Antologia Contos Contemporâneos da Violência Urbana: 2x07 - O Caso dos Bebês Gigantes - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

Antologia Contos Contemporâneos da Violência Urbana: 2x07 - O Caso dos Bebês Gigantes

Conto de Nei Rafael Ferreira Filho
Compartilhe:

 





Sinopse: Mortes são investigadas a partir da aparição de objetos abandonados em espaços públicos.


2x07 - O Caso dos Bebês Gigantes
de Nei Rafael Ferreira Filho

    Abriu a porta do apartamento, deu às costas e atirou as chaves na mesa do console. De um chute vindo de trás, bateu a fechadura, jogando no sofá o corpanzil vencido pelo sono. Dormiu profundamente. De olhos cerrados, os globos moviam de um lado a outro enquanto imagem era formada na funda zona abissal do cérebro.

   Apareceu reluzente sonho: 

   Um menino, de uns cinco anos, surgiu com uma lata para guardar biscoitos debaixo do braço. Uma rápida conversa animou o sonho daquela noite.

-- Dá-me tua mão, menino recém chegado. – pediu o homem, enquanto se fez mais presente e em aproximação, trajando elegantes vestes brancas e ainda mais, pois tinha um sorriso amável.

-- É uma escada enorme! – exclamou surpreso, entregando a mão ao homem de branco e, ao mesmo tempo, cuidando para não deixar a caixa de lata escapar-lhe e tombar ao chão coberto de névoa.

-- Subiremos agora. Não tenha medo... – acalentou o guia.

    Olhou a paisagem muito clara ao redor e, tomado de coragem, resolveu dizer suas últimas palavras num registro de voz embargada:

 -- Moço: estamos no céu? A escada é sem fim. Bate nas nuvens. Aqui é o céu?

    O homem o olhou de cima, num olhar manso, marejado em bondade. Mas com o indicador apontou para os degraus. Disse-lhe:

-- Você está certo. Aqui é o seu novo começo. Subirá sozinho daqui em diante.

O menino deu alguns passos para frente e perguntou se ele não queria ficar com a lata.

-- São meus brinquedos. Aceite um... Vou tirar a tampa para ver.

    No sonho formado, em lampejos de cenas sobrepostas, o menino se afastou, a lata foi parar às mãos do condutor. Aberta a caixa, o sonhador pode ver o que havia dentro da lata de folha de flandres. 

    E o sonho se desfez. 

                                                       Um 

    Ricardo chegou ao Distrito Policial. Era uma manhã iluminada e os colegas o aguardavam para reunião urgente marcada pelo Delegado Noronha.

-- Ele comentou o acidente dos carros e moto, da noite de ontem, Ricardo... – adiantou a escrivã Celma. 

   O acidente da madrugada anterior repercutiu na imprensa. Era o quinto em menos de dez dias. Trafegando na avenida, automóveis eram surpreendidos por bebês soltos no asfalto. Freavam bruscamente, ocasionando choques involuntários entre os veículos. Mas o da noite anterior, já alta madrugada, envolveu uma motocicleta. A freada brusca do condutor o arremessou com impressionante impacto para junto à grade do acostamento. 

-- O bebê da madrugada estava em pé. Dessa vez foi diferente. Teremos de anotar isso – enquanto o assessor informava da ligação telefônica em sua sala.

-- Mas são bonecos! – revidou o Comissário Andreas.

   O delegado servia-se de café e enquanto adoçava a bebida, pôs-se à frente de Andreas:

-- Os demais estão sempre deitados. São perfeitos. O brilho dos olhos de vidro desses bonecos de bebês... – discorreu fazendo um sinal com a mão de que não poderia atender ao telefone – Você conhece outra medida a evitar não nos confundirmos com tamanha perfeição?

   Ricardo anotou num bloco as impressões recebidas das fotos do PowerPoint projetadas no screen da sala de reuniões.

-- E você, Ricardo? O que tem a dizer? O último boneco estava próximo de sua casa – destacou Noronha ao observar numa planilha as graduações de seus auxiliares. E continuou a preleção:

-- Teremos de fazer ronda... São ordens... A estatística impõe mais atenção. Ou dançaremos... Darão o caso para o Quinto Distrito! Atenção!  Após a aparição dos bonecos perfeitos ocorre um homicídio! 

     Celma foi servir café ao colega Ricardo. E gracejou-lhe ao pé do ouvido:

-- Pelo visto a noite foi boa... Não queira te olhar no espelho, ‘Sr Ricardo  prestes a ser promovido a Comissário’! – ela destacou, numa saborosa simpatia, a de reconhecimento.

