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Quando Ana Olhou para a Direita: Capítulo 08

Minissérie de João Paulo Coca
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QUANDO ANA OLHOU PARA A DIREITA - CAPÍTULO 08


O RASTRO DA MEDUSA
 

            Na manhã seguinte, Ana foi uma das primeiras a chegar na delegacia, e já preparava vários documentos e pistas que conseguiu levantar nos últimos dias para apresentar ao seu chefe. Para convencê-lo a abrir oficialmente um caso sobre o tráfico de pessoas na cidade, ela organizou uma pequena apresentação na sala de reuniões. Além do chefe, ela solicitou também alguns companheiros que pudessem colaborar de alguma forma ou saber de informações.

            — Bom dia a todos! Vou direto ao assunto. Como ainda não tivemos sucesso em identificar as jovens encontradas mortas na semana passada, muito menos algum suspeito, partimos para uma suposição que poderiam ser vítimas de um esquema de tráfico de pessoas — dizia Ana enquanto apontava para o quadro negro com várias informações anexadas a ele.

            A equipe estava bem atenta às falas de Ana, principalmente seu chefe, o Delegado Belfort. A assistente de Ana, Letícia, também entrou na sala, colocou um copo de café ao lado da detetive e se sentou ao fundo.

            — Venho levantando dados e pistas que me levam a crer que existe, sim, um grande esquema de tráfico de pessoas em São Paulo. Segundo meu informante, o esquema é antigo e seu foco é enviar mulheres para outros países — disse Ana com um tom de voz firme, que pudesse convencer e chocar a todos. — Essas mulheres são enviadas para serem exploradas a trabalhos escravos, prostituição e até mesmo mortas para terem órgãos negociados no mercado negro.

            Com um olhar rápido, Ana conseguiu perceber que o delegado acenava positivamente com cabeça diante dos fatos apresentados pela detetive.

            — Gostaria de solicitar ao senhor, delegado, que pudéssemos abrir um caso para investigar esse esquema em paralelo ao caso das jovens — disse Ana, ansiosa pela aprovação. — Além disso, gostaria de informações de todos que possam contribuir com alguma pista sobre essa quadrilha.

            — Tudo bem, Ana. Vou autorizar a abertura desse caso, com algumas condições. Você poderá dispor de tempo para investigar o caso, mas terá que trabalhar sozinha por enquanto, até conseguir alguma prova concreta. Aí, sim, disponibilizaremos mais gente da equipe para seu caso.

            Ana agradeceu a todos pelo tempo disponibilizado e saiu da sala muita excitada em poder trabalhar abertamente no caso. Letícia a seguiu até sua mesa para parabenizar a amiga.

            — Ótimo trabalho! Não disse que seu contato na máfia seria útil? — cochichou Letícia, referindo-se ao seu tio, Dimitri.

            Ana pediu a Letícia que começasse a pesquisar o endereço dado pelo informante, enquanto ela buscava uma relação entre a palavra Medusa e seu caso. Suas pesquisas apenas mostravam histórias e fatos sobre o monstro da mitologia grega representada com serpentes no lugar do cabelo e que transformava pessoas em pedra ao olharem diretamente para seus olhos. A lenda contava que Medusa foi morta pelo famoso herói grego, Perseu.

            — Como não pensei nisso?! — disse Ana enquanto pesquisava qual a relação do nome Medusa com a cidade do Guarujá, que havia sido citada pelo barqueiro.

            E, com isso, acertou em cheio. Imediatamente, sua pesquisa mostrava fotos de uma bela lancha esportiva com o nome Medusa estampado na lateral. Ela encontrou um anúncio de uma agência de turismo que agenciava passeios pela costa e praias da região, inclusive passeios realizados com a lancha suspeita.

            Ana pediu que Letícia fizesse uma investigação sobre o endereço do antigo ponto de encontro da quadrilha, além de questionar ao departamento de trânsito se tiveram alguma novidade sobre a placa da caminhonete preta que começaram a investigar na semana anterior. Ana disse que passaria o dia no Guarujá, ela investigaria de perto a pista sobre a tal Medusa.

