AS PAREDES DA COZINHA PARECIAM SE FECHAR
AO REDOR DE LUNA. Sentada, ela permanecia imóvel enquanto o
cachorro se alisava entre suas pernas, em gestos de carinho. Não tinha vontade
de preparar o café, muito menos ajeitar a janta. As sacolas da mercearia ainda
aguardavam em cima da mesa. As palavras de Vicente ecoavam em sua mente,
enchendo-a de um temor insidioso de que tudo se repetisse. Uma mulher havia
perdido a vida nas mãos dos moradores do vilarejo, por ser a única capaz de
conceber o filho do Homem de Olhos Vermelhos.
Luna se arrependia de não ter incentivado
o marido a ir embora após o episódio da Caçada Selvagem. Porém, suas concepções
eram guiadas pela realidade e não por um faz de conta: Rafael perderia o valor
do imóvel, o dinheiro que o pai dele trabalhou tanto para conseguir, e no final
das contas, tudo estaria perdido devido a uma lenda urbana local que poderia
ser uma farsa. Demoraria meses até Rafael encontrar um novo trabalho em outra
cidade para que pudessem construir uma nova vida.
— Você não me contou a respeito da Lúcia
da Silva Pinto. — disse Luna, observando o marido chegar em casa, tirando o
sorriso do rosto e colocando uma sacola de pão em cima da mesa. — Fiquei
sabendo hoje pelo Vicente que ela morou aqui, nesta mesma casa, com o marido e
foi escolhida para ser hospedeira do filho do demônio que muitos dizem viver na
floresta.
— Fiquei com medo da sua reação, Luna!
Foram tantas camadas de informações que recebemos desde o dia em que chegamos.
Queria apenas te resguardar dessas histórias. Você fica tão sozinha, e ainda
mais com esse pensamento na cabeça, não é saudável. Não quero que se transforme
em uma lunática, com receio das sombras. Se formos nos deixar levar, esse lugar
acaba nos engolindo.
— Eu chamei o padre para fazer uma visita
amanhã. Tenho tido sonhos muito estranhos e hoje acordei com diversos arranhões
no meu corpo. — Luna puxou a blusa de manga comprida para cima, mostrando os
braços cercados de ferimentos para o marido. — É um misto de memórias que
surgem diante da minha vista. A maioria são escuras, onde consigo observar os
olhos daquele homem me encarando. Tenho medo de ter sido escolhida, Rafael,
tenho medo de me tornar uma hospedeira e as pessoas descobrirem e repetirem o
mesmo erro comigo, me queimarem viva em uma fogueira em praça pública. Se
existir algum meio para cessar isso, acabar de vez com essa criatura, temos que
lutar até conseguir. Não podemos fugir, não temos recursos para um recomeço.
O adormecer chegou inquietante para Luna,
depois da conversa que tivera com o marido. Ela se virava na cama, temendo o
que pudesse estar a espionando do lado de fora. Cada ruído na casa parecia
amplificado, e o som do próprio coração a impedia de adormecer. Para não
irritar Rafael, ela se levantou da cama. Tentou ler um livro na sala, mas
queria algo ainda mais fácil para distraí-la.
Luna pegou um pote de sorvete da
geladeira, ligou a TV e colocou um filme no VHS. As sombras no corredor
pareciam se alongar e dançar, criando formas distorcidas. Uma sensação estranha
de estar sendo observada a envolveu. A colher caiu de sua mão, ecoando no
silêncio da noite. Ao pegá-la do chão, ela viu olhos vermelhos se aproximando
rapidamente. Seu coração disparou de susto, recompondo-se ao ver o reflexo dos
olhos de Bob, que corria em sua direção.
Ela não conseguiria dormir tão cedo; o
filme "A Lagoa Azul" começava a passar. O sorvete de creme adoçava
seus lábios enquanto se deitava no sofá. Ela se aconchegou, tentando encontrar
conforto. Finalmente, o cansaço a venceu, e ela adormeceu sem ao menos ver o
desfecho do longa, que já assistira mais de vinte vezes.