     Mas ele suspirou e rebateu:

-- Tive uma grande noitada! Uma noitada de sonho revelador! Isso sim. Foi um sonho estranho... – disse, aceitando a caneca de café com a estampa do cão Pluto.

-- Então beba o teu café! O Pluto e o Mickey são grandes detetives, Comissário Ricardo! 

                                                       Dois.

    Anoiteceu na cidade desprotegida. As ruas esvaziaram. E mesmo os parques, normalmente povoados de mendigos e andarilhos àquela hora, sucumbiram à ordem de recolher. A polícia fazia a ronda, fosse através de montaria ou, de automóvel. Os guardas municipais trafegavam livremente, anotando placas e os horários de veículos estacionados em locais proibidos.

    Na escadaria do Viaduto Otávio Rocha a moça cega tentava retornar para seu apartamento  no edifício Ponche Verde, que ficava ao sopé do viaduto secular. A bengala flexível batia na calçada de pedra portuguesa, desviando do gradil dos bueiros, auxiliando sincronizar os passos junto às paredes e no meio fio. Mas outros passos seguiam-na. E a moça percebeu. Raciocinou: não pode ser um colega do curso. Procurou acelerar a passada. A atitude ajudou, o som reverberado dos passos que a seguiam foi dissipado. Segundos depois, aliviada, sentiu uma pessoa muito próxima. Ela parou.

-- Quem é? Por favor! Sou cega! – o calor do corpo era humano. Ela respirou profundamente e girou a bengala em torno de si. Adiantou-se mais e, finalmente, alcançou a entrada do prédio. Mas ainda sentia o corpo à sua volta. Trêmula, abriu a bolsa e remexeu-a, atrás das chaves. E a deixou cair. Tateando o chão, tocou nos dedos dos pés de quem a cercava.

-- Por favor... Leve tudo... Por favor... Sou cega – suplicava a moça desprotegida  da bengala, num choro tremido.

     Ao erguer-se, a mão da desconhecida companhia a segurou com muita força, terminado por erguê-la e, como uma garra, se apoderou do pescoço. A moça soltou um breve sonido, esguichando o ar que lhe restava. Agora, as duas mãos apoderadas sobre a cabeça e o pescoço, trataram de dar-lhes movimento girando-os com brutalidade a ponto de fazer estalidos do deslocamento das vértebras, quebrando-as com facilidade, finalmente.

                                                    Três 

      A próxima reunião foi para delimitar as áreas de buscas. Através de ocorrência em boletim policial, os vizinhos do edifício Ponche Verde noticiaram outro desaparecimento. Deram falta da cega. Ricardo atendia casos de extorsão enquanto conferia as mensagens no whatsapp, enquanto Celma cuidava digitar e garantir registros para estatística. Havia no ar esforço conjunto a evitar a desclassificação e perder a chance de notoriedade do caso dos bonecos bebês.

     --- Outro bebê apareceu! -- anunciou o inspetor Otávio, violento policial.

      Mas as cobranças e pressões do serviço, não limitavam o cenário de crescente tensão. O bebê era outro boneco, envolto num xale verde, e com a chupeta entre lábios lustrosos. Do mesmo modo como os anteriores: atirado na pista de rolagem, de movimentado tráfego, por conta das bruscas freadas.   Ocasionando acidentes e ferimentos aos condutores.

     --- É controlar o entorno da cidade... Corpos verdadeiros aparecerão – declarou profética Samara, Dra. Samara, a psicóloga e namorada de Ricardo.

     A noite mais longa do século aconteceu na última semana de junho. O ar estava carregado e rescendia a fumaça das fogueiras de São João. Na ronda daquela madrugada interminável outro bebê foi encontrado.  A princípio duvidaram tratar-se de um bebê. Era enorme. A viatura acionou a sirene a impedir curiosos. Mas era alta noite, a avenida comportava a névoa espessa de brancura cintilante, sem viva alma no caminho, cruzada por cães vadios.  Os dois policiais desceram e de lanternas olharam pasmos.

     --- Mas o que é isso? – surpresos, foi de imediata reação ao depararem com uma moça, com um chocalho na mão esquerda, e forrada nas partes íntimas em fralda descartável e uma calça plástica. 

     Reunidos com o Delegado, na manhã de expediente, no necrotério identificaram o corpo como o da cega do prédio próximo ao Viaduto Otávio Rocha.

   --- O Chefe manteve o caso conosco – informou o Delegado à equipe – Estamos lidando com o caso do bebê gigante.

   --- Será dos bebês gigantes... – ironizou Samara, na esteira, ao lado de Ricardo, exercitando na academia Power Twist após um dia estressante.