            — Essa investigação tem levado você muito até a praia. Quando precisar de companhia, já vou deixar meu biquíni na bolsa — comentou Letícia, aos risos.

            — Ontem não resisti e acabei comprando um biquíni na praia mesmo, e entrei no mar — respondeu Ana se abaixando ao lado da mesa de Letícia. — Foi maravilhoso! Principalmente porque ainda era cinco da tarde.

            — Ai, meu Deus! — suspirou Letícia. — Quanta rebeldia da Ana Banana.

            — Qualquer dia desses, te levo junto! — disse Ana, juntando as mãos como se fizesse uma promessa.

            Ana serviu e bebeu mais uma pequena dose de café, recolheu seus pertences, colocou sua arma e distintivo na bolsa e partiu em direção à cidade do Guarujá. Então, dirigiu por pouco mais de uma hora até lá ouvindo sua playlist preferida. Uma seleção de versões acústicas de vários clássicos da música nacional e internacional, que iam de Beatles à Anavitória.

           

            Ao chegar na cidade, Ana foi direto à agência de turismo que viu na internet para se informar sobre os passeios de lancha. Dentro do local, havia um painel na parede com várias opções em panfletos com anúncios de lanchas, barcos e escunas que realizavam diversos tipos de passeio pela região. Ana retirou um panfleto da lancha Medusa e foi até o balcão contratar o passeio turístico.

            Ana foi informada pelo atendente que o passeio começaria a partir das 14h e o embarque seria feito na Marina Atlântida, entregando um voucher com todas as informações necessárias para que ela chegasse ao local e pudesse entrar na lancha. Coincidentemente, Ana já conhecia a Marina Atlântida. Era um dos empreendimentos do seu tio, Georgios Torosídis.

            Foi uma ótima oportunidade para uma visita à família. Então, resolveu ir mais cedo e almoçar no restaurante O Rei do Mar, especializado em peixes, que também fazia parte dos negócios do tio. A rede de restaurantes se espalhava por várias cidades da costa brasileira e era gerenciada pelo filho de Georgios, seu primo Estevão. O restaurante era bem aconchegante e Ana escolheu se sentar na área externa que tinha uma bela vista para a praia.

            — Bem-vinda ao Rei do Mar! — disse a atendente com um sorriso no rosto. — Posso anotar seu pedido?

            — Eu ainda não escolhi, pedirei daqui a pouco — respondeu Ana. — Por acaso, encontro o Estevão aqui hoje?

            — Infelizmente, não. O Sr. Estevão está sempre viajando a trabalho, ele visita todas as nossas unidades com frequência. — Com um sorriso malicioso, ela completou. — Seria ótimo vê-lo todos os dias.

            Ana soltou um sorriso, meio espantada com o comentário da funcionária, mas seguiu olhando cardápio. Ela pediu a opção de camarão à milanesa gratinado com molho de tomate e queijo muçarela, servido junto de um arroz branco e uma salada ceaser. Após o almoço,  Ana ainda tinha muitop tempo até a partida de seu passeio. A marina ficava logo ao lado do restaurante, já que faziam parte do mesmo conglomerado.

            Resolveu passar pela área administrativa da marina para tentar fazer uma visita ao tio Georgios. Contornou a área do restaurante para chegar até o portão de acesso ao escritório do local. Ao subir algumas escadas se deparou com seu primo, Paulinho. Assim como a maioria dos irmãos de Ana, seu primo também era fruto de um caso extraconjugal do tio, mas ele não era tão aceito pela tia, como sua mãe Vera fez ao acolher os filhos bastardos de Konstantinos.

O filho mais novo de Georgios era bem diferente do irmão Estevão, muito tímido e não tão belo quanto. Ainda era marcado por usar um tapa-olho desde a infância, quando foi vítima de um sequestro e acabou perdendo o olho esquerdo durante a tentativa de fuga dos bandidos. Vários eram os motivos que o transformaram em um jovem recluso e sem muitos amigos, evitando chamar atenção para si. 

