ATENÇÃO: As imagens de artistas utilizadas no vídeo de abertura e na arte de divulgação deste episódio possuem caráter meramente ilustrativo, sendo usadas apenas para representar os personagens e a narrativa, sem fins lucrativos ou vínculo oficial com os artistas citados.

No episódio anterior...
O dia está claro, som dos pássaros
cantando por perto. O rosto de Raíza é sereno. Ela abre os olhos subitamente.
CENA 1 RUAS DA CIDADE [ EXT./Manhã]
Raíza se levanta e olha por todo o
ambiente. Caminha, em passos curtos e de olhar perdido. Olha por todos os
lados, esbarra nas pessoas e acaba se afastando demais de João.
Este acorda muito tempo depois e olha
estranho pro ambiente. Ele senta e logo se levanta à procura da prima. Aflito,
ele corre até a estrada, mas não a vê.
Adiante, a boate L.A House. Raíza
anda devagar e atravessa a rua.
Olha o relógio; Está parado em 17:40.
Observa seu pulso cicatrizado e vermelho e logo volta à cor natural. Diante de
teus olhos.
CORTA PARA
CENA 2 L.A HOUSE – ESCRITÓRIO [ INT.]
Uma papelada é jogada com força em
cima de uma mesa pelas mãos de um homem. A cena sobe e revela Cael, visual
diferente, cabeça raspada, rosto mais liso. Cara de desagrado.
CAEL: Eu confiei a você um patrimônio de
meu pai e olha o resultado.
Marco, de cabelos mais curtos e de
pé, põe as mãos na cintura.
MARCO: Você está me acusando de alguma
coisa? Você manda fazer uma vistoria baseada em não sei o quê e agora sobra pra
mim?
CAEL: Você é o administrador, o que quer
que eu pense?
MARCO (calmo): Que eu não cuido de tudo
sozinho?...Ah, aposto como não pensou nisso.
CAEL: Tudo tem que passar pela sua mão,
Marco.
MARCO: Como tudo passa pela sua?
Cael desvia o olhar e fricciona os
lábios.
MARCO (de um cinismo irritante): Você delegou poderes a mim como eu
posso delegar poderes a outro. A não ser que você seja contra as futuras
promoções dos empregados.
CAEL: Acontece que esses empregados não
são seus sócios.
Foi a vez de Marco desviar o olhar.
Ele passa a mão pelo rosto. Aproxima de Cael, de repente.
MARCO: Quem está me acusando? De quem foi a
idéia de me difamar?
Cael limita-se a guardar a papelada
numa pasta preta de polionda.
Marco dá um soco na própria mão.
MARCO: Eu devia saber! Foi meu pai! Ele não
perde uma oportunidade de me ver pelas costas!
CAEL: Ele não te acusou de nada. Você que
já está com mania de perseguição.
MARCO (da calma aparente para
irritado): Está vendo! Já está querendo que eu me culpe. (tom de conformidade) Já
fui sentenciado. Não vou ficar aqui pra ouvir mais nada.
Abalado ele dá as costas.
Cael contorna a mesa, joga a pasta
sobre ela e segura no braço do irmão.
CAEL: Espera! Eu ainda não terminei...
MARCO: Espera nada! (ele se desvencilha)
Você não quer ouvir minha versão, já tirou suas próprias conclusões. Está
esperando o quê pra chamar a polícia?
Marco sai da sala. Cael fica parado,
sem reação aparente.
L.A HOUSE [EXT.]
Nesse momento, Raíza se aproxima da
boate. Olha tudo ao seu redor, confusa.
L.A HOUSE [INT.]
Marco desce as escadas rapidamente.
Ao chegar ao pé da escada, ouve Cael chamar.
CAEL: Marco, vamos conversar direito!
Marco continua em passos largos, põe
a mão no bolso da calça, tira um molho de chaves. Abre a porta de vidro e
sai...
L.A HOUSE [EXT.]
...Marco pára na calçada, faz um
movimento com a chave.
De repente, Raíza observa um pedaço
de concreto cair do parapeito da casa noturna.
Marco destrava a porta do carro.
RAÍZA: EI! CUIDADO!
Marco vira o rosto para o lado
contrário.
Raíza corre e se a joga nele. (efeito
câmera lenta) Os dois caem na calçada, alguns pedaços do concreto atingem a
moça que protege o rosto do rapaz, inconsciente ao bater com a cabeça no chão.
(fim do efeito)
Cael aparece da porta, afobado e vê a
moça sobre o irmão. Os dois se entreolham estranhamente.
Close no rosto de Raíza.
João Batista, ao longe, assiste à
cena assustado com a resistência da prima.
FADE OUT
FADE IN
CENA 3 HOSPITAL [INT.]
No corredor, Cael toca nos ombros
arranhados de Raíza, preocupado. A olha nos olhos e, ela o encara.
CAEL: Você tem certeza que não quer fazer
uns exames?
RAÍZA: Não...(ela dá uma pausa e,
constrangida pelo seu olhar, disfarça) Espero que eu não tenha piorado as
coisas pro seu irmão...
CAEL: Tenha certeza que uma garota cair
sobre ele foi melhor que um concreto.