      Mesmo no calor do anoitecer, entre lençóis desfeitos, junto aos músculos da psicóloga Samara, o escrivão quase Comissário tinha a imagem fantasma de Gládis em perfeita recordação.  Ela residia numa casa pequena, na superfície da mente. Cuidavam de um jardim. Plantariam uma horta. E ainda fariam um canil.  A certeza dos sonhos, dos pedidos não atendidos e da fuga dessa mulher para o mundo póstumo era o primeiro pensamento ao despertar. E o último, antes de adormecer.

       Outro bebê boneco apareceu no caminho da noite arrastada. E jogado bem às barbas da câmara eletrônica do poste alto, igualmente serviçal à luz pública.

     --- O bebê encontrado dessa vez  tem outro matiz... – destacou o Delegado, sempre cuidando o esforço de usar palavras eruditas. Ele que, às vezes, declamava Omar Khayann ou, Manuel Bandeira.

       O matiz era não ter os olhos. O boneco perfeito em trajes de bebê lindo, não tinha olhos.  Os globos oculares de vidro.

     --- Ricardo, pergunte para Samara o que significam os nossos bonecos agora, sem olhos? 

       O modus operandi se altera. E acontece conforme o desejo de dialogar. O homem que age através de símbolos deseja conversar com a gente – deduziam. Samara, contudo, mais uma vez da academia Power alertou:

   --- Vai piorar. 

                                                     Quatro.

       Os dias de julho trouxeram calor fora de época, e o período noturno exigiu atenção. Diversas chamadas telefônicas, trotes e verdadeiras, anunciavam a descoberta de mais bebês espalhados pelas ruas da cidade. Um bebê gigante foi encontrado junto às docas. A polícia técnica chegou com o pessoal munido de luvas e coletores de amostras. Dessa vez era um homem, meia idade, perfeitamente vestido como um bebê recém saído da maternidade.

--- Impressiona o detalhe. Quem comete essa atrocidade pensa em tudo – anotou o jornalista de plantão.

        Ricardo ao saber da descoberta de outro bebê gigante, calçado em fraldas e calção de plástico, portando todos possíveis aparatos - inclusive babador -, estava no gabinete do psicólogo.

--- Os sonhos de seguidas noites, doutor, eu consigo ver a caixa de lata, sabe? Dessas latas de guardar biscoitos? Quando abre não consigo memorizar o que contém. 

--- Talvez um significado simbólico... – comentou o psicólogo, na despedida do paciente.

--- E quanto a Gladis? Ela faleceu ou me deixou? Qual opção?

--- O senhor terá de avaliar uma escolha. A perda tem de ser trabalhada. É um processo erosivo. Vai gastando, a forma virá. A verdade aparecerá. Para você. 

     Do levantamento da coleta de dados a respeito dos bonecos como bebês, espalhados pela cidade, mostrava pouca sintonia na relação bonecos e gigantes, a cifra interminável de homicídios. Os gigantes eram homens de meia idade, mulheres magras, travestis, adolescentes embriagados a serviço do desejo.

--- Curiosamente há uma nova fase – destacou o chefe de policia à imprensa – Se antes eram mais bebês bonecos jogados às avenidas, muito semelhantes a um bebê de verdade, agora passamos a contar com mais pessoas mortas e vestidas como bebês.

     Maria Teresa, a atuante repórter da Rede Notícia perguntou, sem resposta clara, como o criminoso conseguia transportar os cadáveres vestidos de nenês sem serem vistos pelas câmaras de rua? A resposta foi evasiva:

--- A perícia indicou, ou dá indício de ajuda. O agente que comete essas barbaridades tem ajuda. 

     Na sala de reuniões, o Delegado atravessou o protocolo. Convocou a equipe:

--- Trouxe os laudos periciais, e as fotos. Mostrarei tudo. Ele age com as mãos enluvadas. Vestígios de borracha foram encontrados no pescoço das vítimas. E, corante. São luvas de supermercado. Dessas de lavar a louça.

     Ricardo, ao lado de Celma, pediu para não esquecer a recente conclusão da avaliação criminalística:

--- É oportuno o questionamento do policial da Quarta Classe Ricardo – anunciou o Delegado com o controle remoto em punho – Observem as amostras... As marcas no pescoço, a marca das pressões dos dedos...

      A mão que age tem os dedos curtos, pequenos. 

 --- Ambas as mãos agarram a vítima com muita pressão, de uma força incomum mesmo para um adulto – destacou Otávio.

--- Dedos grossos e curtos. A comparação feita, nosso psicopata é portador de nanismo. