AS FASES DE LUNA
— VOCÊ SE SENTE SEGURA NESSE MOMENTO?
A pergunta ecoou na mente de Luna,
enquanto sua imagem se refletia no vidro da janela. Seu rosto pálido encarava o
reflexo do Homem de Olhos Vermelhos, parado no meio da floresta, iluminado
pelas chamas do lado oculto da lua. Era como se os dois estivessem à beira de
um penhasco, entrelaçados por uma força invisível que sugava sua alma. Luna
ergueu a sobrancelha, percebendo que estava imóvel por mais de cinco minutos,
aprisionada em pensamentos que a mantinham em cativeiro. Só despertou desse
torpor quando Nassy estalou os dedos, um sorriso pacífico no rosto, como se
tudo estivesse sob controle.
Luna tentou esboçar um sorriso, mas o
desconforto era visível. Sentiu a brisa gelada atravessar seu peito, enquanto
se sentava na cadeira da cozinha, os músculos pesados e tensos. Droga! Aquele
desgraçado ainda a assombrava, dominando seus pensamentos, suas ações, sua
sanidade.
— Luna, pergunto isso porque essa é a
última noite de lua cheia — continuou Nassy, sua voz suave, porém carregada de
algo sombrio. — Logo não haverá mais proteção. As pessoas vão virar contra
você, vão tentar quebrar esse ciclo de qualquer forma, mesmo que signifique
ceifar mais uma vida inocente.
Havia um peso nas palavras de Nassy, como
se ela estivesse revivendo a dor da perda de Lúcia, a amiga que havia sido sua
confidente nos poucos meses em Vale Verde. Eram outros tempos. A floresta era
densa, cheia de mistérios, e a pequena vila, isolada do mundo, vivia das
histórias que se contavam na varanda das casas. O mundo era mais simples. As
lendas, antes sussurradas como contos noturnos, tornaram-se realidades amargas.
O avanço do progresso e do dinheiro trouxe o horror à superfície, e o que restava
daquela floresta agora era um cemitério de segredos.
— Sei que essa história vai me levar à
morte, Nassy — Luna murmurou, a voz quase um sussurro, cortada por um nó na
garganta. — Talvez não fisicamente, mas por dentro. Eu sei que não vou realizar
meus sonhos. E, acima de tudo, não vou mais conseguir amar o homem que por
tanto tempo vi apenas como um amigo.
Nassy abriu a boca para interrompê-la, mas
Luna foi mais rápida.
— Eu só tenho uma escolha.
As forças de Luna sumiam a cada dia que
passava. Já não conseguia ficar no mesmo ambiente que Rafael, apesar de ainda
desejar, em algum canto esquecido da mente, o conforto do corpo dele. Aos
poucos, ela se despedia de todos. Do marido, dos poucos amigos que restavam, e
principalmente de sua família. A cada gesto, a cada olhar, era como se dissesse
adeus sem que eles soubessem.
Naquela noite, antes de adormecer, Luna
tomou um gole de chá de erva-doce, queimando levemente a língua. Sentia o olhar
da lua sobre ela, como se o próprio satélite estivesse determinado a perpetuar
a maldição. As fases da lua... as fases de Luna. O amor que ela tinha pela
astrologia havia morrido no momento em que pisou no vilarejo, e a vontade de
terminar sua faculdade de pedagogia desapareceu junto com ele. Não havia mais
prazer, não havia mais esperança. Seu futuro parecia um caminho branco, vazio, sem
fim. Apenas uma linha reta que levava ao abismo.
O primeiro trovão reverberou pelos céus
enquanto Luna se perdia em um sono profundo, porém não havia mais sonhos —
apenas um vazio pálido, um mundo desprovido de cor e significado. A chuva
começou a cair com força, inundando o ambiente ao redor. Mesmo sem ver, Luna
sentia a água fria subindo, lamacenta, e o gosto amargo da terra penetrava seus
lábios. Ela não estava apenas dormindo, estava afundando, sendo engolida viva
pelo seu próprio corpo. Cada gota de chuva parecia pesar toneladas,
empurrando-a mais fundo, como se estivesse sendo enterrada.
Um relâmpago cortou o céu, e foi nesse
clarão que Luna despertou, engasgada, os pulmões ardendo enquanto cuspia a
terra que sufocava sua garganta. O pânico tomou conta, e ela percebeu que
estava em uma cova rasa, úmida e opressiva. Suas mãos cavaram desesperadamente,
lutando para se livrar do solo úmido que ainda cobria parte de seu corpo. O
terror era físico e psicológico — seus ossos pareciam trair sua vontade, sua
mente tentava escapar, mas o corpo recusava a obedecer.
O que era real? O que era sonho? A
sensação de estar sendo soterrada viva, sufocada pela terra, era tão vívida que
não parecia mais apenas uma metáfora de seu estado mental — era uma prisão
física, cruel e implacável.
Lutando contra a paralisia que a dominava,
Luna sentiu cada segundo se arrastar como uma eternidade. Três longos minutos
se passaram até que ela finalmente conseguisse mover-se. Seus músculos tremiam,
as juntas estalavam, mas ela se ergueu, saindo daquele buraco como uma
sobrevivente de seu próprio enterro. O frio da chuva ainda caía sobre sua pele,
mas o calor do terror era mais forte. O que quer que estivesse acontecendo,
Luna sabia que não era só um pesadelo — era algo muito mais profundo. Ela não
estava apenas lutando contra seu corpo, estava lutando contra algo que desejava
devorá-la, de dentro para fora.
Luna se levantou com dificuldade, com os
olhos pesados, e reconheceu o velho pé de acerola no quintal. Aquele era o seu
lar, seu refúgio, agora se tornaria sua sepultura. O latido desesperado de Bob
rasgava o ar, seus gritos impotentes ecoando contra a presença do Homem de
Olhos Vermelhos, que pairava sobre a cena como uma sombra viva. Luna sentiu o
coração apertar no peito, onde estava Rafael?
O monstro, com seus longos braços, não
demorou a capturar Bob. Luna, paralisada pelo horror, assistiu impotente
enquanto o ser abocanhava o pescoço do cachorro, sugando o sangue gota por
gota. Ela gritou, um grito que parecia não pertencer à sua própria voz, mas o
som se misturou com o trovão, sumindo na tempestade. Bob se contorceu uma
última vez antes de ser abandonado pelo destino cruel, e Luna sabia — seu
pequeno protetor havia sido levado para sempre.
Sem pensar, ela correu em direção ao
homem, os pés afundando na lama, a chuva fria batendo em seu rosto. Quando se
aproximou, o corpo de Bob foi arremessado brutalmente em sua direção. Ela mal
teve tempo de reagir antes que o corpo mole e sem vida do cachorro atingisse
seu rosto. Mas aquilo... aquilo não era mais Bob. Era apenas um cadáver, um
farrapo vazio que havia sido seu amigo fiel.
Ela caiu de joelhos no chão encharcado, o
corpo do cachorro aos seus pés, o calor de sua vida desaparecido para sempre.
As lágrimas de Luna se misturavam com a chuva que caía furiosa, e a sensação de
desespero a envolvia por completo. Sentia-se encurralada, impotente diante do
mal que havia invadido sua vida.
— O QUE VOCÊ QUER DE MIM? — Luna gritou
com todas as suas forças, a voz quebrada pela dor e pelo medo. O eco de suas
palavras parecia se perder no vazio, enquanto o Homem de Olhos Vermelhos
permanecia imóvel, um sorriso sombrio se formando em seus lábios, como se o
sofrimento dela fosse o seu prazer.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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