Ela ri.
CAEL: Desculpe, nem me apresentei: meu
nome é Cael e o seu?
RAÍZA: Raíza.
CAEL: Humm (Ele a observa com cara de
desconfiado).
CAEL [Em OFF]: Parece que eu a conheço de algum
lugar...
RAÍZA [Em OFF]: Por que ele me olha assim?
CAEL: Nunca nos esbarramos por aí? O seu
rosto...Me parece...
MÉDICO: Por favor, o senhor já pode ver seu
irmão.
Cael segura em sua mão e, ela olha,
sem jeito.
CAEL: Vamos?
Os dois trocam olhares.
CORTA PARA
CENA 4 HOSPITAL - QUARTO [INT.]
Marco está sentado na cama, com uma
faixa na perna, nada grave e, despenteado. É observado pelo irmão e pela
visitante.
Ele olha a moça com um olhar esnobe e
mortal. Depois pra Cael.
CAEL: Marco, esta é Raíza , a garota que
te salvou, se lembra?
MARCO (sério): Não. Ela deve ter vindo voando...Eu
só senti o baque.
CAEL: Que grosseria é essa, Marco? Você
poderia estar morto! Já imaginou um pedregulho daquele em cima de você?
MARCO: E faz alguma diferença um pedregulho
ou uma acusação?
Cael vira o rosto em direção a moça e
ela abaixa a cabeça, sem graça.
CAEL: A gente conversa em casa, agora
agradeça a moça e vamos embora.
MARCO: Eu não pedi pra ser salvo.(ele torna
a olhar a moça com um olhar desprezível).
CAEL: Marco!...
MARCO: Eu preferia estar morto a ser
chamado de traidor!
Close no semblante estupefato de
Cael.
CORTA PARA
CENA 5 HOSPITAL – CALÇADA [EXT.]
Raíza faz que vai atravessar a rua e
ouve um grito logo atrás.
VOZ MASCULINA: Raíza!
Ela volta-se, o vento joga seus
cabelos em seu rosto e adiante estão Cael e Marco.
CAEL: Você não quer uma carona?
Raíza hesita na presença de Marco e
Cael insiste.
CAEL: O Marco me disse que é o mínimo que
podemos fazer por você.
MARCO (murmurando): Eu não disse nada disso...
Raíza aceita. O sorriso de Cael a faz
mudar de idéia.
CORTA PARA
CENA 6 TOYOTA – ESTRADA [INT.]
Cael dirige, olha pelo retrovisor.
Seu irmão está inquieto na poltrona de trás. Raíza, ao seu lado, olha pela
janela.
CAEL: Pensei que morasse perto da
boate...Você ia pra algum lugar àquela hora? Voltava da escola? (ele olha pro
uniforme dela desalinhado).
Os outdoors e as casas arrumadas pro
natal chamam a atenção da garota que não ouve a pergunta. Ele insiste.
RAÍZA: Ah, não lembro. Acho que sim.
CAEL: Eu falei pra você fazer uns exames,
hein. (ele sorri).
A garota se mantém
quieta.
CAEL: Algum problema?
RAÍZA: Hã? Ah, eu ‘tava’ olhando esses
outdoors...
CAEL: Poluição visual, você quis dizer
‘né’. Não que eu não goste de natal, mas...
Raíza se volta, surpresa e sem
entender bulhufas.
RAÍZA: Natal?
CAEL: Sim, natal. Você costuma viajar nos
fins de ano?
Raíza levanta as sobrancelhas,
abismada.
RAÍZA: Natal... (ela sorri, incrédula).
MARCO (calma irritante): Não gosta de natal?
A garota olha para trás
repentinamente. Aquela pergunta soa séria demais para a garota. Não é uma
brincadeira.
Raíza [Em OFF]: Natal? Como assim natal? Isso é
impossível!
CAEL: Você está bem? Ficou pálida de
repente...
RAÍZA (confusa): Hã?...Não...Eu só estou um pouco
cansada...Num vejo a hora de chegar em casa, viu.
Enfim, chegam a frente da casa nº
137. Cael tenta se apressar, mas Raíza abre a porta sem esperar por ele.
MARCO (irônico): Chato não poder ser cavalheiro, não
é?
Cael esboça impaciência e bate com a
porta do carro. Marco ri.
RAÍZA: Pai! Pai abre aqui!
Uma senhora vem atender. A garota,
surpresa, não entende.
SENHORA: Pois não?
RAÍZA (retruca): Pois não o quê?
SENHORA: O que deseja?
RAÍZA: Ué, meu pai (ela faz que vai entrar
e a senhora impede).
SENHORA: Que brincadeira é essa, mocinha?
Quem são vocês?
CAEL (cochicha para Raíza): Será que você não se enganou de
casa?
SENHORA: Mas é claro! Eu moro aqui com meu
marido e minha filha há quatro anos!
A garota arregala os olhos mesclando
surpresa e incredulidade.
RAÍZA: O quê? Num é possível...
Cael a segura pelo braço e tenta
levá-la dali. Marco observa atento àquela cena pelo vidro do carro.
RAÍZA: Não! Eu moro aqui, gente!...Que
absurdo...(ela se dirige, agora, à moradora) senhora, esse não é o número 137?
