O CORAÇÃO DE LUNA PERMANECIA EM PÓLVORA.
A labareda começava a queimar através de sua garganta e as lágrimas a lavaram
até o chão, num pedido de socorro da consciência, sentindo a terra preta
adentrar através de seus dedos. O penhasco parecia fazer um convite, uma queda
única seria a maneira de dissipar aquela dor acumulada na alma, o pranto sem
fim. Se ela se jogasse naquela escuridão, somente uma pessoa iria sair
vitoriosa.
Luna sempre
se transformava em uma garota indefesa quando estava próxima da mãe. Nunca
conseguiu entender o motivo da matriarca tratá-la daquela maneira. Muitas
vezes, imaginou que fosse fruto de um caso de Cássio e que Odete fora obrigada
a assumir a maternidade. Uma vez, quando criança, desbravando os álbuns de
fotografias antigos, ela encontrou uma foto desgastada, onde pôde ver a matriarca
segurando-a no hospital. Sua teoria havia caído por terra. Na fotografia, Odete
ainda tinha uma pequena chama nos olhos, uma chama que parecia ter se apagado
no dia 8 de novembro de 1974, o nascimento da pequena Luna.
“Você não pensa em ter outro filho,
Odete?”
“Se você tem uma Luna, nunca mais vai quer
ter outro filho.”
A primeira vez que Luna foi ao
ginecologista, ela se sentiu invadida ao estar na companhia da matriarca. Havia
acabado de se tornar mocinha, e Odete ainda não comprava absorventes nem a
ensinava a usá-los. Fazia questão de buscar a filha na secretaria da escola nos
primeiros meses, com a calça ensanguentada, até ser chamada atenção por uma
professora, que passou o contato de um excelente médico. No dia dos exames,
Luna descobriu que tinha endometriose e que uma das consequências da doença era
a impossibilidade gestacional. As palavras do médico foram mantidas em segredo,
e Luna nunca entendeu por que Odete não jogou tudo na sua cara. Ela chegou a imaginar
que as duas estavam começando a construir um elo de amizade. Isso nunca
aconteceu.
As lágrimas de Luna que antes caíam feito
grãos, haviam cessados momentaneamente. Ainda não tinha cabeça para retornar
para casa e explicar tudo para o marido, preferia ficar parada até a madrugada,
divisando a luz da lua crescente iluminar a mata do que estar próxima da mãe.
Segurando o escapulário no pescoço, ela fez um pequeno juramento: “Nunca mais
ninguém irá mexer com as minhas emoções. Nunca mais vou deixar Odete me ferir,
ela não merece o meu sofrimento.”
Luna segurava o escapulário de ouro nas
mãos, cujo brilho intenso se projetava na direção da floresta, alguns metros
abaixo. Lá, divisou uma sombra mal iluminada pela pálida luz da lua. De
repente, percebeu um par de olhos em chamas fixados na ponta do penhasco onde
ela se encontrava. Com o coração acelerado, Luna se ergueu de um pulo,
quebrando um graveto seco, tomada por um leve temor, e levou outro susto ao se
virar e deparar-se com o rosto do marido.
— Eu fui muito injusto em não ter te escutado,
Luna. Em não ter levado sua opinião a sério quando me falou sobre sua família,
especialmente sua mãe. Eu poderia ter resolvido tudo com uma ligação,
inventando alguma desculpa para não te colocar nessa posição. — disse Rafael,
aproximando-se cada vez mais da esposa até que os dois ficaram frente a frente.
— Meu maior sonho é ter um filho. Sempre deixei isso muito claro, e você nunca
mencionou ter um problema. Isso não importa agora. O que importa, Luna, é que
quero ser feliz ao seu lado. Podemos muito bem adotar uma criança, construir
uma bela família ou procurar os melhores médicos do Brasil, para resolver essa
questão. Quero que saiba que você está comigo e nunca mais se sentirá sozinha.
A temperatura começou a baixar ainda mais,
levando Luna aos braços reconfortantes do marido, que a envolveu com segurança.
Naquele abraço, ela encontrou um conforto instantâneo, quase esquecendo o
motivo que a levou até a beira daquele penhasco maldito. De repente, todos os
seus problemas, toda a sua vida e seus arrependimentos pareceram diminuir
diante da presença de Rafael. Ele era o homem que havia escolhido para ser seu
noivo. Alguém que a fez sair de casa e que, por um momento fugaz ao subir ao
altar, ela temeu que as sombras da matriarca a forçassem a repetir os mesmos
erros, um ciclo vicioso.
— Eu não quero mais a sua mãe dentro da
nossa casa, nunca mais. A não ser que seja pela sua própria vontade, deixei
isso bem claro em uma conversa que tive com o senhor Cássio antes deles
partirem. Ela não te faz bem, Luna. A Odete não é uma pessoa saldável para você
ter ao seu lado, não sei como conseguiu suportar. Deve ter sido muito doloroso.
Rafael segurou a esposa pela cintura, os
dois caminhavam sem dizer muitas palavras, saindo da floresta e seguindo em
direção de casa. Luna não deu muita atenção ao cachorro que a seguia até o
banheiro da suíte, ficando na porta enquanto ela tomava um longo banho,
sentindo a água quente penetrar através de seu corpo. O vestido sujo foi
embrulhado para ser jogado dentro do cesto de roupas. Ela pegou a primeira
vestimenta que encontrou no guarda-roupa e sentiu um aroma invadindo a casa;
Rafael estava preparando um chá de erva-cidreira para ela, além de deixar pão
de leite, manteiga, biscoitos e o macarrão postos na mesa.
— Você quer jantar? — ele perguntou com um
sorriso.
— Não, mas vou tentar comer um pão com
manteiga e tomar o chá.
Luna não esperava essa reação do marido;
ele foi completamente fora do que ela tinha idealizado. Por um momento, pensou
na ideia de adotar uma criança, um bebê ou uma criança mais velha. Havia tantas
crianças precisando de um lar, e adotar seria um ato de amor. Ela se aconchegou
nos lençóis, sentindo o corpo de Rafael se aproximar até ela adormecer aninhada
em seu peito. A noite passou como num piscar de olhos, até que acordou às seis
horas da manhã com um timbre masculino em seus ouvidos:
“VOCÊ SERÁ MINHA PARA SEMPRE.”
E aquela declaração não era de Rafael.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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