RAFAEL ACORDOU ÀS SEIS HORAS DA MANHÃ AO
ESCUTAR O CANTO DO GALO. Ainda era muito cedo, e ele não
estava acostumado com os barulhos que a floresta e os bichos faziam ao
amanhecer. Ele se levantou da cama, passando os olhos pelo quarto. A esposa já
não estava mais adormecida.
Com os pés ainda gelados, procurou os
chinelos Havaianas no piso de cimento queimado, encontrando-os próximos ao
guarda-roupa. Em seguida, foi em direção ao banheiro do quarto para escovar os
dentes. O banheiro da suíte precisava de alguns ajustes no acabamento da
cerâmica e de um box adequado para não espirrar tanta água por todo o cômodo.
Isso ele resolveria com o tempo, um dia de cada vez, ponderou.
O cheiro do café sendo coado invadiu cada
um dos cômodos da residência. Era uma casa bem simples, porém muito bem feita,
com telhas de fibrocimento onduladas. A casa tinha uma suíte principal e outros
dois quartos. A cozinha ficava próxima a uma varanda com rede e um fogão a
lenha, que dava vista para o restante da arborização do terreno, com plantações
de café e pés de biri-biri. No vizinho à esquerda, conseguia enxergar apenas o
canavial, e à direita, a floresta onde avistou o animal com olhos que soltavam
chamas.
A mesa do café da manhã era rica em
detalhes; parecia que Luna nem havia dormido para preparar o desjejum. Feita de
madeira, estava coberta por um pano branco que haviam ganhado como parte do
enxoval dos padrinhos. Sobre ela, uma garrafa de café e um suco de acerola,
colhida no quintal.
Luna tinha feito um bolo perfumado com
laranja e passas, além de colocar um prato com biscoitos de milho e amanteigados
de goiaba. Rafael não esperava aquele carinho logo de manhã. O barulho dos
pássaros contrastava com a imensidão do horizonte, no quadro perfeito do
primeiro dia juntos.
Rafael estava pronto para o trabalho,
vestindo uma blusa social e calça jeans, e planejava tomar café em alguma
lanchonete, até ser surpreendido pela esposa com essa demonstração de afeto.
— Nunca pensei que você estivesse
preparando essa surpresa. — Rafael cortou um pedaço do bolo, que estava um
pouco quente, colocando-o no pires enquanto Luna o servia com café e duas
colheres de leite em pó. Rafael gostava do café quentinho e adocicado como mel;
Luna preferia um sabor mais amargo. — Não te vi acordando, que horas você se
levantou?
— Era umas quatro da manhã. Eu estava um
pouco ansiosa e arrumei algumas coisinhas da casa, mas queria mesmo era testar
o café da manhã. Eu sempre fui filha única, e minha mãe não gostava muito que
eu mexesse na cozinha. Comecei fazendo o bolo e arrumando os biscoitos, e
quando percebi, já havia amanhecido e nem sei o que preparar para o almoço. —
Luna respondeu. Ela estava começando a sentir sentimentos por Rafael depois da
última noite; ele era carinhoso e vislumbrava um futuro.
— Não precisa se preocupar com o almoço,
Luna. Posso muito bem comer em um restaurante e pedir para te entregar uma
marmita. Se quiser, tire a manhã para descansar. Não precisa ficar se
preocupando com as coisas de casa. Eu sei muito bem que sonhas em terminar a
faculdade e talvez, um dia, entrar no mercado de trabalho. Pode fazer o que
quiser. — Rafael respondeu, segurando as mãos da esposa e aproximando-se para
um beijo doce, com sabor de seu café com leite. — Vamos fazer o impossível para
que nossa relação dê certo
O coração de Rafael se cortou ao meio quando teve que se despedir de Luna. Era o seu primeiro dia de trabalho e não poderia chegar atrasado. Estava curioso para conhecer Vale Verde e, principalmente, as pessoas que habitavam o vilarejo. Rafael deixou claro a Luna que a delegacia ficava a menos de dez minutos de caminhada e que poderia ir a qualquer momento, caso fosse necessário. Luna abraçou o marido com força, como se os dois estivessem começando a se tornar um só. Para Rafael, aquele gesto teve mais valor do que um beijo.
※※※※
Luna abriu
uma das caixas à procura de uma revista de novela. Esperava encontrar resumos
emocionantes de Suave Veneno, mas foi surpreendida ao deparar-se com uma edição
da Veja que discutia o temido Bug do Milênio. O artigo alertava sobre o caos
iminente causado pela falha tecnológica que poderia acompanhar a virada do
século. Muitas pessoas estavam vendendo seus pertences e deixando seus
empregos, antecipando o suposto fim do mundo devido a problemas nos sistemas de
computador, incapazes de lidar com a mudança de data para o ano 2000. Luna não
pôde deixar de rir da absurda crença de que o mundo acabaria por causa de um
erro de software.