Como que meu pai ia se mudar da noite pro dia? Hoje mesmo eu falei com ele de
manhã...
SENHORA: Olha eu não sei o que ele falou pra
você e nem sei se estamos falando da mesma pessoa...
CAEL: Podemos resolver isso se disser o
nome do vendedor.
SENHORA: Qual o nome do seu pai, mocinha?
RAÍZA (afobada): Bruno Maciel Ferraz.
SENHORA: Hum...É esse mesmo.
Raíza está arrasada. É como se
acabassem de tirar seu chão. Ao mesmo tempo, muito confusa, não entende
absolutamente nada do que está ocorrendo.
CAEL (toca seu ombro): Vem comigo, Raíza. Vamos pra minha
casa. Talvez você se lembre pra onde seu pai se mudou.
RAÍZA (balbucia, aturdida): Não...Isso não tá acontecendo.
Ela se afasta da casa e vai pro meio
da rua, aturdida. Close em seu rosto. Ela se vira de frente pra casa.
Agora ela pode notar que a casa está
diferente, pintura branca, grades por cima do muro. Impossível alguém mudar
tudo num único dia. Impossível aquela senhora estar mentindo.
FADE OUT
FADE IN
CENA 7 MANSÃO [EXT./MANHÃ]
A fachada da mansão é azul, detalhes
largos em pedras. Janelas de vidros, uma comprida e estreita dos dois lados que
são mais a frente em relação à porta; Uma larga embaixo e outra igual acima. De
ambos os lados, outras janelas, mas com sacadas. O caminho do portão até a
entrada da casa é longo. Uns cinqüenta metros mais ou menos.
MANSÃO – SALA [INT.]
Cael, Marco e Raíza adentram no
corredor. Cael guia a garota que tropica na escada que leva a sala. Acaba
apoiando uma das mãos no braço de Marco que fecha a expressão, mas logo sorri
debochado.
MARCO: Efeitos daquela queda?
RAÍZA: Desculpe.
Marco esboça mais um sorriso e Cael o
encara fazendo um olhar pra ele se retirar.
MARCO: Com licença. Vou ao escritório.
Depois quero falar contigo, Cael.
Marco entra no escritório.
Raíza observa a sala enorme, sofá de
costas para onde eles entraram. Lajotas grandes e azuis, uma grande árvore de
natal vermelha no canto à direita, bar mais a frente e um tom fechado no
ambiente.
CAEL: Vou pedir a empregada pra te levar
pro quarto. Você deve tá querendo tomar um banho, comer alguma coisa...
Raíza vira pra ele, ainda com cara de
quem não acredita no que está acontecendo.
RAÍZA: Obrigada.
CAEL: Você tem certeza que morava naquela
casa? O Rio de Janeiro é grande, você pode...
RAÍZA: Absoluta. (ela abaixa a cabeça e
levanta, angustiada) Aquela boate fica longe da minha casa?
Cael disfarça um leve sorriso como
quem não entende ainda o uso daquele pronome possessivo.
CAEL: Não muito. (ele acaricia seu rosto)
Você vai se lembrar onde seu pai está. Tenho certeza.
Ela estremece um sorriso.
CORTA PARA
CENA 8 MANSÃO - ESCRITÓRIO [INT.]
A porta é aberta, Cael entra, fecha a
porta e passa por Marco, sentado na poltrona verde com a perna esticada.
MARCO: Você não a conhece e já vai
abrigando assim qualquer um?
Cael tira o paletó e coloca atrás da
cadeira.
CAEL: Era o mínimo que eu podia fazer
depois daquela desfeita que você a fez passar ‘né’?
O ambiente é um escritório pequeno,
pouco iluminado devido a árvore próximo à janela, mesa de frente para a porta,
alguns objetos como canetas, laptop, papéis e luminária.
MARCO (com as mãos juntas no colo): Se é só por isso dê um dinheirinho
pra ela e pronto. Vai hospedar uma doida? O pai dela se muda e ela nem toma
conhecimento. Vai vê fugiu de casa. Você não a conhece, Cael.
CAEL: E será que eu te conheço? Eu coloco
uma jovem pra dentro de casa, mas te garanto que se ela aprontar eu até
sentirei pena de mandá-la embora...
MARCO: Está me mandando embora?
CAEL: Entenda como quiser.
Close em Marco.
FADE TO BLACK
FADE IN
CENA 9 MANSÃO [EXT.]
A cena mostra um sujeito de costas
saindo de um carro e indo até o portão.
A cena se aproxima pelas suas costas
e ele se volta, assustado. É Paulo.
PAULO: Que isso? Quem é você?
JOÃO: Desculpe. Eu fiquei sabendo que a
minha prima Raíza veio pra cá...É verdade?
Paulo não entende.
MANSÃO – ESCRITÓRIO [INT.]
Paulo adentra a sala ao lado de João.
Cael surge da porta do escritório juntamente de Marco.
CAEL: Paulo, queria falar comigo?
PAULO: Sim (ele olha pro Marco e o
cumprimenta )Você está bem? Parece meio...
MARCO (irônico): ...Quebrado? Sofri uma pequena
queda...
Raíza ouve, mas finge que não ouviu.
Adentra a sala, sorridente.
RAÍZA: João? (ela o abraça).
Nota-se uma estranheza por parte
dele.
MARCO (debochado): Que emocionante...Juntos novamente.
Cael nem retruca.
RAÍZA: Desculpe gente. Eu não devia ter...
MARCO: Imagine... (tom irônico) Finja que a
casa é sua.
Cael lhe dá uma olhada enquanto Raíza
sai com o primo.
CORTA PARA
CENA 10 MANSÃO – QUARTO DE HÓSPEDES [ INT.]
Raíza está sentada na cama em cima de
sua perna enquanto a outra esticada. João senta ao seu lado, curioso.
JOÃO: Você está bem? Não se machucou?
RAÍZA: Você tá falando...
JOÃO:...Daquele concreto que caiu sobre
você...Você conhece esses caras?
RAÍZA: Nunca vi antes.
JOÃO: Então por que se arriscar pra salvar
a vida de quem não conhece? Aquele pedregulho podia ter te matado.
RAÍZA: Eu não sei o que me deu...Foi Deus
que me salvou.
JOÃO: E você salvou aquele homem...(pausa)
Onde você estava antes? (Ele engole a saliva) Se lembra?
Raíza levanta, caminha e vira-se.
RAÍZA: Eu só consigo lembrar de quando fui
atropelada...Eu tinha um trabalho pra entregar...
João respira e de costas, inquieta o
olhar. A prima volta a sentar e ficar de frente pra ele.
RAÍZA: Você não sabe o que fiquei
sabendo...
JOÃO: Sei sim...Quatro anos, não é?
RAÍZA: Hã?
JOÃO: Tem quatro anos que se passou e que
nossa família se mudou.
RAÍZA: E você acreditou nisso? (a moça faz
um gesto com a mão pra cima) Aquela velha viajou!
JOÃO: Será que não fomos nós que
viajamos?...
A cena pára no rosto de Raíza.
CORTA PARA
CENA 11 MANSÃO – ESCRITÓRIO [INT.]
Cael, ainda sentado, assiste a um
vídeo. Paulo está sentado do outro lado e Marco, de pé, tem as mãos por dentro
dos bolsos da calça. No vídeo, mostra um funcionário, diante de um computador.
Na tela, números são alterados. Cael está possesso.
CAEL (alterado): Essa é a sala do Marco(olhar
acusador pra cima do irmão) e você, Paulo também tem acesso. Eu deixei o Camilo
por sua conta. Como foi deixar isso acontecer?
PAULO: Me desculpe, Cael...Eu me deixei
levar pela amizade, quis dar uma chance a ele assim como você fez comigo.
MARCO: A generosidade, Paulo é uma
qualidade bastante insignificante nos negócios...
O irmão o olha meio de canto
demonstrando não gostar daquela frase. Desliga o vídeo e levanta com ar de
decidido.
CAEL: Eu não posso ficar no prejuízo...A
polícia tem que saber disso...
MARCO: É só isso que você tem pra dizer?
Por que comigo faltou cuspir.
Cael põe as mãos na cintura e
demonstra impaciência.
CAEL: Marco...Vê se contenha a sua
implicância...
Marco sorri sem muita vontade.
CORTA PARA
CENA 12 PRAÇA [EXT./FIM DE TARDE]
Raíza e João Batista estão sentados
num banco. A praça tem pequenos arvoredos e gramado em quase toda a sua
extensão.
Ela está nervosa, tensa, angustiada e
não há mais sentimentos que traduzem seu estado de espírito.
RAÍZA (quase chorando): Perdemos tudo, João! Perdemos tudo!
Quatro anos de nossas vidas e nós não temos nada pra contar do que vivemos
nesses anos.
JOÃO: Então você foi ao colégio ‘né’? Eu
devia ter ido contigo, viu...
RAÍZA: Daí, seriam dois com cara de
paspalho, ‘né’. Poxa! Eu cheguei lá e encontrei uma professora, daí, quando eu
falei do trabalho que não consegui entregar a tempo, ela se admirou que eu
ainda lembrasse, ‘cê’ tem idéia do mal que senti na hora? Ela achou que a essas
alturas eu já estaria na faculdade, sabe...
João a segura nos ombros pra tentar
acalmá-la. Raíza está tão eufórica que não percebe que seu primo mantém um
semblante inquieto.
RAÍZA: E você? Foi lá no seu emprego?
JOÃO: Emprego? (ele afrouxa o riso em
desagrado) Três! Eu disse Três que já passaram pela minha vaga...Eles ficaram
felizes por que eu fui encontrado, sabe? Você entende isso? Encontrado...Parece
que fomos sequestrados...
RAÍZA: Mas não lembro de nada...Que
sequestro mais estranho...(ela levanta as sobrancelhas, espantada) Ei! Se fomos
sequestrados, então...Estamos sendo procurados?
JOÃO: Nem se anime, viu, porque eles
disseram que a polícia encerrou o caso já dando a gente como mortos.
RAÍZA: Mortos? Meu pai pensa que morri?
Close em sua expressão estarrecida.
