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O Lado Oculto da Lua: Capítulo 09

Novela de Luiz Gustavo
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O LADO OCULTO DA LUA - CAPÍTULO 09: "INTUIÇÃO"

A ÁGUA MORNA CAUSOU UMA IRRITAÇÃO IMEDIATA AO ENTRAR EM CONTATO COM A PELE DE LUNA. Ela se esgueirou para fora do chuveiro, somente agora conseguindo divisar, através dos reflexos da cerâmica laminada, os arranhões que cobriam todo o seu corpo. A queimação a fez temer o momento de passar o sabonete no corpo. Ensaboou as mãos e, com hesitação, começou a lavar-se, cada toque trazendo uma nova onda de dor. Os pensamentos a levaram de volta àquelas marcas de unhas, pareciam ter sido feitas com raiva. A última noite surgia diante de seu campo de visão, um borrão de lembranças vagas e fragmentadas. Não se lembrava de nada concreto, apenas sombras e murmúrios indistintos. Às vezes, acordava com marcas nos joelhos, no entanto essas eram irrelevantes em comparação à situação atual.

Ao desligar o registro do chuveiro, Luna se secou com a toalha de algodão, deixando a névoa de vapor envolver o banheiro. Observou o corpo através do espelho da pia e viu que as marcas se estendiam até as costas. O marido fazia questão de manter as unhas muito bem aparadas, uma das exigências higiênicas para trabalhar na delegacia; ele não poderia ter feito aqueles ferimentos. Ela desligou a luz do banheiro e seguiu para o quarto, enquanto o cachorro permanecia deitado no tapete, aguardando-a.

Luna secou os cabelos úmidos com outra toalha, aplicando um creme de camomila na pele, para aliviar o desconforto enquanto se sentava na cama. A manhã estava um pouco fria; uma blusa de manga comprida esconderia bem seus braços, assim combinando com uma calça jeans. Ela precisava ir ao centro do vilarejo comprar mantimentos na mercearia para o jantar, já que Rafael passaria parte do dia em Arraial D’Ajuda. Luna pegou sua bolsa e chamou Bob com um assovio, ele prontamente apareceu quando ela estava na porta, prestes a fechá-la. Não conseguia deixá-lo sozinho, então os dois seguiram caminhando juntos, como velhos amigos.

O sol fraco destacava o olhar curioso que algumas pessoas lançavam sobre Luna. Ao contrário de Rafael, ela não cultivava amizades com facilidade, e a solidão parecia engoli-la por não conhecer bem as pessoas do vilarejo. Sua intuição a guiou até a porta da Paróquia Divino Espírito Santo; precisava passar alguns minutos conversando com Deus, buscando uma luz diante dos recentes acontecimentos e do futuro incerto. Luna deixou Bob na entrada e ajoelhou-se, fazendo o sinal da cruz antes de iniciar sua oração:

"Meu Deus, agradeço pelas portas que foram abertas para mim e pela pessoa incrível que colocaste em minha vida, meu marido Rafael. Peço tua proteção para todos ao meu redor, inclusive para meu pai que está tão longe. Sinto a falta de meu lar, de minha raiz em Medeiros Netos, todos os dias. Mas sei que meu futuro está aqui, por isso, guie e protege minha casa de todo o mal. Amém."

Luna se levantou do banco, fazendo o sinal da cruz com as mãos antes de dirigir-se à saída da capela. Antes de partir, porém, passou pela pia batismal, aspergindo um pouco de água benta no rosto para purificar a alma. Ao deixar o ambiente sagrado, procurou pelo cachorro, que não estava mais onde o havia deixado. Assoviou enquanto se aproximava de duas senhoras sentadas em uma das casas ao redor da praça, saboreando geladinhos.

— Olá, prazer, meu nome é Luna. Entrei na capela para fazer uma breve oração e deixei meu cachorrinho sozinho na entrada, ele é um vira-lata caramelo. Muito bonzinho, sempre fica me aguardando quando faço algo. Mas desta vez parece que ele sumiu. Vocês o viram por acaso?

— Você é a esposa do novo delegado, não é? — perguntou uma das senhoras.

— Sim, sou esposa do Rafael.

— Ele é muito gentil — respondeu a outra. — Eu vi seu cachorrinho seguindo rumo à escola.