            — Oi, primo! — cumprimentou Ana ao se aproximar no balcão de informações. — Não sabia que estava trabalhando aqui ­— comentou Ana.

            — Oi, Ana! — respondeu Paulinho com um sorriso. — Estou, sim. Meu pai me trouxe para trabalhar com ele há uns dois anos.

            — Que ótimo, Paulinho!

            — É, sim. Sua tia não foi muito a favor no início, mas o Estevão a convenceu, como sempre.

            — O Estevão é bem convincente quando quer — disse Ana, sorrindo. — Que bom que vocês ainda se dão bem!

            — Nos damos bem sim. Até melhor que com o meu pai — respondeu Paulinho, em voz baixa.

            — Por falar nisso, o tio Georgios está por aqui? Queria aproveitar para dar um oi.

            — Está sim. Vou avisá-lo que está aqui.

            Paulinho pegou o telefone e fez uma chamada para o ramal da sala do pai, que imediatamente autorizou a entrada da sobrinha Ana.

            — Até mais, Paulinho. Quando for a São Paulo, faça uma visita!

            — Obrigado, Ana! Volte mais vezes também.

            Ana caminhou até a sala do tio, que já a esperava na porta.

            — Olá, Ana! Feliz em recebê-la aqui — disse Georgios, de braços abertos para abraçar a sobrinha. — Já faz muito tempo que não te vejo por aqui. Aliás, raramente recebo visita dos parentes da cidade grande.

            Ana concordou, sorrindo enquanto apreciava a bela vista da sala com uma parede de vidro de frente para o mar.

            — Bela parede, não? — comentou ele, percebendo o espanto da sobrinha. — Vocês paulistanos não estão acostumados com a beleza do mar ­— completou, soltando uma gargalhada.

            Após  as brincadeiras e cumprimentos, os dois falaram por alguns minutos sobre a família. Ana comentou que estava feliz em ver Paulinho trabalhando na marina.

            — Ele é um ótimo garoto! Quero me aposentar em breve e navegar pelo mundo, enquanto os meninos tomam conta dos negócios — disse Georgios, recostando-se em sua cadeira. — Mas o que traz você ao Guarujá?

            — Vim fazer um passeio de lancha!

            — Mesmo? Que ótimo. Você vai adorar. Está de folga hoje?

            — Não, vim a trabalho. Meu passeio envolve a investigação sobre um caso.

            — Olha, um caso policial? É sobre o quê? ­­— perguntou ele, curioso

            — É uma informação sigilosa — disse ela com um sorriso, descartando a pergunta.

            — Qual seu passeio?

            — Vou fazer um passeio na lancha Medusa. Conhece a tripulação?

            — Só o capitão. Mas tenho pouco contato com o pessoal dos barcos.

            — E o senhor já presenciou alguma ação estranha?

            — Como disse, tenho pouco contato com eles. Minha marina serve apenas como garagem pra eles, não sei quem entra ou sai da marina — respondeu o tio com um tom meio irônico.  

            Georgios pediu perdão, agradeceu a visita da sobrinha e disse que precisava ir a uma reunião no centro da cidade. Ao menos, já havia conseguido passar algum tempo até a hora de embarcar no seu passeio às 14h.

            — Obrigado pela visita, Ana! Diga ao resto da família para virem nos visitar também — disse Georgios enquanto se levantava da cadeira. — Quem sabe marcamos um passeio de barco para toda a família?

            — Melhor não! Senão, teremos muita gente sendo jogada aos tubarões — respondeu Ana, rindo enquanto caminhava em direção à saída.

            Seu tio a acompanhou até ao balcão de informações, despediu-se dela e do filho, Paulinho e desceu as escadas em direção ao seu compromisso. Ana ainda trocou mais algumas palavras com o primo e também partiu em direção à área de embarque da marina. Ela já se aproximava de um grupo de turistas que também aguardava para o mesmo passeio e se sentou em um dos cantos do deck de embarque.