No silêncio da casa, as sombras pareciam
se mover com vida própria. O ar estava carregado, e a presença opressora
parecia se aproximar cada vez mais. Bob, deitado ao lado dela, levantou as
orelhas, inquieto. Mesmo adormecida, Luna não estava completamente em paz, como
se algo negro estivesse à espreita, aguardando o momento certo para se revelar.
O amanhecer despontava e as primeiras
luzes do sol começavam a filtrar pelas frestas da janela, fazendo Luna se
erguer do sofá com um gosto amargo na boca. Ela deixou o pote e a colher, agora
cheios de formigas, na pia da cozinha, dirigindo-se ao banheiro da suíte para
escovar os dentes enquanto o marido ainda dormia profundamente. Ao voltar para
a cozinha, ela começou a preparar o café, aguardando ansiosamente a visita do
padre Miguel naquela tarde, após o almoço.
— Não consegui dormir na cama essa noite —
disse Luna, observando Rafael sentar-se à mesa, pronto para o café. — Acabei
deitando no sofá com o Bob. Comi um pote de sorvete e assisti a um filme. Hoje,
pretendo limpar toda a casa para a chegada do padre. Estive pensando se não
deveríamos alugar uma casa.
— Posso verificar com a Dona Mocinha ou o
Mathias se conhecem alguém com uma casa ou quarto para alugar, até que essa
nuvem preta passe — respondeu Rafael, observando Bob, visivelmente cansado ao
seu lado, mastigando um pedaço de pão. — Luna, você realmente acha que esse
ritual pode funcionar? Será que uma limpeza espiritual é capaz de afastar esse
ser maligno de nossa casa?
— A única coisa em que podemos confiar
agora é nossa fé, nada mais — respondeu Luna com convicção.
Luna e Rafael passaram a manhã inteira
limpando cada cômodo da casa para receber o padre. O cheiro de desinfetante de
eucalipto impregnava o ar, enquanto Luna acendia um incenso de sal grosso e
preparava um chá de erva-doce. O som de um veículo chegando à propriedade
interrompeu seus pensamentos; era certamente o padre Miguel.
O padre entrou sem cerimônia, como se
conhecesse muito bem o ambiente ao redor.
— Uma vez fui convidado por Lúcia e Rubens
para fazer esse mesmo ritual de purificação — comentou ele, enquanto pegava do
veículo um saco de couro e, com a ajuda de Rafael, o levava para a sala de
estar. De dentro do saco, retirou castiçais de prata, velas de diversos tamanhos,
crucifixos e uma garrafa de água benta.
O padre ascendeu algumas velas na sala e
nos outros cômodos. A escuridão do entardecer começava a tomar conta da morada,
as horas passavam rapidamente como um estalar de dedos. Luna dava suporte ao
padre, enquanto Rafael buscava a Bíblia para orar ao lado da esposa.
— É preciso de silêncio e concentração nas
suas orações. Seja lá o que estiver acontecendo, devemos enfrentar juntos —
disse o padre.
Ele começou a recitar preces em latim, seu
timbre ecoou pelo cômodo. A atmosfera ficou mais densa, como se uma presença
invisível se agitasse ao redor deles. As velas vacilaram, e a temperatura
parecia cair ainda mais. Rafael sentiu um arrepio subir pela espinha, enquanto
Luna apertava o crucifixo pendurado em seu pescoço, os olhos fechados em
fervorosa oração.
— Vamos embora desse lugar! — sussurrou
Rafael para Luna.
— Esta é nossa casa. Não podemos fugir.
As velas apagaram-se bruscamente,
mergulhando a sala em uma escuridão soturna, enquanto as janelas começaram a ranger,
fazendo ruídos que incomodavam os tímpanos de todos presentes. O Padre Miguel
continuou a rezar, sua voz agora mais firme e alta, tentando expulsar a
presença maligna.
— Em nome de Deus, eu ordeno que você
saia!
As velas se reacenderam sozinhas, suas
chamas agora estáveis e brilhantes. A casa parecia mais limpa, porém Rafael não
queria passar a noite ali. Ele pegou algumas mudas de roupas e colocou numa
mala. Não tinha para onde ir, acabando por pedir ajuda a Dona Mocinha, que o
recebeu com um breve sorriso e um convite para se hospedar.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

Copyright © 2026 - WebTV
www.redewtv.com





Comentários:
0 comentários: