriano
de olhar instigante.
De frente pra ele o outro homem, de
costas se vira ainda com a mão no frasco.
MARCO (sorri sacana): Isso é o que você
vai me dizer; Ela é um problema pra mim?
Cipriano caminha até ele, cara a
cara, tira o frasco de suas mãos e põe de volta a um recipiente.
CIPRIANO: Ela por acaso fez algo de estranho
pra você estar me fazendo essa pergunta?
MARCO: Ela é estranha. Faz coisas
estranhas. Sabe de coisas que não deveria saber...
CIPRIANO: Como, por exemplo, o Paulo ser o
amigo politicamente incorreto de Micael?
Os dois se fitam.
CIPRIANO (cont.): ...Quero dizer...Ter sido o
amigo politicamente incorreto...
Marco ainda o fita quando Cipriano dá
as costas.
CIPRIANO: Mas por que acha que eu poderia lhe
responder tal pergunta?
MARCO: Por que você pode ter sido a última
pessoa que a viu desde que não foi mais vista.
Cipriano se volta com cara de
incrédulo.
CIPRIANO: De novo com isso?
MARCO: Eu não entendo por que tanto
mistério. Ninguém desaparece e volta como se nada tivesse acontecido.
CIPRIANO: Já pensou na possibilidade d’ela
ter fugido?...(ele caminha até a mesa da frente).
MARCO (anda atrás): Você quer
dizer...Fugir com alguém?
CIPRIANO (de costas, manuseando uns frascos):
O João Batista não estava com ela?
MARCO: Você está dizendo?...
CIPRIANO (olha de lado): Eu disse alguma
coisa?...
Marco se cala.
CIPRIANO: Você não veio aqui somente pra
falar de Raíza não, ‘né’?
Marco observa a mesa; Há outros
tantos frascos de conteúdo de cores variadas.
Marco apanha um vermelho e aprecia
visualmente.
MARCO: Esse aqui é pra quê? Ou contra o
quê? (ele olha minuciosamente) Parece sangue...Andou furtando algum hospital ou
é algum fetiche?
Cipriano arranca de suas mãos.
CIPRIANO: Isso não é brincadeira!
MARCO: Calma! (sorri debochado) Eu não ia
tentar nada contra suas coisas.
Cipriano põe de volta ao lugar sob o
olhar curioso de Marco.
CIPRIANO: Vai dizer pra quê veio ou vou ter
que adivinhar?
Marco dá as costas, coloca as mãos na
cintura e se volta.
MARCO: Eu quero me livrar de uma pessoa...
CIPRIANO: Eu não mato ninguém.
MARCO: Ninguém falou em matar
aqui...(pausa) Com tantas poções você deve ter uma que eu estou precisando...
CIPRIANO: Tenho receio de perguntar do que
você realmente (ênfase) está precisando...
MARCO (ignora o comentário): Existe alguma
poção pra fazer alguém esquecer do que a gente quiser?
CIPRIANO: Esquecimento é coisa séria...
Cipriano ora olha pra ele, ora para
as suas poções. Os dois sorriem. Mas em cada sorriso uma expressão diferente...
FADE OUT
FADE IN
CENA 2 CASA Nº 77 – PORÃO [INT./MANHÃ]
Cipriano entrega a Marco, em pé ao
lado de uma mesa, três frascos bem pequenos com substância transparente.
CIPRIANO: Aqui está!... (ele recua a mão onde
segura os frascos) Mas lembre-se! Três frascos desse e, a pessoa se esquece
completamente do que você quer...
Marco pega e olha vislumbrado.
MARCO: E como é que eu faço?...Misturo
numa bebida?
CIPRIANO: Depois que essa pessoa beber ela
precisa falar sobre o assunto que você quer que ela esqueça.
MARCO: E em quanto tempo faz efeito?
Cipriano se vira, olha pro espelho.
CIPRIANO: Em poucos minutos...(ele alcança
uma garrafa e dois copos)... Se você usar apenas um frasco ela esquece
momentaneamente...
Cipriano coloca a bebida no copo,
tira um pequeno frasco do bolso do jaleco, abre e despeja na bebida.
CIPRIANO (cont.): Se der a segunda dose
demora, mas ela volta a se lembrar bem... (Ele guarda o frasco de volta ao
jaleco)... Sendo a terceira dose...(ele se vira e entrega o copo) A pessoa pode
até voltar a se lembrar, mas ficará tão confusa que não terá certeza se é
verdade ou ilusão...
Marco apanha o copo e o olha,
admirado.
CIPRIANO: Não tenho costume de servir bebida
no porão, mas...Sempre reservo uma pra visitas...
MARCO: Suas poções parecem bastante
interessantes, hein...(ele toma um gole).
