
3x03 - O Guardião da Eternidade: No Convento da Penha
de Jean Javarini
Sempre gostei de caminhar pelas trilhas do Convento da Penha, em Vila Velha, no Espírito Santo. Capixaba que sou, cresci ouvindo histórias sobre o lugar: milagres, fantasmas e soldados que desciam das nuvens para defender o santuário. Naquela tarde nublada, decidi subir sozinho, atravessando a estrada úmida que serpenteava pela floresta silenciosa. O caminho parecia diferente, mais estreito, como se a mata quisesse me engolir. O cheiro forte de terra molhada e velas queimadas enchia o ar. Ao longe, a terceira ponte brilhava sob um relâmpago, como um lembrete de que o mundo real ainda existia além daquela névoa espessa.
Na subida, encontrei uma pequena capela abandonada. As imagens estavam cobertas de poeira, e o altar, rachado, abrigava uma cruz partida. Entrei com o coração acelerado. O silêncio era tão denso que minhas próprias respirações soavam como gritos. Velas tremularam sozinhas. Uma sombra rastejou diante dos meus olhos. Sussurros ecoaram, pronunciando orações proibidas. Meus joelhos fraquejaram; caí diante do altar, as mãos sujas de sangue que inexplicavelmente escorria das tábuas do chão.
As vozes falavam de pecado, penitência e condenação. Em meio à escuridão, um padre surgiu, mas seus olhos eram vazios, corrompidos por algo que parecia ser o próprio demônio. Senti uma força invisível tentar tomar conta de mim — possessão. Lutei, orando em voz alta, tentando agarrar-me à fé que ainda restava. De repente, uma luz surgiu. A imagem da Virgem da Penha apareceu flutuando sobre o altar quebrado, como diziam as antigas lendas. O padre maligno gritou em agonia antes de desaparecer na fumaça. Lágrimas escorriam dos meus olhos — de medo, de alívio.
Ao sair tropeçando da capela, ouvi ao longe sons de cavalos e soldados marchando pela mata, como se a velha lenda estivesse, naquele instante, mais viva do que nunca. Não olhei para trás. Dizem que quem desafia os antigos guardiões do Convento da Penha paga um preço. Eu escapei, mas, às vezes, durante a madrugada, ouço novamente aquelas vozes sussurrando... lembrando-me de que o julgamento ainda pode vir — e a eternidade aguarda.
As semanas seguintes foram um tormento. Toda noite, ao fechar os olhos, o cheiro de velas queimadas e terra molhada invadia meu quarto. A imagem da sombra rastejando diante do altar se repetia sem descanso. Passei a evitar igrejas, cruzes, qualquer lembrança daquela tarde maldita no alto da colina. Certa madrugada, após um pesadelo em que o padre sem olhos sussurrava orações proibidas aos meus ouvidos, acordei com algo gravado na palma da minha mão: uma pequena cruz marcada como se tivesse sido queimada na pele. O medo, que nunca havia me deixado de todo, tornou-se um companheiro constante.
Resolvi voltar ao Convento da Penha, buscar respostas. Subi pela estrada quase em transe. O caminho pela floresta parecia ainda mais hostil, a mata fechada, respirando pesadamente ao meu redor. Raios iluminavam a terceira ponte ao longe, como se a cidade real estivesse cada vez mais distante, separada por uma névoa espessa de outro mundo.
No topo, não havia peregrinos, nem turistas. O Convento parecia deserto, como congelado no tempo. As velas acesas na pequena capela tremularam ao vento, embora não houvesse corrente de ar. Atravessei o pátio e me ajoelhei diante da grande imagem da Virgem da Penha.
Foi quando ouvi.
Vozes — não de um, mas de muitos — sussurrando das sombras. Falam em penitência, pecado, condenação. E, entre as palavras, um nome que não era o meu, mas que agora parecia fazer parte de mim: Guardião.
Uma figura se destacou da escuridão: o mesmo padre, porém agora vestido com trajes cerimoniais antigos, as vestes cobertas de sangue seco. Ao seu redor, soldados com armaduras enferrujadas marchavam, as botas esmagando as folhas da mata que misteriosamente começava a invadir o pátio.
— Você foi escolhido — disse o padre com voz de trovão. — A fé enfraquece entre os vivos. O Convento precisa de um novo guardião.
Tentei recuar, mas minhas pernas estavam presas, como se raízes da floresta tivessem se enrolado em meus tornozelos. As lágrimas escorreram involuntariamente enquanto os soldados me cercavam. Era como um julgamento, um ritual há muito esquecido.
O relâmpago cortou o céu, iluminando a cruz do altar — agora torta, manchada. No instante seguinte, a Virgem da Penha sorriu para mim. Um sorriso sereno, porém, carregado de um aviso silencioso: não há como fugir da eternidade.
Fui consumido pela luz.
