A
NOITE DE LUA CHEIA
RAFAEL PASSOU OS ÚLTIMOS DIAS PREOCUPADO
COM A QUESTÃO DE SEGURANÇA DA CASA POR CAUSA DA NOITE DE LUA CHEIA. Ele
instalou travas ainda mais fortes em todas as janelas e portas e colocou uma
cerca em torno do terreno, para evitar possíveis entradas de pessoas
inconvenientes. No entanto, ele sabia que nada daquilo era o suficiente, pelo
menos, não para o que iriam enfrentar. A arma que antes ficava no guarda-roupas
agora estava ao lado de sua cabeceira, e outra estava escondida em um livro
falso na sala de estar, para emergências.
Luna se sentia mais acolhida pela
população do vilarejo, havia feito muitos amigos e visitava frequentemente a
morada de Dona Mocinha. Os pesadelos sumiram desde o dia que o padre fez o
ritual de purificação em sua casa. Seus sonhos mudaram drasticamente, e o medo
de entorpecer não a consumia mais.
Na quarta-feira, Luna passou horas
gastando os créditos do cartão telefônico, conversando com o pai. Estava com
muita saudade de casa e até um pouco de Odete, lamentando ter sido tão dura com
a mãe. Esses pensamentos afetuosos eram sempre seguidos por lembranças de sua
infância, dificultando a empatia pela matriarca.
O amanhecer do dia 26 foi tranquilo. O sol
brilhava majestosamente, irradiando sua graça sobre o canavial, enquanto Rafael
se preparava para ir ao trabalho. Ele deu um beijo nos lábios de Luna,
despedindo-se também do cachorro antes de sair. A caminho da delegacia, Rafael
sentia uma estranha calmaria, como se o dia estivesse apenas começando a
revelar seus segredos.
— A população está com
muito medo. — disse Mathias para o delegado, entrando na sala principal da
delegacia, com um sorriso habitual no rosto. — O meu pai me informou que bateu
recorde de vendas na loja de material de construção. Teve um amigo nosso que comprou
quase cem reais de material. É muita coisa, muito dinheiro! Tudo isso, por
causa da primeira noite de lua cheia e o Chico, claro, está lucrando com aquela
lanchonete de quinta e com as mesmas histórias da carochinha. Não sei ainda o
motivo de você ainda ir lá, Rafael.
— Não foi você mesmo que
disse que devíamos ser aliados do Chico?
— Sim! Mas olha só o que está ocorrendo
hoje, delegado. Todo mundo está amedrontado, as crianças na escola não brincam
e muito menos interagem. Sei que devemos nos prevenir de qualquer tipo de
ataque, porém, tudo isso está afetando o psicológico das pessoas. Todo mundo
está se sentindo asfixiado, inclusive eu, que nunca fui de acreditar nessa do
Homem de Olhos Vermelhos.
Rafael compreendeu o motivo da preocupação
de Mathias. Não era justo que Chico continuasse a reviver histórias antigas
apenas para assustar os moradores do vilarejo e ganhar alguns trocados. A
conversa com o dono do estabelecimento não durou muitos minutos, apenas o
suficiente para alertá-lo sobre o assunto. Quando saiu, o delegado aproveitou
para ir até a biblioteca para conversar com um velho amigo, que certamente
deveria estar sozinho no mausoléu.
— O senhor aceita uma xícara de café? —
perguntou Vicente.
— Sim, e pode me chamar apenas de Rafael.
Vicente pegou um pouco de café e entregou
nas mãos do delegado.
— Como está a sua esposa? — questionou
Vicente, sentando-se em uma poltrona próxima ao delegado, que começava a se
sentir confortável com a recepção. — Nunca mais conversamos. Estou envolvido
com alguns trabalhos, mas da última vez que a vi, ela estava na casa da Dona
Mocinha, porque o padre tinha feito um ritual de purificação na fazenda.
— A Luna está muito bem. Desde aquele dia,
as nossas vidas mudaram progressivamente. Está tudo tão tranquilo com a nossa
casa, com o nosso cachorro. Parece até um comercial de margarina, só faltou
mesmo uma criança. — Rafael deu um sorriso amargo, tomando um pouco mais da
bebida, dando ênfase ao final do diálogo. — Só faltou mesmo uma criança.
— Um filho pode ser tudo de bom, delegado,
mas tudo precisa acontecer no tempo certo. Vocês têm pouco tempo de casados.
Aproveitem melhor a vida sem uma criança na cola. — Vicente ficou um tempo em
silêncio antes de continuar a conversa. — E está preparado para a primeira
noite de lua cheia?
— Vale Verde não tem outro assunto.
— É, meu pai teve que ir a Eunápolis
comprar fechaduras novas.
— Vocês não estão levando tudo a ferro e
fogo demais, não?
— Não dessa vez, delegado. Depois da
última Caçada, precisamos nos sentir protegidos de todo o mal que se assola na
floresta. Porém é irritante sempre bater na mesma tecla, sei muito bem do que
você está falando. Aqui não acontece muita coisa, por isso essa história já
ficou saturada.
