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Antologia Contos Contemporâneos da Violência Urbana: 6x03

Conto de France Gripp
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Sinopse: Uma mulher jovem se envolve com um homem muito atraente que a seduz, mas se revela psicótico e criminoso, que a maltrata, mantém em cárcere privado e tenta matá-la.

6x03 - O Barba Azul também pedala bicicletas
de France Gripp

Conheci Heitor em Nova Lima há dez anos. Ele morava no mesmo condomínio de mansões em que vivia uma cliente que se tornou grande amiga. 

Eu tinha acabado de me formar em Publicidade e Propaganda. Precisava muito de trabalho para pagar minhas despesas, inclusive as de moradia, que dividia com mais duas colegas. Por isso tinha me tornado frila, disposta a atuar em qualquer área de comunicação. Não queria voltar a incomodar meus pais em Curvelo com pedidos de dinheiro.

Um dia me indicaram uma pessoa que estava produzindo vídeos no Instagram e precisava de suporte para os conteúdos. Era Mirna, que começava carreira como influenciadora digital, uma novidade na época. A gente se encontrou num café para conversar e nos entendemos rapidamente. Não sei se foi pela semelhança das idades, o sorriso fácil dela, ou ainda o gosto por ousadias, que percebi como semelhante ao meu. Tornamo-nos amigas.

Mirna morava em uma bela mansão com os pais, em um condomínio fechado em Nova Lima, onde tinha à disposição a atmosfera deliciosa de jardins com plantas ornamentais, muitas flores e se podia ouvir o piar dos passarinhos e o rumor do bater de asas nas árvores lindas. O sol e o ar fresco livre e à vontade me fizeram crer que o lugar era perfeito para qualquer inspiração criativa.

Conheci a casa dela em certo sábado, quando estive lá para trabalharmos juntas. O dia passou e, ao anoitecer, caiu uma chuva intensa e persistente. Ela me convenceu a pernoitar. Passamos quase essa noite toda conversando e bebendo vinho. 

Era cedo quando me levantei, muito antes dela. Eu não dormira nada bem. Lembro-me, perfeitamente, que, nessa noite, havia sonhado com um local ermo e sombrio, onde transitavam vultos pegajosos e ameaçadores. Uma pesada sensação de angústia me invadiu logo ao acordar, coisa que não era de me acontecer. Saí da casa de Mirna e fui caminhar pela vizinhança. 

Ainda hoje acredito que uma espécie de força me impulsionou para que fosse ao encontro do homem que me faria sofrer como nunca imaginei possível. Tudo isso só pude analisar alguns anos depois. 

Na manhã úmida daquele dia marcante, meus olhos brilharam quando me deparei com a figura de um homem que atravessava os portões da mansão onde morava; muito maior que a dos pais de Mirna, muito mais rica, fato que soube depois. Alto, moreno claro, cabelo espesso e todo preto, ele usava a barba cerrada e os muitos fios brancos faziam nela um contraste, dando um tom azulado à massa de pelos do rosto.

Ele estava saindo para pedalar. E eu o fiz parar assim subitamente, para conversar sobre qualquer coisa que um de nós dois pudesse dizer, para poder olhá-lo melhor, para escutar o som de sua voz, para investigar seus lábios e dentes. O corpo era esguio e forte, as coxas saltavam grossas do short, e eram peludas as pernas como o rosto e os braços. Era perfeito para anunciar qualquer produto na publicidade. As mãos, pude reparar quando as ergueu para pôr o capacete; eram muito maiores que as minhas, eram poderosas. Naquele momento, desejei que essas mãos depressa amansassem o meio das minhas pernas. 

Depois, o poder das mãos desse homem se tornaria meu pavor. Hoje, acredito que uma parte de algo que nos causará um grande mal pode sair furtivamente de dentro de nós mesmos, como um fiozinho que vai em frente até encontrar a força predadora que vem se desenrolando com fúria, em nossa direção.

Não demorou para que eu achasse meios para entregar-me àquele homem de barba azulada. A sedução foi mútua. Ele capturou minha atenção, com conversas que me pareceram inteligentes e agradáveis, e levou-me a restaurantes caros no condomínio. A mansão em que vivia sozinho, logo tornou-se meu lazer de finais de semana e, aos poucos, morada temporária. Nunca me falou dos seus, nem de mulheres; também não me interessei em saber. 

Fazíamos sexo por horas, e com ele aprendi a ausência de limites para o prazer, nus pela casa e deitados nos matos. Meu escândalo ali se iniciou; arranhada por gravetos, picada por formigas, e sem acreditar no sorriso que ele exibia.

Logo o trajeto até o centro de Belo Horizonte, onde eu tinha a maior parte dos trabalhos, começou a ficar inconveniente. Para quê ir até o escritório das empresas, se eu podia atender clientes ali mesmo, repousada em um ninho de alto luxo? Vivendo esse estranho bem-estar, ainda não imaginava que, um dia, ele me mostraria a ausência de limites para provocar a dor. 