FADE OUT
FADE IN
CENA 13 MANSÃO [EXT.]
Raíza e o primo chegam à mansão. A
garota vira-se de frente pra ele e segura em suas mãos.
JOÃO: Vou ver se encontro um lugar, um
beco qualquer pra dormir...
CAEL (O.S): Você vai deixar seu primo dormir por
aí?
Raíza e João olham para cima e vêem
Cael na sacada. Os dois se entreolham, sem graça.
MANSÃO - CORREDOR [INT.]
Os dois caminham pelo corredor e Cael
desce as escadas. Ele veste uma camisa preta e fina, de manga comprida e calça
social da mesma cor. Nota a expressão fechada no rosto de Raíza.
CAEL: Você me parece tão triste...Não
descobriu o paradeiro de seu pai?
JOÃO (murmura de cabeça baixa): Não sabemos os nossos...
CAEL: Hã?
JOÃO (desconversa): Não! Não descobrimos nada...
CAEL: O melhor remédio para a tristeza é
sair...Como vocês não vieram almoçar aqui, convido-os a conhecer a minha casa
noturna. Aceitam?
Apesar da pergunta no plural ele
fixa-se na garota.
Raíza fricciona os lábios, olha para
o primo e faz uma expressão indecisa. Cael nem espera sua decisão.
CAEL: Não aceito ‘não’ como resposta,
hein.
Sorrindo acaba cativando a garota.
= = Passagem de Tempo = =
CENA 14 MANSÃO – ANTE SALA [INT./NOITE]
Raíza desce as
escadas trajando um vestido simples e preto no momento em que uma moça, de
beleza exótica, entra na mansão. Alta, esbelta, lábios grandes e volumosos,
cabelos escorridos e uma tenebrosa franja cobre as sobrancelhas. Ela se mostra
possessa. Os olhos, assim como a boca são grandes e miram naquela garota
magrinha, com jeito delicada, pele clarinha e cabelos negros.
Na hora, Marco aparece no corredor do
lado oposto com olhar malicioso para a cena.
MARCO: Valentina! Já conhece a nossa
hóspede? (João também surge no alto da escada) ou melhor, nossos hóspedes?
VALENTINA: Não...Parentes do meu namorado?
(ela enfatiza).
Cael sai do escritório por trás do
irmão.
CAEL: Não...Eles são meus amigos.
Valentina vai até Cael e o beija na
boca. O rapaz fica sem jeito.
VALENTINA: Meu namorado adora fazer caridade,
‘né’?
Raíza e o primo se olham não gostando
nada daquela mulher. Marco observa Raíza.
MARCO: O vestido é simples, mas ficou muito
bem em você... (ele se dirige ao irmão) Perdendo a sofisticação, Cael? Pensei
que compraria algo...
CAEL: Ela não quis nada que fosse caro...
Valentina desprende-se do abraço e
olha desconfiada para o namorado.
VALENTINA: Você comprou um vestido pra ela?
Aliás, que amigos são esses que...
MARCO: Querida, acho que você borrou seu
batom...
Valentina passa a mão próximo aos
lábios, hesita, encara a garota, mas se dá por vencida por enquanto.
VALENTINA: Vou me retocar...
O banheiro fica no mesmo corredor da
ante sala com uma parede separando do corredor à porta principal.
MARCO: Raíza acho que você também precisa
retocar seu batom, querida.
CAEL: Não precisa não.
MARCO: Cael...O que você entende disso? Ia
deixar a pobre da Valentina sair borrada daquele jeito.
RAÍZA [Em OFF]: Acho que eles querem ficar sozinhos,
só pode...
Ela desce, olha para Marco e em
seguida para Cael. Passa por eles e entra no corredor.
BANHEIRO [INT.]
Valentina dá uma pausa com o batom
erguido à boca ao ver Raíza adentrar. Raíza ajeita os cabelos sob o olhar fixo
da moça.
VALENTINA (retocando-se): Vai demorar muito?
Raíza pára por um instante de se
ajeitar e depois continua.
RAÍZA: Já tô saindo...
VALENTINA: Me refiro à sua estada aqui...Eu que
sou a namorada ainda não consegui essa proeza...
RAÍZA: Cael quis me ajudar...
VALENTINA: Cael? (interrompe) Já o chama assim?
Não fico admirada que até convite pra ir à casa noturna, você tenha ganhado...
RAÍZA: E o que tem isso de errado?
VALENTINA: Nada...Só espero que você não tenha
feito nada de errado pra conseguir isso...
Raíza entende de imediato e vai logo
dando as costas.
RAÍZA: Não sou dada a essas baixezas.
VALENTINA: De quais baixezas você acha que me refiro?
Raíza volta-se e torna a dar as
costas, enquanto Valentina provoca.
VALENTINA: É melhor passar longe da cama dele,
hein.
RAÍZA: Ah, mas eu nem sei pra que lado
fica...
Valentina vira-se, afrontada, mas
Raíza sai sem se incomodar. Valentina se recompõe e dá graças a Deus. Apanha um
dvd em sua bolsa e sai do banheiro. Espreita-se pelo corredor até o escritório
do namorado. Entra e lá, coloca o dvd embaixo de algumas folhas e sai.
