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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 17

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 17

“O QUE É O HOMEM DE OLHOS VERMELHOS, DELEGADO?”

A NOTÍCIA DE UM ASSASSINATO NO PACATO VILAREJO DE VALE VERDE CORREU COMO UM PAVIO ACESO, ESPALHANDO-SE PELAS CIDADES VIZINHAS E CHEGANDO AOS OUVIDOS CURIOSOS. Assim que Rafael estacionou o carro para mais um dia de trabalho na delegacia, depois de um período de folga, pôde ver os repórteres se aproximando como urubus em busca de carniça. Na noite anterior, no canal 02, ele soube a identidade do caminhoneiro: Valmir Sumaré, morador de Vitória da Conquista, pai de dois filhos. A viúva chegou a aparecer em uma entrevista, clamando por justiça.

O que todos no vilarejo queriam naquele momento era justiça e que a criatura desaparecesse das sombras da floresta. As imagens da entrevista ainda assombravam Rafael: a viúva, pálida e devastada, as lágrimas correndo pelo rosto, os olhos refletindo a tristeza indescritível. A tensão na cidade era palpável, as sombras pareciam mais densas, e o silêncio da floresta mais ameaçador. Cada sussurro do vento entre as árvores trazia à mente a presença maligna que espreitava na lua cheia.  

“O que é o Homem de Olhos Vermelhos, delegado?”

Rafael trancou a porta da delegacia, observando Mathias sentado à mesa de Dona Mocinha. Naquela altura da manhã, ela estava cuidando de Luna. Dona Mocinha e o Doutor Luiz haviam se oferecido para cuidar da esposa do delegado, um convite que Rafael aceitou de bom grado. Ele não queria perder o controle do que estava para acontecer nos arredores de Vale Verde.

— E de repente, estamos no mapa-múndi novamente — disse Mathias, tomando um gole de café preto. — Esses otários estão aqui desde o amanhecer. E o pior de tudo é que a matéria sobre o Homem de Olhos Vermelhos está sendo anunciada aos quatro ventos por essas emissoras sensacionalistas. Todo mundo acha que somos o vilarejo dos loucos, que estamos escondendo um bandido que cometeu o crime contra aquele pobre caminhoneiro. Eles não vão descansar até conseguirem arruinar nossa reputação.

Rafael ainda estava muito abalado para continuar a conversa com Mathias. Ele entrou na sala principal e observou algumas notas em cima de sua mesa. Precisava de um pouco de coragem para ligar para o sogro. Cássio certamente chegaria o quanto antes. Luna não queria preocupar o pai, mas para Rafael, manter a história em segredo seria quebrar o ciclo de confiança que havia construído com o sogro. Ele pegou o telefone do gancho e começou a discar o número. Foi atendido nos segundos seguintes por uma voz feminina.

— Alô?

— Alô? — Rafael respondeu, reconhecendo a voz da sogra do outro lado da linha. — Dona Odete, aqui é o Rafael. Sei que faz tempo que não conversamos, mas preciso falar com o Cássio.

— Aconteceu alguma coisa com a Luna?

Rafael começou a apertar uma caneta. Ele queria falar diretamente com o sogro, que era mais próximo da esposa, e não com Odete. Mas ela era a mãe, e certamente deveria ter sentido algo diferente, caso contrário, não teria perguntado diretamente pela filha. Um sinal de que Odete ainda tinha um pouco de compaixão. Droga, ele pensou. Cássio não estava em casa para atendê-lo, então seria necessário dizer diretamente a ela.

— A Luna foi atacada, Dona Odete! Não sei se a senhora tem acompanhado os jornais sensacionalistas, mas aconteceu um assassinato aqui em Vale Verde, e por pouco, o mesmo ser, chamado de Homem de Olhos Vermelhos, não matou a nossa Luna. — Rafael deixou a caneta de lado, observando a manchete do jornal de 1949. — Eu a encontrei na floresta, com a pulsação fraca, desmaiada, e ela foi encaminhada para o hospital. Ela está bem, a senhora não precisa se preocupar! Porém, eu não queria guardar nenhum segredo de vocês. A Luna me pediu para não fazer esse telefonema, mas não posso omitir isso. Dona Odete, sei que da última vez que a senhora esteve aqui, vocês duas brigaram, mas neste momento, ela precisa estar próxima dos pais. A senhora poderia fazer um esforço, com o senhor Cássio, e vir para cá? Por favor, trate-a bem, é o único pedido que faço. A Luna precisa de carinho, amor fraterno.

Rafael desligou o telefone, sentindo uma inquietante mistura de alívio e apreensão; ele sabia que havia tomado a decisão certa para proteger sua esposa. O frenesi dos repórteres em frente à delegacia dissipou-se muito antes das dez horas da manhã, sem nenhuma declaração pública feita pelo delegado.

— Vai sair um pouco? — indagou Mathias.

— Sim, vou no Chico comer um lanche e ouvir alguma lorota. Espero que ele não tenha inventado nenhuma história sobre a Luna. Mas acredito que não... — Rafael recordou do dia anterior, quando saiu da floresta com a mulher nos braços. — O Chico estava muito diferente, preocupado com a Luna. Não parecia ser esse monstro que pintaram antes.

— O lobo pode usar a pele de cordeiro, delegado.

Ao sair da delegacia, Rafael esbarrou de frente com a imagem de uma mulher loira, usando uma roupa decotada, como se estivesse prestes a atacar a próxima presa. Ele notou um crachá na camisa: Aline Medeiros, repórter do canal 02. Ela não segurava nenhum microfone e nem estava acompanhada de um cinegrafista, mas essas pessoas são especialistas em destruir reputações. Rafael não queria fazer nenhuma declaração que prejudicasse a imagem dos moradores e do vilarejo.

— O senhor não tem nada para me contar? — Ela disse, se aproximando ainda mais do delegado, que se desfolhava por dentro. Rafael se sentia próximo a uma bomba atômica com batom vermelho. — Delegado, o que aconteceu ontem foi muito estranho. O senhor não pode nos deixar sem respostas, nem pistas.

— Se a senhora quiser alguma resposta, procure de madrugada.

— Eu não entendi a sua declaração delegado.

Rafael deu de ombros e continuou andando, sem prolongar o diálogo. Pensou em ir de carro para a lanchonete, contudo, a ideia de caminhar e conversar com os moradores acabou tomando conta de sua consciência. Em menos de alguns minutos, chegou ao estabelecimento de Chico, que estava lotado, algo incomum para aquele horário.

— Todos estão falando sobre o que aconteceu na noite passada — disse Chico, colocando um prato com um lanche e uma Coca-Cola na mesa do delegado. — Mas ninguém teve coragem de enfrentar aqueles abutres. Se falássemos, isso aqui viraria um verdadeiro turismo de terror. Não queremos isso. A cidade precisa se unir para acabar com essa criatura. Não precisamos encontrar a hospedeira; precisamos localizar o Homem de Olhos Vermelhos e dar a ele o que merece: uma morte em praça pública. Fechamos as portas de nossas casas para que o demônio não entre, mas agora é hora de abrir as portas para a verdade e enfrentar a escuridão que assola Vale Verde.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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