Entretida nas palavras da matéria na
revista, sentada no estofado, Luna acabou entregando-se a um sono profundo,
envolta nos lençóis de algodão, sentindo uma brisa que a acalmava. O cochilo
não durou muito tempo, apenas o suficiente para repor a energia que havia
gastado pela manhã. Ao despertar, quase caiu do sofá ao sentir uma lambida úmida
nas mãos. O choque foi tão grande que mal acreditou no que estava vendo: um
cachorro vira-lata com um sorriso tímido no rosto, porém genuinamente
carinhoso. Ela não podia deixar aquele pequeno desamparado
— Como
podemos te chamar? — Luna levantou-se do sofá, dirigindo-se à cozinha para
colocar alguns restos de comida no prato, que estava sobre o fogão, para o seu
novo amiguinho comer. Ela pensava em alguns nomes para aquele cachorrinho de
tons amarelados, que mais parecia um caramelo. — Posso te chamar de Bob?
Ele
balançou o rabinho, demonstrando consentimento ao chamado de Luna.
Luna
almoçou pontualmente ao meio-dia, quando um rapaz, filho dos donos de um
restaurante, entregou-lhe uma marmita muito recheada com arroz, feijão, carne
de panela e salada. Ela não conseguiu comer tudo, colocando uma boa quantidade
em um pratinho para Bob.
Assim que
terminou o almoço, logo buscou em um livro de receitas o jantar para o marido,
que não poderia ser tão desastroso como o da última noite. Encontrou uma
receita de massa de lasanha; certamente Rafael iria amar, pois era um dos
pratos que a mãe dele costumava preparar aos domingos, típicos de descendentes
de italianos. Nada mais justo para inaugurar a nova casa. As horas passaram
rapidamente e a casa, antes bagunçada, começava a se alinhar: a cozinha estava
bem arrumada, a sala de estar cheirosa com desinfetante de eucalipto, e as
roupas no guarda-roupa estavam bem dobradas e organizadas. Quando percebeu, a
lasanha estava pronta e o marido brincava na sala de estar com o Bob.
— O que
achou daqui, Rafa? — Luna perguntou.
— As
pessoas parecem que vivem em outra época, é um típico vilarejo de interior. Eles
estão imersos em um universo muito folclórico, cheio de lendas e mistérios. No
bar onde entrei para fazer um lanche, o dono do lugar, o Sr. Chico, comentou
sobre a lua cheia que está chegando em 26 de agosto. Ele disse para tomarmos
cuidado e fecharmos bem as portas nas trancas de ferro, porque um ser de olhos
de fogo sai à meia-noite para atacar as pessoas. Disse também que precisamos
rezar muito durante os dias de lua cheia para evitar que algo ruim aconteça na
vila, para que esse ser não encontre nenhum hospedeiro. — Rafael deu uma
pequena gargalhada ao escutar o jornalista dando boa noite na TV. — Está vendo
por que nenhum delegado fica mais de dois meses aqui? É um pessoal bem
estranho, porém muito gentil. Gostei bastante do meu colega de trabalho, o
Mathias. Ele também mencionou algo sobre a próxima lua crescente, chamada por...
— É a lua de Caim, ela tem muito poder na terra, é considerada aquela que traz diversos estímulos e também pode ser atribuída à Caçada Selvagem. Que intensifica os poderes mágicos e que muitos desses seres são vistos pelos humanos comuns durante esse período. É apenas uma lenda, assim como muitas pessoas comentam que o lobisomem fica mais forte na lua crescente, mas você sabe, lobisomens não existem... — Luna fez uma breve pausa ao perceber que Rafael a observava como um aluno estudioso na primeira fileira. — Meu pai adoraria passar alguns dias aqui nesta cidade.
※※※※
Rafael ponderou o dia em silêncio enquanto a água morna escorria por suas costas, levando consigo a sujeira remanescente e a espuma de sabão diretamente para o ralo. Buscava na memória um pensamento de cunho religioso, recordando-se de quando lia a Bíblia na infância para o colégio dominical. Apesar de não ser católico, refletiu sobre a coincidência do Homem de Olhos Vermelhos ser uma lenda para alguns e uma realidade tão palpável para uma pessoa que subiu uma escada de madeira para consertar instalar uma antena. Nunca havia pisado em Vale Verde antes; seu conhecimento da região se limitava ao posto de gasolina onde seus pais abasteciam antes de seguir para Porto Seguro. Certamente aquele homem não poderia ser apenas fruto dos devaneios das pessoas; ele existia e se escondia em algum lugar naquela floresta. E se nada disso fosse uma lenda? E se tudo fosse verdade?
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

Copyright © 2026 - WebTV
www.redewtv.com





Comentários:
0 comentários: