LUNA SEGURAVA NAS MÃOS A BOLA DE CRISTAL
DO SISTEMA SOLAR. Era apaixonada por planetas. Assim que
aprendeu a ler, seu pai fez questão de lhe dar um pequeno livro que explicava a
origem de cada um deles e seus significados. Passava horas a fio, deitada na
grama, tentando adivinhar o que se passava em Apolo. Suas noites ao lado do
pai, assistindo documentários na TV a cabo com um copo de suco de cacau e
pipoca, eram algumas das suas principais lembranças da infância.
Ela balançou a bola de cristal diversas
vezes, como se tentasse fazer um pedido às estrelas dentro do pequeno objeto.
Luna lembrou-se de quando ganhou aquele presente do pai, conhecido por muitos
em Teixeira de Freitas como senhor Cássio ou apenas papai Cássio. Sempre que
ela chamava o pai dessa forma, sua mãe, Odete, olhava para a filha com desdém.
Odete era uma mulher de poucas palavras, e as que saíam da sua boca machucavam
o coração da filha. Luna nunca soube o motivo da mãe ser azeda em sua presença,
um arbusto cercado de espinhos, como o próprio sobrenome, Azevedo.
Luna sonhava em cursar astrologia. A
primeira pessoa da família a formar-se na faculdade, e seria logo em
astrologia, uma paixão passada de pai para filha. No entanto, Odete sempre foi
contra. Ela queria que a filha fizesse pedagogia e fosse professora, uma
carreira que muitos em Medeiros Neto chamavam de "faculdade para catar
marido". Ironicamente, esse era o desejo de Odete: que a filha conseguisse
logo um marido para sair de casa. E assim aconteceu. Luna conheceu Rafael no
campus da faculdade. Ela estava no segundo semestre de pedagogia, enquanto
Rafael estava no quinto semestre de direito. Luna não sabia se existia química,
ela apenas gostou de Rafael. Mas ele, ele estava completamente apaixonado por
Luna.
A princípio, seu pai não gostou da ideia
do casamento. Cássio queria que a filha primeiro se formasse, encontrasse um
bom trabalho e fosse independente financeiramente antes de se entregar a uma
relação. Ele sabia que Luna estava se deixando levar ao altar apenas para sair
de casa e se tornar uma mulher livre.
O casamento aconteceu depois que Rafael
finalizou a faculdade. Foi uma cerimônia simples, apenas para amigos e
familiares, no dia 16 de abril de 1999, o primeiro dia da lua nova. A lua que
desperta paixões nas pessoas, a lua favorita de Luna.
O casamento aconteceu ao ar livre. As folhas
secas caíam das árvores, deixando o ambiente ainda mais vívido. A noiva
caminhava pelo jardim ao lado do pai, com um sorriso realçado pela maquiagem,
observando suas melhores amigas de infância. Luna foi uma das últimas a se
casar. Pela primeira vez, quando disse "sim", olhando nos olhos
castanhos de Rafael, Luna conseguiu ver Odete, sentada na primeira fileira,
esboçar um sorriso imaculado – um sorriso de liberdade.
— Hoje foi o nosso último café da manhã
juntos. — disse Cássio divisando a decoração do quarto ser desfeitas, para
serem embaladas em algumas caixas e colocadas no caminhão. — Nunca pensei que
ficaríamos tão longes um do outro, a mais de cento e setenta quilômetros, minha
pequena Luna. Eu sempre fui bom em formar palavras, porém, nunca pensei quais
seriam as palavras ideias para a nossa despedida. Minha filha, você sempre foi
o meu maior presente.
Os homens da transportadora passavam quase
invisíveis recolhendo as caixas do chão, não atrapalhando a conversa de Cássio
e Luna. Cássio mantinha um sorriso no rosto, o mais limpo de todas as manhãs.
Luna sempre gostou de ser acordada pelo pai, sempre a deixava motivada para
qualquer obstáculo.
— Eu vou sentir muita falta do senhor...
Muita falta mesmo pai. — Luna passou as mãos nos olhos, numa tentativa de
conter as lágrimas, fracassando. — O Rafael conseguiu o seu primeiro empego
como delegado em um vilarejo, isso será tão bom para o currículo e com o
dinheiro que conseguiu do pai, comprou uma pequena fazenda, para moramos
juntos. Lá, iremos conseguir dar um ponto de partida na nossa história. E o
senhor, sempre será bem-vindo na nossa casa, sempre, sempre!
Luna guardou a bola de cristal na mochila
e a colocou nas costas. Saiu do cômodo, mas não sem antes dar um sorriso para o
pai. Ao passar pelos corredores, apenas deu uma bênção para a mãe, que
prontamente respondeu com um seco: "Deus te abençoe, Luna." Com
Odete, não houve muitas palavras, nem um adeus ou um "até breve".
Odete, com um sorriso embalado, parecia estar se livrando de um peso morto.
Luna passou pelas grades do portão, onde o
marido a aguardava à frente do carro e o caminhão dava partida para iniciar o
trajeto. Rafael era um cavalheiro, tirando a mochila das costas dela e abrindo
a porta do carro para que pudesse sentar ao seu lado. Logo em seguida, ele se
posicionou ao volante, em poucas horas, iriam conhecer o vilarejo de Vale
Verde.