Cipriano o observa, estranho.
CIPRIANO: Você nem imagina o quanto...
CORTA PARA
CENA 3 APTº 403 – QUARTO DE JOÃO
[INT./MANHÃ]
João está vasculhando o guarda roupa,
apanha uma caixa preta e coloca sobre a cama.
Seu quarto é pequeno, cama ao lado da
janela, mesa de cabeceira, cortinas verdes assim como a colcha.
João, sentado, espalha papéis e fotos
na cama e em seguida dá um murro na própria perna.
JOÃO (em OFF): Mas onde será que deixei
minha caderneta?...Onde? (longa pausa)Não importa...O que importa é que não
esqueci de nada que deixei escrito...Raíza e seus mistérios...
João se levanta, caminha até a janela
e passa pra sacada. Olha para a sacada do quarto de Raíza, de forma suspeita.
JOÃO (em OFF/cont.): Quem escapa de uma
queda de concreto e se arrisca em abrir um carro em chamas... Escapa de
qualquer coisa...
CORTA PARA
CENA 4 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT./MANHÃ]
Cael pára o carro em frente ao
edifício.
Abre a porta, sai e enquanto olha a
fachada do prédio, ele bate com a porta do carro.
O edifício tem pintura amarela e
branca, cinco andares, sacadas com grades e vasos com flores bonitas em algumas
janelas.
Cael entra no quintal por um caminho
de pedras cercado por círculos de gramado. Levanta a cabeça e vê escrito o nome
‘Ciranda de Pedra’ acima da portaria.
Põe a mão na maçaneta, mas está
trancado.
Se afasta e olha pra cima.
CORTA PARA
CENA 5 APTº 403 – COZINHA [INT./MANHÃ]
João Batista entra aparentemente
nervoso. Raíza seca as mãos com a toalha da cozinha e nota sua aparência
estranha.
RAÍZA: Já vai sair? Nem tomou café
direito...
JOÃO: Tô atrasado...
JOSUÉ: Senta aí, menino! Toma um café com
leite rapidinho...
João despeja o café no copo
rapidamente e toma num gole só.
JOÃO: Agora tenho que ir...
Bruno entra na cozinha e quase é
atropelado pelo sobrinho.
BRUNO: Que isso, João! Vá com calma!
JOÃO: Foi mal, tio...Tchau gente!
RAÍZA(toma um gole do café com leite):
Isso que dá acordar em cima da hora...
Josué lhe dá uma olhada.
CORTA PARA
CENA 6 ED. CIRANDA DE PEDRA – CORREDOR
[INT.]
João corre pelas escadas e pára
bruscamente quando um homem de meia idade sai de um apartamento.
JOÃO (disfarça): Oi seu Antônio...Bom
dia...
ANTÔNIO: Bom dia...Quase perco a hora pra
abrir a portaria.
JOÃO: Vida de síndico, hein...
Os dois riem.
Ao chegar lá em baixo, João pára com
ar de esquecido.
JOÃO: Nossa! Esqueci minha
pasta...Eu...Acho que...Vou pedir pela janela...
Ele caminha à direita, contorna o
prédio e gruda na parede ao ver Cael nos fundos.
JOÃO (em OFF): Parece que alguém resolveu
se adiantar...
Ele vê Cael abaixo da janela da
prima.
CAEL (grita): RAÍZA!
João se esconde atrás de um coqueiro
pequeno.
CORTA PARA
CENA 7 APTº 403 – COZINHA [INT.]
Raíza, sentada, pára o pão na boca e
tira em seguida.
RAÍZA: ‘Cês’ ouviram isso, gente?
Parece...A voz do Cael...
Josué, sentado a sua frente e sem
tirar os olhos do jornal, mostra-se impaciente.
JOSUÉ: A essas alturas da vida alguém
ainda se presta a gritar debaixo da janela...
BRUNO (de costas, abrindo a geladeira):
Duvido que seja o Micael... Um cara como ele...Gritando? Debaixo da janela dos
outros?
JOSUÉ: Raíza, você vai ou eu vou? Daqui a
pouco o rapaz perde a voz...E na posição dele isso nem pegaria bem.
RAÍZA: Deixa comigo, tio.
Raíza corre até o seu...
QUARTO...
A moça passa pra sacada, põe a mão no
ferro e força ao curvar o corpo e olhar para baixo.
RAÍZA: Cael?... O que houve?
O ferro onde a moça se apóia se
desprende da parede, ela perde o equilíbrio, Cael faz uma expressão de pavor.
CAEL: CUIDADO!
João assiste à cena, apreensivo.
Raíza despenca em cima de Cael.
A garota levanta a cabeça e os dois
se olham assustados.
RAÍZA: Você tá bem?
