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A Magia do Natal: Capítulo 03 - Gatinho de Natal

A Magia do Natal: Capítulo 03 - Gatinho de Natal
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Conto escrito por: Douglas Barres

            Somos educados desde a infância de que o Papai Noel só vai dar presentes para quem se comportar. Escovar os dentes, respeitar os pais, ser um bom aluno, e por aí vai. Por mais que seja uma forma de controle dos pais sobre os filhos, no fim das contas todos acabam ganhando presentes. Com os animais isso é diferente? Eles também ganham presentes?


            Nosso protagonista, o gato, nasceu em uma tarde chuvosa num beco isolado. Acompanhado somente da mãe e de seus irmãos, seus primeiros dias foram tranquilos. Por vezes, o dono do bar, do outro lado da rua, doava alguns restos de comida para a mãe gato que ainda recuperava as forças. Não demorou muito para os filhotes aprenderem a falar. 


— Mamãe, o que é aquilo? — queriam saber todos os gatinhos curiosos ao avistarem algo novo. Todo dia era uma descoberta diferente, claro que somente até o fim do beco. Assim que algum espertinho resolvesse sair do limite estipulado pela mãe gato, a mesma o trazia de volta junto de um belo sermão - acompanhado da mais calorosa lambida. 


            Logo no fim de janeiro - não que a data importasse para os felinos - uma das piores chuvas de todos os tempos alagou toda cidade. O gato, em meio ao caos do alagamento, se perdeu de sua mãe e irmãos. Miados de desespero da mãe eram ouvidos por pelo menos duas ruas, não longe o bastante para chegar no seu filhote perdido que estava no final da quarta rua. Não muito tempo depois, a mãe e os filhotes foram acolhidos por um casal de mendigos. 


            O mundo da solidão era descoberto pelo gato. Ruas enormes, prédios, pessoas caminhando alegremente, cães, outros gatos, tudo no geral bem assustador. Sua fonte de alimento eram as lixeiras da cidade. 


— Ei rapaz, essa área é minha! — enquanto se deliciava em um líquido, nosso gato foi surpreendido por outro gato. — Vai vazando.

— Não estou vendo seu nome aqui! — respondeu o gato, abusado.

— Oras, mas você nem gato é, é um projeto de gato. Olha pra esse tamanho.

Continuou comendo.

— Qual seu nome, jovenzinho? — a voz rouca do gato estranho se aproximava do filhote cada vez mais. Com passos lentos, sua cor cinza encardida se destacava.

— Não tenho um. Onde já se viu gato ter nome? — o gato cinza riu.

— E quem disse que você não pode ter um? — pausa para lamber a pata esquerda. — O meu é Adalberto, foi minha antiga dona que deu.

— Então o meu é Adalborto — a fome do filhote ainda resistia. Adalberto deu um pulo ao escutar o filhote.

— Blasfêmia! Você não pode se dar um nome, ora pelos! Seu nome deve ser merecido.


            Com bastante agilidade, Adalberto se dirigia para a entrada da rua, enquanto sentava e lambia a pata traseira. O olhar que deu para trás foi suficiente para o filhote notar que ele devia seguir o seu possível novo amigo. 


— Para onde vamos? — perguntou o filhote ainda lambendo os lábios.

— Te conseguir um nome!


            Conhecendo a manha das ruas, Adalberto guiou o filhote pelos lugares que mais tinham pessoas. O gatinho não sabia, mas o velho gato de rua queria era conseguir uma família para ele. O tal nome, no caso, viria junto de uma casa quentinha para passar o natal -  quem sabe uns petiscos também. 


— Logo ali, o lugar perfeito!


            Gritos, correria, choro, sons de ferros enferrujados definiam o parquinho. Crianças de todas idades desfrutavam enquanto os pais conversavam sobre qualquer coisa. Os primeiros dois adultos acariciados por Adalberto foram bem infelizes com o gesto de amor oferecido pelo felino. O gatinho até ficou encabulado de tentar alguma coisa, mas sua coragem era maior. Seu tamanho ajudava muito, um gatinho no meio do parque chamava muita atenção. Muitas crianças pegavam no colo, sacudiam, jogavam pra cima, até puxavam o rabo - selvagens!


— Mamãe, podemos ficar com ele?

— Você tá louca? Gato preto dá azar!


            Foi assim que o pequeno felino não conseguiu uma família. As crianças, livre de superstições bestas dos adultos, adoravam o gatinho, mas não podiam levar pra casa. Adalberto até sentiu pena por alguns instantes. 


— Ora ora, parece que você conseguiu um nome. - Uma lambida para animar o seu novo amigo. — Você vai se chamar Gatinho!

— Mas isso é um nome? - perguntou Gatinho, cabisbaixo.

— Agora é! 


            A dupla das ruas ficou bastante amiga. Adalberto até deixava o Gatinho comer na sua lixeira! Era um avanço e tanto! Com a chegada do frio, os dois precisavam achar um lugar para se aquecer. Conseguir uma família não era uma boa ideia por questões raciais. Em meio a uma fuga de cachorros sedentos por gatos que os dois encontraram Os Rebeldes. 


            O galpão da companhia de alimentos Coma Bem ou Morra com Fome fora abandonado anos atrás quando a empresa faliu - por que será? Para evitar que sem tetos tomassem o prédio, a empresa responsável pelo terreno resolveu lacrar todas entradas e janelas. O bom nisso é que somente animais de pequeno porte conseguiam entrar pelos buracos do galpão. Foi assim que surgiu a base dos Rebeldes. 


