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Antologia Contos Contemporâneos da Violência Urbana: 6x04

Conto de Bruno Machado Carvalho
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Sinopse: Um homem mata alguém. Além do medo de ser descoberto, começa a desenvolver arrependimento. E agora ele tenta se convencer de que foi moralmente justificado.

6x04 - Perdoar e Esquecer
de Bruno Machado Carvalho

Primeiro você pensa que nunca poderia matar alguém. Matar é uma palavra gatilho. Se eu disser que matei alguém, uma reação de repulsa surgirá no rosto do meu interlocutor. Até que se pondera melhor, exemplos são trazidos. Autodefesa? Sim, eu mataria se alguém estivesse ameaçando a minha vida, a de algum familiar meu ou de um amigo. E a linha que parecia tão distante, de repente, na verdade se encontra diante de meus olhos. Determinamos que tal ação é possível em certos casos. Basta agora estabelecer em quais casos.

Limpo as digitais. Jogo a arma em um rio distante. Saio da cidade. Nunca usei meu carro, só viajei de ônibus. Dei um nome falso para o hotel. Nenhum vizinho me viu entrando ou saindo da casa. Um amigo estava por dentro do plano. Ele está disposto a me dar um álibi. Caso perguntem. Não acho que ninguém vá perguntar. Devem levar um certo tempo. Alguns dias, talvez. Para descobrir o corpo. Eu devo escapar. Provavelmente escaparei.

Provavelmente, tem relação com nossa moralidade. Todos temos um conjunto de regras. Coisas que consideramos certo e errado. Mesmo que nunca tenhamos realmente pensado a respeito. É geralmente como agimos. Por puro instinto. A pessoa ouvindo não pensa logicamente. Ela não estabelece premissas para se chegar a uma conclusão. Não consideramos nada disso, não de verdade. Só sentimos um enorme desconforto por sugestões polêmicas. Uma reação visceral, um nojo. O instinto nos diz que é errado. Logo, achamos que é errado. Às vezes o instinto está certo. Na maioria das vezes, provavelmente. Mas existem as exceções.

Era o aniversário de minha sobrinha. Foi essa a desculpa que tínhamos a oferecer para o porquê de eu a visitar. Não é a melhor das desculpas, considerando nosso histórico. Este é o seu sétimo aniversário. E o primeiro que eu vou. Minha irmã e eu não nos dávamos muito bem. Não tínhamos muita coisa em comum. Mas quando a polícia contou o que havia acontecido com nosso pai, finalmente concordamos com o que deveria acontecer. Não de primeira, mas eventualmente. Espero os convidados irem embora. Quando todo mundo parte, enquanto lavamos os pratos, falo sobre como tudo ocorreu.

Também existe a pressão pública. Moldando a moralidade. Você está numa mesa com dez pessoas. Começam a falar sobre Esquerda x Direita. Israel x Palestina. Aborto é errado ou não. A maioria não consulta a própria moralidade. Eles só pensam: Que resposta eu posso dar que vai gerar o menor número de críticas desta mesa? Numa mesa cheia de pessoas inseguras, nove homens querendo provar que são machos de verdade, a décima pessoa geralmente diria que mataria alguém simplesmente por mexer com sua esposa. Seja lá o que “mexer” significa neste contexto. Porque é isso que homens de verdade fazem, de acordo com a mesa deste exemplo. E a moral muda, de acordo com quem está na mesa com você. É mais comum do que podem imaginar.

— Ele morreu?

— Sim.

— Bom. Ele sofreu?

— Sim.

— Bom.

A ideia foi dela. Sem nenhuma hesitação. Titubeei. Sempre hesitante. Ela me insultou. Me chamou de fraco. Aquilo me afetou mais do que gostaria de admitir. Mudei de ideia. Aceitei o plano. O tom de voz dela mudou. Havia agora um calor que não existia antes, mesmo quando éramos adolescentes vivendo no mesmo teto. Gostei daquilo mais do que gostaria de admitir. 

— Você está fazendo a coisa certa — Ela me disse. Concordei, sempre hesitante. 