Comecei a dispensar trabalhos para não me afastar dele, e também porque ele assumira, com insistência, todas as minhas despesas. Afinal, era como se estivéssemos casados, afirmava. Até então, eu acreditava que Heitor era oficial de justiça, profissão que lhe dava mobilidade e privilégios.

Mirna foi a única cliente de comunicação que mantive nessa ocasião, mesmo porque, como vizinhas, era muito fácil nos vermos a fim de produzir os vídeos; além disso, nossa amizade tinha se fortalecido, e necessitávamos conversar uma com a outra.

Um dia, ele me contratou com exclusividade para uma extensa prestação de serviços, e me disse que deveria fazê-lo em casa. Casa que eu deveria considerar minha, pois me amava e queria-me por perto vinte e quatro horas; fiquei encantada. 

Deu-me assuntos e temas a pesquisar na internet, afirmando que, no momento adequado, eu seria informada a respeito do que fazer com esse material. Era necessário sigilo absoluto, ele me advertira também.

Assim, abandonei os trabalhos de frila, e mesmo parei de atender minha amiga Mirna, que ficou desapontada. Mudei-me para a gigantesca casa desse homem que mantinha três empregados que entravam e saíam para atender suas ordens. Me sentia no alto de uma espécie de pedestal. Sem perceber, também me colocava à disposição, e sob seu domínio. 

Isso ficou explícito no dia em que ele dispensou Mirna pelo interfone da portaria. Asperamente, disse-lhe que eu estava ocupada e não poderia ser incomodada. Fiquei abismada, protestei, mas não houve argumentos para que ele refizesse sua atitude. Heitor não se desculpou nem voltou atrás. A partir dessa hora, o comportamento dele se alterou em definitivo. 

E de repente, eu percebi: a cama dele era pequena para mim; o quarto dele era pequeno para mim, as salas dele eram pequenas para mim; as varandas dele eram pequenas para mim; os jardins dele eram pequenos para mim; a mansão dele era pequena para mim; todo ele era pequeno demais para mim; eu não cabia naquela vida.

Mas Heitor passou a manter trancadas todas as portas externas, e guardou as chaves fora de meu alcance. Vi-me apanhada na rede de um animal feroz e maior que eu; me senti mal, perdida. As agressões físicas começaram em seguida, marcadas por pausas em que ele me fazia crer que se arrependia, acariciando meu dorso, alisando meu cabelo, e dizendo palavrinhas doces em meus ouvidos. Mandava vir comida e insistia que eu abrisse a boca para que ele me alimentasse, beijando-me seguidamente.

Então, me convocava para o sexo e, se eu tentasse rejeitar, desmanchava a postura de conciliação e bondades, e me subjugava no chão com as mesmas mãos fortes que tinham me provocado prazer há pouco mais de um mês. Tentei fugir várias vezes, mas, não encontrava as chaves; não conseguia escalar e saltar os muros, e descobri que ele tinha desligado telefones e internet. 

Na verdade, estava sozinha com o homem Barba Azul e seus demônios. A meus gritos de dor e desespero, ele respondia com bofetadas e xingamentos.

Depois de me bater, subia em mim o tanto e como queria. Em uma das sessões de estupro, vi o vulto de um empregado dele a se esgueirar rente ao janelão do quarto. O Barba Azul também viu a presença clandestina; não se importou com isso, continuou.

Às vezes, ele me obrigava a ajudá-lo a lustrar com veneração, a coleção de armas herdadas do pai militar. Em seguida, escolhia uma delas e saía para os jardins para se divertir, atirando em pequenos animais. Aquele que, por acaso, sobrevivesse, ele massacrava no solo bem devagar, com a ponta do revólver. Depois ficava batendo uma vara no chão e dava risadinhas. Eu tremia de pavor. 

Não era pesadelo o que eu vivia, era um inferno real. Não havia mais mistérios: o projeto de pesquisa era uma mentira para prender-me ali; e o emprego no tribunal de justiça também não existia. O homem inteligente e interessante era falso; era feito somente de avessos, como arame farpado.

Ao Barba Azul era permitido ficar em casa por dias e até meses, sem incomodar-se com trabalho ou com dinheiro. Do cofre vinham as notas, que ele entregava a um ou outro empregado, para que lhe trouxessem vinhos e queijos e o mais. Naquele tormento, eu chorava continuamente e, quanto mais chorava, mais, e com mais força as enormes mãos dele caíam sobre mim. Passou a negar-me alimentos, e a regrar o acesso à água. Já fazia quase três meses do meu encarceramento privado. 

Às vezes, esse homem monstruoso desaparecia, provocando-me a ilusão e a esperança de que tivesse desistido de mim. Prostrada no quarto de dormir, eu podia levar até dois dias para descobrir que estava só. Quando a sede e a fome me incomodavam, eu me levantava, receosa de encontrá-lo. Encontrando a casa vazia, percorria todos os cômodos em busca de saídas. Foi aí que descobri um quarto com portas e janelas muito bem trancadas, com acesso externo para o pomar. Na verdade, eu nunca estaria sozinha. Dois empregados sempre estavam vigilantes do lado de fora, armados. 