CAEL (expressão de dor): Eu que devia
fazer essa pergunta...Não?
A garota esboça um sorriso
estremecido. Cael olha a altura pela qual ela caiu.
CAEL: Eu sabia que eu era forte, mas não
imaginava que podia amortecer a queda de alguém.
Raíza olha receosa para o alto e se
assusta.
Atrás do coqueiro, João observa de
olhar atento e acusador.
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 8 CASA N º 77 - PORÃO [INT./MANHÃ]
Cipriano olha atento para o espelho e
se volta com uma expressão de irritado.
CIPRIANO: Esse João está passando dos
limites...
Ele olha para Camilo, que de costas,
mexe em algumas poções.
CIPRIANO: Dá pra você parar de mexer nas
minhas coisas e prestar atenção no que eu tô falando?
Camilo coloca a poção no lugar e se
vira.
CAMILO: Foi mal...Quem é João?
CIPRIANO: Meu pai que deixei no
interior...Camilo eu já te deixei a par de tudo! O João é primo de Raíza. Ele
afrouxou o ferro da sacada e a Raíza acabou de cair.
CAMILO: Caramba! E você fala assim?
CIPRIANO: E você queria que eu falasse como?
Com uma música fúnebre ao fundo?
CAMILO: Não...É que...Se você quer os
poderes dela...
CIPRIANO (interrompe): O que disse?
CAMILO: Se você quer os poderes dela devia
ser preocupar com o que acontece a ela.
CIPRIANO: De onde você tirou essa idéia?
CAMILO: Do fato de você ficar na cola dela.
Ou que outro motivo você ia querer que eu ficasse por perto senão pelos poderes
dela?
Cipriano põe a mão no queixo,
pensativo.
CIPRIANO: Eu poderia estar querendo
protegê-la...
CAMILO: De quem?...Por que com os poderes
dela duvido que ela precise de proteção...Ainda mais de alguém como você que
precisa de poção pra ter poder...
CIPRIANO: Eu acho bom você prestar atenção no
que diz...Eu odeio gente indisciplinada...
Camilo se cala. Cipriano volta a
olhar o espelho e nada mais vê.
CAMILO: O efeito passou?...
Cipriano apenas olha pra ele de cara
feia.
CAMILO: Eu não entendo uma coisa: Você pode
ver tudo que quiser nesse espelho?
CIPRIANO: Eu só vejo o que me interessa...
CAMILO: Mas...
CIPRIANO: Camilo, eu te chamei aqui por que
tenho uma missão pra você...
CAMILO: Olha eu não quero mais machucar
ninguém...
CIPRIANO: Você não está mais em condição de
querer nada...Ouça por que só vou falar uma vez...
CORTA PARA
CENA 9 APTº 403 – SALA [INT./MANHÃ]
Cael está sentado no sofá, põe a mão
nas costas, disfarça a dor. Raíza também está sentada, com os braços sobre os
joelhos e observa a cena, calada.
Josué, em pé, parece absorto e mantém
o olhar fixo em qualquer coisa.
BRUNO: Nossa Cael...Você veio me dar uma
boa notícia e é recebido desse jeito...(ele vira pra Raíza) Você tem certeza
que tá bem ‘né’?
Raíza nota seu olhar como um sinal e
leva o corpo para trás pondo as mãos na cintura.
RAÍZA (finge): Ai pai...Eu tô meio
desconjuntada, mas...Tô bem...
Todos observam Josué, calado e de
semblante preocupado.
BRUNO: Ô Josué! O que foi?
JOSUÉ (desperta dos pensamentos): O que
foi? O que foi que eu poderia ter caído no lugar dela e eu sim poderia estar
morto...
Ele se cala diante do olhar tenso do
irmão.
CAEL: Como assim você ‘sim’ poderia estar
morto?
Bruno e Josué engolem a saliva.
RAÍZA (inventa): Ahn...É que o meu
tio...Ele...Tem horror à altura, é isso...E certamente morreria antes de bater
no chão...
Josué olha espantado e Raíza se
levanta.
RAÍZA: Vou...Alí...Pegar um café e um...
Gel pra contusão pra você, Cael...
CAEL: Não precisa eu...
RAÍZA: Fica quietinho aí que já volto...
COZINHA...
Raíza abre o armário, apanha xícaras
e as coloca sobre a mesa. Põe café e serve numa travessa. Em seguida, abre a
gaveta da pia e pega um gel.
Ela ouve uma conversaria maior vindo
ao longe, som de carros passando e permanece parada. Um vento estranho bate nas
suas costas e ela se volta segurando o gel.
Ela se encontra
atrás de um arbusto e está segurando uma folha da planta. Não demonstra em
nenhum momento estranheza; Como se fosse tudo normal.
