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Antologia Sempre ao Meu Lado: 2x09 - A Vaca Amada (Season Finale)

Conto de Gisela Peçanha
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Sinopse: Um bichinho de estimação não precisa constar do tradicional grupo de animais domésticos: cães e gatos. A amizade e união entre uma adolescente e uma vaca leiteira já dura muitos anos, desde quando a menina e a novilha eram pequenas. O conto versa sobre afeto e lealdade, sobre a sensibilidade um animal, com algumas pinceladas do sobrenatural.

2x09 - A Vaca Amada
de Gisela Peçanha

Benedita era uma vaca da fazenda do Coronel Timbó. Malhada, gorda, com os olhos sempre levemente umedecidos e, diziam os peões, ela sabia a hora que iria morrer no abate. Sensível, com algum pacto junto ao sobrenatural, ficava inerte quando havia cantoria em noites de luar...ouvindo os trovadores. Se emocionando. Se comovendo com as notas que brotavam das violas. Aplaudia com os olhos e, muitas vezes, com o rabo. Quase gente.

Em sua defesa e proteção existia Marianita, a filha do coronel, que nutria um amor incondicional pela bicha. Vegetariana radical (inicialmente, para irritar o pai; depois, por plena convicção), tinha Benedita como sua vaca dileta: companheira da tenra infância. Assim, nas sextas-feiras, dias de abate, Marianita inventava febre, dor no peito, constipação e desmaio, a dissuadir o pai do extermínio da malhada idosa. Durante anos foi uma bovina fértil e de muito leite, útil, parideira de mão cheia. Encheu os pastos com seus muitos descendentes. Agora estava completando 11 anos. Talvez fizessem um churrasco com a bicha, mas o descarte era o mais plausível. O coronel argumentava que churrasco com carne de animal caduco dava má sorte, uma vez que a alma já estava mais perto de lá do que de cá. Churrascada, celebração, só com carne nova. Todos achavam uma ignorância, mas diziam amém. Benedita era a vaca leiteira mais gorda que já existiu na fazenda, e seria um churrasco para mil talheres. Mas ninguém iria. A vaca era querida por todos.

Teve sete crias durante a vida, e muitos netos; mas, agora, seu leite havia secado completamente. Improdutiva, sua serventia estava nula. E, seus dias, contados. Uma vaca velha que não produzia mais leite nem queijo, nem crias, só comia o dia inteiro e frequentava serestas. E, por conta do ostracismo, estava ainda mais gorda do que qualquer outra vaca da boiada ou dos arredores. Muita, muita carne! E isto não passava despercebidamente aos olhos do coronel Timbó. Ele era um fazendeiro de corte com muitas cabeças de gado, sempre visando lucro. Uma vaca no fim da vida, cheia de obesidade, era uma forma de dar alguma serventia a quem não servia para mais nada. Poderia ser um último ganho. Sua ganância não respeitava sequer aquele ser que lhe deu tanto, ao longo de uma existência. O coronel acreditava piamente nisso: ganhar sempre, até o último minuto.

Todas as manhãs de sexta-feira, no toque da alvorada, o peão Vladimir - que era obrigado a conduzir os animais para o abate - fazia soar o alarme de misericórdia: o badalar do sino da capela. Era uma combinação entre ele e Marianita (por quem nutria um amor desde a infância). Ele tocava o sino e estava entendido o aviso. Rapidamente, desesperadamente, Marianita pulava da cama e saía correndo para o pasto, desembestada, a retirar Benedita da boiada. E retirava, sempre! A vaca tinha uma espécie de coleira, feita por sua protetora - uma corda azul toda forrada de cetim macio - a não arranhar o pescoço da bicha. Catar Benedita no meio de centenas e colocar a coleira não era tão difícil, por conta de sua pança marcante. E Marianita já a conhecia tão bem, desde os seus 4 aninhos, e desde que a vaca era apenas uma bezerrinha. Brincavam juntas. A pequena Marianita passeava pelos campos e açudes no lombo da novilha, uma troca de afeto e companheirismo. A vaca bebê era tratada como um bibelô. Festas de aniversário eram organizadas para ela, quando ganhava grossos cobertores de lã - a aquecê-la nas noites frias do Sul do Brasil. O coronel Timbó comprou cachorro de raça, gato Persa, e até hamster chinês para a filha, a convencê-la de que uma vaca jamais poderia ser um animal de estimação. Mas, não houve jeito. Benedita não tão somente era um ser estimado, como muito amado. No leito do rio, ainda bezerra, foi até batizada.

