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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 18

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 18

“ISSO ESTÁ APENAS COMEÇANDO...”

A MANHÃ COMEÇOU MUITO ANTES DAS CINCO HORAS, QUANDO LUNA SE LEVANTOU DA CAMA, DEIXANDO RAFAEL SOZINHO NA ESCURIDÃO DO QUARTO. Ela caminhou lentamente, deixando os pés sentirem o piso de cimento gelado. O frio não a incomodava enquanto passava pelos cômodos. Bob, não a seguia como de costume; parecia temer a presença da dona, ou o que ela estava prestes a se tornar. Nem mesmo Luna se reconhecia ao olhar no espelho; a antiga Luna, que cresceu sob os olhares de uma mulher maquiavélica, tinha desaparecido completamente.

— Estou com fome — ela disse, tirando uma sacola da geladeira, evitando fazer barulho, e levando o pedaço de carne para fora, onde pudesse se alimentar. Na frente de Rafael, não conseguia ser essa pessoa; tornando-se a velha esposa amada, dona do lar. Ela começou a abocanhar um quilo de fraldinha, sob a luz da lua cheia. Enquanto os olhos vermelhos a observavam.

Ele também se alimentava quando Luna comia.

A pele de Luna ficava mais vibrante em contato com o sangue da carne. Em menos de vinte minutos, o pedaço de carne desapareceu de suas mãos, experimentando um prazer incomum.

O Homem de Olhos Vermelhos a observava; os dois eram apenas reflexos um do outro. Ela não tinha mais medo daquele ser; pelo contrário, o elo que os conectava se tornava mais forte, transcendendo o lado oculto da lua. Luna padecia tudo que acontecia na floresta, inclusive em seus sonhos. O fio que os unia se enredava em cada uma daquelas árvores, transformando o pequeno hospedeiro em um protetor.

Logo, o atual protetor finalmente encontraria a liberdade.

— Meu amor, como eu estava com saudades do seu café da manhã — disse Rafael, arrumado para ir ao trabalho. A pedido de Luna, ele teria que visitar Dona Mocinha e o Doutor Luiz para avisar que não seria mais necessário a presença deles em sua residência. Eles tratavam Luna como uma enferma, e ela precisava se sentir mais à vontade dentro de sua própria casa.

Luna estava relaxando na sala, assistindo TV, quando ouviu o som de um carro se aproximando. Por um momento, pensou que Rafael havia retornado de Porto Seguro antes do previsto. No entanto, ao abrir a porta, deparou-se com seus pais ainda no veículo, com sorrisos que pareciam mais forçados do que calorosos.

A expressão deles fez seu coração acelerar. Rafael não poderia ter revelado o que aconteceu.

— E como você está, minha filha? — perguntou Cássio, com uma mala próxima à porta, sugerindo que provavelmente foram convidados por Rafael para passar alguns dias. Luna não teve vontade de responder à pergunta e inventou uma desculpa para se afastar dos pais, indo até a cozinha preparar um café fresco. Certamente, a matriarca reclamaria do sabor, como de costume.

Os pais se sentaram à mesa da cozinha, e Bob tratou de receber os visitantes, abanando o rabinho próximo a Cássio, que o acariciava com carinho. Enquanto isso, Luna preparava as xícaras de café, servindo também um biscoito de coco, uma receita que havia aprendido em um livro.

— Está tudo delicioso — elogiou Odete.

— A senhora está com febre ou bateu a cabeça? — questionou Luna.

— Luna... — ponderou Cássio.

— A senhora sempre me criticou, fez as piores escolhas para minha vida e nunca me deixou ter a minha própria liberdade. Todas as minhas amigas elogiavam suas mães, mas eu nunca consegui tecer uma palavra positiva sobre a senhora, Dona Odete! — Luna continuou com um tom irônico que era novo para todos ali. Os pais permaneceram em silêncio. — Nunca fui um sonho para você. Pelo contrário, se pudesse, com certeza, nunca teria me tido. E eu também nunca quis ter uma mãe como a senhora, um verdadeiro peso. Agora, pergunto novamente: o que a senhora está fazendo aqui, depois do que aconteceu da última vez? SIM, porque se eu tivesse morrido, você seria a primeira a abrir um sorriso e colocar um arranjo de flores no meu túmulo.

— NÃO FALA ASSIM COM SUA MÃE! — exclamou Cássio.

— EU PRECISO TE CONTAR A VERDADE! — desabafou Odete.

A mesa ficou em silêncio até ser quebrado pela voz de Odete.

— Eu nunca quis ser mãe, essa é a verdade! Minha mãe morreu assim que eu nasci. Fui a última filha do meu pai, que teve mais cinco filhos homens. Eu era uma empregada na casa, sempre sonhando em viver em um castelo. Lendo contos de fadas, imaginava encontrar um príncipe. Quando seu tio Reginaldo casou, eu tinha apenas doze anos, e logo seu avô começou a frequentar meu quarto, quando chegava bêbado, transformando-me em sua pequena mulher. Eu não entendia exatamente o que estávamos fazendo, porém ele me machucava muito. Comecei a me sentir mal a ir em médicos, e meu pai logo me casou com Cássio. Só depois que seu avô morreu, pude compreender o mal que ele me fez. Eu fui abusada, pela pessoa que teria que me proteger do mundo!

