
4x05 - Na Curva do Vento (Season Finale)
de Claudia Rato
Gérbera tinha treze anos; Wanda, dezesseis. A primeira, uma menina miúda, de voz suave e olhar curioso, passava as tardes gravando vídeos sobre games. A Vila do Fim do Mundo, onde morava, era isolada e reclusa. Um lugar onde o tempo parecia se arrastar, como se a vida fosse feita de pequenos intervalos. Chegar lá, só de barco. E ninguém entendia como, em meio a tanta distância, a pequena se fazia ouvida além dali.
A vida de Gérbera era um recanto tranquilo, mas o universo que ela compartilhava com outros jovens pela internet era vasto, pulsante e cheio de possibilidades. Bem-vinda, Dona Internet.
Foi num fórum virtual de adolescentes entediados que os caminhos se cruzaram. Era um ambiente caótico, onde todo mundo falava demais e nada dizia de verdade. Alguns, raros, só observavam. Era o caso de Wanda. Alguém debochou de um garoto qualquer, e a destemida Gérbera saiu em defesa do menino. Seu comentário, perdido entre tantos, chamou a atenção da moça. Curiosa clicou no perfil da youtuber.
A voz, a timidez disfarçada e o jeito doce de comentar sobre os jogos soaram aos ouvidos de Wanda, feito poesia.
Sentiu um arrepio daqueles que a gente não entende, e não esquece. Gérbera ganhou uma seguidora. E Wanda, um destino. A conversa fluía, dia e noite. À medida que o tempo passava, algo mais forte que a simples amizade se formava entre elas, algo que não tinha nome, mas que as aproximava mais, a cada palavra trocada.
Tudo era muito novo para ambas. Os pés de Gérbera ainda pisavam na infância, enquanto os olhos tentavam adivinhar o que havia depois. Wanda também não estava muito além. Nenhuma das duas sabia o que sentia, nem mesmo se esse sentimento podia ter nome. Desejar alguém, para elas, era algo distante, um conceito quase abstrato, como algo que outras pessoas sentiam e que nunca aconteceria com elas; afinal, eram praticamente duas crianças. Mas ali, naquele espaço sem limites, algo crescia. Algo profundo, que não fazia sentido, mas que trazia uma sensação única de inquietação.
Quinze dias de prosa bastaram para Wanda pedir Gérbera em namoro. O coração da mais nova disparou - confuso, sim, mas tomado por uma leveza que ela nunca tinha sentido antes. As palavras de Wanda pareciam mais um convite a algo inusitado e assustador, mas, ao mesmo tempo, uma promessa de um lugar seguro no qual ela poderia se perder sem medo.
Recebeu as mensagens com as bochechas queimando. Não era só surpresa, era medo. Medo do desconhecido, de se perder em algo que poderia ser mais do que estava disposta a enfrentar.
“Não devia aceitar”, pensava a menina. Não ali, não daquele jeito. Naquela cidade, qualquer diferença virava rótulo — e carregar algo assim seria como andar com um segredo que todos fingem não notar. Naquele lugar, onde as normas e os olhares desconfiados pareciam dominar, qualquer transgressão era vista com um olhar desconfortável e impiedoso. Bastava um passo fora da linha, para virar assunto por uma década. Se não fosse brincadeira, seria uma sentença. Se não fosse ofensa, seria uma doença. E mesmo sem entender direito o que sentia, o medo era maior do que qualquer desejo. Tudo seria visto como errado.
Mas havia algo ali que nem esse temor calava. Uma ternura teimosa, delicada, que insistia em viver, mesmo na sombra. Era um sentimento suave, mas impossível de ignorar, algo que crescia no silêncio e nas pequenas palavras entre elas. E então, ainda que sem saber direito o que estava fazendo, ela disse sim, às escondidas.
Eram apenas duas meninas distantes, compartilhando um segredo inefável. Os poucos amigos que sabiam, achavam se tratar de uma brincadeira inocente. A família, sequer sonhava…
Mas o tempo passou. Um ano, três, cinco, e o sentimento só crescia, mesmo sem toques, sem abraços, numa distância sem fim, como um laço invisível que se apertava cada vez mais.
Enquanto os colegas se beijavam nos corredores das vielas escuras, Wanda mal saía de casa. Tinha medo de se interessar por alguém, de desrespeitar aquele amor que nunca fora tocado. Se sentia dividida entre a pressão da sociedade e o desejo que ela carregava, como se as expectativas do mundo todo se impusessem sobre suas escolhas. Gérbera fazia o mesmo.
Viviam como quem esperava a estação certa para florescer. Ambas sabiam que havia algo grande ali, mas se sentiam paralisadas, com medo de enfrentar o que esse algo poderia significar para elas, para suas vidas.
A mais nova, cheia de dúvidas, tinha medo de se interessar por algum menino — medo até de ser levada a um primeiro beijo sem vontade, só por parecer a coisa certa. Gérbera também tinha seus próprios medos, mas o maior deles era o de não saber o que fazer com o amor que sentia, que, embora silencioso e sem toque, era mais intenso do que qualquer relação que conhecia.
A paixão resistia, firme e silenciosa. Era como uma chama invisível que se mantinha acesa, queimando suavemente, sem consumir.
Com dezoito anos recém-feitos, Gérbera anunciou sua partida, à família e amigos. Fez suas malas e vestiu o que tinha de mais bonito. Borrifou o perfume que ganhou de presente da namorada, pegou o primeiro barquinho que saía pela manhã e foi à rodoviária rumo a três dias de estrada afora. Lá estava Wanda. A viagem foi longa e cheia de expectativas, mas também de incertezas. A cada quilômetro que passava, sentia o peso do que estava prestes a fazer, mas também uma felicidade inegável.
E quando se viram, não souberam o que fazer. O terminal, barulhento e lotado, virou deserto. Nada mais existia além das duas. Frente a frente, eram apenas garotas assustadas, com o tamanho do que sentiam. As palavras pareciam desaparecer diante da intensidade do momento. Nada mais parecia importar.
E o beijo? Ah, o beijo. Não veio naquele dia. Nem no seguinte. Ambas queriam. Ambas tremiam. Mas como se faz? Nunca havia beijado ninguém.
Três dias depois, no quintal de Gérbera, debaixo de uma goiabeira carregada, em meio a um silêncio onde só se ouviam as maritacas, suspiraram e se beijaram. Foi estranho. E doce. E certo. Os lábios colaram como quem encontra o caminho de casa. Foi um beijo lento, terno, de cinco anos, que dizia mais do que qualquer palavra conseguiria expressar.
O amor, esse que muitos não entenderam, resistiu às distâncias, ao tempo, às dúvidas, ao medo e à própria incerteza.
E, finalmente venceu.
CAL - Comissão de Autores Literários
Produção
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
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