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Passos da Paixão - Capítulo 26

Novela de Édy Dutra
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PASSOS DA PAIXÃO - CAPÍTULO 26

 
 
 
 
 
NO CAPÍTULO ANTERIOR:
 

JÚLIO: - Você merece, Silvinha. Merece tudo de bom que está por vir ainda.

SÍLVIA: - Obrigada por me fazer acreditar em mim. Eu fiquei escondida atrás das falsidades da Rosana e acabei não vivendo o que tinha pra viver.

JÚLIO: - Não fala daquela cobra agora. Ela não merece estar no meio dessa nossa festa tão bacana.

Júlio se aproxima de Sílvia. Ela procura disfarçar.

SÍLVIA: - A Marília me falou de vocês.

JÚLIO: - Vocês quem?

SÍLVIA: - Você e a Tereza. Do beijo.

JÚLIO: - Foi um impulso... Nem sei direito.

SÍLVIA: - Você gostou?

JULIO: - Por que está me perguntando isso?

SÍLVIA: - Só me responde essa pergunta, Júlio. Por favor... Você gostou de beijar a Tereza?

JÚLIO (acaricia o rosto de Sílvia): - Não vou negar que foi bom... Mas confesso que não era a boca que eu desejava tocar naquele momento.
 

(sobe trilha “Doce Castigo” – Nana Caymmi) Júlio e Sílvia trocam olhares. Júlio acariciando o rosto dela. Sílvia se deixa levar. Os dois acabam se beijando, apaixonadamente.

 

 

 

CENA 01. CASA TEREZA. COZINHA. INT. NOITE. 

Continuação do capítulo anterior. Sílvia e Júlio se beijam, apaixonadamente na cozinha da casa de Tereza. (ao fundo, trilha “Doce Castigo” – Nana Caymmi). Os dois se afastam. 

SÍLVIA: - Meu Deus do céu, que loucura é essa, Júlio?

JÚLIO: - Loucura? Não é loucura não, Sílvia... Foi real. Esse beijo foi real.

SÍLVIA: - O mesmo realismo que a Tereza deve ter sentido hoje, quando foi beijada por você.

JÚLIO (aproxima-se dela): - Silvinha, eu já falei que não era a boca dela que eu queria ter beijado.

SÍLVIA (afasta-se): - Mas foi a boca dela que você beijou. E... E talvez assim como eu agora, ela esteja sentindo o tocar delicioso dos teus lábios na boca. 

Os dois trocam olhares.

JÚLIO: - Eu demorei tanto tempo para perceber que era você quem eu queria.

SÍLVIA: - Realmente, Júlio, demorou tempo demais. Agora a Tereza também está envolvida na história. E não seria justo com ela que nós dois ficássemos juntos agora.

JÚLIO: - Ela vai entender perfeitamente!

SÍLVIA: - Não, Júlio!... A Tereza está apaixonada por você. E não há nada pior para uma mulher do que ser rejeitada por um grande amor.

JÚLIO: - Você está abrindo mão?

SÍLVIA: - Estou dando oportunidade ao tempo de resolver tudo da melhor forma possível. Não quero perder o seu amor, não mesmo. Mas também não quero jogar fora uma amizade tão bacana. 

Silêncio. De repente, Tereza entra na cozinha, sorrindo. Sílvia e Júlio disfarçam. 

TEREZA: - Que demora é essa, gente? Pessoal tá lá na sala esperando a bebida e os salgados!

SÍLVIA (pega a bandeja dos salgados): - Já estou levando! 

Sílvia sai. Tereza se aproxima de Júlio. 

TEREZA: - Atrapalhei alguma coisa?

JÚLIO: - Nada não. Apenas estávamos comentando sobre o desfile. Do sucesso que foi.

TEREZA: - Não seria um sucesso se não fosse você, Júlio. Obrigada por estar do meu lado. 

Tereza beija Júlio na boca. Ele não reage. Ela se afasta, abre um sorriso meigo. 

TEREZA: - Vem, pega o champanhe e vamos lá pra sala, comemorar.

Júlio pega a garrafa de champanhe, enquanto Tereza pega as taças e saem da cozinha. 

CENA 02. CASA MAURO. ESCRITÓRIO. INT. NOITE.

Leocádia e Mauro conversam. Mauro um tanto exaltado, caminha de um lado a outro, enquanto Leocádia está sentada no sofá.

LEOCÁDIA: - Eu sempre desconfiei da Rosana. Nunca fui com a cara dela... Esse jeito excêntrico de trabalhar sempre me deixou com a pulga atrás da orelha. Onde já se viu, você, o dono da marca, não poder ver nada sobre o que ela produzia?

MAURO: - Acontece, mamãe, que sempre deu certo, tudo!

LEOCÁDIA: - Mas desta vez não deu. E deu bem errado, não é, Mauro? Nunca fomos tão criticados em toda nossa história. Um verdadeiro vexame!

MAURO: - E a Rosana nem se importou! Com nada! Só queria saber dessa bendita viagem para Nova York!... Ah, mas quando ela voltar, mamãe, eu vou ter uma conversa firme com ela.

LEOCÁDIA: - Até que enfim, meu filho...

MAURO (senta-se no sofá): - Sabe, mamãe, que, depois, assistindo ao desfile da CarioLinda, me deu uma certa nostalgia...

