
Sinopse: Mariana e Vanessa se conhecem por acaso durante as férias na praia, dando início a uma conexão inesperada. Entre risos, confidências e descobertas, as duas vivem um romance intenso e transformador. Mas, com o fim do verão se aproximando, sentimentos, medos e escolhas começam a ser colocados à prova.
4x01 - Nossos Dois Meses (Season Premiere)
de Bruno Machado Carvalho
Começou com a minha típica elegância. Tropeçando no meu próprio chinelo e caindo de cara na areia, próximo aos pés de alguém. A pessoa pergunta se estou bem. A verdade é que eu tropecei por distração. Vi a pessoa mais bonita na minha vida. Alguém que deveria estar numa novela ou algum outro tipo de programa televisivo. Mas estava na minha frente, de biquíni, lendo um livro. O tipo de beleza que faz suas pernas pararem de funcionar e, quando se dá conta, bem, você está cuspindo areia. Talvez tenha sido um engano e eu não paguei mico na frente da mulher mais bonita da praia. Olho pra cima. Não houve engano algum.
Eu me levanto. Começo a falar. Aquele fluxo de consciência que escapa da boca quando estamos nervosas demais. Piadas autodepreciativas. Comentários deixando claro que eu sei o quão vergonhosa é a situação. E a proeza de continuar falando enquanto falo sobre o quanto eu não conseguia parar de falar. E sobre quantas vezes alguém consegue usar a palavra “falar” num único monólogo. Acho que foram umas oito. E você riu. Comigo e não de mim. Que risada gostosa. Semanas depois, me diria que nunca tinha conhecido alguém tão naturalmente engraçada quanto eu. Não faz ideia do quão eu estava tentando. Do quanto eu me esforçava só pra te ouvir rindo de novo.
— Prazer, Mariana.
— Oi, eu sou a Vanessa.
Começamos a conversar. Você contou uma história sobre um mico que pagou. Pra me deixar mais confortável. Sempre tão gentil. Continuamos falando sobre o livro que estava lendo. Nossas férias. Nossos trabalhos. Foi tão fácil conversar com você. Nenhum silêncio constrangedor surgia. Mesmo quando estávamos sóbrias. O que não durou por muito tempo. Quando me dei conta tava nua na tua cama. Não vou entrar em detalhes sórdidos. Mas meu Senhor Jesus Cristo! Aí dormimos. Bem, você dormiu. Eu fiquei te olhando dormindo. Nua! Me fazendo querer colocar uma blusa porque a comparação entre nós duas peladas diminui minha autoestima. Você acordaria, olharia pra mim, agora sóbria, e inventaria uma ligação e um drama familiar pra me mandar embora. Era o que eu pensava. Talvez desse tempo de fazer uns polichinelos, melhorar o meu shape. Mas o que acabou acontecendo não foi bem isso. Abriu os olhos. Trocamos um olá meio envergonhado. E me beijou. Com aquele mau hálito da manhã. O que não me importou nem um pouco. Ficamos nos olhando, pernas entrelaçadas. Vanessa sussurra palavras obscenas em meu ouvido, e o sol aparece timidamente na janela, não querendo invadir nossa intimidade. Uau! Que dia!
E assim continuamos pelos dois meses que tínhamos de férias. Sempre juntas. Mal falei com qualquer outra pessoa. Aquele período só pertencia a nós. De todas as maneiras. Almoço. Jantar. Cinema. Karaokê. Festa. Cama. Deitadas juntas. Você sempre sussurrando em minha orelha. Como se o que quisesse dizer só pertencesse a nós. Conversando sobre tudo. Me abri mais pra você nesses dois meses do que pra muitos amigos que tenho há anos. Você já tinha a mulher que eu não gosto do trabalho como inimiga pessoal. Sem falar do ódio similar à minha mãe por ser basicamente a razão de eu ter dismorfia corporal. Eu já tinha o seu irmão como alguém da família depois de ouvir suas histórias. Ficamos tão íntimas, tão rápido, que cheguei a te mostrar algumas fotos da adolescência. Fotos que, se eu tivesse bom senso, já teria queimado há muito tempo. Mas te mostrei. Queria que conhecesse tudo sobre mim. Mesmo o pior. Depois mostrou as suas fotos na época da escola. Obviamente, já era perfeita naquela época também. O seu dermatologista deveria ganhar um prêmio.
Eu sou completamente emocionada. E com você só piorou. Quando comecei a pensar na nossa vida com filhos no terceiro encontro, me aplaudi por ter aguentado dois encontros sem ter me perdido em algum devaneio similar. Eu não consigo ser diferente. Eu não consigo estar com você e não querer ficar assim pra sempre. É fácil ser cínica. Ainda mais quem já viveu. Quem já se decepcionou com alguém. Quem já foi traída por alguém que já considerou ser o amor da vida. Ser cética para não mais se iludir se torna o caminho mais natural. Para não se decepcionar, basta não esperar nada. Afinal, desistir é fácil. Continuar acreditando é difícil. Ela me fazia continuar acreditando. Desta relação, eu espero tudo de bom.
Mas nem eu sou tão ingênua. Eu sei. Eu sei que namorar uma pessoa bonita, na praia, se banhando com o sol e o mar… Esse é o sonho. E não vivemos no sonho. Logo a realidade volta. Trabalho. Boletos. Tarefas domésticas. Vizinhos preconceituosos. O ambiente é outro. O nosso humor é diferente. Estávamos vivendo no momento. E não existe “vivendo no momento” na escala 6x1 de trabalho. É a vida depois da festa. É a ressaca. Algumas coisas talvez devam ser sempre doces e breves.
Este é o nosso último dia de férias. É tudo o que penso. Sei que você também. O silêncio finalmente reina. Mas não é completamente desagradável. Existe uma tensão. Nós duas querendo algo. O medo da rejeição nos calando. Ou assim penso pra me iludir. Talvez seja apenas mais um dia normal para você. Talvez queira apenas seguir em frente. Mas você disse coisas tão bonitas para mim nesses dois meses. As coisas mais belas que já ouvi ao meu respeito. Elogios que nem minha própria mãe havia feito. Devia querer as mesmas coisas que eu. Fazia com que eu me sentisse bem. Me fazia sentir confiante. Ainda assim, não consigo falar nada.
Meus dedos contornam seu corpo. Eu olho para o seu rosto. Minha memória toma notas. Eu quero sempre poder lembrar do que aconteceu. Pode ser nossa última noite juntas. Não precisa ser. Nada dura pra sempre. Mas pode durar mais do que dois meses na praia. Enrolo minhas pernas na tua cintura. Minhas mãos seguram seu rosto. Crio coragem e digo que quero continuar te vendo. Em meu ouvido ela sussurra a resposta.
Conto escrito por
Bruno Machado Carvalho
CAL - Comissão de Autores Literários
Produção
Bruno OlsenCAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Gisela Peçanha
Paulo Mendes Guerreiro Filho
Pedro Panhoca da Silva
Rossidê Rodrigues Machado
Telma Marya
Produção
Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.
REALIZAÇÃO

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