Luna se afastou da mesa, com o peso das revelações sobrecarregando seus pensamentos. O café e os biscoitos de coco ainda estavam sobre a mesa, esquecidos em meio à tensão. Ela caminhou até a janela, observando o jardim com um olhar distante, tentando encontrar algum sentido no turbilhão emocional que estava enfrentando.

Cássio, percebendo o estado de Luna, se levantou e tentou se aproximar dela, mas hesitou, respeitando seu espaço.

— Tudo faz sentido agora. Por isso a Odete, nunca gostou de mim. Eu sou fruto de um incesto pai, sou fruto de um estupro! Não sei como o senhor conseguiu processar, quando descobriu essa informação, mas, o senhor sempre foi o melhor pai do mundo. Mesmo quando tudo estava prestes a desmoronar. — As lágrimas se misturaram com o sorriso de Luna. — Eu te amo pai! 

※※※※

Rafael ainda não havia retornado, e o relógio se aproximava da hora da novela das sete. Luna permaneceu sentada, aguardando o marido para jantar, enquanto as informações sobre sua mãe e o pai ainda circulavam em seus pensamentos. Ela tentava reorganizar a imagem de Odete em sua mente, colocando-se no lugar da mãe e entender as motivações e o sofrimento que ela enfrentou na infância.

O barulho da porta batendo chamou sua atenção, e Luna se levantou para ver quem era a visita. Surpreendentemente, Dona Mocinha estava à porta, carregando uma cesta de frutas. Ela entrou com uma expressão de preocupação misturada com uma curiosidade discreta.

— Boa noite, Dona Mocinha. — disse Luna, tentando esconder a inquietação que sentia. — O que a senhora está fazendo aqui?

— Boa noite, minha filha. — respondeu Dona Mocinha com um sorriso acolhedor. — Eu vim trazer algumas frutas que colhi no quintal e verificar como vocês estão. Soube que o Rafael não chegou ainda, o Mathias me contou.

Luna fez sinal para Dona Mocinha entrar e a apresentou a seus pais. A anfitriã se aproximou de Cássio e Odete com uma cordialidade respeitosa.

— Este é o Cássio, meu pai, e esta é a Odete, minha mãe. — apresentou Luna, com um tom neutro. — Dona Mocinha, meus pais.

Ao erguer a mão para cumprimentar os pais de Luna, Dona Mocinha acabou se virando para a janela e contemplou o ser que a deixou petrificada: a imagem do Homem de Olhos Vermelhos a encarava próximo à floresta, se aproximando acompanhado de uma nuvem fria que acobertou toda a morada. Seu coração disparou, e ela mal conseguiu conter o pavor que a dominava.

Cássio, percebendo a situação, reagiu imediatamente, sem ao menos conhecer a criatura. Fechou todas as janelas com rapidez e firmeza. Odete trancava as portas dos fundos com mãos trêmulas. Dona Mocinha, ainda tentando recuperar o fôlego, se sentou no sofá, segurando um copo de água gelada entregue por Luna.

Luna, sentindo a tensão no ambiente, começou a se aproximar de Dona Mocinha para oferecer mais conforto, mas antes que pudesse fazer algo, uma onda de fraqueza tomou conta de seu corpo. Ela cambaleou, tentando se manter de pé, contudo, foi em vão. Em questão de segundos, Luna desmaiou no pavimento, seu corpo convulsionando.

— Luna! — gritou Cássio, correndo em sua direção, com Odete logo atrás.

Dona Mocinha tentou se levantar, porém suas pernas tremiam demais para sustentar o próprio peso. Ela assistiu, impotente, enquanto Cássio e Odete tentavam ajudar Luna, que estava inconsciente e tremendo no chão.

— Precisamos de ajuda! — disse Odete, em pânico. — Não podemos deixá-la assim! Luna!

Cássio, com o rosto crispado de preocupação, concordou. Ele olhou para Dona Mocinha, que ainda estava pálida e assustada.

— Dona Mocinha, o que está acontecendo? — perguntou Cássio. — Quem é esse homem?

— Ele... ele é o Homem de Olhos Vermelhos — respondeu Dona Mocinha.

Cássio levantou-se do chão, sabendo que não poderia ficar naquela casa. Precisava levar Luna para um hospital, pois ela começava a ficar ainda mais enfraquecida e tremendo de frio. Ele olhou por uma fresta da fechadura e viu o ser que paralisou sua alma, encarando-o com um sorriso estranho na face sombria, como se estivesse contente em ver o mundo ser engolido por uma bola de escuridão. Em seguida, sua filha parou de tremer, voltando a respirar normalmente nos braços da mãe, e murmurou uma coisa estranha:

— Isso está apenas começando...

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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