“O QUE É O HOMEM DE OLHOS VERMELHOS,
DELEGADO?”
A NOTÍCIA DE UM ASSASSINATO NO PACATO
VILAREJO DE VALE VERDE CORREU COMO UM PAVIO ACESO, ESPALHANDO-SE PELAS CIDADES
VIZINHAS E CHEGANDO AOS OUVIDOS CURIOSOS. Assim que Rafael
estacionou o carro para mais um dia de trabalho na delegacia, depois de um
período de folga, pôde ver os repórteres se aproximando como urubus em busca de
carniça. Na noite anterior, no canal 02, ele soube a identidade do
caminhoneiro: Valmir Sumaré, morador de Vitória da Conquista, pai de dois
filhos. A viúva chegou a aparecer em uma entrevista, clamando por justiça.
O que todos no vilarejo queriam naquele
momento era justiça e que a criatura desaparecesse das sombras da floresta. As
imagens da entrevista ainda assombravam Rafael: a viúva, pálida e devastada, as
lágrimas correndo pelo rosto, os olhos refletindo a tristeza indescritível. A
tensão na cidade era palpável, as sombras pareciam mais densas, e o silêncio da
floresta mais ameaçador. Cada sussurro do vento entre as árvores trazia à mente
a presença maligna que espreitava na lua cheia.
“O que é o Homem de Olhos Vermelhos,
delegado?”
Rafael trancou a porta da delegacia,
observando Mathias sentado à mesa de Dona Mocinha. Naquela altura da manhã, ela
estava cuidando de Luna. Dona Mocinha e o Doutor Luiz haviam se oferecido para
cuidar da esposa do delegado, um convite que Rafael aceitou de bom grado. Ele
não queria perder o controle do que estava para acontecer nos arredores de Vale
Verde.
— E de repente, estamos no mapa-múndi
novamente — disse Mathias, tomando um gole de café preto. — Esses otários estão
aqui desde o amanhecer. E o pior de tudo é que a matéria sobre o Homem de Olhos
Vermelhos está sendo anunciada aos quatro ventos por essas emissoras
sensacionalistas. Todo mundo acha que somos o vilarejo dos loucos, que estamos
escondendo um bandido que cometeu o crime contra aquele pobre caminhoneiro.
Eles não vão descansar até conseguirem arruinar nossa reputação.
Rafael ainda estava muito abalado para
continuar a conversa com Mathias. Ele entrou na sala principal e observou
algumas notas em cima de sua mesa. Precisava de um pouco de coragem para ligar
para o sogro. Cássio certamente chegaria o quanto antes. Luna não queria
preocupar o pai, mas para Rafael, manter a história em segredo seria quebrar o
ciclo de confiança que havia construído com o sogro. Ele pegou o telefone do
gancho e começou a discar o número. Foi atendido nos segundos seguintes por uma
voz feminina.
— Alô?
— Alô? — Rafael respondeu, reconhecendo a
voz da sogra do outro lado da linha. — Dona Odete, aqui é o Rafael. Sei que faz
tempo que não conversamos, mas preciso falar com o Cássio.
— Aconteceu alguma coisa com a Luna?
Rafael começou a apertar uma caneta. Ele
queria falar diretamente com o sogro, que era mais próximo da esposa, e não com
Odete. Mas ela era a mãe, e certamente deveria ter sentido algo diferente, caso
contrário, não teria perguntado diretamente pela filha. Um sinal de que Odete
ainda tinha um pouco de compaixão. Droga, ele pensou. Cássio não estava em casa
para atendê-lo, então seria necessário dizer diretamente a ela.
— A Luna foi atacada, Dona Odete! Não sei
se a senhora tem acompanhado os jornais sensacionalistas, mas aconteceu um
assassinato aqui em Vale Verde, e por pouco, o mesmo ser, chamado de Homem de
Olhos Vermelhos, não matou a nossa Luna. — Rafael deixou a caneta de lado,
observando a manchete do jornal de 1949. — Eu a encontrei na floresta, com a
pulsação fraca, desmaiada, e ela foi encaminhada para o hospital. Ela está bem,
a senhora não precisa se preocupar! Porém, eu não queria guardar nenhum segredo
de vocês. A Luna me pediu para não fazer esse telefonema, mas não posso omitir
isso. Dona Odete, sei que da última vez que a senhora esteve aqui, vocês duas
brigaram, mas neste momento, ela precisa estar próxima dos pais. A senhora
poderia fazer um esforço, com o senhor Cássio, e vir para cá? Por favor,
trate-a bem, é o único pedido que faço. A Luna precisa de carinho, amor
fraterno.
Rafael desligou o telefone, sentindo uma
inquietante mistura de alívio e apreensão; ele sabia que havia tomado a decisão
certa para proteger sua esposa. O frenesi dos repórteres em frente à delegacia
dissipou-se muito antes das dez horas da manhã, sem nenhuma declaração pública
feita pelo delegado.
— Vai sair um pouco? — indagou Mathias.
— Sim, vou no Chico comer um lanche e
ouvir alguma lorota. Espero que ele não tenha inventado nenhuma história sobre
a Luna. Mas acredito que não... — Rafael recordou do dia anterior, quando saiu
da floresta com a mulher nos braços. — O Chico estava muito diferente,
preocupado com a Luna. Não parecia ser esse monstro que pintaram antes.
— O lobo pode usar a pele de cordeiro,
delegado.
Ao sair da delegacia, Rafael esbarrou de
frente com a imagem de uma mulher loira, usando uma roupa decotada, como se
estivesse prestes a atacar a próxima presa. Ele notou um crachá na camisa:
Aline Medeiros, repórter do canal 02. Ela não segurava nenhum microfone e nem
estava acompanhada de um cinegrafista, mas essas pessoas são especialistas em
destruir reputações. Rafael não queria fazer nenhuma declaração que
prejudicasse a imagem dos moradores e do vilarejo.
— O senhor não tem nada para me contar? —
Ela disse, se aproximando ainda mais do delegado, que se desfolhava por dentro.
Rafael se sentia próximo a uma bomba atômica com batom vermelho. — Delegado, o
que aconteceu ontem foi muito estranho. O senhor não pode nos deixar sem
respostas, nem pistas.
— Se a senhora quiser alguma resposta,
procure de madrugada.
— Eu não entendi a sua declaração
delegado.
Rafael deu de ombros e continuou andando,
sem prolongar o diálogo. Pensou em ir de carro para a lanchonete, contudo, a
ideia de caminhar e conversar com os moradores acabou tomando conta de sua
consciência. Em menos de alguns minutos, chegou ao estabelecimento de Chico,
que estava lotado, algo incomum para aquele horário.
— Todos estão falando sobre o que
aconteceu na noite passada — disse Chico, colocando um prato com um lanche e
uma Coca-Cola na mesa do delegado. — Mas ninguém teve coragem de enfrentar
aqueles abutres. Se falássemos, isso aqui viraria um verdadeiro turismo de
terror. Não queremos isso. A cidade precisa se unir para acabar com essa
criatura. Não precisamos encontrar a hospedeira; precisamos localizar o Homem
de Olhos Vermelhos e dar a ele o que merece: uma morte em praça pública.
Fechamos as portas de nossas casas para que o demônio não entre, mas agora é
hora de abrir as portas para a verdade e enfrentar a escuridão que assola Vale
Verde.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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