É difícil definir o que é uma pessoa boa. Talvez alguém que nunca cometeu o menor dos crimes. Nunca recebeu uma multa. Nunca tratou mal ninguém. Nunca furou uma mísera fila. Se assim for, meu pai se qualifica como uma pessoa boa. Às vezes até para o seu detrimento. Sempre tinha alguém que se aproveitava de sua boa vontade. Ninguém teve um momento sequer de sua vida piorado por causa de sua presença. Pelo contrário. Eu e minha irmã devemos muito a ele. Não o amamos somente porque é o nosso pai. Não é uma questão biológica. O amamos por quem ele é. Quem ele era. Foi brutalmente assassinado dois meses atrás. Uma boa pessoa foi brutalmente assassinada. Isto está certo?

Tentou me ensinar a ser uma boa pessoa. A ser um bom homem. O que ele pensa ser um bom homem. Ele não concordaria com o que eu e minha irmã fizemos.

Existem regras. Contratos sociais. Não tem problema se divertir. Não tem problema em fazer uma festa, se é assim que você quer passar o dia. Desde que o barulho não atrapalhe o vizinho. Desde que você não atrapalhe o dia dele. Eu não te incomodo e você não me incomoda. Eu não roubo seus pertences e você não rouba meus pertences. Você não mata o meu pai e eu não mato você. 

Eu já apanhei na escola. Bastante. Sempre fui baixinho. Magricelo. Quando uma briga acontece na escola, todos fazem um círculo. Todos assistem. Todos filmam. E todos exaltam o vencedor e riem do perdedor. É assim que as coisas funcionam. Era tão frustrante. Todos pensavam tão pouco de mim. Todos adoravam me humilhar. Eu queria matar todos! Suspensão não me interessava. Nem expulsão. Mesmo machucá-los não me satisfaria. Eu queria matá-los! Um adolescente. Eu não era nada além de raiva e ressentimento. Meu pai brigou pela expulsão deles, obviamente. Me levou para algumas aulas de luta para que eu aprendesse a me defender. Mas sempre deixou claro que não era pra eu atacar ninguém. Brigar não resolve nada, ele dizia. Só escala as coisas. Ter paciência. Perdoar e esquecer. Seguir em frente. Coisas que eu talvez não seja capaz de fazer. Coisas que eu não sei se são certas. Eu apanhei sem ter feito nada. Apenas cometi o crime de ser fisicamente inferior a alguém. Meu pai se encontrou com a pessoa errada na hora errada. Deixar estas pessoas impunes não pode ser a coisa certa a se fazer. Não pode ser moralmente a resposta correta. Não é o que é justo. Não quero acreditar. 

Minha irmã pergunta sobre o que fiz para ocultar minha identidade. Conto os detalhes. Pergunta se eu tenho certeza toda vez que termino uma frase. Me trata como um idiota. Quero responder. Mas isso só a irritaria. Falo tudo o que aconteceu. Ela suspira aliviada. Dá uma tapinha nas minhas costas. Diz que eu fiz um bom trabalho. 

Às vezes eu penso o que eu faria. Se os caras que bateram em mim várias vezes quando adolescentes aparecessem na minha frente. Adultos. Falando que estavam me procurando há um bom tempo. Falando que queriam pedir desculpas. Se eles fizessem um discurso sobre como estavam errados e queriam o meu perdão. Às vezes eu pensaria o que eu faria se eles fizessem isso. E eu tivesse uma arma em mãos. Mesmo que pudesse absolvê-los…. Perdoar não é esquecer. Resolver tudo porque você me disse algumas palavras. Não pode ser tão simples assim.  

Eu fiz a coisa certa.

Porém, se eu fiz a coisa certa, porque estou repensando tanto? Como se eu estivesse tentando me convencer de algo?

Literalmente, a consequência de meus atos não deve vir. Não creio que ninguém virá trazendo justiça ou retaliação. Vou ficar olhando para a janela a minha vida inteira. Talvez ninguém venha. Pela expressão de minha irmã, acho que ela dormirá como um bebe a vida inteira.

Pessoalmente… Não sei. Não estou satisfeito como achei que estaria. Nenhuma felicidade veio. Eu o fiz sofrer bastante. Não sei se conseguirei dormir nos próximos dias. 

Moralmente…

Meu Deus!

Acho que fiz a coisa errada. Eu talvez tenha cruzado a linha. 

Acho que não conseguirei me perdoar. Acho que não conseguirei esquecer. 


Conto escrito por
Bruno Machado Carvalho

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima Gisela Peçanha Paulo Mendes Guerreiro Filho Pedro Panhoca Rossidê Rodrigues Machado Telma Marya

Produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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