ÚLTIMAS LÁGRIMAS
A chuva caía lentamente, como se a própria
natureza lamentasse em silêncio. Luna apertava seu velho amigo nos braços,
sentindo a energia sombria que antes pulsava ao redor dissipar-se entre as
árvores da floresta. A última lua cheia iluminava a escuridão com uma luz
pálida e doentia. Ela não sabia o que o amanhecer traria, mas com a chegada da
lua minguante, os pesadelos se confundiam com sonhos, e os hipócritas, como
Ademilson, renasciam das sombras, líderes de uma farsa envolta em mentiras.
Nos seus braços, Bob parecia tão frágil
quanto a esperança que lhe restava. Quando se deu conta, seus olhos estavam
fixos no marido, que cavava um buraco no quintal prestes ao amanhecer, enquanto
a chaleira gritava no fogão, esperando o café a ser coado. O destino de Bob
estava selado: ele seria enterrado para sempre sob o antigo pé de biri-biri. As
últimas lágrimas escorriam silenciosas dos olhos castanhos de Luna,
misturando-se com a chuva. Algo dentro dela se transformava naquele instante,
uma nova determinação, fria e sombria, tomando conta de sua alma.
— Estou me
sentindo um completo fracasso — desabafou Rafael, afundando-se na cadeira. Ele
segurava um copo de água, seus olhos fixos em Luna, que permanecia em silêncio,
como se estivesse prestes a ser engolida por um vazio tão vasto quanto um
buraco negro. No fundo, ela parecia vazia. O marido não a reconhecia mais, e
isso o atormentava. Nos momentos de solidão, Rafael sempre sentia saudades da
esposa de antes, da mulher que acordava ao seu lado com um sorriso suave e
acolhedor, sua grande confidente.
Ele tomou as mãos
frias de Luna antes de continuar a falar, a voz carregada de peso.
— Tentei me
levantar tantas vezes, mas parecia que algo me acorrentava à cama. Era como se
eu estivesse preso naquela floresta. Não gostei dessa sensação esmagadora...
Luna o
interrompeu, a voz baixa, mas carregada de uma angústia sombria.
— A sensação de
não ter mais controle. Eu sinto isso o tempo todo. Cada segundo, a cada
instante... Não consigo fazer nada sem que uma sombra negra pairando sobre mim.
Ela sorri sempre que eu sucumbo ao sofrimento. Não acho que vou encontrar paz
de novo. Não acho que vou ser feliz. Tudo o que eu queria era fugir... Fugir
para longe, para um lugar onde a felicidade ainda seja possível.
Rafael apertou os lábios, tentando conter o pranto que agora tomava conta de seu rosto. Ele não deveria ter ouvido a esposa quando ela insistiu em deixar o vilarejo, mas o medo de enfrentar seu próprio orgulho o consumia. Melhor ser motivo de chacota por voltar para casa, por ter cedido a uma lenda urbana, do que acabar sendo a próxima vítima de algo muito pior. Seus olhos ainda estavam em Luna, enquanto a luz do sol infiltrava-se pelas árvores, trazendo um brilho morno e indiferente que não alcançava a escuridão dentro dele.
※※※※
Rafael já não
conseguia passar um único dia longe da delegacia, especialmente depois da
última noite de lua cheia. Os murmúrios pelas ruas de Vale Verde se espalhavam
como fogo em pavio, incendiando a curiosidade e o medo dos moradores. Ao chegar
no modesto prédio da delegacia, foi recebido por Dona Mocinha, que logo
perguntou por Luna. Sua esposa havia retornado para a casa da velha amiga,
buscando se sentir, ao menos um pouco, mais protegida. Ele não tinha coragem de
deixar Luna sozinha em casa — aquele lugar já não era mais o lar deles, não
depois da última noite. Não depois de ter enterrado seu melhor amigo.
Bob, o pequeno
vira-lata, havia conquistado Rafael desde o primeiro instante. Ele nunca tivera
um cachorro antes, devido às malditas alergias, mas Bob fora uma exceção,
predestinado a entrar em sua vida. O cãozinho adorava comer arroz com fígado e
correr contra o vento, livre, como Rafael desejava ser. Agora, aquele encanto
havia sido soterrado junto ao corpo de Bob, deixando uma sombra permanente no
coração de Rafael.
Enquanto tomava um
gole de café preto, o aroma forte da bebida, sempre tão reconfortante, parecia
amargo demais, como se nem o açúcar pudesse adoçá-lo. Era como o céu, que,
embora azul, já não possuía cor alguma. Tudo estava cinza, vazio. Seus olhos
vagaram até a senhora que se sentava à sua frente, tentando, em vão, oferecer
alguma palavra de conforto. Mas o mundo de Rafael estava envolto em uma
escuridão que nem mesmo a mais doce companhia poderia dissipar.
— Seu sogro ligou
esta manhã, antes de você chegar à delegacia — comentou Dona Mocinha, enquanto
observava Rafael com um olhar preocupado. — Ele disse que está vindo passar o
fim de semana com Luna. Vai trazer alguns amigos do Exército... para protegê-la.
Certamente de Ademilson e do velho Chico.
Rafael tomou mais
um gole de café, deixando o líquido amargo queimar sua garganta antes de
responder.
— O Chico me
procurou ontem — começou ele, a voz carregada de dúvida. — Disse que está
arrependido desde a morte de Lúcia. Não quer que as coisas continuem como
estão, que o filho está indo por um caminho errado. Mas, segundo ele, não
consegue mudar a cabeça de Ademilson. Ele cresceu ouvindo aquelas bobagens...
Viu o pai queimar uma mulher viva, bem na frente de todos, e agora quer bancar
o velho arrependido. Não sei se consigo acreditar em suas palavras, Mocinha... Contudo,
por um momento, ele pareceu sincero. Não usou aquelas frases prontas que a
gente costuma ouvir.
Ele esfregou a
testa, como se tentasse dissipar o peso da confusão que o atormentava.
— Talvez Chico
realmente esteja arrependido — continuou Rafael, a voz mais baixa. — Mas e se
não for? E se isso for só mais uma peça no jogo deles? Sinceramente, não sei
mais no que acreditar...
Rafael finalizou o café enquanto observava
Dona Mocinha sair do escritório. As horas se passaram, e ele ficou grande parte
da manhã preso na sala fechada, ouvindo apenas o barulho do ventilador de teto.
Nem Dona Mocinha, nem Mathias estavam presentes quando ele ouviu o barulho da
porta bater. Era Ademilson, acompanhado por três de seus homens.
— Hoje faremos uma reunião, às 21 horas,
em frente ao colégio municipal. Queremos todos os moradores presentes, Doutor
Delegado, inclusive a sua mulher, que continua escondida na casa da família
Castro. Caso ela não apareça... — Ademilson continuou em tom de ameaça, sem se
importar com o cargo de Rafael, que aos olhos dele, não significava nada diante
de seu respeito entre os moradores e políticos da região. — Se Luna não
aparecer, iremos buscá-la à força!
— Com que autoridade?
— perguntou Rafael, tentando conter o nervosismo.
— Autoridade? —
sussurrou Ademilson. — Eu não preciso de autoridade delegado. Só preciso de
poder. E você sabe muito bem que eu tenho o suficiente.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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