Durante a próxima meia hora, ela permaneceu observando o mar e as embarcações que transitavam por ali. Além disso, trocou algumas mensagens com Letícia para saber se havia conseguido informações sobre o endereço fornecido pelo informante, mas ainda sem sucesso.

A lancha parou ao lado deck para os atuais passageiros desembarcarem e a nova turma de turistas pudesse subir a bordo. Enquanto essa troca de passageiros era feita, Ana observava, tentando identificar quem era quem da tripulação. Após a tripulação repor as bebidas para consumo dos passageiros e todos embarcarem com segurança, a lancha partiu em direção ao passeio pela costa.

            A lancha Medusa era super luxuosa. Havia cerca de quinze pessoas a bordo, entre turistas e tripulantes. Após fazer uma rápida análise do local e das pessoas a bordo, Ana percebeu que quem realmente chamava atenção e tomava todas as decisões do barco não era o capitão, mas um homem muito bonito e extremamente simpático. Ele era responsável por animar o passeio, além de servir como uma espécie de guia sobre os locais por onde passavam.

            Ana começou a notar como aquele homem charmoso era muito mais simpático com as mulheres solteiras. Mesmo não sendo muito habilidosa na área das conquistas, ela resolveu arriscar seu charme em direção ao galã de barba cerrada e camiseta floral entreaberta.

            — Oiii! — disse Ana, prolongando o cumprimento de maneira simpática. — Essa lancha é maravilhosa!

            — Oi, minha linda — respondeu ele, abrindo um grande sorriso. — E você combinou muito bem ela.

            Ana continuou no personagem, tentando convencê-lo de algum interesse.

— Você conhece muito bem a região? Vive aqui no Guarujá?

            — Vivo, sim. Tenho uma casa na Praia da Enseada. Conhece?

            — Não. É a primeira vez que venho na cidade. Mas não deve ter nada melhor que morar próximo ao mar.

            — Ah, sim! Viver essa liberdade é fantástico! Você devia experimentar mais vezes.

            — A noite aqui deve ser bem agitado, não é? — perguntou Ana, colocando a mão no braço do homem.

            — É, sim. A noite aqui é ótima. Inclusive, eu sou responsável pelas melhores festas da cidade — disse o homem se gabando. — Tanto na minha casa como nas festas noturnas aqui na Medusa — completou ele, acariciando a poltrona da lancha.

            — Nossa! Festa na lancha? Será que eu seria convidada? — disse Ana, rindo e tentando jogar todo seu charme para conseguir algum convite para essas festas.

            — As festas são muito exclusivas. Mas uma mulher maravilhosa dessas sempre é bem-vinda — disse ele, entregando um cartão de visitas preto escrito o nome Felipe ‘Morfeu’.

            — Morfeu? — questionou Ana. — Sobrenome diferente.

            — É só um apelido! Porque eu sou o rei da noite, e responsável por realizar sonhos — terminou ele com um tom sedutor.

            Ana se segurou para não sair de seu personagem e cair na risada diante da sedução barata do ‘rei da noite’. Mas ela deu um sorriso tímido, guardou o cartão e disse que ligaria pra ele em breve, pois estava super a fim de uma balada. Após o fim do passeio, que durou cerca de uma hora, Ana desembarcou e trocou alguns olhares com Felipe, que retribuiu com um sorriso, assim como ele fazia com todas as moças que também desciam da lancha.

Ana caminhou de volta para o estacionamento, junto ao grupo de turistas, pegou seu carro e retornou para São Paulo com mais um nome a ser investigado: Felipe ‘Morfeu’.

            Ana ainda passou pela delegacia para assinar alguns documentos solicitados por Letícia, que já havia ido embora. Antes de ir, Ana passou pela sala do chefe e disse que a ida ao Guarujá pareceu ser produtiva, que ela tinha um suspeito e que logo teria provas para colocar mais gente trabalhando no caso. O chefe ficou satisfeito com a notícia e disse pra Ana ir pra casa e trabalhar nisso no dia seguinte.