Olha, desconfiada, para uma
construção onde funciona um curso técnico. Há muitos alunos subindo as escadas
e outros descendo dos ônibus.
Raíza anda,
vagarosamente, expressão aflita em direção a escada. João Batista, no alto da
sacada do prédio, despede-se de um amigo. Raíza o vê se aproximando da grade,
surpreso ao vê-la ali.
JOÃO: Raíza?...O que...O que aconteceu?
A cena é rápida. João é empurrado do
nada.
RAÍZA (grita): JOÃO!
O rapaz bate na calçada e sua mochila
voa para o outro canto.
A moça corre e ao cair de joelhos, vê
o piso da sua cozinha e os pés de alguém.
JOSUÉ: O que houve, Raíza?
Josué ajuda a sobrinha a se levantar.
A garota, confusa, olha para as mãos e vê que ainda segura o remédio.
RAÍZA: Eu acho que me desequilibrei...
Raíza pega a bandeja e junto do tio
voltam pra...
SALA...
Raíza serve o café, trêmula.
CAEL: Algum problema, Raíza? Não ficou
feliz pelo seu pai?
RAÍZA: O que tem meu pai?
Cael e os parentes dela se
entreolham:
CAEL: O seu pai vai trabalhar numa
construtora, não se lembra? Foi por isso que vim.
RAÍZA: ‘Cê’ vai me desculpar, mas (ela põe
a travessa na mesinha) Eu lembrei de um compromisso...Tenho que ir...
BRUNO: Peraí, filha, não é educado sair
assim... (Bruno vê a filha sair rapidamente pela porta e dá um grito.) Não foi
isso que te ensinei!...
Cael mostra-se abismado.
CORTA PARA
CENA 10 RUAS DA CIDADE [INT./MANHÃ]
Raíza desce da condução, aflita em
frente ao curso técnico.
RAÍZA (em OFF): Será que eu vi
certo?...Que nem aquela vez que eu vi o Camilo e o Marco tramando alguma pra
cima do Cael e nada aconteceu?...
Chega atrás de um arbusto. Espreita e
segura uma folha da planta. Ela olha assustada e solta a folha.
Anda vagarosamente naquela direção.
Ao ver o primo da sacada, Raíza anda
em passos largos e apressados. Começa a correr e seu primo nem chega da grade.
Ela se alivia, mas de repente, João,
como se fosse empurrado, tropeça na escada, segura no corrimão e cai do outro
lado, num gramado.
RAÍZA (grita): JOÃO!
Do outro lado, um carro encosta, pára
e Marco sai. Curioso, aproxima da cena.
Um tanto de gente junta por ali.
Raíza corre até o primo e toca seu rosto, preocupada. João está ileso.
JOÃO (na defensiva, tenta se levantar): O
que você tá fazendo aqui?
RAÍZA: Eu tive um pressentimento e...
JOÃO (incrédulo e nervoso): Aqueles?
Aqueles pressentimentos?
A prima aperta sua mão para ajudá-lo
a se levantar e vê uns flashes.
[VISÃO]:
João usa uma ferramenta e afrouxa a
grade da sacada do quarto dela.
[FIM DA VISÃO]
JOÃO: Ah, me solta! Eu tô bem, não vê? Ó
o mico!
João se levanta e Raíza continua
agachada, perplexa pela visão que teve. Observa os sapatos de couro ao seu lado
e olha pro alto. Ao cruzarem o olhar, a expressão de Marco muda.
Ele a olha estranhamente com ar de
preocupado. Um olhar fixo, perturbador...
MARCO: O seu primo está bem?... Não se
machucou?
Raíza se levanta estranhando o súbito
interesse.
João, já de pé, demonstra não gostar
de parecer em terceira pessoa.
JOÃO: Por que não pergunta pra mim?
Marco finalmente olha pra ele.
MARCO: Me desculpa. Vi que você caiu da
escada...
João Batista mira na prima
suspeitando dela.
JOÃO: Viu, é? Não diga...Eu fui é
arremessado lá de cima, isso sim...
RAÍZA: Você viu quem foi, João?
João se cala.
MARCO: Vocês querem uma carona?
JOÃO: Não!...(pausa)...Eu ainda tenho
aula...
João vai andando de costas, vira-se e
sobe as escadas.
Raíza olha para Marco que ainda fixa
os olhos nela.
RAÍZA (em OFF): Melhor não perguntar o que
ele tá fazendo por aqui se não é bem capaz d’eu levar um fora.
RAÍZA: Até um dia, Marco!
MARCO: Espere! Eu posso te dar uma carona.
Raíza se volta sem acreditar.
RAÍZA: Carona?...Não, valeu...Não quero te
atrapalhar...(ela dá as costas).