LEOCÁDIA: - Nostalgia do quê, Mauro?

MAURO: - Do início da GF... Aquele frescor da estreia, da novidade...

LEOCÁDIA: - Mas a CarioLinda está retornando.

MAURO: - Mesmo assim, mãe. Eles enfrentaram um incêndio, foi capa nos jornais. Sem estrutura nenhuma, fizeram um desfile de encher os olhos... Eu, sinceramente, queria muito conhecer de perto a equipe deles. Reencontrar Tereza Sampaio. Dar os meus sinceros parabéns, pois esse Rio Moda foi deles.

LEOCÁDIA: - Muito nobre da sua parte reconhecer isso, meu filho.

MAURO (levanta-se): - Pelo o que eu li nos jornais, a grife está em Vila Isabel. Acho que vou passar por lá.

LEOCÁDIA: - Agora?

MAURO: - Agora. Não posso deixar passar a oportunidade.

Mauro sai do escritório.

LEOCÁDIA: - Finalmente o Mauro vai abrir os olhos com a Rosana... Espero que ela aprenda uma lição daquelas!

CENA 03. CASA MARÍLIA. SALA. INT. NOITE.

Bruno e Amália estão a sós na sala.

BRUNO: - Estamos sozinhos aqui na casa mesmo?

AMÁLIA: - Claro. Mamãe foi jantar fora com umas amigas. Pedro saiu com colegas da faculdade. E a Marília foi comemorar o sucesso dos desfiles no Rio Moda. Estamos só você e eu.

BRUNO: - Ótimo.

Bruno retira do bolso do casaco um cd e entrega para Amália.

BRUNO: - Tudo aqui. A gravação editada da conversa da Valquíria com o Fernando.

AMÁLIA: - Eu mal posso esperar para ver a cara da minha irmãzinha querida ao ouvir tudo o que o Fernando pensa dela.

BRUNO: - Ela vai sofrer, mas eu vou estar pronto para confortá-la nos meus braços... Está tudo certo então?

AMÁLIA: - Tudo certo! Amanhã, na agência, vou tratar de reunir todo mundo, já que vai ser aniversário dela. A humilhação vai ser ainda maior quando a Marília descobrir que não é nada para o Fernando.

BRUNO: - Ótimo. Me avise de tudo.

AMÁLIA: - Pode deixar.

BRUNO: - Bem, agora eu vou (pausa)

AMÁLIA (interrompe, segurando Bruno): - Ei! Já vai? (insinuante) Não vamos curtir um pouco, aproveitar que estamos a sós?

BRUNO (solta-se delicadamente): - Não posso... Tenho outros assuntos a tratar.

AMÁLIA: - Esqueci que você cuida de uma loira aguada... Quero dizer, que você é cuidado por ela. Até porque, quem está te bancando aqui no Rio é ela.

BRUNO: - Não vou cair nos seus ataques de ciúmes, Amália. Pelo menos não agora... Nos ainda vamos ter muito tempo para curtir...

Bruno sai. Amália fica pensativa, com cd em mãos.

CENA 04. CASA TEREZA. EXT. INT. NOITE.

Mauro estaciona o carro em frente a casa de Tereza. Ele desce e observa a casa com atenção.

MAURO: - Parece a casa antiga da Rosana...

Mauro vai entrando na casa. No interior, Fernando, Marília, Júlio, Tereza, Sílvia, Alceu e Janice conversam, animados, quando a campainha toca.

SÍLVIA: - Quem será?

JANICE: - Atende, Tereza!

Tereza abre a porta.

MAURO: - Boa noite... Desculpe vir sem avisar.

TEREZA (surpresa): - Mauro Gonzales! Entre!

Sílvia se mostra desconfortável. Júlio percebe.

MAURO: - Boa noite a todos!

FERNANDO: - Mauro! Surpresa em vê-lo aqui.

TEREZA: - Se você está surpreso, Fernando, imagine eu!

MAURO: - Desculpe vir aqui sem avisar. Mas eu queria muito, ou melhor, precisava muito vir aqui e dar os meus parabéns pelo belo desfile que vocês fizeram no Rio Moda hoje. Foi de uma beleza incrível.

TEREZA: - Nossa, Mauro... Ouvindo esses elogios de você, eu fico até sem graça. Muito obrigada.

MAURO: - Tereza, eu e você somos conhecidos de longa data. Fiquei feliz de ver a CarioLinda retornar com a grandeza que foi.

TEREZA: - É tudo resultado de um trabalho conjunto... A minha marca, o empenho do Júlio, as modelos da Classic Models, agência da Marília... Mas um dos pontos altos foi sem dúvidas, as criações da Silvinha.

MAURO (aproxima-se de Silvia): - Você foi quem pensou naquelas roupas todas?

SÍLVIA: - Foi sim.

MAURO: - Mas como vocês conseguiram criar tudo aquilo? Eu fiquei sabendo do incêndio terrível...

JÚLIO: - Nós trabalhamos muito.

JANICE: - Transformamos o quintal da Tereza num verdadeiro atelier.

TEREZA: - Um trabalho de superação.

MAURO: - Se me permite, Tereza, eu gostaria de ver os croquis, os trabalhos de vocês.

TEREZA: - Claro! A Sílvia pode mostrar para você.