Hoje, às vezes, quando turistas sobem ao Convento da Penha e acendem suas velas, dizem sentir um arrepio inexplicável, como se uma sombra os observasse da floresta próxima. Alguns juram ver, entre as árvores, um homem de olhos tristes, carregando uma cruz quebrada.
Eu não os assusto. Apenas vigio. Até que venha o próximo. Anos se passaram.
A lenda do Fantasma do Convento se espalhou entre os capixabas como mais uma história para assustar turistas. Mas havia algo diferente nela: aqueles que subiam à noite — desafiando a fé ou zombando do sagrado — voltavam mudados. Ou, às vezes, nem voltavam.
Foi então que Clara surgiu.
Jornalista investigativa, jovem, determinada, criada em Vila Velha, Clara não acreditava em lendas. Para ela, tudo tinha uma explicação lógica. Movida pela curiosidade e pelo desejo de ganhar notoriedade, decidiu passar uma noite no Convento da Penha para desmascarar os boatos.
A noite que escolheu era chuvosa. Relâmpagos iluminavam a terceira ponte como nervuras douradas no céu. Subiu pela estrada solitária, com uma câmera presa no peito, gravando tudo. O cheiro de mata fechada, de velas antigas e terra molhada parecia mais forte naquela noite.
Quando chegou, encontrou o Convento mergulhado em escuridão. Só a capela lateral, a mesma de meus pesadelos, tremeluzia sob a luz de velas esquecidas. A cruz no altar, quebrada, parecia chamá-la.
Clara, com coragem misturada a uma ponta de medo, atravessou a floresta que parecia se mover, viva. As velas tremularam quando ela abriu a porta. A sombra que rastejava pela parede agora tinha forma: um homem com a cruz marcada nas mãos, olhos fundos e tristes — eu.
Ela me viu.
Mas diferente dos outros, Clara não gritou. Não correu. Aproximou-se.
— Você é o guardião? — sussurrou, quase num fio de voz.
Assenti. Pela primeira vez em anos, alguém não reagia com medo ou desespero, mas com compaixão.
O padre maldito e os soldados surgiram da mata. O ritual se repetiria: possessão, penitência, condenação. Mas Clara, de forma surpreendente, ajoelhou-se diante da cruz quebrada e começou a rezar. Verdadeiramente rezar.
Orações antigas, esquecidas, palavras de fé pura, não de medo. As velas se acenderam com mais força. A cruz, partida, brilhou. O padre gritou em agonia, dissolvendo-se em sombras. Os soldados desmoronaram como estátuas de areia. Eu senti. A corrente que me prendia se quebrou. As raízes da mata que envolviam minha alma foram arrancadas. Sangue e lágrimas se misturaram no meu rosto. Depois de tanto tempo, eu era livre.
Clara me estendeu a mão.
— Não é preciso guardar sozinho o que é sagrado — disse, com lágrimas nos olhos. — A fé não é um fardo... é partilha.
Segurei sua mão. E naquele toque, entendi: o Convento da Penha não precisava mais de fantasmas para protegê-lo. Bastava a fé viva no coração dos vivos. Naquela noite, a tempestade cessou. A terceira ponte brilhou sob a luz da lua, como um caminho de retorno. Hoje, Clara é conhecida como aquela que viu o impossível — e transformou uma lenda em esperança. A história mudou: não é mais sobre medo, penitência e condenação. É sobre ressurreição, coragem e redenção.
E quanto a mim?
Eu descanso finalmente, em paz, sob as raízes antigas da mata que cerca o Convento da Penha. Às vezes, quando a noite cai, Clara ainda sobe até o altar. Acende uma vela. E sussurra uma oração por todos nós — os vivos, os mortos e os que esperam a eternidade. Alguns dizem que Clara foi escolhida. Outros, que desafiou forças que não entendia e, por misericórdia, foi poupada. A verdade é que, desde aquela noite, o Convento da Penha parece mais leve, como se a própria floresta respirasse em paz. Mas ainda há quem, ao acender uma vela nas noites de tempestade, veja uma sombra silenciosa caminhando entre as imagens da igreja, vigiando em silêncio, com uma cruz restaurada nas costas e um sorriso triste no rosto.
Porque algumas lendas não terminam — elas apenas mudam de forma. E enquanto houver quem duvide, quem provoque ou esqueça a fé verdadeira, o antigo guardião — ou seus herdeiros — poderá renascer. Sempre que o medo rastejar entre a mata e o relâmpago cortar a noite sobre a terceira ponte, lembre-se: o Convento da Penha é sagrado... mas não está indefeso.
E quem ousar duvidar, sentirá o toque gelado da eternidade percorrendo a espinha. No Convento da Penha, a fé protege — mas o esquecimento, ah... o esquecimento cobra caro.
Conto escrito por
CAL - Comissão de Autores Literários
Telma Marya
Produção
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO

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