De vez em quando uma mulher aparecia para limpar a casa e cozinhar. Ela tinha olhos baixos e cara fechada; mas não me pareceu má, não sei por quê. Entrava e saía dos cômodos sem ruídos, e parecia conhecer o patrão nos mínimos detalhes. Será que saberia também da violência extrema que acontecia comigo? Com certeza, eu não era a primeira. 

Quando ela estava na casa, o homem Barba Azul era capaz de vestir-se com roupas esportivas e sair para o passeio de bicicleta; exatamente igual a qualquer ciclista.

Um dia, arrisquei-me a falar com a doméstica, aproveitando a saída dele para pedalar. Chorando, relatei as surras e abusos que sofria, e pedi-lhe, supliquei-lhe, que me desse as chaves do portão; que me ajudasse a fugir; que minha família estava aflita com meu desaparecimento. Ela nada respondeu, mal olhou-me, embora as marcas e hematomas no meu rosto e no corpo estivessem bem visíveis. 

Escrevi então, em um papel, o nome de minha mãe e seu telefone; implorei que buscasse ajuda para mim de qualquer modo, com qualquer pessoa; que fosse à polícia porque, afinal, eu temia morrer a qualquer momento. De repente, ela pareceu prestar atenção. 

Fixou o olhar sério em mim, depois desviou-o para o jardim, ao mesmo tempo em que balançava de leve a cabeça. Me fez sentir que eu estava relatando o mau comportamento, muitas vezes repetido, de uma criança levada. Porém, ao ouvir a palavra polícia, ela se fechou, recuou e saiu. Encolhi-me no chão, a um canto; estava exausta. 

E então, por algum motivo, ele me deixou em paz durante dois dias. No terceiro dia, novamente saiu cedo com sua bicicleta. E aconteceu o inesperado maravilhoso. Depois de mais ou menos duas horas da saída dele, ouvi gritos do lado de fora do portão da entrada, que era distante da casa. 

As vozes se altearam e, de repente, um estrondo forte anunciou que o portão estava sendo aberto à força. Era a polícia que tinha abordado o homem da barba azul na volta de seu passeio de ciclista. Eu o vi entrar algemado, mas com o semblante impassível. Com um mandado na mão, os policiais começaram as buscas de indícios dos crimes, além de ouvirem meu depoimento.

Mirna estava com os policiais e tinha um sorriso vitorioso e feliz! Muito preocupada comigo, ela tinha feito queixa de meu desaparecimento, me procurado na antiga empresa, procurado em casa de outros amigos e junto a meus pais; ninguém tinha notícias minhas, o que aumentou muito a apreensão de todos.

Minha amiga, então, fez o que melhor sabia naqueles dias – foi para a internet e expôs a situação, apelando a todos por pistas do meu paradeiro, prometendo recompensas por informações, mas nenhuma resposta houve. O alarde, porém, serviu para despertar suspeitas entre as pessoas que circulavam naquele condomínio de luxo. Minha presença ali, de algum modo, tinha sido notada.

E um fato novo veio chamar a atenção de minha amiga e de outros. Uma mulher tinha deixado uma blusa de seda nas mãos da cozinheira da casa de Mirna, afirmando que tinha sido esquecida na casa de Heitor.

Mirna, então, entendeu imediatamente a mensagem! A blusa era minha e, por coincidência, tinha sido um presente dela! Desse modo, estava comprovada minha presença naquele local de cativeiro. À polícia cabia prender o predador criminoso. 

Uma vez conduzido do portão até o interior da casa, a reação do Barba Azul foi surpreendente. Mesmo de costas, conseguiu apanhar uma pequena arma que estava em um jarro na sala, e atirou a esmo nos policiais. Os policiais revidaram, e Heitor morreu na hora, atingido por uma bala no meio da testa. 

Soubemos depois que a principal renda desse Barba Azul era proveniente do tráfico de drogas e mesmo de armas, atuações mascaradas por empresas de seguros, investimentos, imóveis, qualquer atividade que se prestasse a ocultar ilegalidades e crimes. O Barba Azul, no entanto, tinha comportamento social sempre discreto e mais recluso; era um inocente ciclista.

A mansão tinha sido comprada da viúva de um negociante falido, a preço irrisório. Essa esposa nunca concordou com o suposto suicídio do marido. No desenrolar das investigações, a polícia encontrou dois esqueletos femininos no pomar. Quem os teria enterrado ali? 

Com certeza, o mundo ficou um pouco melhor sem esse homem. 


Conto escrito por
France Gripp

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima Gisela Peçanha Paulo Mendes Guerreiro Filho Pedro Panhoca Rossidê Rodrigues Machado Telma Marya

Produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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