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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 10

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 10: O RITUAL

AS PAREDES DA COZINHA PARECIAM SE FECHAR AO REDOR DE LUNA. Sentada, ela permanecia imóvel enquanto o cachorro se alisava entre suas pernas, em gestos de carinho. Não tinha vontade de preparar o café, muito menos ajeitar a janta. As sacolas da mercearia ainda aguardavam em cima da mesa. As palavras de Vicente ecoavam em sua mente, enchendo-a de um temor insidioso de que tudo se repetisse. Uma mulher havia perdido a vida nas mãos dos moradores do vilarejo, por ser a única capaz de conceber o filho do Homem de Olhos Vermelhos.

Luna se arrependia de não ter incentivado o marido a ir embora após o episódio da Caçada Selvagem. Porém, suas concepções eram guiadas pela realidade e não por um faz de conta: Rafael perderia o valor do imóvel, o dinheiro que o pai dele trabalhou tanto para conseguir, e no final das contas, tudo estaria perdido devido a uma lenda urbana local que poderia ser uma farsa. Demoraria meses até Rafael encontrar um novo trabalho em outra cidade para que pudessem construir uma nova vida.

— Você não me contou a respeito da Lúcia da Silva Pinto. — disse Luna, observando o marido chegar em casa, tirando o sorriso do rosto e colocando uma sacola de pão em cima da mesa. — Fiquei sabendo hoje pelo Vicente que ela morou aqui, nesta mesma casa, com o marido e foi escolhida para ser hospedeira do filho do demônio que muitos dizem viver na floresta.

— Fiquei com medo da sua reação, Luna! Foram tantas camadas de informações que recebemos desde o dia em que chegamos. Queria apenas te resguardar dessas histórias. Você fica tão sozinha, e ainda mais com esse pensamento na cabeça, não é saudável. Não quero que se transforme em uma lunática, com receio das sombras. Se formos nos deixar levar, esse lugar acaba nos engolindo.

— Eu chamei o padre para fazer uma visita amanhã. Tenho tido sonhos muito estranhos e hoje acordei com diversos arranhões no meu corpo. — Luna puxou a blusa de manga comprida para cima, mostrando os braços cercados de ferimentos para o marido. — É um misto de memórias que surgem diante da minha vista. A maioria são escuras, onde consigo observar os olhos daquele homem me encarando. Tenho medo de ter sido escolhida, Rafael, tenho medo de me tornar uma hospedeira e as pessoas descobrirem e repetirem o mesmo erro comigo, me queimarem viva em uma fogueira em praça pública. Se existir algum meio para cessar isso, acabar de vez com essa criatura, temos que lutar até conseguir. Não podemos fugir, não temos recursos para um recomeço.

O adormecer chegou inquietante para Luna, depois da conversa que tivera com o marido. Ela se virava na cama, temendo o que pudesse estar a espionando do lado de fora. Cada ruído na casa parecia amplificado, e o som do próprio coração a impedia de adormecer. Para não irritar Rafael, ela se levantou da cama. Tentou ler um livro na sala, mas queria algo ainda mais fácil para distraí-la.

Luna pegou um pote de sorvete da geladeira, ligou a TV e colocou um filme no VHS. As sombras no corredor pareciam se alongar e dançar, criando formas distorcidas. Uma sensação estranha de estar sendo observada a envolveu. A colher caiu de sua mão, ecoando no silêncio da noite. Ao pegá-la do chão, ela viu olhos vermelhos se aproximando rapidamente. Seu coração disparou de susto, recompondo-se ao ver o reflexo dos olhos de Bob, que corria em sua direção.

Ela não conseguiria dormir tão cedo; o filme "A Lagoa Azul" começava a passar. O sorvete de creme adoçava seus lábios enquanto se deitava no sofá. Ela se aconchegou, tentando encontrar conforto. Finalmente, o cansaço a venceu, e ela adormeceu sem ao menos ver o desfecho do longa, que já assistira mais de vinte vezes.

