LUNA PERMANECIA SENTADA NO PISO DE CIMENTO
EM FRENTE À ESCOLA MUNICIPAL MANOEL RIBEIRO CARNEIRO, AQUECIDA EM UMA BLUSA DE
FRIO, AGUARDANDO O TELEFONEMA NO ÚNICO ORELHÃO DO VILAREJO.
O patriarca avisara que ligaria pontualmente às 20h00 para conversar melhor com
a filha sobre o acontecido na noite anterior. Rafael brincava no campo à frente
com Bob, que aprendia a pegar uma bolinha de beisebol. O frio dominava as
noites, e a chuva caía quase o dia inteiro, típico do mês de agosto naquela
região.
Segundo o Sr. Chico, com quem Luna tomara
uma xícara de café antes de seguir até a escola, no mês da padroeira de Arraial
D’Ajuda, toda a costa do descobrimento ficava alagada.
— Luna, como você está? — perguntou Cássio
assim que a filha atendeu a chamada. Luna demorou alguns instantes para
responder, mas seu pai continuou a falar. — Peço perdão pela noite de ontem! A
Odete sempre te tratou de uma forma diferente. Isso nunca foi culpa sua. Saiba
que não precisa levar aquelas palavras para o seu coração, minha pequena lua.
Sabia que fui eu que escolhi o seu nome? Luna significa iluminada, foi assim
que me senti no seu nascimento, como se todos os problemas do mundo tivessem se
apagado. A sua mãe, no fundo, te ama muito.
Luna deixou as lágrimas escorrerem pelos
olhos novamente. Estava morrendo de saudades do patriarca e queria um momento
ao seu lado, como antes. Todos os finais de semana, assistiam a filmes ou
observavam as estrelas pelo telescópio. O telescópio permanecia na janela de um
dos quartos de sua casa em Vale Verde, apontado para o céu, mas nada fazia
sentido sem a presença do pai. Ela limpou os olhos, observando o marido ainda
correndo em direção a Bob.
— A mamãe nunca me amou, pai! — continuou
Luna. — O senhor nunca será capaz de me entender, todos os dias, quando
estávamos sozinhas, o tratamento era outro. Nunca me senti bem na presença da
Dona Odete. Ela nunca demonstrou nenhum tipo de afeto, era uma estranha para
mim. A partir de hoje, ela nunca mais será chamada de mãe. Cansei de continuar
calada, engolindo todas as críticas, como se estivesse em uma areia movediça,
prestes a afundar. Agora, tenho tudo que preciso nesse momento. Tenho um homem
que me ama, um cachorro que é apaixonado por mim, um pedaço de terra, e uma
vida longe de Teixeira, onde posso ser quem eu quiser, livre dos julgamentos e
preceitos da Dona Odete. Inicio uma nova história, longe dela. Se o senhor
quiser me visitar, apenas o senhor, fique à vontade. — Ela manteve-se em silêncio, antes de
prosseguir: Sempre será o melhor pai do mundo!
A ligação
começou a falhar, e Luna ainda tentava dizer algumas palavras na esperança de
continuar a conversa com o pai. No fundo da chamada, ela conseguia escutar apenas
o som de “TU, TU, TU” e uma mistura distante da voz de Cássio, que dizia
algumas palavras inaudíveis. Repentinamente, uma respiração forte e ofegante
tomou conta da linha. Um timbre masculino cortou o silêncio: “Você será minha
para sempre! A mulher que escolhi para ser a hospedeira.” O mesmo timbre que
acordara Luna naquela manhã. A chamada caiu como um choque nos ouvidos de Luna,
fazendo com que ela soltasse o telefone da mão.
A ventania
tomou conta das árvores primeiro, vindo da direção do cemitério e formando uma
corrente de ar densa em frente à escola. As folhas secas corriam freneticamente
em direção a Luna, enquanto as luzes dos postes começavam a estourar uma por
uma, levando todo o ponto principal do vilarejo à escuridão. As janelas da
escola tremiam, e Luna correu em direção ao marido na picape, temendo que
aquilo se transformasse em uma tempestade. Ela só sentiu um pouco de paz quando
chegaram em casa, fechando todas as janelas e deixando Bob dormir dentro de um
dos quartos naquela noite.
— O que está acontecendo contigo? —
perguntou Rafael ao lado da esposa na cama, observando-a folhear um livro. —
Você não falou nenhuma palavra desde o telefonema do seu pai. Continua
assustada desde que chegamos aqui, nem quis tomar um pouco de café. O que você
viu na frente da escola?
— Nada...
— Nada mesmo, Luna?
Luna estava lendo "Capitães de
Areia" de Jorge Amado quando o marido a interrompeu. Tentava apagar as
memórias passadas, imergindo nas palavras do escritor.