SÍLVIA: - Não, eu não posso.

TEREZA (desconfia): - Por que não, Sílvia? Não há nada de mal em mostrar o nosso trabalho para o Mauro. Não somos concorrentes. Provavelmente o que nós fizemos aqui é o que a GF faz lá também...

MAURO (a Sílvia): - Por favor. 

Sílvia desvia o olhar, encara Júlio, que troca olhares com ela.

SÍLVIA: - Tudo bem.

TEREZA: - Eu vou com vocês... Júlio, você fica aqui com o pessoal?

JÚLIO: - Claro...

TEREZA: - Venha Mauro, é por aqui. 

Tereza sai na frente, Mauro em seguida e Sílvia por último, tentando esconder o nervosismo. 

ALCEU: - Esse cara é cheio da grana!

FERNANDO: - O Mauro é um empresário muito respeitado. E de boa índole.

JANICE: - Boa índole, bom perfume!... Que homem cheiroso!

ALCEU: - Ei, Janice! Tem que cheirar o meu perfume!... Tudo bem que é mistura de bolinho de feijão com pastel, mas é o meu cheiro oras! 

Todos riem. 

CENA 05. BOATE GLAMOURIO. INT. NOITE. 

(sobe trilha “World Hold On” – Bob Sinclair) Karina se apresenta no palco da GlamouRio. A boate está com boa movimentação. Walter, travestido de Waleska, caminha por entre as pessoas, animando, divertindo o pessoal. 

Karina, no palco, se insinua para Tarso, que a observa de um dos camarotes. Numa outra mesa, Estér, Fábio e Ivan conversam. (fade out trilha “World Hold On” – Bob Sinclair) 

ESTÉR (observa Tarso): - Que cara de pau!

IVAN: - O que foi, Estér?

ESTÉR: - Nada não...

FÁBIO: - Gente, essa dançarina aí é um furacão! Mulher dança muito!

ESTÉR: - Dança e apronta...

IVAN: - Hoje você está fazendo a mafiosa, hein, Estér? Só nos recadinhos, nas indiretas... Relaxa, mulher!

ESTÉR: - Tem razão, Ivan. Me preocupando demais com os outros e esquecendo de mim. 

Estér bebe um gole de um drink quando seu olhar bate com o olhar de uma outra mulher numa mesa próxima. A moça, loira, com seus vinte e poucos anos, cabelos lisos, presos num rabo de cavalo, vestido justo no corpo escultural. Estér sorri e é correspondida. 

IVAN: - Se eu tivesse pelo menos o remelexo dessa moça, Karina, eu seria um arraso na pista de dança.

FÁBIO: - Ah, mas você dança bem, Ivan. Você e a Estér! (cutuca Estér)

IVAN: - Ih... To falando que ela tá estranha (percebe que Estér está de olho na moça) Estranha... Ela está é de paquera!

ESTÉR: - Eu? Não...

IVAN: - Para, Ester! Acabo de ver você de olho naquela loira lá... Aliás, que loira hein! Se eu gostasse da fruta...

FABIO: - Deixa eu ver, porque eu gosto... (olha a moça) Meu Deus, que avião!... E tá te dando mole, Estér! Vai la!

ESTÉR: - O quê? Está ficando louco?

IVAN: - Louca tá você de deixar passar essa oportunidade. Vai logo! 

Estér bebe mais um gole do drink, levanta-se da mesa e vai em direção a mulher. 

IVAN: - Ah, esse clima de romance, flerte...

FÁBIO: - Você também tá no clima?

IVAN: - Eu estou é numa cama de gato... A gente não manda no coração e ele acaba nos colocando em cada uma.

FÁBIO: - Sei como é. Eu to vivendo uma paixão platônica. Vi a moça só uma vez e já estou caidinho... 

No camarote, Tarso e Karina conversam. 

TARSO: - Você sempre arrasando no palco.

KARINA: - E você também arrasando na mentira... Não podia olhar pra sua cara, fingindo que não se lembrava de mim hoje lá no Rio Moda.

TARSO: - Você queria que eu te beijasse na boca na frente da minha esposa?... Ainda bem que a Sandra não percebeu nada.

KARINA: - Coitada da minha amiga.

TARSO: - Tá com peninha é?

KARINA: - Eu? Claro que não... Estou até muito feliz por ela estar dividindo o maridinho dela comigo. Tudo bem que ela não sabe disso, mas enfim, eu estou adorando! 

Karina e Tarso se beijam. Enquanto isso, na mesa, Estér e a loira conversam.

ESTÉR: - Então você se chama Beatriz... Lindo nome.

BIA: - Obrigada... Mas pode me chamar de Bia, Estér. Você também tem um lindo nome. Aliás, você é uma mulher muito linda.

ESTÉR: - Eu fico lisonjeada ouvindo um elogio desses de você, uma deusa... É modelo, atriz?

BIA: - Arquiteta.

ESTÉR: - Que legal!... Tão jovem!

BIA: - Entrei na faculdade cedo. Me formei faz 2 anos e já tenho meu próprio escritório, em Ipanema.

ESTÉR: - Bonita, atraente, simpática, independente, inteligente... Que outra qualidade que você tem que eu ainda preciso descobrir? 

Bia leva a mão à nuca de Estér, a aproxima de si e a beija. Estér se deixa levar. 