VALENTINA (murmura): Aquele imbecil de marca maior vai
ver só com quem se meteu...
CORTA PARA
L.A HOUSE [INT./NOITE]
A música na boate e aquelas luzes
coloridas, alternadas deixam Raíza e o primo meio tontos. Eles estão sentados a
uma mesa próxima da chapelaria.
Marco, do outro lado está sentado em
frente ao bar junto da cunhada.
Valentina dá um gole em seu coquetel.
Marco faz o mesmo e coloca o copo sobre o balcão.
MARCO: Diz o Cael que ela salvou a minha
vida...
VALENTINA: Aí Marco, hein...Salvo pela magrela
(Ela ri).
Marco esboça desagrado.
MARCO: O pior é que agora, depois de
esquecer o caminho de casa, ela vai ficar infiltrada lá em casa...
VALENTINA: Infiltrada? Acha que é uma espiã?
Uma bandida?
Marco observa a moça ao longe.
MARCO (murmura): Acho que ela pode ser uma pedra no
meu caminho...
VALENTINA: Hã? O que disse?
MARCO: ...Eu disse que...Ela pode ser uma
pedra no seu caminho...
VALENTINA: No meu caminho? O que você sabe? Diz
logo, homem!
MARCO: Ah...A moça é bonita, não é? Meu
irmão até comprou roupas pra ela...
Valentina larga o coquetel na mesa.
VALENTINA: Isso que não gostei...Ele não tinha
nada que dar roupas pra ela, isso não se faz.
MARCO: Não entendo o espanto...Não foi
assim que vocês se conheceram?
Valentina morde os lábios, irada.
CORTA PARA
CENA 15 MESA PRÓXIMA À CHAPELARIA
Raíza nem toca no coquetel. Fita na
direção de Valentina.
RAÍZA: Tá vendo, João? (observa) eles estão
falando de nós, aposto.
JOÃO: Deve ser o seu cabelo...Deve ta fora
de moda.
Raíza dá uma olhada pra ele que logo
se cala.
JOÃO: Desculpe, eu também não gosto de
lembrar que estamos quatro anos à frente, mas se é fato, fazer o que? Que bom
que ainda temos onde ficar ‘né’?
RAÍZA: Disfarça que aquela metida ta vindo
pra cá...
VALENTINA: Olá! (ela vê o coquetel) Aposto que
o coquetel está sem álcool. ‘Peraí’ que vou te dar algo quente.
RAÍZA: Não, eu não bebo nada alcoólico!
VALENTINA (tom desafiador): É fraca pra bebida?
RAÍZA: Não. Sou forte pra ela.
João segura o riso. Valentina não
entende a moça.
RAÍZA: Sou forte demais pra precisar de uma
bebida.
VALENTINA: Isso não é desculpa pra esconder a
sua fraqueza? (ela aumenta o tom de voz) Ou será que você nunca bebeu e tá com
medo de viciar?
Algumas pessoas olham e uns, até
debocham de Raíza. Marco bebe sem tirar os olhos daquela cena.
A moça tenta ser solidária. De
verdade.
RAÍZA: Acho que você bebeu demais...Não
quer sentar um pouco?
VALENTINA: Eu só queria que vocês me
acompanhassem na bebida. (ela levanta o copo).
JOÃO (brinca): O seu copo não te acompanha o
suficiente?
Valentina fecha a cara. Olha para o
pessoal e, disfarçadamente, faz sinal pra uma garota de cabelos ruivos.
Valentina sorri fingindo achar graça de João Batista. Nesse instante, a tal
ruiva vai a direção da mesa onde eles estão e derruba, propositalmente, seu
copo em Raíza.
GAROTA: Ai como sou desastrada. Deixa eu
tentar limpar isso.
VALENTINA: Leva ela pro banheiro, sua doida.
Vai acabar manchando o vestido novinho da menina.
BAR...
Marco assiste a tudo satisfeito.
Larga o coquetel e sobe as escadas. Cael faz o inverso.
MARCO: Aonde você vai?
CAEL: Beber alguma coisa...Por quê? Não
posso? (ele desce e dá um giro com os olhos).
CAEL [EM OFF]: Ué...Cadê a Raíza?...
TOILLETE [EXT.]
Raíza passa a mão pelo vestido
manchado até parar diante do espelho. Ao olhar, sua feição é de dor e seu
vestido preto tem outro estilo. A imagem ao fundo é de muitas pessoas
fantasiadas. Raíza se volta e o que vê é uma confusão armada no meio do palco.
RAÍZA (aturdida): Mas o que tá havendo?(ela vira pro
espelho novamente).
Ouve-se gritos, um estrondo abala o
chão e a lâmpada acima do espelho quebra. Raíza se abaixa pra evitar o impacto
no rosto, sai do banheiro correndo e dá com João na porta.
RAÍZA: Vamos sair daqui, João!
João fica sem reação e ela o puxa
para a porta dos fundos.
CORTA PARA
CENA 16 RUAS DA CIDADE (NOITE)
Raíza está sentada no meio-fio,
cabisbaixa, enquanto João anda de um lado e de outro por trás dela.