— Eu senti uma sensação estranha, parecia
que estava no topo do penhasco, prestes a cair, quando escutei aquela falha na
ligação. Aquele timbre ainda ressoa em meus ouvidos, como quando acordei esta
manhã. — Luna ficou em silêncio por alguns segundos, temendo o julgamento do
marido antes de continuar. Ela sentia que precisava contar para Rafael. — Eu vi
uma sombra quando estava na floresta, apenas uma sombra, e do nada, vi algo com
olhos avermelhados. A criatura sobre a qual todos no vilarejo comentam.
— Isso pode ser apenas uma série de
coincidências.
— Você nunca viu nada? — Luna indagou.
— Sim, a primeira vez foi quando estava
instalando a antena, mas foi muito rápido e eu nem me liguei direito. A fome
tomava conta do meu estômago e certamente do cérebro. E depois disso, na
segunda-feira, no primeiro dia de trabalho, havia uma sombra avultando o pé de
jequitibá no canavial. Só que acho que tudo isso pode ser coisa da minha
cabeça. Ainda não consigo acreditar em nada.
— E se tudo for verdade?
— E você acredita, meu amor?
— Eu tento não acreditar, fingindo que é
apenas um Efeito Mandela. Uma falsa memória em que todos mantém em conjunto.
Luna adormeceu nos braços de Rafael, o
aroma do perfume dele invadindo seu corpo enquanto ouvia a respiração tranquila
do marido. Antes de finalmente se entregar ao sono, murmurou seu primeiro
"eu te amo" com sinceridade e paixão. A luz do abajur foi apagada, e
ela se deixou levar pela letargia, prestes a entrar na fase REM. No entanto,
antes que pudesse mergulhar nos sonhos, o som distante e inquietante de uma
cavalaria a despertou abruptamente, fazendo-a sentar-se na cama, com o coração
disparado, e acordando Rafael ao seu lado, que também se sobressaltou.
— Você está ouvindo isso? — questionou
Luna.
— É impossível não escutar, parece uma
guerra!
Rafael prontamente se levantou da cama,
pedindo para que a esposa permanecesse onde estava. Com um movimento rápido,
ele pegou a arma de dentro do guarda-roupa e, cautelosamente, espiou através de
uma fresta na janela. A visão que encontrou do lado de fora era aterrorizante:
uma violenta batalha estava em andamento, conhecida como a famosa Caçada
Selvagem.
Os índios, montados em seus cavalos,
moviam-se com a fúria de guerreiros ancestrais, lançando flechas certeiras
contra os invasores brancos, os portugueses. As flechas cortavam o ar noturno,
brilhando sob a luz da lua crescente como espectros vingativos. O som agudo dos
projéteis se chocando contra escudos e corpos era abafado pelos gritos de
guerra e o clangor das armas de fogo dos portugueses.
Os homens brancos, com suas armas,
respondiam com tiros que ecoavam pela noite. A fumaça dos disparos se misturava
ao cheiro acre de pólvora, criando uma nuvem que pairava sobre o campo de
batalha. A raiva e a agilidade dos guerreiros indígenas eram notáveis; eles
esquivavam-se e atacavam com uma precisão que os europeus não conseguiam
igualar.
— O que está acontecendo? — Luna perguntou
assustada.
— É a Caçada Selvagem, a lenda que o
Mathias comentou comigo no primeiro dia de trabalho! Isso só pode ser
brincadeira! — Rafael respondeu, notando que os corpos dos índios mortos sumiam
pelo ar. — Podemos estar sonhando Luna. Tudo é apenas uma ilusão, ou estamos
começando a ficar loucos.
Era quase
três horas da manhã, como Luna notou ao olhar o relógio na cabeceira da cama.
Sem pensar duas vezes, foi até a estante de livros e pegou a Bíblia, reservada
para momentos em que buscava conexão espiritual, embora não fosse uma mulher
religiosa, assim como seu marido, que tinha pouca fé nas palavras do Senhor. No
entanto, naquele instante, sentiu a necessidade de apelar para sua própria fé
para cessar o pesadelo que a afligia. Nada daquilo era real, apenas reflexos de
um sonho perturbador compartilhado por ambos.
Esperava
que, ao mergulhar na leitura do livro sagrado, o tormento chegasse ao fim.
Acabaram adormecendo juntos, e na manhã seguinte, despertaram assustados com
batidas na porta. Era Mathias.
— A Caçada Selvagem! — disse Mathias, visivelmente assustado ao entrar na residência de Luna e Rafael, sem sequer desejar um bom dia. — Nunca foi tão violenta desde que eu era criança, há vinte anos! Minha mãe ficou apavorada; conseguíamos ver o sangue dos índios, ouvir suas lamentações. Parecia que tínhamos voltado no tempo. Algo está acontecendo no vilarejo, Rafael! Não conseguimos entender ao certo. Precisamos de proteção. Se a Caçada, que sempre foi uma lenda tranquila ouvida apenas em pequenos barulhos, está assim, imagine na noite de lua cheia? Imagina o que O Homem de Olhos Vermelhos será capaz de fazer?
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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