            Os cachorros ficaram com a parte do térreo. Sua área era categorizada por latidos descontrolados e randômicos durante o dia. Brigas constantes e o cheiro de merda. Ainda no térreo, em meio a caixas grandes, era o território dos inimigos mortais dos gatos. Os ratos viviam em harmonia, uma vez ou outra fugindo dos cachorros. No segundo piso que começava o território dos gatos. Com acesso somente pelo teto, os habitantes do térreo não conseguiam chegar. Obviamente só os ratos esguios conseguiam, mas eles não eram burros suficientes para chegar no paraíso dos felinos.


            Anna era a gata mais velha do local. Gostava de chamar todos os habitantes de Rebeldes, os que insurgiram contra sociedade. Com a chegada da nossa dupla preferida de gatos, ambos já foram bombardeados por regras da chefa. Alimento deve ser compartilhado. Lambidas sempre que possível. Lamber o próximo. Ser lambido - e sem ficar bravo! Coisas simples que, segundo ela, faziam dos Rebeldes o melhor lugar para se viver em toda cidade. 


            Quando o sol ia embora, todos se reuniam em baixo da parte aberta do telhado. A luz da lua iluminava de um modo que parecia um acampamento humano, com todos em volta de uma fogueira. Anna contava histórias de sua vida - eram muitas. A que mais atraiu todos foi de histórias de Natal. Por mais que a maioria de suas histórias fossem verdade, essas de natal eram todos inventadas. O imaginário era uma escapatória para ela e para todos os gatos sobreviventes desse mundo doido. 


            A história da noite foi de quando ela viu pela primeira vez o Gato Noel. Quando ainda era uma pequenina, sua mãe levava todos filhotes para o telhado do prédio onde viviam para ver as estrelas. Num desses dias, como se fosse mágica, exatamente na noite de Natal, o Gato Noel apareceu largando coisas gostosas para todos eles comerem. Foi a melhor noite de todas, segundo Anna. 


— E nesse natal ele vai aparecer pra gente? — perguntou o Gatinho com uma inocência invejável.

Silêncio.

— Se você se ser um bom gato, sim, querido. — respondeu Anna, com um tom de esperança com aquela pitada de descrença. Os outros gatos, talvez até esperando uma resposta positiva mais concreta, saíram desanimados.






            A história de Natal da chefia deixou o Gatinho pensando bastante. Por mais que Anna tivesse dito que ele aparecia caso fosse um bom gato, por que nos anos anteriores ele não apareceu? Ela estava mentindo! Mas claro que não de um modo ruim, pensou, foi para tranquilizar todos. Foi nesse momento que Gatinho teve uma ideia. Do outro lado do galpão, Adalberto dormia com as patas para cima.


— Adalberto, acorda. — Gatinho subia em cima do amigo. — Tive uma ideia, preciso da sua ajuda, vamos fazer o nosso próprio Natal com o pessoal.

— Deixa disso, garoto. — o dorminhoco se virou para evitar de perder o sono. — Seja um bom gato, só isso, escute o que a velha disse.

— Ela só falou isso pra gente não ficar triste! — outro pulo em cima de seu amigo que dessa vez levantou, ainda com os olhos quase fechados.


            Os dois então partiram para fora do galpão, na madrugada. Como fossem ninjas da noite, os prédios eram seu meio de locomoção mais rápido. Mesmo ainda não sabendo os planos do filhote, Adalberto seguiu sem resmungar. Aquela aventura era necessária para o jovem gato, pensou. Só pararam quando chegaram bem acima de uma certa rua, onde avistaram um frango bem chamativo. A janela que saia o cheiro estava completamente aberta, como se chamasse os dois para o melhor banquete de suas vidas. Ao se aproximarem, notaram que lá dentro a família estava reunida na sala assistindo televisão. 


— Vamos entrar. — ordenou Gatinho, já se pondo na entrada da janela. Adalberto até se assustou com a iniciativa do garoto. O que um frango não fazia nos gatos!? O cinzento também entrou.


            Na cozinha, além do frango no forno, tinha outro ainda cru no balcão. Estava enrolado em uma sacola. Sem fazer muito barulho, Gatinho tentava puxar com a boca a sacola para a janela. Adalberto ajudou o pequenino. Com a força dos dois e um belo trabalho em equipe, conseguiram levar o frango para fora. Tiveram mais dificuldade em se locomover com aquela sacola. Depois de várias quedas, finalmente conseguiram chegar a uma distância considerável da casa. 


— Hou, hou, hou. Gatinho Noel chegou! — Adalberto acordou todos com a canção adaptada. Uma luz de alegria tomou os olhos de todos os gatos do lugar. Mal acreditavam que iriam comer um frango inteiro! Como fossem animais selvagens em busca de uma presa, alguns até se estapearam por causa da comida. Claro que até a chefia chegar. 


— Sejam gatos civilizados! Tem pedaço para todo mundo, então vamos dividir. — ordenou Anna enquanto se aproximava da dupla responsável por trazer o alimento.

— Vocês são o símbolo do Natal. Se vocês tivessem trazido grãos de ração, já teria sido suficiente para serem amados por todos aqui presentes. Gatinho, você é um anjo.


            Assim a noite de Natal de todos os gatos foi a melhor de todas. Gatinho recebeu lambidas para a vida toda naquela noite. Adalberto preferiu só ficar dormindo mesmo.


            Feliz natal.



conto escrito por
Douglas Barres

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela



Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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