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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 28

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 28

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A chuva caía lentamente, como se a própria natureza lamentasse em silêncio. Luna apertava seu velho amigo nos braços, sentindo a energia sombria que antes pulsava ao redor dissipar-se entre as árvores da floresta. A última lua cheia iluminava a escuridão com uma luz pálida e doentia. Ela não sabia o que o amanhecer traria, mas com a chegada da lua minguante, os pesadelos se confundiam com sonhos, e os hipócritas, como Ademilson, renasciam das sombras, líderes de uma farsa envolta em mentiras.

Nos seus braços, Bob parecia tão frágil quanto a esperança que lhe restava. Quando se deu conta, seus olhos estavam fixos no marido, que cavava um buraco no quintal prestes ao amanhecer, enquanto a chaleira gritava no fogão, esperando o café a ser coado. O destino de Bob estava selado: ele seria enterrado para sempre sob o antigo pé de biri-biri. As últimas lágrimas escorriam silenciosas dos olhos castanhos de Luna, misturando-se com a chuva. Algo dentro dela se transformava naquele instante, uma nova determinação, fria e sombria, tomando conta de sua alma.

— Estou me sentindo um completo fracasso — desabafou Rafael, afundando-se na cadeira. Ele segurava um copo de água, seus olhos fixos em Luna, que permanecia em silêncio, como se estivesse prestes a ser engolida por um vazio tão vasto quanto um buraco negro. No fundo, ela parecia vazia. O marido não a reconhecia mais, e isso o atormentava. Nos momentos de solidão, Rafael sempre sentia saudades da esposa de antes, da mulher que acordava ao seu lado com um sorriso suave e acolhedor, sua grande confidente.

Ele tomou as mãos frias de Luna antes de continuar a falar, a voz carregada de peso.

— Tentei me levantar tantas vezes, mas parecia que algo me acorrentava à cama. Era como se eu estivesse preso naquela floresta. Não gostei dessa sensação esmagadora...

Luna o interrompeu, a voz baixa, mas carregada de uma angústia sombria.

— A sensação de não ter mais controle. Eu sinto isso o tempo todo. Cada segundo, a cada instante... Não consigo fazer nada sem que uma sombra negra pairando sobre mim. Ela sorri sempre que eu sucumbo ao sofrimento. Não acho que vou encontrar paz de novo. Não acho que vou ser feliz. Tudo o que eu queria era fugir... Fugir para longe, para um lugar onde a felicidade ainda seja possível.

Rafael apertou os lábios, tentando conter o pranto que agora tomava conta de seu rosto. Ele não deveria ter ouvido a esposa quando ela insistiu em deixar o vilarejo, mas o medo de enfrentar seu próprio orgulho o consumia. Melhor ser motivo de chacota por voltar para casa, por ter cedido a uma lenda urbana, do que acabar sendo a próxima vítima de algo muito pior. Seus olhos ainda estavam em Luna, enquanto a luz do sol infiltrava-se pelas árvores, trazendo um brilho morno e indiferente que não alcançava a escuridão dentro dele. 

※※※※

Rafael já não conseguia passar um único dia longe da delegacia, especialmente depois da última noite de lua cheia. Os murmúrios pelas ruas de Vale Verde se espalhavam como fogo em pavio, incendiando a curiosidade e o medo dos moradores. Ao chegar no modesto prédio da delegacia, foi recebido por Dona Mocinha, que logo perguntou por Luna. Sua esposa havia retornado para a casa da velha amiga, buscando se sentir, ao menos um pouco, mais protegida. Ele não tinha coragem de deixar Luna sozinha em casa — aquele lugar já não era mais o lar deles, não depois da última noite. Não depois de ter enterrado seu melhor amigo.

Bob, o pequeno vira-lata, havia conquistado Rafael desde o primeiro instante. Ele nunca tivera um cachorro antes, devido às malditas alergias, mas Bob fora uma exceção, predestinado a entrar em sua vida. O cãozinho adorava comer arroz com fígado e correr contra o vento, livre, como Rafael desejava ser. Agora, aquele encanto havia sido soterrado junto ao corpo de Bob, deixando uma sombra permanente no coração de Rafael.

Enquanto tomava um gole de café preto, o aroma forte da bebida, sempre tão reconfortante, parecia amargo demais, como se nem o açúcar pudesse adoçá-lo. Era como o céu, que, embora azul, já não possuía cor alguma. Tudo estava cinza, vazio. Seus olhos vagaram até a senhora que se sentava à sua frente, tentando, em vão, oferecer alguma palavra de conforto. Mas o mundo de Rafael estava envolto em uma escuridão que nem mesmo a mais doce companhia poderia dissipar.

— Seu sogro ligou esta manhã, antes de você chegar à delegacia — comentou Dona Mocinha, enquanto observava Rafael com um olhar preocupado. — Ele disse que está vindo passar o fim de semana com Luna. Vai trazer alguns amigos do Exército... para protegê-la. Certamente de Ademilson e do velho Chico.

Rafael tomou mais um gole de café, deixando o líquido amargo queimar sua garganta antes de responder.

— O Chico me procurou ontem — começou ele, a voz carregada de dúvida. — Disse que está arrependido desde a morte de Lúcia. Não quer que as coisas continuem como estão, que o filho está indo por um caminho errado. Mas, segundo ele, não consegue mudar a cabeça de Ademilson. Ele cresceu ouvindo aquelas bobagens... Viu o pai queimar uma mulher viva, bem na frente de todos, e agora quer bancar o velho arrependido. Não sei se consigo acreditar em suas palavras, Mocinha... Contudo, por um momento, ele pareceu sincero. Não usou aquelas frases prontas que a gente costuma ouvir.

Ele esfregou a testa, como se tentasse dissipar o peso da confusão que o atormentava.

— Talvez Chico realmente esteja arrependido — continuou Rafael, a voz mais baixa. — Mas e se não for? E se isso for só mais uma peça no jogo deles? Sinceramente, não sei mais no que acreditar...

Rafael finalizou o café enquanto observava Dona Mocinha sair do escritório. As horas se passaram, e ele ficou grande parte da manhã preso na sala fechada, ouvindo apenas o barulho do ventilador de teto. Nem Dona Mocinha, nem Mathias estavam presentes quando ele ouviu o barulho da porta bater. Era Ademilson, acompanhado por três de seus homens.

— Hoje faremos uma reunião, às 21 horas, em frente ao colégio municipal. Queremos todos os moradores presentes, Doutor Delegado, inclusive a sua mulher, que continua escondida na casa da família Castro. Caso ela não apareça... — Ademilson continuou em tom de ameaça, sem se importar com o cargo de Rafael, que aos olhos dele, não significava nada diante de seu respeito entre os moradores e políticos da região. — Se Luna não aparecer, iremos buscá-la à força!

— Com que autoridade? — perguntou Rafael, tentando conter o nervosismo.

— Autoridade? — sussurrou Ademilson. — Eu não preciso de autoridade delegado. Só preciso de poder. E você sabe muito bem que eu tenho o suficiente.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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