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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 02

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 02: “E SE TUDO FOSSE VERDADE?”

RAFAEL ACORDOU ÀS SEIS HORAS DA MANHÃ AO ESCUTAR O CANTO DO GALO. Ainda era muito cedo, e ele não estava acostumado com os barulhos que a floresta e os bichos faziam ao amanhecer. Ele se levantou da cama, passando os olhos pelo quarto. A esposa já não estava mais adormecida.

Com os pés ainda gelados, procurou os chinelos Havaianas no piso de cimento queimado, encontrando-os próximos ao guarda-roupa. Em seguida, foi em direção ao banheiro do quarto para escovar os dentes. O banheiro da suíte precisava de alguns ajustes no acabamento da cerâmica e de um box adequado para não espirrar tanta água por todo o cômodo. Isso ele resolveria com o tempo, um dia de cada vez, ponderou.

O cheiro do café sendo coado invadiu cada um dos cômodos da residência. Era uma casa bem simples, porém muito bem feita, com telhas de fibrocimento onduladas. A casa tinha uma suíte principal e outros dois quartos. A cozinha ficava próxima a uma varanda com rede e um fogão a lenha, que dava vista para o restante da arborização do terreno, com plantações de café e pés de biri-biri. No vizinho à esquerda, conseguia enxergar apenas o canavial, e à direita, a floresta onde avistou o animal com olhos que soltavam chamas.

A mesa do café da manhã era rica em detalhes; parecia que Luna nem havia dormido para preparar o desjejum. Feita de madeira, estava coberta por um pano branco que haviam ganhado como parte do enxoval dos padrinhos. Sobre ela, uma garrafa de café e um suco de acerola, colhida no quintal.

Luna tinha feito um bolo perfumado com laranja e passas, além de colocar um prato com biscoitos de milho e amanteigados de goiaba. Rafael não esperava aquele carinho logo de manhã. O barulho dos pássaros contrastava com a imensidão do horizonte, no quadro perfeito do primeiro dia juntos.

Rafael estava pronto para o trabalho, vestindo uma blusa social e calça jeans, e planejava tomar café em alguma lanchonete, até ser surpreendido pela esposa com essa demonstração de afeto.

— Nunca pensei que você estivesse preparando essa surpresa. — Rafael cortou um pedaço do bolo, que estava um pouco quente, colocando-o no pires enquanto Luna o servia com café e duas colheres de leite em pó. Rafael gostava do café quentinho e adocicado como mel; Luna preferia um sabor mais amargo. — Não te vi acordando, que horas você se levantou?

— Era umas quatro da manhã. Eu estava um pouco ansiosa e arrumei algumas coisinhas da casa, mas queria mesmo era testar o café da manhã. Eu sempre fui filha única, e minha mãe não gostava muito que eu mexesse na cozinha. Comecei fazendo o bolo e arrumando os biscoitos, e quando percebi, já havia amanhecido e nem sei o que preparar para o almoço. — Luna respondeu. Ela estava começando a sentir sentimentos por Rafael depois da última noite; ele era carinhoso e vislumbrava um futuro.

— Não precisa se preocupar com o almoço, Luna. Posso muito bem comer em um restaurante e pedir para te entregar uma marmita. Se quiser, tire a manhã para descansar. Não precisa ficar se preocupando com as coisas de casa. Eu sei muito bem que sonhas em terminar a faculdade e talvez, um dia, entrar no mercado de trabalho. Pode fazer o que quiser. — Rafael respondeu, segurando as mãos da esposa e aproximando-se para um beijo doce, com sabor de seu café com leite. — Vamos fazer o impossível para que nossa relação dê certo

O coração de Rafael se cortou ao meio quando teve que se despedir de Luna. Era o seu primeiro dia de trabalho e não poderia chegar atrasado. Estava curioso para conhecer Vale Verde e, principalmente, as pessoas que habitavam o vilarejo. Rafael deixou claro a Luna que a delegacia ficava a menos de dez minutos de caminhada e que poderia ir a qualquer momento, caso fosse necessário. Luna abraçou o marido com força, como se os dois estivessem começando a se tornar um só. Para Rafael, aquele gesto teve mais valor do que um beijo. 

※※※※

Luna abriu uma das caixas à procura de uma revista de novela. Esperava encontrar resumos emocionantes de Suave Veneno, mas foi surpreendida ao deparar-se com uma edição da Veja que discutia o temido Bug do Milênio. O artigo alertava sobre o caos iminente causado pela falha tecnológica que poderia acompanhar a virada do século. Muitas pessoas estavam vendendo seus pertences e deixando seus empregos, antecipando o suposto fim do mundo devido a problemas nos sistemas de computador, incapazes de lidar com a mudança de data para o ano 2000. Luna não pôde deixar de rir da absurda crença de que o mundo acabaria por causa de um erro de software.