Luna agradeceu às duas senhoras e seguiu em direção à escola, que resplandecia sob a luz do sol. Uma atmosfera de inquietude pairava no ar. Assobiava repetidamente, esperando que Bob aparecesse magicamente. Enquanto caminhava, observava o ambiente ao redor com um arrepio constante, passando pelo Manoel Ribeiro Carneiro. Lembranças do último domingo vieram à mente, quando uma conversa ao telefone com o patriarca foi interrompida abruptamente pelo vento gelado que cortou sua alma. Aproximando-se do pequeno prédio da escola, o som irritante do orelhão ecoava incessantemente, enquanto as crianças permaneciam silenciosas e imóveis em suas carteiras, observando a professora escrever na lousa: “VOCÊ É A MINHA HOSPEDEIRA”. As palavras penetraram como garras afiadas em seus olhos, ao mesmo tempo que o sinal de trocas de salas tocou.

Luna ouviu os latidos de Bob vindo dos fundos da escola, onde ficava o cemitério do vilarejo. Ela caminhou lentamente, apreensiva com o que seus olhos poderiam ver à luz do dia. Seu coração batia forte enquanto observava Bob latir na frente de um túmulo onde estava escrito: “Lúcia da Silva Pinto, de 02 de novembro de 1959 a 22 de setembro de 1979.”

— Vamos, Bob, o que você está fazendo aqui? — disse Luna, perplexa.

Ela pôde observar os túmulos aprimoradamente alinhados no cemitério, contrastando de forma estranha com a beleza natural das montanhas ao fundo. Era a primeira vez que via um cemitério tão bem cuidado e bonito, com folhas e flores delicadamente arranjadas. Apesar disso, não se sentia à vontade para entrar e buscar Bob, chamando-o insistentemente para deixar aquele lugar.

— A senhora está perdida? — perguntou o rapaz educado, surgindo de um dos caminhos detrás da escola e aproximando-se de Luna. — O meu nome é Vicente. Nunca te vi por aqui nesta área. É humana ou alguma alma penada? Aqui, neste lugar, não duvidamos de mais nada.

Vicente falou aquelas palavras, tirando um sorriso do rosto de Luna.

— Eu sou a Luna, esposa do Rafael, o novo delegado da cidade. Meu cachorro sumiu do nada na frente da capela e está aqui no cemitério, latindo para aquele túmulo. Eu só queria ir embora, mas ele não me obedece. Por mais que eu não tenha medo, não quero entrar aí. — Luna disse, cumprimentando Vicente e continuando a chamar Bob, que agora parecia a acatar os seus pedidos. — E quando eu chegar em casa, vou ter que dar um longo banho nele para tirar esses maus agouros.

— Este é o túmulo da mulher que morreu queimada viva em 1979. Ela foi acusada de bruxaria por estar envolvida com o Homem De Olhos Vermelhos. Uma escolhida para ser a hospedeira, para dar a vida ao filho do homem de olhos vermelhos.

Hospedeira. Finalmente, aquele termo começou a fazer sentido na mente de Luna, que agora temia ter sido escolhida para se tornar uma escrava do Homem De Olhos Vermelhos. Por esse motivo, certamente, seus sonhos estavam estranhos nas últimas noites, imemoráveis ao despertar. Os ferimentos que surgiram em sua pele certamente eram presságios do que estava por vir. Ela nunca acreditou nas histórias contadas pelos moradores do vilarejo, até a noite da Caçada Selvagem. Um misto de incertezas cobriu seu coração, e ela esboçou um sorriso ao ouvir a história pelos lábios de Vicente, que mencionou ter contado ao delegado no dia anterior. Rafael, certamente, não entenderia ou temeria a reação da esposa.

Antes de retornar para casa, Luna passou pela capela e conversou um pouco com o padre, convidando-o para uma visita no dia seguinte, quando o marido estaria de folga, para benzer o lar e livrá-lo de todo o mal que seguia no sussurrar dos ventos.

autor
Luiz Gustavo

elenco
Luna Azevedo
Rafael Duarte
Mathias Castro
Dona Mocinha
Odete Azevedo
Cássio Vitorino
Vicente
Dr. Luiz

Admilson
Padre Miguel
Chico
Nassy Castro

participações especiais
Lúcia da Silva Pinto
Rubens Pinto
Aline Medeiros
David
Henrique

Inspirada na lenda de A Caçada Selvagem e no Lobisomem

trilha sonora
Birth - 30 Seconds to Mars

direção
Carlos Mota
 
produção
Bruno Olsen


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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