(fade in trilha “World Hold On” – Bob Sinclair) 

CENA 06. CASA TEREZA. QUINTAL/GARAGEM. INT. NOITE. 

(fade out trilha “World Hold On” – Bob Sinclair) Tereza leva Mauro para a parte de fora da casa, que pega o quintal e parte da garagem. Máquinas de costura estão espalhadas. Manequins vestem peças criadas por Sílvia. No fundo da garagem, croquis estão expostos. Sílvia chega logo atrás dos dois. Olhar firme, fixo em Mauro. 

TEREZA: - Não repare a bagunça, Mauro. Nem tivemos tempo de arrumar as coisas. Saímos às pressas para o Riocentro.

MAURO: - Imagina. Atelier de costura é assim mesmo. Tecidos, linhas, carretéis, tudo espalhado. 

Mauro observa as roupas nos manequins. Há um vestido de vermelho, com bordados em pedrarias; num outro, uma blusa amarela, de tecido esvoaçante, com babados, e uma saia branca, justa, lisa. 

MAURO: - São roupas de uma singeleza única...

TEREZA: - Eu participei de algumas criações, mas a grande maioria, praticamente 90% do que foi apresentado, é tudo da cabeça da Silvinha. 

Mauro encara Sílvia. Os dois ficam a se olhar. 

MAURO: - Você tem um talento incrível.

SÍLVIA: - Obrigada.

TEREZA: - E ali na parede, tem os croquis dela. Olha só, Mauro, como sai tudo como o desenho. 

Sílvia cerra os olhos. Tereza leva Mauro até os croquis. Ao observar os desenhos, Mauro se impressiona. 

MAURO: - Meu Deus...

TEREZA: - São lindos, não?

MAURO: - Esses desenhos... São os desenhos da Rosana!

TEREZA: - Não, Mauro... Esses croquis são da Silvinha.

MAURO: - Desculpa, mas eu conheço esses traços. É da minha esposa, Rosana Gonzales. Como vocês conseguiram esses desenhos?!

SÍLVIA: - Você deveria fazer essa pergunta para a sua esposa, Mauro. 

Mauro encara Sílvia. 

SÍLVIA: - Esses desenhos são meus.

MAURO: - Está me chamando de louco? Eu não inventaria uma mentira dessas.

SÍLVIA: - Não estou dizendo que você está mentindo. O que eu quero dizer é que mentiram pra você. Você foi enganado pela Rosana, Mauro.

Mauro se mostra surpreso. 

TEREZA: - Eu acho que vocês têm assuntos importantes para conversar, então... Bem... Com licença.

Tereza sai. Mauro e Sílvia ficam a sós.

MAURO: - Que história é essa?

SÍLVIA: - Eu e a Rosana nos conhecemos há muitos anos. Éramos amigas. Eu sempre desenhei, mas a Rosana nunca teve talento pra isso.

MAURO: - Então...

SÍLVIA: - Quando você deu a oportunidade dela se apresentar na GF para ser a nova estilista, foram os meus desenhos que ela levou. Todos. Cada roupa, cada detalhe. Tudo meu!

Mauro se vira para os croquis, incrédulo.

SÍLVIA: - A Rosana nunca soube fazer um croqui. Nunca fez.

MAURO: - Mas, e as noites envolvida com o processo de criação dos figurinos? E a tal hora de inspiração?

SÍLVIA: - Tudo mentira, Mauro... É totalmente estranho, mas o sucesso da Gonzales Fashion se deve completamente a mim. Desde a coleção do Amor até a penúltima, sobre o mar.

MAURO: - Eu não posso acreditar... Você está me enganando!

SÍLVIA: - Não, Mauro! Estou abrindo os seus olhos e te mostrando a verdade!... A Rosana é uma farsa! Ela sempre quis vida boa, luxo, grana... Infelizmente eu fui o trampolim para ela chegar aonde chegou.

MAURO (indignado): - Maldita!... Mas e você? Por que você fez isso? Por que contribuiu nessa mentira?!

SÍLVIA: - Eu tive minhas necessidades... Meu marido, quero dizer, ex-marido, não podia trabalhar. Eu tinha uma filha para criar e o dinheiro que eu ganhava com as costuras para fora era pouco... Então eu fazia todo o trabalho para a Rosana em troca dela me ajudar, financeiramente.

MAURO: - Isso não justifica a mentira. Nada justifica essa mentira!... A Rosana, a minha esposa, minha mulher! Me enganando desse jeito?!

SILVIA: - Eu sinto muito, Mauro. Sinto muito mesmo por tudo. Eu jamais pensei em prejudicar você. Mas, eu criei coragem para romper com a Rosana. Essa história toda só me fez mal.

MAURO: - Aí quando você rompe com ela, a GF apresenta o verdadeiro talento da Rosana: a porcaria, o lixo, a ruindade!...

SÍLVIA: - Eu fico até com vergonha dessa situação. A minha filha, Melissa faz parte da equipe da GF. E também não sabe nada sobre moda.

MAURO: - Você é mãe da Melissa?!

SÍLVIA: - Ela sempre idolatrou a Rosana, sem saber que na verdade, o talento que ela via estava dentro da sua própria casa... Nós brigamos muito desde que ela ingressou na GF. Eu não queria a minha filha junto da Rosana. Não seria boa influência pra ela.