O anoitecer chegou sem muitas expectativas
para Rafael, que se despediu dos colegas de trabalho e retornou para casa. Luna
o aguardava com um sorriso encantador no rosto, preparando mais um prato
tipicamente italiano. Ele adorava ser mimado por Luna em todos os sentidos; ela
se dedicava em tudo para agradar o marido. No entanto, ultimamente, Luna estava
começando a se sentir cansada da solidão. Ela queria terminar os estudos e
iniciar uma nova graduação. Rafael frequentemente a pegava observando as estrelas
pelo telescópio ou encarando a bola de cristal.
— Eu sei que não está sendo fácil para
você ficar sempre sozinha. — disse Rafael, dando uma colherada na massa
enquanto observava Luna do outro lado da mesa, tentando esconder sua angústia
com um sorriso. — Eu tenho conversado bastante com meus amigos, inclusive sobre
a possibilidade de haver uma vaga para professora na escola. Sei que não é a
profissão dos seus sonhos, mas talvez por um período, isso possa ocupar sua
mente, Luna.
— Sim, aqui não tem muito o que fazer,
tenho conhecido os moradores, conversado com cada um deles. Isso tem sido bom,
ajuda a passar o tempo e a preencher esse vazio que me segue. Eu gostaria de
passar um dia com meu pai pelo menos uma vez por semana, seria maravilhoso. Só
o fato de termos conversado já matou um pouco da saudade.
— O que acha de irmos visitá-lo na semana
que vem? — perguntou Rafael.
— Nós conseguimos? — Luna respondeu com um
sorriso.
— Posso ajustar algumas folgas para que
possamos passar o dia na casa dos meus pais, e o Sr. Cássio pode nos visitar
sem a Dona Odete, o que você acha?
— Seria maravilhoso! — Luna ficou um tempo
calada, degustando os temperos antes de continuar. — Eu até esqueci que hoje é
a primeira noite de lua cheia. Desde que voltamos para cá, tento não ficar mais
me encontrando com esses pensamentos intrusivos e muito menos ficar comentando
a respeito. Tudo que aconteceu, ficará apenas em seu devido lugar, no passado.
Rafael ajudou Luna a arrumar a cozinha e
lavar os pratos, os dois se divertindo enquanto brincavam no cômodo, esquecendo
momentaneamente de qualquer preocupação. Assim que tudo estava em seu lugar,
Rafael chamou Bob para entrar em casa.
O cachorro estava urinando em um pé de
coco quando atendeu ao chamado do seu tutor, contudo, seu comportamento mudou
subitamente. Ao invés de sua usual alegria, Bob parecia tenso, focando
atentamente cada sombra que se movia sob a luz da lua cheia. Rafael sentiu um
calafrio ao notar a mudança de comportamento do animal, como se Bob
pressentisse algo que ele próprio não conseguia perceber claramente.
Enquanto Luna permanecia no sofá
assistindo à primeira parte da novela, Rafael se ocupava em manter a casa
segura, acompanhado pelo seu pequeno vigilante que o seguia por todos os
lugares.
Rafael se entrelaçou nos cobertores de
algodão, sentindo o calor do corpo da mulher ao seu lado. Ele ouviu um pequeno
latido de Bob vindo do outro quarto antes de cair em um sono profundo. Foi
despertado pelo estrondo de três batidas na porta, seguidas pelo uivo
inquietante. Há um mito, que diz que quando um animal uiva incessantemente, é
um aviso da morte.
Rafael ergueu-se da cama, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Ele escutava passos sinistros ao redor de sua morada, como se algo macabro se arrastasse pelas paredes. O som gélido de unhas arranhando a madeira fez seu coração disparar. Com uma sensação de pavor crescente, ele se aproximou de uma pequena fresta na janela, lutando contra o impulso de recuar. Quando finalmente olhou, o choque o paralisou: olhos vermelhos, os olhos da morte, brilhavam na escuridão, fixos nele com uma fome insaciável. A atmosfera ao seu redor pareceu se comprimir, o ar ficou denso e sufocante. De repente, uma cortina escura e opressiva invadiu seu campo de visão, como se a própria escuridão estivesse engolindo sua alma. Ele desmaiou, caindo no chão com um baque surdo.
※※※※
As folhas secas de eucalipto sussurravam
inquietas na névoa densa que cobria a estrada. O homem nas sombras movia-se
silenciosamente entre os arvoredos, com a precisão mortal de um predador
sedento por sangue. A luz da lua cheia projetava seu rosto pálido na parede
azul da delegacia, formando sombras sinistras que dançavam a cada segundo.
Seus olhos avermelhados brilhavam
intensamente, um contraste perturbador contra a escuridão. Os moradores se
escondiam em suas casas, tremendo de medo sob os cobertores, temendo o que a
primeira noite de lua cheia de agosto traria. À meia-noite, o vento enfraqueceu.
O homem esperava pacientemente, escolhendo o momento perfeito para atacar.
O canto da coruja cessou abruptamente,
deixando um silêncio opressivo no ar. O estalo de um galho quebrou a quietude,
seguido por um clarão que se via a quilômetros de distância. Um caminhão,
exalando uma fina fumaça do motor, parou na frente da delegacia. O senhor
saltou do caminhão com algumas ferramentas nas mãos, sem perceber a figura
sombria que se movia rapidamente, que brevemente o atacou.
O sangue escorria pela pista, criando uma
poça crescente. O ser continuava ajoelhado ao lado do
corpo caído, lambendo cada gota de sangue que escapava. A cada lambida, sua
pele empalecida parecia ganhar contraste, nutrida pela essência vital de um
inocente.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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