Marco segura seu braço, ela pára e se
volta devagar.
MARCO: Você deve estar horrorizada pelo o
que viu...Acho melhor não voltar sozinha...
Seu tom de voz, preocupado demais, a
intriga. Ela cede.
RAÍZA: ‘Peraí’ que eu vou ligar pro meu
pai...(ela faz que vai abrir a bolsa).
MARCO: Pra quê? Você vai chegar bem,
querida.
A moça o encara.
CORTA PARA
CENA 11 RUAS DA CIDADE – CARRO [INT.]
Raíza olha meio de canto Marco
dirigir. Ele faz o mesmo e ela desvia a atenção.
MARCO: Está quieta...
RAÍZA: Ah... Não, eu não tenho nada pra
falar...
Silêncio. Ele lhe dá uma olhada de
cima em baixo. A garota disfarça, franze as sobrancelhas.
MARCO: Seu primo recusou minha carona tão
intempestivamente...Será que foi algo que fiz?
RAÍZA: Ele tinha uma aula, ‘cê’ não
lembra?
Ele pisca os olhos como a ter
dificuldade de reflexo, põe uma das mãos na cabeça.
MARCO: Eu tinha esquecido...(sorriso
bobo).
A garota continua a franzir as
sobrancelhas.
MARCO: Mas seu primo me pareceu
meio...Estranho...
RAÍZA: Sofrer a queda que ele sofreu deixa
qualquer um estranho.
Silêncio.
MARCO: Será que ele não ficou assim porque
você não chegou a tempo de salvá-lo?
Raíza empalidece, vai virando o rosto
para ele com ar de medo.
RAÍZA: Do que ‘Cê’ tá falando? Eu não
tinha como prever...
MARCO: Lógico que não! Mas você estava
lá...Será que ele ficou com ciúmes porque você um dia me salvou e a ele não?
RAÍZA: Como é que é?
MARCO: Seu primo gostaria de ser salvo por
você? (pausa) Como é a sensação de salvar alguém?
Os dois se encaram.
RAÍZA: Você tá bem?
MARCO (voz suave, penetrante): Com você eu
estou muito bem.
RAÍZA: Onde é que você quer chegar com
isso?
MARCO: Em você!
Raíza olha pela janela, Marco toca
sua mão pousada na perna e ela o tira violentamente.
MARCO: O que foi? Você não gosta de mim?
RAÍZA: Pára esse carro...
MARCO: Não eu não vou parar enquanto você
não me responder.
RAÍZA (enfatiza): Pára-esse-carro-agora...
Marco aumenta a velocidade.
RAÍZA (voz alterada): Pára esse carro
agora!
A garota põe a mão no volante. O
carro faz um zigue–zague pela pista vazia e Marco pára bruscamente no
acostamento.
Raíza sai do carro e ele sai atrás a
puxando pelo braço.
RAÍZA: Me solta!
MARCO: Você não me respondeu. Não gosta de
mim? Não gosta de quem você salvou?
Os dois se encaram.
RAÍZA: Por que de novo esse assunto?
MARCO: Por que ninguém arrisca a própria
vida em nome da benevolência...
Ele deixa de apertar suas mãos e a
toca. Raíza estranha sua aproximação.
De repente, a beija na boca num beijo
como se desejasse isso profundamente. A garota, surpresa, não corresponde.
Um Toyota vem adiante.
Raíza tenta afastar Marco, mas ele a
abraça, a aperta pela cintura, a envolve. Até que ela lhe dá um empurrão,
afastando-o.
O carro vem devagar e pára perto
deles. Cael coloca a cabeça pra fora e olha, meio indignado para aquela cena.
CAEL: Então era esse seu compromisso,
Raíza?
Raíza dá um empurrão no cara e
vira-se assustada.
CAEL (cont.): Podia ter dito...
MARCO: Não tinha outra estrada pra você
passar, não?
CAEL (olhando para a garota): Nós vamos
embora, não se preocupe (Cael olha pro lado onde está Bruno) Quer falar com a
sua filha?
Bruno dá uma olhada.
BRUNO: Em casa a gente conversa, hein...
Cael dá a partida com ar de insatisfeito.
RAÍZA: Tá vendo só? Satisfeito? Era isso
que queria?
A moça vai embora observada por Cael
pelo retrovisor.
CORTA PARA
CENA 12 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT./TARDE]
APTº 403 – SALA [INT.]
Bruno e Josué estão
sentados lado a lado. Observam, no outro canto, Raíza, sentada com os braços
sobre os joelhos.
JOSUÉ: Tô chocado...Não tenho nem o que
dizer.
RAÍZA: Não há nada o que dizer mesmo...O
Marco, com certeza, estava sob efeito de alguma droga.