No silêncio da casa, as sombras pareciam se mover com vida própria. O ar estava carregado, e a presença opressora parecia se aproximar cada vez mais. Bob, deitado ao lado dela, levantou as orelhas, inquieto. Mesmo adormecida, Luna não estava completamente em paz, como se algo negro estivesse à espreita, aguardando o momento certo para se revelar.

O amanhecer despontava e as primeiras luzes do sol começavam a filtrar pelas frestas da janela, fazendo Luna se erguer do sofá com um gosto amargo na boca. Ela deixou o pote e a colher, agora cheios de formigas, na pia da cozinha, dirigindo-se ao banheiro da suíte para escovar os dentes enquanto o marido ainda dormia profundamente. Ao voltar para a cozinha, ela começou a preparar o café, aguardando ansiosamente a visita do padre Miguel naquela tarde, após o almoço.

— Não consegui dormir na cama essa noite — disse Luna, observando Rafael sentar-se à mesa, pronto para o café. — Acabei deitando no sofá com o Bob. Comi um pote de sorvete e assisti a um filme. Hoje, pretendo limpar toda a casa para a chegada do padre. Estive pensando se não deveríamos alugar uma casa.

— Posso verificar com a Dona Mocinha ou o Mathias se conhecem alguém com uma casa ou quarto para alugar, até que essa nuvem preta passe — respondeu Rafael, observando Bob, visivelmente cansado ao seu lado, mastigando um pedaço de pão. — Luna, você realmente acha que esse ritual pode funcionar? Será que uma limpeza espiritual é capaz de afastar esse ser maligno de nossa casa?

— A única coisa em que podemos confiar agora é nossa fé, nada mais — respondeu Luna com convicção.

Luna e Rafael passaram a manhã inteira limpando cada cômodo da casa para receber o padre. O cheiro de desinfetante de eucalipto impregnava o ar, enquanto Luna acendia um incenso de sal grosso e preparava um chá de erva-doce. O som de um veículo chegando à propriedade interrompeu seus pensamentos; era certamente o padre Miguel.

O padre entrou sem cerimônia, como se conhecesse muito bem o ambiente ao redor.

— Uma vez fui convidado por Lúcia e Rubens para fazer esse mesmo ritual de purificação — comentou ele, enquanto pegava do veículo um saco de couro e, com a ajuda de Rafael, o levava para a sala de estar. De dentro do saco, retirou castiçais de prata, velas de diversos tamanhos, crucifixos e uma garrafa de água benta.

O padre ascendeu algumas velas na sala e nos outros cômodos. A escuridão do entardecer começava a tomar conta da morada, as horas passavam rapidamente como um estalar de dedos. Luna dava suporte ao padre, enquanto Rafael buscava a Bíblia para orar ao lado da esposa.

— É preciso de silêncio e concentração nas suas orações. Seja lá o que estiver acontecendo, devemos enfrentar juntos — disse o padre.

Ele começou a recitar preces em latim, seu timbre ecoou pelo cômodo. A atmosfera ficou mais densa, como se uma presença invisível se agitasse ao redor deles. As velas vacilaram, e a temperatura parecia cair ainda mais. Rafael sentiu um arrepio subir pela espinha, enquanto Luna apertava o crucifixo pendurado em seu pescoço, os olhos fechados em fervorosa oração.

— Vamos embora desse lugar! — sussurrou Rafael para Luna.

— Esta é nossa casa. Não podemos fugir.

As velas apagaram-se bruscamente, mergulhando a sala em uma escuridão soturna, enquanto as janelas começaram a ranger, fazendo ruídos que incomodavam os tímpanos de todos presentes. O Padre Miguel continuou a rezar, sua voz agora mais firme e alta, tentando expulsar a presença maligna.

— Em nome de Deus, eu ordeno que você saia!

As velas se reacenderam sozinhas, suas chamas agora estáveis e brilhantes. A casa parecia mais limpa, porém Rafael não queria passar a noite ali. Ele pegou algumas mudas de roupas e colocou numa mala. Não tinha para onde ir, acabando por pedir ajuda a Dona Mocinha, que o recebeu com um breve sorriso e um convite para se hospedar.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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