— Seremos muito felizes nesse lugar, Luna.
É o começo de uma nova vida.
Rafael percorreu as ruas
da cidade até alcançar a avenida principal, que o levou à BR, seguindo em
direção à Costa do Descobrimento. Ele havia estudado muito para passar naquele
concurso e conseguiu o primeiro lugar para se tornar delegado do vilarejo. Vale
Verde tinha um histórico de rotatividade entre delegados; alguns não duravam
mais que dois meses. Para Rafael, era um sonho viver próximo à natureza, onde
podia cultivar seu próprio alimento. A fazenda que ele adquiriu foi comprada
por um valor ligeiramente abaixo do mercado.
— Você quer ouvir alguma música? —
perguntou Rafael.
— Claro, podemos escultar alguma coisa.
A música que tocou no rádio foi "The
Boy Is Mine" de Brandy & Monica, como se fosse a trilha sonora de uma
novela das seis.
— Sabe, desde a nossa lua de mel, não
conversamos muito. Sei que passei muitos meses estudando e você estava
resolvendo as questões da sua faculdade. Eu sempre soube que isso era uma coisa
nova para você. Não tive a oportunidade de perguntar, mas queria saber se em
algum momento, você se sentiu desconfortável comigo, na mesma cama, se eu te
machuquei de alguma maneira. — Rafael falou, enquanto Luna apenas encarava as
arvores pelo espelho do retrovisor.
— Foi tudo perfeito, Rafael. Não precisa
se preocupar com nada. — Luna respondeu, escondendo seus sentimentos.
— Eu sei que você ainda não me ama.
Gostaria de entender o motivo de você ter se casado comigo, sendo uma mulher
tão inteligente. Você nunca precisaria estar na sombra de nenhum homem. Eu
queria que soubesse que eu te amo e que quero construir uma família com você,
quero passar a vida inteira ao seu lado. Você é a minha lua, Luna.
Depois de algumas horas em silêncio, o
carro finalmente chegou ao vilarejo, cortando caminho pela rua principal em
direção à fazenda. O pessoal da transportadora havia colocado todas as caixas
na sala de estar, algumas delas ocupando até a cozinha. Teriam muito trabalho
para colocar tudo no lugar, mas o ambiente em si estava muito limpo. Luna logo
começou a arrumar o quarto, fazendo a cama e colocando os lençóis para que
pudessem dormir confortavelmente. A noite estava quase chegando e Rafael
desembalou a TV para assistir à final do campeonato baiano, que seria
transmitida pela Globo.
— Luna, vou subir no telhado para montar a
antena. Se a TV fizer algum barulho, não se assuste. — Rafael disse, pegando
uma escada guardada atrás da casa e posicionando-a ao lado para instalar a
antena. Com algumas dificuldades, ele subiu os degraus, conectando alguns cabos
na espinha de peixe que começou a chiar no aparelho da sala de estar. No
entanto, ainda não conseguia encontrar a programação do canal 11 da VHF. A
escuridão começava a tomar conta do céu de maneira abrupta, e Rafael sentiu um
arrepio percorrer suas costas. Finalmente, encontrou o sinal da Globo, ouvindo
a voz do apresentador na TV. A poucos metros na mata, ele viu uma figura
embaçada, cujo rosto não conseguia distinguir, apenas seus olhos vermelhos. Um
medo profundo o dominou e fez com que caísse da escada.
A queda não significou muito para Rafael,
acostumado com práticas de escalada, ele tentou descartar a imagem como fruto
de sua imaginação. Ninguém tinha olhos vermelhos como fogo. A fome começou a se
espalhar em seu estômago e logo ele estava sentado à mesa, ao lado da esposa,
desfrutando de um excelente macarrão à carbonara.
— Você gostou do macarrão sem temperos? —
questionou Luna com um sorriso.
— Como dizem, o maior tempero é a fome.
— São tantas caixas que consegui encontrar
apenas a panela, carne moída congelada e dois dentes de alho.
— Está muito saboroso, Luna.
— Eu vou tentar aprender a cozinhar
melhor. Comprei até um livro da Ana Maria Braga com várias receitas. Logo, logo
serei uma grande profissional.
Rafael fechou todas as janelas da casa,
escutando apenas o canto da coruja. O final do campeonato havia sido
interessante, mas a vontade de se deitar ao lado da amada, o fez correr para os
cobertores, sentindo o cheiro que exalava da pele de Luna, era amêndoas, que o
lembrava chocolate, ele passou suas mãos pelo pescoço da dama, que se curvou em
direção do seu corpo. Luna não disse muitas palavras, retribuindo o beijo do
Rafael, antes de se entregar para uma noite calorosa, a primeira de muitas
vezes, que estaria naquela casa, sentindo o corpo do marido.
※※※※
Um barulho fez Rafael despertar às três
horas da manhã, depois de um incrível sonho onde formava uma grande família
naquela fazenda ao lado de Luna, era sua ilusão mais linda que estava prestes a
se tornar realidade. Ele pensou em pegar a arma guardada na mochila para
verificar, logo o aguaceiro tornou a cair e seus pensamentos retornaram ao Homem
De Olhos Vermelhos.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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