BRUNO: Minha filha, isso é grave, não vá
dizer por aí que ele é um drogado, hein...
RAÍZA: Ai pai! É modo de dizer. Ele nunca
foi com a minha cara, demonstrou isso no dia em que pisei na casa dele. Agora,
até me lascar um beijo ele foi capaz.
JOSUÉ: Vai ver ele mudou de opinião ‘né’?
Imagina só, ele deve ter ficado impressionado com o dia em que foi salvo...Você
disse que ele só falava disso ‘né’?
BRUNO: Aliás...(ele curva a cabeça pro
lado do corredor).
JOSUÉ: Procura pelo João? Ele deve tá no
quintal...Depois do tombaço que levou ele deve tá querendo entender o que
houve...
Raíza ri, mas pára sob o olhar do
tio.
BRUNO: Isso que eu queria dizer. O seu
compromisso não era com o deus nórdico e sim, você queria evitar o acidente do
seu primo?
A cena mostra João Batista atrás da
porta principal.
RAÍZA: É...Mas não deu...Acho que a mesma
pessoa que me atacou na mata o atacou também.
JOSUÉ (angustiado): Será que não conseguiu
nada contigo e quis tentar com ele? ...(pausa)...Meu Deus! Mas ele pode estar
em perigo, por que com você esse invisível não pode, mas com meu sobrinho...
RAÍZA: Em perigo tô eu...Depois daquela
queda da sacada...
João ouve alguém subindo as escadas e
corre pro último andar do prédio.
RAÍZA: ‘Cês’ ouviram isso?
JOSUÉ: Parece...
Ouve-se a campainha tocar.
JOSUÉ: Não parece mais.
Josué levanta e abre a porta.
Marco tem em mãos um ramalhete de
flores.
MARCO: A Raíza?
Josué abre caminho.
JOSUÉ: Ah...É...Entre.
Marco e Raíza trocam olhares. Ele
estende as mãos e ela, receosa, aceita as flores.
BRUNO: Bem...(ele levanta)...Eu tenho que
ir na cozinha...Não é Josué?
Josué esboça vontade de rir e os dois
saem.
Marco e Raíza sentam.
MARCO: Vim pedir desculpas, não queria
constrangê-la. Você não é garota de beira de estrada.
RAÍZA: Não tá esquecendo de nada?
Ele não entende. Ela faz um gesto com
a mão para um lado e pro outro.
RAÍZA: Ser irônico, sarcástico, não
sei...Me dar um fora.
Ele ri.
MARCO: Jamais faria isso.
RAÍZA: Vai me dizer o que te deu pra agir
daquele jeito?
Ele toca suas mãos.
MARCO: O que tem me dado todo
dia...Vontade de você...
Raíza se levanta, surpresa,
envergonhada talvez. O rapaz continua a olhá-la de forma perturbadora.
RAÍZA: Olha, já tá tarde. Adorei as flores
viu.
Marco se levanta também e os dois
ficam muito próximos. Bruno aparece da porta.
BRUNO: Ô filha não vai nem servir um
cafezinho pro rapaz?
RAÍZA: Não, imagina que ele se lembrou de
um compromisso? Ele já tá indo...
MARCO: Se incomoda se ela descer comigo?
BRUNO: Se ela quiser...
Raíza hesita, mas Marco a puxa porta
afora.
CORTA PARA
CENA 13 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT.]
João está nervoso.
Coça as mãos. Anda de um lado e de outro.
JOÃO (murmura): Ela vai contar o que
sabe...Ela vai contar o que sabe...(ele pára) Mas como ela descobriu?...Como?
Ouve-se os passos
na escada. João se esconde atrás de umas folhagens. Já são quase dez horas da
noite e apenas o som daqueles passos quebra o silêncio.
MARCO: Acho tão louvável essa sua
cumplicidade com seu pai...Ele me parece tão...Seu amigo.
RAÍZA: Não é assim com o seu?
MARCO (tom alterado): Aquele lá prefere o
Cael que nem filho dele é. Ele se dá melhor com o padrasto do que com a mãe. E
eu sou ao contrário. Não sei o que veem tanto nele a ponto do meu pai ter
passado o terreno da boate pro meu irmão!
Eles alcançam o
portão e param.
Raíza nota a sua alteração de humor;
Seus olhos começam a avermelhar, sua voz fica ofegante e seu rosto sua. Ele
pára de falar. A olha fixamente, de novo.
MARCO: O que você tem que me atrai? (Ele
se aproxima, toca seus ombros e a garota enrijece os músculos, arrepiada) Será
que são seus atos heróicos ou...Sua boca?
A beija, novamente e dessa vez, mais
demorado. Ela não hesita.
Marco passa a apertá-la, incomodando-a.
Raíza tenta afastá-lo, os dois rodam de um lado pro outro enquanto a garota se
mostra incomodada.
Marco a olha estranho, cai e Raíza vê
o primo a sua frente.
João tem em mãos um pedaço de
madeira.
RAÍZA: ‘Cê’ ficou maluco? Por que fez
isso?
JOÃO: Eu...Eu (ele joga o pedaço de
madeira pro canto) Ele estava te agarrando, ‘pô’! Quis te poupar desse
constrangimento...
RAÍZA: Ele pode ter morrido!
Ela se agacha e toca o pulso de
Marco.
JOÃO: Ele estava muito estranho. Lógico
que era armação.
RAÍZA: Ah, armação? Que nem você tentou
fazer essa manhã quando afrouxou o ferro da sacada pra eu cair?
JOÃO: Nem sei do que você tá falando...
RAÍZA: Sabe sim! Meu tio quase foi no meu
lugar, tá ouvindo? Ele podia tá morto e como é que você ficaria, hein?
João abaixa a cabeça. Depois a
encara.
JOÃO: Não sei como soube e duvido muito
que me diga, mas...Você que me jogou daquela escada ‘né’? Quis que eu visse o
mal que eu ia fazendo ‘né’?
RAÍZA: Eu não tenho esse costume, você
devia saber.
JOÃO: Tá bom, tá bom! Eu vou subir e
ligar pro Cael vir tirar esse entulho daqui.
Ele dá as costas e quando chega na
portaria, olha para trás.
JOÃO (em OFF): Nem acertá-la na minha
frente eu consigo...
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 14 HOSPITAL - QUARTO [INT./DIA SEGUINTE]
Marco termina de se arrumar diante do
irmão.
CAEL: O ano mal começa e você já vem
parar no hospital, hein.
Marco alcança um pente sobre a cama e
penteia os cabelos.
MARCO: Dispenso os comentários...
Alguém bate na porta.
CAEL: Entra!
A porta se abre e Raíza entra meio
sem graça. Ela e Marco se fitam e ele logo desvia o olhar.
RAÍZA: Licença, eu...Vim ver como você
‘tava’...
Marco olha para Cael e fecha a cara.
MARCO: Eu estou bem...Obrigado...
RAÍZA: Você...Está bem mesmo?...De tudo?
MARCO: De tudo o quê?
CAEL: Marco eu já tinha te...
MARCO: Eu quero que ela me conte...E
então, Raíza? A que você se refere?
Raíza engole a saliva, olha para
Cael.
RAÍZA: Você...(pausa)...Me procurou
e...Até flores me entregou...Não se lembra?
MARCO: Eu só me lembro de coisas boas,
querida...(sorri um sorriso de canto).
RAÍZA: Você ‘tá’ querendo me dizer...
MARCO: ...Que eu não me lembro de nada...
RAÍZA: Quer dizer que eu nunca vou saber
por que você fez tudo aquilo? Por que me beijou?
Marco se vira para ela.
MARCO: Certamente eu não estava bem...Eu
devia estar...Bêbado pra fazer algo tão ridículo...
CAEL: Pelo amor de Deus, Marco!
Marco se levanta, passa pela garota e
pára ao seu lado. A garota nem olha.
MARCO: Se veio saber se estou bem já pode
ir. Eu ainda sobrevivo.
A garota o encara com uma raiva
aparente.
RAÍZA: O que foi que eu te fiz pra me
tratar assim?
Marco não responde e sai.
CORTA PARA
HOSPITAL [EXT.]
Marco entra no Toyota pelo lado do
carona enquanto Cael, um pouco afastado, olha Raíza atrás dele e aponta para o
carro.
CAEL: Vem, eu te deixo em casa.
Raíza coloca as mãos nos bolsos da
calça. Mostra-se ressentida.
RAÍZA: Vou a pé...Gosto de caminhar...
Cael caminha até ela.
CAEL: Eu estou me sentindo muito mal pelo
o que ele fez...
RAÍZA: Não se sinta. Você não tem culpa.
Eu...Eu só queria entender por que ele fez isso...E...Por que comigo.
Cael abaixa a cabeça e levanta em
seguida.
CAEL: Isso é uma coisa que só o tempo vai
dizer...
MARCO (no carro): Como é, Cael? Vamos ou
não vamos?
CAEL: Você vai ficar bem?
RAÍZA: Eu ainda sobrevivo...
Cael faz que vai beijá-la no rosto,
mas ela abaixa a cabeça. Ele sorri e se afasta.
Caminha até o carro, abre a porta e
olha a garota ao longe. Acena, entra, fecha a porta e arranca.
Marco também dá uma olhada. O carro
parte.
Raíza observa o carro sumir com um
olhar estranho.