           

            Após chegar em casa, Ana abriu a porta e quase pisou no seu cachorro, Perseu, deitado bem próximo à porta, como se esperasse a dona. Ela se agachou para abraçá-lo.

            — Você deve estar com fome — falou ela.

            Com um latido forte, Perseu aparentemente respondeu que sim e seguiu Ana até a cozinha. Ela abriu o armário para pegar o jantar de seu companheiro, colocou a ração em sua vasilha, além de colocar também um pouco de água ao lado.

            — Enquanto você come, vou tomar um banho e depois vamos assistir a um filme! — disse ela ao cachorro enquanto caminhava para o quarto.

            Após um banho quente, Ana vestiu seu pijama, preparou seu jantar e se jogou no sofá para curtir a noite com Perseu e alguma novidade da Netflix. Mas, ao se aconchegar, seu telefone tocou. Era seu pai. Parecia que a família de Ana adorava tirá-la do conforto do sofá em horários inesperados.

            — Alô, pai! Aconteceu alguma coisa? — disse ela, espantada pela ligação incomum.

            — Oi, Ana. Está tudo bem, só liguei para saber como você está.

            — Estou bem. Cansada, na verdade. Tenho trabalhado muito esses dias.

            — Está trabalhando em quê?

            — Essas coisas são confidenciais, pai. O senhor sabe disso.

            — Eu sei, eu sei. Só estou brincando — disse ele, mudando de assunto. — Seu tio me disse que esteve no Guarujá hoje, é verdade?

            — É verdade, sim. Estou investigando um caso que pode ter relação com a cidade —disse ela, tentando cortar logo o assunto. — E a mamãe, como ela está?

            — Já está deitada. Mas esteve bem triste nos últimos dias.

            Ana ficou receosa que mãe tivesse ficado nesse estado devido à sua discussão com o irmão, Andreas, no fim de semana. Disse que tentaria visitá-la assim que possível.

            — Olha, Ana, estou ligando também por outro motivo — disse ele, mudando o tom de voz para um mais sério, quase ameaçador. — Não quero saber de você indo procurar seu tio Dimitri.

            — Co-como assim? Como o senhor sabe disso?

            — Não importa. O Dimitri é um homem perigoso, manipulador e que só se importa com ele mesmo. Não faria bem para sua imagem ser vista com ele.

            — Olha, pai! Primeiro, que eu já sou bem grandinha para tomar esse tipo de decisão — respondeu Ana com um tom de voz seguro de suas palavras. — O Tio Dimitri tem seus problemas com a família e a Justiça, mas, no momento, ele me foi muito útil.

            — Ele está te manipulando ou levando vantagem de alguma forma com essa ajuda.

            — Não se preocupe, pai. Eu sei muito bem lidar com isso.

            Enquanto falava com o pai, Ana imaginava quem poderia ter contado sobre sua visita ao tio. A única pessoa que ela conseguia imaginar era o irmão, Andreas. Era o único que gostaria de criar esse conflito gratuito entre eles. Além do que, Andreas tinha grande envolvimento com a milícia que atuava em algumas comunidades comandadas por Dimitri.

            — Foi o Andreas que te contou? — disse Ana em tom acusativo.

            — Como disse, não importa — respondeu seu pai, aumentando a voz pra ela. — Importa que você tem trabalhado demais e precisa se distrair, se divertir, arrumar um namorado, ou talvez uma namorada, um filho... Tanto faz!

            Mais uma vez, Ana era colocada em uma conversa constrangedora sobre ter que seguir as regras da família conservadora que a obrigaria, se pudesse, a se casar logo para gerar mais alguns Torosídis para o mundo. Dessa vez, a paciência dela já havia se esgotado, mas, para não terminar a conversa com uma briga, ela disse que precisava resolver algumas coisas, despediu-se do pai e desligou o telefone antes mesmo de ele responder ou tentar retomar a conversa.