MAURO: - Como de fato não é!... O que a Rosana fez foi muito grave. É muito grave... Mentirosa, só pensou em tirar vantagem... Minha mãe sempre disse que a Rosana escondia alguma coisa. Está aí o segredo dessa... Dessa farsante!

Mauro contém as lágrimas.

SÍLVIA: - Eu nem sei o que dizer, Mauro.

MAURO: - Não diga mais nada, Sílvia... Não há mais nada para você me dizer... Pelo menos agora... Tudo leva a crer que eu fui vítima de um crime.

SÍLVIA: - Olha só, Mauro, eu não tive a intenção nenhuma de fazer algum mal a você, ou prejudicar a empresa. Eu fiz o que fiz por necessidade.

MAURO: - Eu vou pra casa, pensar... Quando a Rosana retornar, nós vamos ter uma conversa muito séria. Meus advogados estarão presentes, com certeza.

Mauro encara Sílvia, chateado. Ele sai pelo pátio em direção à rua. Sílvia respira fundo.

SÍLVIA: - Graças a Deus, o fim dessa história está chegando. Que tudo termine da melhor maneira possível e que eu esteja finalmente livre!

CENA 07. NOVA YORK. IMAGENS GERAIS. AMANHECER / RUAS. EXT. DIA.

(sobe trilha “Me Segura” – Eduardo Dussek) Imagens da cidade de Nova York ao amanhecer. A movimentação da “Capital do Mundo”. Rosana e Melissa fazem compras, caminham poderosas pelas ruas de Nova York, com sacolas de lojas de grife. Elas param em frente a uma loja da Apple.

ROSANA: - Vamos entrar?

MELISSA: - Rosana, eu sei que você é rica, mas não imaginava que você tivesse tanto dinheiro assim! Olha só o que já compramos de coisas!

ROSANA: - Eu trouxe um plus da grana pra curtir aqui. O que o Mauro me liberou foi pouco. E eu não sou mulher de me contentar com pouco, você sabe... Agora vem, vamos comprar do que há de mais moderno em tecnologia!

As duas entram na loja da Apple.

CENA 09. ESCRITÓRIO GF. INT. DIA.

(fade out trilha “Me Segura” – Eduardo Dussek) Reunião no escritório da GF. Mauro, na ponta da mesa, coordena a reunião com Gilson, Vitinho e outros diretores.

GILSON: - E então, Mauro? A reunião é para tratarmos das críticas recebidas no último desfile?

MAURO: - Não, nada disso, embora o que vamos tratar aqui, agora, tenha completa relação com o que vimos no Rio Moda.

VITINHO: - Então fala logo, Mauro. Essa reunião de emergência me deixou um tanto tenso.

MAURO: - Não é só você que está tenso, Vitinho. Eu também estou.

GILSON: - Diga o que tem para dizer, Mauro.

MAURO: - Pois bem, senhores. Vou ser direto. A partir de hoje, a Rosana e a Melissa não fazem mais parte desta empresa.

Todos os diretores se mostram surpresos.

VITINHO: - Mas como assim?!

MAURO: - Isso mesmo. A Rosana e a Melissa estão fora da Gonzales Fashion. Definitivamente.

GILSON: - Tudo isso por causa do mau desempenho no Rio Moda?

MAURO (cochicha para Gilson): - Não só por isso, Gilson... A coisa é muito mais profunda do que eu imaginava... (a todos) Esta decisão não entrará na pauta de votação. É uma decisão majoritária e de caráter excepcional. A partir de hoje, Rosana e Melissa não respondem por mais nada relacionado à Gonzales Fashion.

Vitinho se mostra chocado/surpreso, assim como Gilson. Mauro está firme em sua posição.

CENA 10. AGÊNCIA CLASSIC. SALA MARÍLIA. INT. DIA.

Marília, Paula e Fábio conversam.

MARÍLIA: - Os sites, revistas... Todos só falam no desfile da CarioLinda.

FÁBIO: - Realmente foi um verdadeiro sucesso. Nós arrasamos na escolha das modelos e eles nas roupas. Foi um casamento perfeito.

PAULA: - A Gaby deu show como garota-propaganda também, né?

FÁBIO: - Me surpreendeu!

MARÍLIA: - Ah, eu não fiquei surpresa não. Sempre achei que ela tinha talento pra coisa. Foi à estreia dela na passarela. Lembrou um pouco da minha.

FÁBIO: - Ih, momento recordar é viver! (risos)

Neste instante, Ivan entra na sala.

IVAN: - Trouxe as fotos!

PAULA: - Oba!

MARÍLIA: - Que ótimo, Ivan! Eu estou louca pra ver tudo!

IVAN: - Calma, muita calma... Antes de eu mostrar as fotos, preciso mostrar outra coisa.

MARÍLIA: - O quê?

Ivan abre a porta da sala e Ilza, Amália, Pedro e Cristóvão vão entrando. Ilza traz um pequeno bolo de aniversário com uma vela acesa, enquanto os demais trazem balões e confetes.

IVAN: - Feliz aniversário!

Marília fica emocionada/feliz. Ela sopra a vela.

MARÍLIA: - Meu Deus, que surpresa boa!

ILZA: - Parabéns, minha filha!