Entretida nas palavras da matéria na revista, sentada no estofado, Luna acabou entregando-se a um sono profundo, envolta nos lençóis de algodão, sentindo uma brisa que a acalmava. O cochilo não durou muito tempo, apenas o suficiente para repor a energia que havia gastado pela manhã. Ao despertar, quase caiu do sofá ao sentir uma lambida úmida nas mãos. O choque foi tão grande que mal acreditou no que estava vendo: um cachorro vira-lata com um sorriso tímido no rosto, porém genuinamente carinhoso. Ela não podia deixar aquele pequeno desamparado

— Como podemos te chamar? — Luna levantou-se do sofá, dirigindo-se à cozinha para colocar alguns restos de comida no prato, que estava sobre o fogão, para o seu novo amiguinho comer. Ela pensava em alguns nomes para aquele cachorrinho de tons amarelados, que mais parecia um caramelo. — Posso te chamar de Bob?

Ele balançou o rabinho, demonstrando consentimento ao chamado de Luna.

Luna almoçou pontualmente ao meio-dia, quando um rapaz, filho dos donos de um restaurante, entregou-lhe uma marmita muito recheada com arroz, feijão, carne de panela e salada. Ela não conseguiu comer tudo, colocando uma boa quantidade em um pratinho para Bob.

Assim que terminou o almoço, logo buscou em um livro de receitas o jantar para o marido, que não poderia ser tão desastroso como o da última noite. Encontrou uma receita de massa de lasanha; certamente Rafael iria amar, pois era um dos pratos que a mãe dele costumava preparar aos domingos, típicos de descendentes de italianos. Nada mais justo para inaugurar a nova casa. As horas passaram rapidamente e a casa, antes bagunçada, começava a se alinhar: a cozinha estava bem arrumada, a sala de estar cheirosa com desinfetante de eucalipto, e as roupas no guarda-roupa estavam bem dobradas e organizadas. Quando percebeu, a lasanha estava pronta e o marido brincava na sala de estar com o Bob.

— O que achou daqui, Rafa? — Luna perguntou.

— As pessoas parecem que vivem em outra época, é um típico vilarejo de interior. Eles estão imersos em um universo muito folclórico, cheio de lendas e mistérios. No bar onde entrei para fazer um lanche, o dono do lugar, o Sr. Chico, comentou sobre a lua cheia que está chegando em 26 de agosto. Ele disse para tomarmos cuidado e fecharmos bem as portas nas trancas de ferro, porque um ser de olhos de fogo sai à meia-noite para atacar as pessoas. Disse também que precisamos rezar muito durante os dias de lua cheia para evitar que algo ruim aconteça na vila, para que esse ser não encontre nenhum hospedeiro. — Rafael deu uma pequena gargalhada ao escutar o jornalista dando boa noite na TV. — Está vendo por que nenhum delegado fica mais de dois meses aqui? É um pessoal bem estranho, porém muito gentil. Gostei bastante do meu colega de trabalho, o Mathias. Ele também mencionou algo sobre a próxima lua crescente, chamada por...

— É a lua de Caim, ela tem muito poder na terra, é considerada aquela que traz diversos estímulos e também pode ser atribuída à Caçada Selvagem. Que intensifica os poderes mágicos e que muitos desses seres são vistos pelos humanos comuns durante esse período. É apenas uma lenda, assim como muitas pessoas comentam que o lobisomem fica mais forte na lua crescente, mas você sabe, lobisomens não existem... — Luna fez uma breve pausa ao perceber que Rafael a observava como um aluno estudioso na primeira fileira. — Meu pai adoraria passar alguns dias aqui nesta cidade. 

※※※※

Rafael ponderou o dia em silêncio enquanto a água morna escorria por suas costas, levando consigo a sujeira remanescente e a espuma de sabão diretamente para o ralo. Buscava na memória um pensamento de cunho religioso, recordando-se de quando lia a Bíblia na infância para o colégio dominical. Apesar de não ser católico, refletiu sobre a coincidência do Homem de Olhos Vermelhos ser uma lenda para alguns e uma realidade tão palpável para uma pessoa que subiu uma escada de madeira para consertar instalar uma antena. Nunca havia pisado em Vale Verde antes; seu conhecimento da região se limitava ao posto de gasolina onde seus pais abasteciam antes de seguir para Porto Seguro. Certamente aquele homem não poderia ser apenas fruto dos devaneios das pessoas; ele existia e se escondia em algum lugar naquela floresta. E se nada disso fosse uma lenda? E se tudo fosse verdade?

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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