JOÃO: Eu não consigo entender...Você achou
que a boate ia explodir?
RAÍZA (murmura): Ouvi gritos...Aquele estrondo quase
me faz cair no chão.
João olha adiante.
[POV de João]
A L.A House continua bombando.
JOÃO: Parece que tá tudo normal por lá...
Raíza olha na mesma direção e volta a
ficar cabisbaixa.
RAÍZA: Eu vi aquela multidão...Aquilo não
podia tá acontecendo...Não podia.
João se agacha ao seu lado.
JOÃO: Olha Raíza, eu sei que o que
aconteceu com a gente foi algo inédito e que nunca poderemos dizer isso a
alguém, mas...Achar que a boate ia pelos ares é um tanto fantasioso demais, né?
Raíza dá aquela olhada incrédula pra
ele e olha para a boate ao longe.
RAÍZA: Você acha que tô inventando isso?
JOÃO: No mínimo, você deve estar muito
confusa.
Raíza abaixa a cabeça.
RAÍZA: Você já teve a sensação de ter
estado num lugar que nunca esteve antes?
JOÃO: Como assim?
Raíza ergue a cabeça e titubeia.
RAÍZA: Assim...Você...Entrou num lugar que
nunca entrou antes, mas... Era como se já tivesse entrado algum dia.
João a encara por alguns instantes.
JOÃO: Se isso aconteceu comigo, não
lembro. Mas seja lá o que for isso que você sentiu o importante é que só ficou
na sensação.
Ele levanta e faz um gesto pra ela
fazer o mesmo. Raíza se levanta sem querer dar um passo a frente. Em seguida, o
encara estranhamente.
RAÍZA: Quem te vê assim até pensa que
sempre nos demos bem. Eu tenho notado...Tá diferente comigo...
JOÃO: Estamos no mesmo barco...Sozinhos,
sem eira nem beira. Dependendo da bondade de estranhos...(pausa) Precisamos nos
unir.
Raíza assente.
JOÃO: Vem. Se caso a boate ir pelos ares
você não vai estar sozinha.(Os dois riem) Além do mais, se o Cael der por nossa
falta você não vai querer dizer que previu uma catástrofe pra boate dele, né?
Os dois riem novamente e a cena se
afasta mostrando-os ao longe, caminhando na direção da boate.
= = Passagem de Tempo = =
FADE IN
CENA 17 MANSÃO – ESCRITÓRIO [ INT./FIM DE
NOITE]
A luz da luminária projeta-se sobre
um dvd que um homem segura sem muita firmeza. Ouve-se a batida na porta. Cael
olha e Raíza aparece à soleira.
RAÍZA: Com licença.
Cael coloca o dvd por entre uns
papéis.
CAEL: Raíza! Também sofre de insônia?
Entre!
Raíza fecha a porta e sorri, sem
graça.
RAÍZA: O quarto é muito grande...Acho que
não tô acostumada...Deve ser isso.
Ele sorri e faz um gesto pra ela se
sentar. Raíza senta e não consegue pronunciar mais nada.
CAEL: Eu acho que você não veio só dar boa
noite, não?
Ela sorri.
RAÍZA: É que...Eu queria perguntar uma
coisa.
Cael pousa os braços sobre a mesa a
olhando nos olhos.
CAEL: Pergunte.
Raíza estufa o peito como quem
precisa tomar coragem.
RAÍZA: Você já teve a sensação de ter
estado num lugar onde nunca pisou antes?
CAEL: Como se aquilo já tivesse
acontecido, mas que a gente não lembra?
RAÍZA: Isso!
Cael demora um pouco pra responder, a
encara com um olhar bondoso.
CAEL: Uma vez eu quase atropelei uma
garota...Quando saí do carro e a encarei, era como se aquilo voltasse a
acontecer e não que era a primeira vez. Foi uma sensação estranha.
RAÍZA: E ela? Falou com ela?
CAEL: Ela sumiu. Só a pouco tempo voltei a
vê-la.
RAÍZA: E como foi?
Ele a encara novamente.
CAEL: Ela não me reconheceu.
Raíza sorri sem graça.
CAEL: E você? Qual foi sua sensação?
Raíza faz que vai falar, gagueja.
RAÍZA: E-eu ti-tive a...(ela pára um pouco)
Eu tive a sensação de...já ter estado aqui...Foi isso!
CAEL: Espero que tenha sido uma ótima
sensação.
RAÍZA (sorrindo): E foi. (ela levanta) Agora não vou
te incomodar mais...
CAEL: Espere! Agora sou eu que quero
perguntar uma coisa.(pausa) Se você acusasse seu primo baseada em falsas
evidências e se desse conta que errou, o que faria?
Raíza apóia a mão na cadeira.
RAÍZA: Pediria perdão. Pode não resolver
100% as coisas, mas com certeza é o caminho certo pra isso.
Cael sorri admirável.
RAÍZA: Boa noite.
CAEL: Boa noite.
Raíza sai e Cael tira de dentro das
folhas o dvd. Olha-o atento e torna a olhar pra frente como se tivesse acabado
de tomar uma decisão. Close em seu rosto.
FADE OUT
FADE IN
CENA 18 MANSÃO – SALA DE JANTAR [INT./MANHÃ
SEGUINTE]
A mesa com tampa de granito azul é
grande e comprida de 12 lugares. Cael e Marco estão sentados, cada um, em uma
ponta. Raíza e João, lado a lado.
A mesa tem pães, bolos, geléias,
sucos e café. Raíza come o pão, timidamente enquanto no prato do primo há três
pãezinhos.
Cael observa os dois.
CAEL [Em OFF]: São dois estranhos, mas parece que
eu os conheço há tanto tempo...
MARCO (para os hospedados): Foi proveitosa a noite ontem pra
vocês?
RAÍZA: Apesar de não gostar de tanto
barulho até que foi bacana.
MARCO (malicioso): Pergunto isso por que quase não os
vi ontem...Só quando você, Raíza foi ao escritório no fim da noite...
Raíza olha pra ele e para Cael,
tímida.
CAEL (servindo-se de suco): Ela estranhou o quarto e veio
conversar comigo.
Marco olha para o casal, mas se
dirige ao irmão.
MARCO: Estranhou é? (malícia) Normal (ele
se serve de café puro) Eu também estranhei; Não estava acostumado a dormir
sozinho.
Raíza até então comendo o pão, quase
joga tudo pra fora. O encara com indignação.
CAEL: Não foi essa estranheza que ela
teve.
MARCO: Desculpe.
Silêncio.
CAEL (para Marco): Depois quero falar contigo.
MARCO: Novas acusações? (sarcástico)
Os hóspedes olham para ele e Cael
respira fundo e se dirige ao casal.
CAEL: Vocês têm irmãos?
RAÍZA: Não. Somos filhos únicos.
JOÃO (murmura): Por enquanto...
CAEL: Hã? Não ouvi.
Raíza engole rapidamente o café.
RAÍZA: Ele quis dizer ‘Por
enquanto’...É...Por enquanto somos filhos únicos porque meu pai pode se casar
de novo...
CAEL: Ah...Ele é separado?
RAÍZA: Viúvo.
Cael olha para o rapaz que nem espera
pela pergunta.
JOÃO: Meu pai levou um balaço no meio dos
cornos...
Raíza quase se engasga e Marco pára
de comer, de repente.
RAÍZA: Tá maluco, cara! O que ele vai
pensar?
JOÃO: Mas é verdade! Ele não quis me
assumir e meu avô deu conta de tudinho...Daí, coitado, morreu do coração ao
saber que minha mãe me largou ainda criança pra sumir no mundo...
RAÍZA: Tá bom, chega, Credo! Café da manhã
não é hora pra autobiografia.
Marco continua a comer e Cael o olha
quieto, pensativo.
CORTA PARA
CENA 19 MANSÃO – SALA [INT./ MANHÃ]
Cael está sentado no sofá de couro
verde com um controle nas mãos. Seu rosto é de vergonha. Alguém entra na sala,
Cael vira o pescoço. Marco olha a televisão de plasma exibindo um vídeo
pausado.
MARCO: Me chamou aqui pra assistirmos a um
dvd? Qual que é? Quase Dois Irmãos? Um dia de Fúria?
CAEL: Chega de sarcasmo! ( ele aponta o
controle e o vídeo sai da pausa) Tá vendo isso?
MARCO: Como? Me parece um vídeo
caseiro...Mas ele é o...
CAEL: Paulo. Ele confessa que maquiou os
números...Que me roubou!
No vídeo, Paulo aparece de frente,
parece bêbado.
PAULO(no vídeo): Um otário esse Cael(risos) Ele me
paga pra ferrar com a boate dele( ele desvia o olhar da câmera e parece ouvir
alguém, mas não ouvimos nada). Ele só me empregou pra mostrar seu lado
solidário, você acha que ele fez isso por amizade a mim?
Marco ajeita a gravata e esconde sua
saliva escorrer pela goela abaixo.
MARCO: Mas...Como ele ia confessar isso?
Cael desliga, levanta e joga o
controle no sofá.
CAEL: Isso eu não sei. (Ele coloca as mãos
na cintura) Encontrei esse dvd nas minhas coisas... Mas o que importa? Eu
mandei prender um inocente!
MARCO [Em OFF]: Azar o seu...
MARCO: E você me chamou aqui pra quê? Pra te
consolar?
CAEL: Eu mereço o teu sarcasmo.(ele se
aproxima) Você é meu único irmão e eu não fui capaz de dar ouvidos a você.
Marco recua um passo, apreensivo.
MARCO: É só isso que o vídeo mostra? Olha,
eu não sei a sua intenção com isso, mas...
CAEL: Eu peço que me perdoe por ter
desconfiado de você. Eu nem sequer tentei conversar contigo. Se eu cuidasse
melhor da boate, do cassino eu jamais teria te acusado daquela maneira...
Marco o olha desconfiado. Cael abre
os braços e sorri um sorriso fechado.
Os dois se olham e Marco devolve o
abraço olhando para o vídeo.
Raíza surge no corredor e observa os
dois. Ela e Cael se olham e sorriem. Ele, de forma agradecida.
FADE OUT
Raíza (Maria Flor)

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