            Ao desligar o telefone, Ana foi até a geladeira, serviu uma bela quantidade de vinho e em poucos instantes sua taça já estaria vazia. Aquilo ajudaria a acalmar e relaxar até pegar no sono. Como o clima para o filme havia se dissolvido durante o telefonema, Ana resolveu se deitar mais cedo e stalkear o Instagram do tal Felipe ‘Morfeu’. Seu perfil era recheado de fotos dele mesmo exibindo sua beleza, além de muitas mulheres bonitas, celebridades e outros milionários. Realmente, ele era um promoter de eventos com aparente sucesso.

            Chega de Morfeu por hoje, pensou Ana ao desligar seu telefone para que tivesse uma noite tranquila de sono, sem nenhuma surpresa.

 

            Ao retornar à delegacia na manhã seguinte, Letícia disse a Ana que havia saído mais cedo no dia anterior para passar pelo endereço que ela havia pedido, pois não encontrou nada suspeito nos registros nem na internet. Segundo ela, o local era atualmente uma loja de roupas femininas, e a construção não era tão antiga. Nada que se parecesse com um covil de traficante de pessoas.

            Ana esperava não encontrar nada no endereço, como o próprio Ronte havia falado. Mesmo assim, sentiu certa decepção. Ela pediu que Letícia deixasse as informações do endereço anexadas ao caso, pois poderia vir a ser necessário no futuro.

            — Sobre ontem, além visitar minha família praiana, consegui o contato de um suspeito — disse Ana, entregando o cartão de visitas à Letícia. — Literalmente, consegui o contato.

            — Olha, toda saidinha conseguindo telefones! — brincou Letícia, pegando o cartão. — Morfeu? Que nome é esse?

            — É um apelido do... ‘Rei da Noite de Guarujá’ — respondeu Ana com uma gargalhada contida. — É um promoter da cidade e o responsável pelas festas na lancha Medusa.

            — E como você conseguiu esse contato?

            — Usando todo meu charme, querida! — respondeu Ana, fazendo uma pose com a mão embaixo do queixo e uma piscadela. — Ainda levo jeito! Mesmo ficando mais nervosa que entrar em um tiroteio — completou ela.

            Ana terminou de contar os detalhes sobre a lancha e a tripulação e pediu que Letícia fizesse uma varredura nas redes sociais do suspeito. Qualquer rotina de festas, pessoas ou algo diferente do comum poderia ser uma pista para o caso. Enquanto isso, a detetive entraria em contato com a polícia local para tentar descobrir o verdadeiro nome de Felipe ‘Morfeu’.

            Ana foi até a sala do chefe e perguntou se ele conhecia alguém da polícia do Guarujá. Ele disse que não era íntimo, mas conheceu o sargento da Polícia Militar local há alguns anos em uma ocasião. A detetive pediu que ele ligasse pra ele apenas para autorizar que alguém do quartel pudesse conseguir o sobrenome de um suspeito. O delegado atendeu ao pedido de Ana e disse que, assim que conseguisse, transferiria a ligação. Ela agradeceu e voltou para sua mesa, ansiosa.

            Enquanto aguardava a ligação, Ana reabriu sua pasta sobre o caso das jovens encontradas mortas para rever algum fato que poderia ter passado despercebido durante os primeiros dias de investigação. Mesmo com esses pequenos avanços no caso sobre o tráfico de pessoas, Ana ainda estava pressionada e chateada consigo mesma por não conseguir encerrar o caso das jovens. Sua esperança era que seu instinto estivesse certo e o assassinato das jovens tivesse realmente ligação com seu novo caso.  

            Pouco tempo depois, Ana recebeu a ligação que esperava. Seu chefe havia feito contato com a polícia do Guarujá e haviam autorizado Ana solicitar informações sobre o suspeito.

            — Olá, detetive! O delegado me disse que você precisa de nome de alguém aqui da cidade? — perguntou o policial do outro lado da linha.

