A ÁGUA MORNA CAUSOU UMA IRRITAÇÃO IMEDIATA
AO ENTRAR EM CONTATO COM A PELE DE LUNA. Ela se esgueirou para
fora do chuveiro, somente agora conseguindo divisar, através dos reflexos da
cerâmica laminada, os arranhões que cobriam todo o seu corpo. A queimação a fez
temer o momento de passar o sabonete no corpo. Ensaboou as mãos e, com
hesitação, começou a lavar-se, cada toque trazendo uma nova onda de dor. Os
pensamentos a levaram de volta àquelas marcas de unhas, pareciam ter sido
feitas com raiva. A última noite surgia diante de seu campo de visão, um borrão
de lembranças vagas e fragmentadas. Não se lembrava de nada concreto, apenas
sombras e murmúrios indistintos. Às vezes, acordava com marcas nos joelhos, no
entanto essas eram irrelevantes em comparação à situação atual.
Ao desligar o registro do chuveiro, Luna
se secou com a toalha de algodão, deixando a névoa de vapor envolver o
banheiro. Observou o corpo através do espelho da pia e viu que as marcas se
estendiam até as costas. O marido fazia questão de manter as unhas muito bem
aparadas, uma das exigências higiênicas para trabalhar na delegacia; ele não
poderia ter feito aqueles ferimentos. Ela desligou a luz do banheiro e seguiu
para o quarto, enquanto o cachorro permanecia deitado no tapete, aguardando-a.
Luna secou os cabelos úmidos com outra
toalha, aplicando um creme de camomila na pele, para aliviar o desconforto
enquanto se sentava na cama. A manhã estava um pouco fria; uma blusa de manga
comprida esconderia bem seus braços, assim combinando com uma calça jeans. Ela
precisava ir ao centro do vilarejo comprar mantimentos na mercearia para o
jantar, já que Rafael passaria parte do dia em Arraial D’Ajuda. Luna pegou sua
bolsa e chamou Bob com um assovio, ele prontamente apareceu quando ela estava
na porta, prestes a fechá-la. Não conseguia deixá-lo sozinho, então os dois
seguiram caminhando juntos, como velhos amigos.
O sol fraco destacava o olhar curioso que
algumas pessoas lançavam sobre Luna. Ao contrário de Rafael, ela não cultivava
amizades com facilidade, e a solidão parecia engoli-la por não conhecer bem as
pessoas do vilarejo. Sua intuição a guiou até a porta da Paróquia Divino
Espírito Santo; precisava passar alguns minutos conversando com Deus, buscando
uma luz diante dos recentes acontecimentos e do futuro incerto. Luna deixou Bob
na entrada e ajoelhou-se, fazendo o sinal da cruz antes de iniciar sua oração:
"Meu Deus, agradeço pelas portas que
foram abertas para mim e pela pessoa incrível que colocaste em minha vida, meu
marido Rafael. Peço tua proteção para todos ao meu redor, inclusive para meu
pai que está tão longe. Sinto a falta de meu lar, de minha raiz em Medeiros
Netos, todos os dias. Mas sei que meu futuro está aqui, por isso, guie e
protege minha casa de todo o mal. Amém."
Luna se levantou do banco, fazendo o sinal
da cruz com as mãos antes de dirigir-se à saída da capela. Antes de partir,
porém, passou pela pia batismal, aspergindo um pouco de água benta no rosto
para purificar a alma. Ao deixar o ambiente sagrado, procurou pelo cachorro,
que não estava mais onde o havia deixado. Assoviou enquanto se aproximava de
duas senhoras sentadas em uma das casas ao redor da praça, saboreando
geladinhos.
— Olá, prazer, meu nome é Luna. Entrei na
capela para fazer uma breve oração e deixei meu cachorrinho sozinho na entrada,
ele é um vira-lata caramelo. Muito bonzinho, sempre fica me aguardando quando
faço algo. Mas desta vez parece que ele sumiu. Vocês o viram por acaso?
— Você é a esposa do novo delegado, não é?
— perguntou uma das senhoras.
— Sim, sou esposa do Rafael.
— Ele é muito gentil — respondeu a outra.
— Eu vi seu cachorrinho seguindo rumo à escola.