— ‘’Eu vos batizo, Benedita! A Bendita! Minha Benê’’. A madrinha, claro, foi Marianita. O padrinho, ainda moleque, foi o peão Vladimir.

Crescendo juntas, a pitica herdeira das terras dos Timbó, e a vitelinha querida. Nunca se desgrudaram. Marianita sempre fez a ordenha. Tirando o leite, com todo cuidado, dando afagos e beijos. 

Porém, certo dia, o sino da capela não tocou. Despencou com o vento, durante uma tempestade na madrugada. E era dia de abate. Marianita acordou de súbito, saindo em disparada rumo ao local de sacrifício.

Lá chegando - e sem nada entender - avistou seu pai de joelhos, ao lado de Benedita. Em prantos. Curvado. De cabeça baixa. Os peões, de pé, rezando. Todos com seus chapéus de vaqueiro nas mãos. Havia um latente silêncio, tal qual uma oração pungente. Vladimir era o que mais engasgava o choro e, com os olhos vermelhos e esbugalhados, encarou Marianita, tentando explicar o que jamais conseguiria dizer com palavras.

Há meia hora passada, a vaca já estava pronta para a degola (posicionada em direção à Meca), com uma faca traçada em seu pescoço para que o próprio coronel a laminasse, quando algo aconteceu. O algoz a olhava fixamente e, ela, mirava nos olhos dele.  Ele tremia a faca diante daqueles olhos. Olhos humanos. Não os dele. Os dela. E eles choravam. E as lágrimas pingavam como uma cachoeira, inundando as botas dele.

Quando o facão apertou seu couro - já para ser cortado - Benedita mugiu. Mas não foi o mugido de um animal. Foi um choro de uma criança. Um lamento. E consagrou-se, ali, um silêncio comovido diante do que todos presenciaram. Naquele instante, viu-se homens rudes e capiaus, fortes e barbudos, soluçando como meninos. Em seguida, entoaram a prece do Pai Nosso, rodeando a vaca sagrada. E assim ficaram, por todo o dia.

No raiar da manhã seguinte, Marianita acordou com um sol quente e acolhedor. Levantou-se, foi até a janela e viu - ao longe – a cena inusitada de seu pai passeando com Benedita. Os dois, lado-a-lado. Ele caminhava lentamente, sem pressa alguma, no ritmo dos passos da ‘’velha senhora’’. Ela usava a coleira azul, para não machucar o pescoço. A partir desse dia, a fazenda deixou de ser de corte para ser de leite, queijos, mel e serenatas. O coronel passou a acreditar que não somente cães e gatos são animais de estimação, e que humanidade tem mais valor do que preço ou lucro. Benedita acompanhou muitas canções, até o fim da vida. Sempre derramando suas lágrimas doces, sensibilizada com os acordes que tanto amava.

Foi quando, em uma manhã de céu muito azul e brilhante, Benê partiu... não sentiu dor, não padeceu, apenas se foi, como uma vela que se apaga. Rodeada pelo coronel, por todos os peões e empregados até de fazendas vizinhas, e sob o choro de amor de Marianita e de Vladimir – que, de perto dela não saíram, nem por um instante! Os violeiros tocavam as toadas que ela mais gostava e, em seu derradeiro suspiro, a vaca amada não mugiu...sussurrou algo que parecia ser uma curta e abstrata melodia!  Como que para homenagear a todos os que estavam a seu lado, na hora da despedida. 

Assim, fechou seus olhinhos negros e encantados, e mais uma lágrima de emoção rolou...pela última vez.

Conto escrito por
Gisela Peçanha

CAL - Comissão de Autores Literários

Agnes Izumi Nagashima

Francisco Caetano

Gisela Peçanha

Liah Pego

Lígia Diniz Donega

Mercia Viana

Rossidê Rodrigues Machado


Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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