RAÍZA (em OFF): Tomara que a paulada que o
João te deu ainda te cause muita dor...Pena que esse poder eu não devo ter...
A imagem vai se afastando até
aparecer um espelho diante de alguém.
CORTA PARA
CENA 15 CASA Nº 77 - PORÃO [INT.]
Cipriano está diante do espelho,
rindo ao ver Raíza de expressão amarga.
Camilo está logo atrás estranhando
sua atitude.
CAMILO: Eu...Não fui muito bem com o
João...
CIPRIANO: Você deu um belo susto nele...Ele
agora deve ‘tá’ pensando que foi coisa da prima...(risos).
Camilo se aproxima e olha pro
espelho.
CAMILO: Você ‘tá’ vendo isso aí?
Cipriano se volta com os braços para
trás e um olhar sagaz.
CIPRIANO: A curiosidade matou um gato, sabia?
(ele anda para frente) Mas posso dizer que estou me sentindo mais forte do que
nunca...Estranho...A Raíza espuma de raiva e eu me sinto...Revigorado...
Ouve-se a campainha.
CIPRIANO: Faz esse favor, Camilo?
Camilo sobe até a...
SALA...
Abre a porta e Marco se surpreende.
MARCO: Você? Aqui?
Camilo, de olhos arregalados, não diz
nada.
Marco lhe dá um safanão e vai direto
pro...
PORÃO...
Cipriano nem se mexe. Mantém-se em pé
com as mãos para trás e de costas para a porta.
CIPRIANO: Marco!... E a ‘poçãozinha’? Deu o
efeito que você queria?
Marco o segura pelos ombros e o faz
virar para frente. Está furioso.
MARCO: Você sabe por que eu vim, não é? O
que você pôs na bebida que me serviu ontem cedo?
CIPRIANO: Por que? Não gostou? Pode deixar
que hoje eu lhe sirvo algo melhor...O que você acha de rum? Muito cedo pra rum?
Marco sacode Cipriano.
MARCO: Vai me dizer ou quer que eu conte
pra Raíza que você está investigando a vida dela, hein?
CIPRIANO: Quer uma desculpa pra vê-la
novamente? Que ridículo...
Marco o empurra contra uma cadeira.
MARCO: Que poção era aquela, hein?
CIPRIANO: Eu disse que minhas poções fazem
coisas que você nem imagina...Aquela poção libera os sentimentos mais ocultos
das pessoas...Não gostou do seu?
MARCO: Eu ainda acabo com você!
Marco pára, põe as mãos na cabeça e
aperta. Seu semblante é de dor.
MARCO: AI, minha cabeça!
CIPRIANO: Ainda dói? (irônico)...Pode doer
mais se seu irmão souber que tem um criminoso dentro de casa. Imagine saber que
você e o Paulo eram assim, unha e carne? E que você deixou um inocente ir pra
cadeia...
Marco tira as mãos da cabeça,
expressão de alívio. Olha Camilo o observando de cara amarrada.
MARCO: Já foi tudo esclarecido. E seria
sua palavra contra a minha...
CIPRIANO: Você não ia querer se arriscar. A desconfiança
sempre leva à certeza...
Marco puxa sua gola, pára e o empurra
de volta.
MARCO: Quer saber? Toma as suas poções,
engula-as todas de uma vez e MORRA!
Cipriano gargalha vendo-o partir.
CORTA PARA
CENA 16 APTº 403 – QUARTO DE RAÍZA
[INT./MANHÃ]
Bruno chega à soleira da porta e vê a
filha de costas na sacada. Cruza os braços.
BRUNO: Sabe, filha...Ser destratado é
horrível, mas...Ficar remoendo o que passou é pior...
RAÍZA (continua de costas): Eu não tô
remoendo, pai...Só tô pensando nas aulas mês que vem...
BRUNO: Tudo bem...Mas não fique o domingo
todo aí, hein...
Tocando: Miseria Cantare - AFI
Ele sai e a cena mostra Raíza de
frente. Está com o olhar frio, raiva estampada no rosto. Contorce os dedos...
FUSÃO PARA
CENA 17 MANSÃO – QUARTO DE MARCO [INT.]
A cena percorre o quarto e vemos
Marco de costas, sentado na cama e de frente pra janela. A cena se aproxima ao
seu lado, ele segura um copo e permanece um tempo parado, pensativo.
MARCO (murmura): Valentina pode esperar...
Olha pro copo, leva-o à boca e toma
num gole só.
Em seguida, coloca o copo sobre a
mesa de cabeceira e ali há três frascos vazios...
FADE TO BLACK
Participação Especial:
Camilo (Sérgio Marone)
Trilha Sonora:
Miseria Cantare – A.F.I

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