Luna agradeceu às duas senhoras e seguiu
em direção à escola, que resplandecia sob a luz do sol. Uma atmosfera de
inquietude pairava no ar. Assobiava repetidamente, esperando que Bob aparecesse
magicamente. Enquanto caminhava, observava o ambiente ao redor com um arrepio
constante, passando pelo Manoel Ribeiro Carneiro. Lembranças do último domingo
vieram à mente, quando uma conversa ao telefone com o patriarca foi
interrompida abruptamente pelo vento gelado que cortou sua alma. Aproximando-se
do pequeno prédio da escola, o som irritante do orelhão ecoava incessantemente,
enquanto as crianças permaneciam silenciosas e imóveis em suas carteiras, observando
a professora escrever na lousa: “VOCÊ É A MINHA HOSPEDEIRA”. As palavras
penetraram como garras afiadas em seus olhos, ao mesmo tempo que o sinal de
trocas de salas tocou.
Luna ouviu os latidos de Bob vindo dos
fundos da escola, onde ficava o cemitério do vilarejo. Ela caminhou lentamente,
apreensiva com o que seus olhos poderiam ver à luz do dia. Seu coração batia
forte enquanto observava Bob latir na frente de um túmulo onde estava escrito:
“Lúcia da Silva Pinto, de 02 de novembro de 1959 a 22 de setembro de 1979.”
— Vamos, Bob, o que você está fazendo
aqui? — disse Luna, perplexa.
Ela pôde observar os túmulos aprimoradamente
alinhados no cemitério, contrastando de forma estranha com a beleza natural das
montanhas ao fundo. Era a primeira vez que via um cemitério tão bem cuidado e
bonito, com folhas e flores delicadamente arranjadas. Apesar disso, não se
sentia à vontade para entrar e buscar Bob, chamando-o insistentemente para
deixar aquele lugar.
— A senhora está perdida? — perguntou o
rapaz educado, surgindo de um dos caminhos detrás da escola e aproximando-se de
Luna. — O meu nome é Vicente. Nunca te vi por aqui nesta área. É humana ou
alguma alma penada? Aqui, neste lugar, não duvidamos de mais nada.
Vicente falou aquelas palavras, tirando um
sorriso do rosto de Luna.
— Eu sou a Luna, esposa do Rafael, o novo
delegado da cidade. Meu cachorro sumiu do nada na frente da capela e está aqui
no cemitério, latindo para aquele túmulo. Eu só queria ir embora, mas ele não
me obedece. Por mais que eu não tenha medo, não quero entrar aí. — Luna disse,
cumprimentando Vicente e continuando a chamar Bob, que agora parecia a acatar
os seus pedidos. — E quando eu chegar em casa, vou ter que dar um longo banho
nele para tirar esses maus agouros.
— Este é o túmulo da mulher que morreu
queimada viva em 1979. Ela foi acusada de bruxaria por estar envolvida com o Homem
De Olhos Vermelhos. Uma escolhida para ser a hospedeira, para dar a vida ao
filho do homem de olhos vermelhos.
Hospedeira. Finalmente, aquele termo
começou a fazer sentido na mente de Luna, que agora temia ter sido escolhida
para se tornar uma escrava do Homem De Olhos Vermelhos. Por esse motivo,
certamente, seus sonhos estavam estranhos nas últimas noites, imemoráveis ao
despertar. Os ferimentos que surgiram em sua pele certamente eram presságios do
que estava por vir. Ela nunca acreditou nas histórias contadas pelos moradores
do vilarejo, até a noite da Caçada Selvagem. Um misto de incertezas cobriu seu
coração, e ela esboçou um sorriso ao ouvir a história pelos lábios de Vicente,
que mencionou ter contado ao delegado no dia anterior. Rafael, certamente, não
entenderia ou temeria a reação da esposa.
Antes de retornar para casa, Luna passou
pela capela e conversou um pouco com o padre, convidando-o para uma visita no
dia seguinte, quando o marido estaria de folga, para benzer o lar e livrá-lo de
todo o mal que seguia no sussurrar dos ventos.
elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz
Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro
participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique
Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem
direção
Carlos Mota

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