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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 27

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 27

AS FASES DE LUNA

— VOCÊ SE SENTE SEGURA NESSE MOMENTO?

A pergunta ecoou na mente de Luna, enquanto sua imagem se refletia no vidro da janela. Seu rosto pálido encarava o reflexo do Homem de Olhos Vermelhos, parado no meio da floresta, iluminado pelas chamas do lado oculto da lua. Era como se os dois estivessem à beira de um penhasco, entrelaçados por uma força invisível que sugava sua alma. Luna ergueu a sobrancelha, percebendo que estava imóvel por mais de cinco minutos, aprisionada em pensamentos que a mantinham em cativeiro. Só despertou desse torpor quando Nassy estalou os dedos, um sorriso pacífico no rosto, como se tudo estivesse sob controle.

Luna tentou esboçar um sorriso, mas o desconforto era visível. Sentiu a brisa gelada atravessar seu peito, enquanto se sentava na cadeira da cozinha, os músculos pesados e tensos. Droga! Aquele desgraçado ainda a assombrava, dominando seus pensamentos, suas ações, sua sanidade.

— Luna, pergunto isso porque essa é a última noite de lua cheia — continuou Nassy, sua voz suave, porém carregada de algo sombrio. — Logo não haverá mais proteção. As pessoas vão virar contra você, vão tentar quebrar esse ciclo de qualquer forma, mesmo que signifique ceifar mais uma vida inocente.

Havia um peso nas palavras de Nassy, como se ela estivesse revivendo a dor da perda de Lúcia, a amiga que havia sido sua confidente nos poucos meses em Vale Verde. Eram outros tempos. A floresta era densa, cheia de mistérios, e a pequena vila, isolada do mundo, vivia das histórias que se contavam na varanda das casas. O mundo era mais simples. As lendas, antes sussurradas como contos noturnos, tornaram-se realidades amargas. O avanço do progresso e do dinheiro trouxe o horror à superfície, e o que restava daquela floresta agora era um cemitério de segredos.

— Sei que essa história vai me levar à morte, Nassy — Luna murmurou, a voz quase um sussurro, cortada por um nó na garganta. — Talvez não fisicamente, mas por dentro. Eu sei que não vou realizar meus sonhos. E, acima de tudo, não vou mais conseguir amar o homem que por tanto tempo vi apenas como um amigo.

Nassy abriu a boca para interrompê-la, mas Luna foi mais rápida.

— Eu só tenho uma escolha.

As forças de Luna sumiam a cada dia que passava. Já não conseguia ficar no mesmo ambiente que Rafael, apesar de ainda desejar, em algum canto esquecido da mente, o conforto do corpo dele. Aos poucos, ela se despedia de todos. Do marido, dos poucos amigos que restavam, e principalmente de sua família. A cada gesto, a cada olhar, era como se dissesse adeus sem que eles soubessem.

Naquela noite, antes de adormecer, Luna tomou um gole de chá de erva-doce, queimando levemente a língua. Sentia o olhar da lua sobre ela, como se o próprio satélite estivesse determinado a perpetuar a maldição. As fases da lua... as fases de Luna. O amor que ela tinha pela astrologia havia morrido no momento em que pisou no vilarejo, e a vontade de terminar sua faculdade de pedagogia desapareceu junto com ele. Não havia mais prazer, não havia mais esperança. Seu futuro parecia um caminho branco, vazio, sem fim. Apenas uma linha reta que levava ao abismo.

O primeiro trovão reverberou pelos céus enquanto Luna se perdia em um sono profundo, porém não havia mais sonhos — apenas um vazio pálido, um mundo desprovido de cor e significado. A chuva começou a cair com força, inundando o ambiente ao redor. Mesmo sem ver, Luna sentia a água fria subindo, lamacenta, e o gosto amargo da terra penetrava seus lábios. Ela não estava apenas dormindo, estava afundando, sendo engolida viva pelo seu próprio corpo. Cada gota de chuva parecia pesar toneladas, empurrando-a mais fundo, como se estivesse sendo enterrada.

Um relâmpago cortou o céu, e foi nesse clarão que Luna despertou, engasgada, os pulmões ardendo enquanto cuspia a terra que sufocava sua garganta. O pânico tomou conta, e ela percebeu que estava em uma cova rasa, úmida e opressiva. Suas mãos cavaram desesperadamente, lutando para se livrar do solo úmido que ainda cobria parte de seu corpo. O terror era físico e psicológico — seus ossos pareciam trair sua vontade, sua mente tentava escapar, mas o corpo recusava a obedecer.

O que era real? O que era sonho? A sensação de estar sendo soterrada viva, sufocada pela terra, era tão vívida que não parecia mais apenas uma metáfora de seu estado mental — era uma prisão física, cruel e implacável.

Lutando contra a paralisia que a dominava, Luna sentiu cada segundo se arrastar como uma eternidade. Três longos minutos se passaram até que ela finalmente conseguisse mover-se. Seus músculos tremiam, as juntas estalavam, mas ela se ergueu, saindo daquele buraco como uma sobrevivente de seu próprio enterro. O frio da chuva ainda caía sobre sua pele, mas o calor do terror era mais forte. O que quer que estivesse acontecendo, Luna sabia que não era só um pesadelo — era algo muito mais profundo. Ela não estava apenas lutando contra seu corpo, estava lutando contra algo que desejava devorá-la, de dentro para fora.

Luna se levantou com dificuldade, com os olhos pesados, e reconheceu o velho pé de acerola no quintal. Aquele era o seu lar, seu refúgio, agora se tornaria sua sepultura. O latido desesperado de Bob rasgava o ar, seus gritos impotentes ecoando contra a presença do Homem de Olhos Vermelhos, que pairava sobre a cena como uma sombra viva. Luna sentiu o coração apertar no peito, onde estava Rafael?

O monstro, com seus longos braços, não demorou a capturar Bob. Luna, paralisada pelo horror, assistiu impotente enquanto o ser abocanhava o pescoço do cachorro, sugando o sangue gota por gota. Ela gritou, um grito que parecia não pertencer à sua própria voz, mas o som se misturou com o trovão, sumindo na tempestade. Bob se contorceu uma última vez antes de ser abandonado pelo destino cruel, e Luna sabia — seu pequeno protetor havia sido levado para sempre.

Sem pensar, ela correu em direção ao homem, os pés afundando na lama, a chuva fria batendo em seu rosto. Quando se aproximou, o corpo de Bob foi arremessado brutalmente em sua direção. Ela mal teve tempo de reagir antes que o corpo mole e sem vida do cachorro atingisse seu rosto. Mas aquilo... aquilo não era mais Bob. Era apenas um cadáver, um farrapo vazio que havia sido seu amigo fiel.

Ela caiu de joelhos no chão encharcado, o corpo do cachorro aos seus pés, o calor de sua vida desaparecido para sempre. As lágrimas de Luna se misturavam com a chuva que caía furiosa, e a sensação de desespero a envolvia por completo. Sentia-se encurralada, impotente diante do mal que havia invadido sua vida.

— O QUE VOCÊ QUER DE MIM? — Luna gritou com todas as suas forças, a voz quebrada pela dor e pelo medo. O eco de suas palavras parecia se perder no vazio, enquanto o Homem de Olhos Vermelhos permanecia imóvel, um sorriso sombrio se formando em seus lábios, como se o sofrimento dela fosse o seu prazer. 

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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