            — Bom dia. Isso mesmo! — respondeu Ana. — Seria de grande ajuda para um caso nosso saber o nome completo de um promoter que organiza festas na cidade, atende pelo nome de Felipe ‘Morfeu’. 

            — Claro, o Morfeu é uma figura conhecida tanto na cidade, como da Polícia Militar. Um minuto, e eu te passo os dados que precisa.

            Ana aguardou ansiosa na linha por cerca de dois minutos, até que o policial voltou a falar com ela, já com a informação em mãos.

            — O nome completo é Felipe Moreira Alcântara. É filho de uma família rica aqui da cidade e vive dando problemas de perturbação com suas festas — respondeu o policial com certo desprezo na voz.

            — Muito obrigada, senhor! Isso será de extrema ajuda em nosso caso.

            — Disponha, detetive. Se precisarem de mais alguma coisa sobre o caso, é só me ligar.

            — Claro! Agradeço muito... senhor...?

            — Drummond. Cabo Drummond.

            Após se despedir do policial que foi tão prestativo, Ana partiu em busca de informações sobre o suspeito direto no sistema da polícia. Assim como as redes sociais de Felipe ‘Morfeu’, estava recheada de festas e belas mulheres. A ficha policial de Felipe Moreira Alcântara também era abarrotada de registros por desordem noturna, posse drogas e desacato.

            Ao ler a bela ficha criminal de Felipe, Ana teve uma ideia que poderia ser uma ótima maneira de conseguir interrogá-lo. Como os militares da cidade estavam dispostos a ajudar, Ana resolveu armar uma pequena operação conjunta com a polícia local para uma batida policial em uma das festas de Felipe, já que aparentemente era um costume alguns eventos terminarem na delegacia.

O Delegado Belfort autorizou Ana a organizar essa operação e disse que ela deveria se envolver o mínimo possível, já que esse tipo de ação não envolvia a Polícia Civil. Ana agradeceu e concordou, dizendo a ele que a operação estaria disfarçada de uma denúncia de perturbação de ordem.

Após o consentimento do chefe, Ana deu início à operação. Ligou novamente para Drummond, que havia falado há pouco, perguntando se seria possível que os militares pudessem fazer essa batida policial simulando uma denúncia, e foi prontamente atendida pelo cabo.

            Mais tarde, Ana pegou o telefone de ‘Felipe Morfeu’ em seu cartão de visitas e mandou uma mensagem em seu número de WhatsApp. Rapidamente, o suspeito respondeu Ana com alguns gracejos sobre a beleza dela. Ana disse que se conheceram no passeio de lancha no dia anterior e que estava a fim de voltar à cidade para uma das famosas festas do promoter. Sem suspeitar de nada, Felipe disse que seria ótimo que ela voltasse, estava interessada em conhece-la melhor.

            — Seu dia de sorte! — escreveu Felipe, todo convencido. — Amanhã é dia da melhor baladinha da cidade. Super exclusiva e você está convidadíssima, minha linda!

            Suas mensagens eram sempre acompanhadas de emoctions de beijos e bebidas.

            — Que ótimo! É claro que vou! — digitou Ana, verdadeiramente empolgada. — Me manda a localização aqui e nos vemos amanhã.

            Ao conseguir tudo que precisava, Ana voltou a ligar para o Cabo Drummond e ajustar os últimos detalhes da operação na noite seguinte. Ana estava disposta a tudo para arrancar informações daquele playboyzinho. 

Encerra com a música: (Upside Down - Jack Johnson).


autor
João Paulo Coca

elenco
Giovanna Antonelli como Ana Torosídis
Sheron Menezzes como Letícia
Cauã Reymond como Felipe Morfeu
Otávio Muller como Antero Torosídis
Antônio Fagundes como Konstantinos
Alexandre Borges como Georgios
Miguel Falabella como Dimitri
Carmo Dalla Vecchia como Andreas Torosídis
Larissa Manoela como Helena Torosídis

trilha sonora
Upside Down - Jack Johnson

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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