MARÍLIA: - Paula, Fábio, vocês sabiam disso e não me falaram nada?

PAULA: - Se a gente falasse, não seria surpresa!... Cobre da sua irmã! A Amália que armou essa festinha.

AMÁLIA: - Você sempre tão ligada no trabalho, era capaz até de esquecer do próprio aniversário.

MARÍLIA: - Obrigada, Amália... Mamãe, Pedro... Cristóvão! Bem-vindo ao meu trabalho! É aqui que eu também puxo o couro do seu filho (risos)

CRISTÓVÃO: - E faz muito bem, Marília!

IVAN: - Ei, calma lá! (risos)

FÁBIO: - Eu vou buscar as bebidas e os copos.

Fábio se afasta, enquanto Marília recebe os cumprimentos dos demais.

MARÍLIA: - Que ótimo comemorar mais um ano de vida do lado de vocês. Amigos, família. Pessoas mais do que especiais na minha vida.

Fábio retorna, serve as bebidas e distribui entre o pessoal. Paula faz o mesmo com o bolo.

AMÁLIA: - Mas não podemos esquecer que o coraçãozinho da aniversariante tem dona agora, né? O Fernando não pode vir, mas mandou uma mensagem pra você.

MARÍLIA: - É mesmo?!

AMÁLIA: - Olha que eu fiquei com as mãos coçando para ouvir, mas acho que não seria apropriado. (risos)

ILZA: - Vamos lá, Amália, mostre a mensagem.

Amália coloca o cd no computador de Marília e liga as caixas de som. Todos estão na escuta. De repente, começa a tocar a mensagem.

GRAVAÇÃO (apenas voz de Fernando): - A Marília? Não, foi só uma aventura. Amor não existe, só gratidão. Me ajudou quando eu tava na pior, mas passou. Não quero mais, só brinco às vezes.

Todos se chocam. Marília deixa cair seu copo no chão, surpresa. Amália finge.

AMÁLIA: - Acho que houve alguma coisa errada aqui (pausa)

MARÍLIA (interrompe): - Não!... Amália coloca de novo, por favor.

AMÁLIA: - Marília, eu acho que você não precisa escutar (pausa)

MARÍLIA (firme): - Coloca a gravação de novo, por favor!

Amália coloca o áudio novamente. Marília não contém as lágrimas.

IVAN: - Mas que coisa chata... O Fernando não faria isso.

AMÁLIA: - É a voz dele na gravação.

PEDRO: - Foi ele mesmo quem entregou a gravação pra você, mãe?

AMÁLIA: - Não, eu recebi por e-mail e eu nem ouvi. Gravei direto no cd e deletei o e-mail. Mas não interessa como eu recebi, Pedro. Acontece que é a voz do Fernando dizendo que a Marília é só uma aventura, nada de importante. Em resumo, um brinquedinho pra ele.

ILZA: - Amália, por favor! Respeite a sua irmã!

AMÁLIA: - Mamãe, eu só estou dizendo a verdade. Estão todos aqui de prova que o Fernando só quer brincar com a Marília.

MARÍLIA: - Já chega!

PAULA: - Calma, Marília... Bebe uma água.

MARÍLIA: - Não quero nada não, Paula... Eu quero é ver a cara do Fernando agora e cobrar tudo isso dele. 

Marília pega sua bolsa e sai, apressada, arrasada.

FÁBIO: - Ela não pode sair assim, sozinha.

AMÁLIA: - Deixa... Deixa porque essa é uma conversa entre o casal. Ou ex-casal...

Clima triste na sala, enquanto Amália tenta esconder sua satisfação. Ela pega o celular e discretamente, se afasta para ligar para Bruno. 

AMÁLIA (ao telefone/fala baixo): - Oi Bruno, sou. (pausa) Sim, deu tudo certo. Ela acabou de sair daqui arrasada. Vai direto lá pra empresa dele. (pausa) Claro, vai quebrar a cara... Questão de tempo, Bruno. Nosso plano deu certo. 

CENA 11. ESCOLA DE DANÇA CORPO E ALMA. INT. DIA. 

Raquel termina de dar aula para uma turma. Os alunos se afastam, conversando em grupo, organizando suas coisas. Valquíria chega à escola e vai à direção a Raquel. 

VALQUÍRIA: - Ah se eu tivesse tempo para dançar!

RAQUEL: - Pois arranje tempo!... Vai ver o quanto é bom.

VALQUÍRIA: - Eu sei que é bom. Dança e sexo. (risos)

RAQUEL: - Já vi que está com o humor lá em cima!

VALQUÍRIA: - Tentando... (suspira)

RAQUEL: - O que foi, Val?

VALQUÍRIA: - O Bruno... Anda diferente comigo. De novo. Não sei mais o que eu faço pra ter toda atenção dele pra mim.

RAQUEL: - Ei, calma aí, mulher. A coisa não funciona dessa forma. Nós mulheres nunca temos toda atenção de um homem. Pensei que já soubesse disso (risos)

VALQUÍRIA: - Não é engraçado não, Raquel... Às vezes acho que o Bruno não está mais interessado em mim.

RAQUEL: - Não, não pense isso.

VALQUÍRIA: - Mas eu acho que morreria se um dia ele me largasse. 

Raquel encara Valquíria.

VALQUÍRIA: - Se ele não pode ser meu, não vai ser de mais ninguém.

RAQUEL: - Credo, Valquíria! Não fala assim...

VALQUÍRIA: - Pra você é fácil falar... Muito bem casada e ainda sim, atrai olhares de outros homens.

RAQUEL: - Ih, de onde você tirou isso?

VALQUÍRIA: - Vai dizer que você não ficou contente quando o Fernando olhou pra você, na chegada no Rio Moda?

Raquel desvia o olhar.

VALQUÍRIA: - Não pensa que eu não vi não, Raquel...

RAQUEL: - Ah, mas isso não tem nada a ver. Eu e o Fernando somos apenas amigos.

VALQUÍRIA: - Tá certo, Raquel. Nós duas somos amigas há anos e podemos confidenciar certas coisas uma com a outra. Então me fala... O Fernando ainda mexe com você, não mexe?

RAQUEL: - Valquíria, você vem com cada pergunta...

VALQUÍRIA: - Responde, Raquel!

RAQUEL: - Não, não vou responder um absurdo desses!... Eu e o Fernando ficamos por um tempo, tivemos uma filha linda, mas o que restou foi só amizade. E uma bela amizade por sinal.

VALQUÍRIA: - Mas dá pra ver nos seus olhos que a resposta é sim. O Fernando ainda mexe com você.

RAQUEL: - Ai chega desse assunto, ta legal?... Você está falando tanto no Fernando, que, aliás, eu vou até a Áurea falar com ele.

VALQUÍRIA: - Olha aí! Eu disse!

RAQUEL: - Mas não é nenhum encontro romântico não. Vou apenas levar os meus parabéns pela exposição no Rio Moda e falar algumas coisas sobre a Marcinha.

VALQUÍRIA: - Infelizmente eu não posso te dar uma carona. Estou indo acertar com a galeria de arte o espaço pra minha exposição.

RAQUEL: - Ótimo. Assim você não fica enchendo o meu ouvido com essas perguntas e conclusões sem pé nem cabeça... (risos)

(fade in “Love Do I Do” – Jennifer Hudson)

CENA 12. NOVA YORK. IMAGENS GERAIS / HOTEL. INT. DIA.

Mostra imagens dos prédios de Manhatthan, o Central Park, as ruas do Brooklin, a Estátua da Liberdade. Corta para o quarto luxuoso de um hotel. (fade out “Love Do I Do” – Jennifer Hudson) Melissa está dormindo na cama, quando Rosana entra no quarto e fica parada, observando a menina.

Silêncio no local. Rosana olha Melissa adormecida. Olhar impassível.

ROSANA: - Minha filha... Ao mesmo tempo que é tão parecida comigo, é também tão distante... E que assim permaneça. Distante. Muito distante. Não nasci para ser mãe, para ter filhos... Pobre coitada daquela que acha que ter filhos é uma dádiva. Se for para ter alguma coisa, que seja dinheiro.

Melissa se mexe na cama, acorda.

MELISSA: - Rosana?

ROSANA: - Já dormiu bastante, não dormiu?

MELISSA: - Um pouco. Na verdade, eu estava mesmo precisando desse descanso. Desde que chegamos a Nova York eu não parei um minuto!

ROSANA: - Então trate de sair dessa cama e colocar a roupa mais chique que você tiver. Iremos à festa da Vogue.

MELISSA (pula da cama): - Como é que é?!

ROSANA: - Ai, você é surda, Melissa?! Vamos à festa da Vogue. Anda, se arruma logo!

MELISSA (corre para o banheiro): - Estou indo!

ROSANA: - Glamour, grana, gente bonita. Poder. Foi pra isso que eu nasci. Para o poder!

CENA 13. ÁUREA CALÇADOS. SALA FERNANDO. INT. DIA.

Raquel conversa com Fernando, na sala dele.

FERNANDO: - Muito obrigado pelos elogios, Raquel. Fico feliz que você tenha gostado.

RAQUEL: - Eu que acompanhei tudo sempre de tão perto, sei o quanto você se esforça para deixar à Áurea Calçados no topo!

FERNANDO: - Minha vida está aqui, querendo ou não.

RAQUEL: - Sua vida em partes... Outra parte dela saiu de mim.

FERNANDO: - Ah, claro... Marcinha. Essa é o meu tesouro!

RAQUEL: - Quem diria, Fernando, que nós nos daríamos melhor agora, separados?

FERNANDO: - O tempo é o senhor da razão. Ele sabe o que faz. Agora eu estou com a Marília, você com o Adônis. Estamos vivendo nossas vidas felizes.

RAQUEL: - Mas, se nós tivéssemos insistido, será que (pausa)

FERNANDO: - Você acha que nós poderíamos estar bem, casados ainda?

RAQUEL: - Que bobagem... Essa conversa... Deixa pra lá.

FERNANDO: - Você está diferente, Raquel.

RAQUEL: - Diferente, eu? Como?

FERNANDO: - Não sei... Mas você mudou um pouco. Pra melhor, é claro.

RAQUEL: - Vindo de você, isso pra mim é muito mais do que um simples elogio. Pode ter certeza.

Os dois trocam olhares. Neste instante, Marília entra na sala, séria. Raquel disfarça.

MARÍLIA: - Desculpa entrar assim, sem avisar. Eu não queria ter atrapalhado a conversinha de vocês.

FERNANDO: - Você não atrapalhada nada não, meu amor. O que houve? Parece nervosa.

MARÍLIA: - Não me chama de amor, Fernando. Ainda mais se eu não passo de uma simples aventura para você.

FERNANDO (surpreso): - Marília, o que está acontecendo?

RAQUEL: - Bom, eu vou deixar vocês a sós...

MARÍLIA: - Pode ficar, Raquel. Pode ficar porque, se para ele eu ainda sou uma aventura, é sinal de que você ainda vive dentro do coração dele.

FERNANDO: - Tá ficando louca, Marília? Quer me explicar o que aconteceu?

MARÍLIA: - Eu escutei toda a sua gravação. A sua mensagem de feliz aniversário para mim, hoje.

FERNANDO: - Gravação?

MARÍLIA: - Não precisa se fazer de desentendido não, Fernando. Era a sua voz, a sua voz! Justo no meu aniversário, eu escutar tudo aquilo? Não merecia, Fernando. Eu não merecia!

RAQUEL: - Eu realmente não preciso ficar aqui...

Raquel pega sua bolsa e sai da sala. Mas fica do lado de fora, escutando a conversa.

FERNANDO: - Marília, eu não gravei nada!

MARÍLIA: - Como não?! Eu ouvi, Fernando. Palavra por palavra sua. A Marília é só uma aventura. Nunca ouve amor. É só diversão... É isso que eu sou para você? Uma simples diversão?

FERNANDO: - Claro que não! Meu amor deve ter acontecido algum engano.

MARÍLIA: - Claro. Mas é óbvio que aconteceu um engano, Fernando. Eu me apaixonei por um homem que disse que me amava e acabei me enganando. (saindo)

FERNANDO (indo atrás dela): - Marília espera! Me escuta, por favor!

MARÍLIA (encara Fernando): - Acabou, Fernando!... Depois do que eu passei hoje, tudo o que eu mais quero, é não ouvir a sua voz.

(sobe trilha “Pérola Negra” – Luiz Melodia) Marília contém as lágrimas e sai da sala. Fernando fica arrasado. Raquel entra na sala.

RAQUEL: - Eu até pensei em ir embora, mas fiquei apreensiva com essa discussão.

FERNANDO: - Eu não fiz nada, Raquel. Eu juro.

RAQUEL (abraça Fernando): - Calma, Fernando... Não fica assim...

Do lado de fora da Áurea, no estacionamento, Marília entra no seu carro, bate a porta e começa a chorar. Entristecida.

(fade in trilha “Pérola Negra” – Luiz Melodia)

CENA 14. TRANSIÇÃO DO TEMPO. ANOITECER / RESTAURANTE PRATO CHEIO. INT. NOITE.

Imagens do Rio ao anoitecer. Corta para o restaurante Prato Cheio. Numa das mesas, Geórgia, Renato e Durval. 

GEÓRGIA: - Convites todos já postados. Os convidados receberão em breve.

DURVAL: - Eu já estou buscando os ingredientes para fazer um bufê magnífico. Vou caprichar!

GEÓRGIA: - Ótimo meu irmão! Eu estou tão feliz! Meu casamento está chegando!

RENATO: - Já estou com frio na barriga.

DURVAL: - Tá em tempo de desistir hein! (risos)

GEÓRGIA: - Não mesmo! Chegou até aqui, agora vai casar! (risos)

Geórgia beija Renato. Em outra mesa, Orestes e Maria Helena jantam.

MARIA HELENA: - Primeira vez que venho neste restaurante.

ORESTES: - Tarso que me recomendou. Ele disse que quase sempre vem aqui, com a Sandra.

MARIA HELENA: - É um lugar agradável... Obrigada por me trazer para jantar, depois de tantos anos!

ORESTES: - Não exagere, Maria Helena... Fico feliz que tenha gostado. Um brinde? 

Orestes ergue a taça de vinho. Maria Helena faz o mesmo. Os dois brindam. Quando Maria Helena vai beber, ela enxerga numa mesa no fundo, num canto, Estér e Bia, juntas, uma mão sobre a outra, clima romântico. 

MARIA HELENA: - Não pode ser...

ORESTES: - O que foi?

MARIA HELENA: - Nada não, querido... Ótimo vinho, não?

ORESTES: - Ótimo mesmo. 

Maria Helena disfarça, mas segue observando Estér. 

CENA 15. CASA SÍLVIA. INT. NOITE.                                

(sobe trilha “Dura na Queda” – Elza Soares) Sílvia está em sua sala, fazendo uma mudança geral. Móveis estão em outra posição, além da decoração, que mudou, agora com cores mais vivas. O ambiente está mais claro, alegre. 

Sílvia coloca um de seus croquis numa moldura e pendura na parede. Fica a observar o desenho (um vestido rosa, de flores). Sílvia olha em volta, se mostra satisfeita. (fade out trilha “Dura na Queda” – Elza Soares) 

SÍLVIA: - Essa casa estava mesmo precisando de novos ares... Assim como a minha vida. 

De repente, a campainha toca. Sílvia vai atender. Ela abre a porta. 

SÍLVIA: - Mauro?

MAURO: - Como vai, Silvia? Podemos conversar? 

Os dois trocam olhares.

 


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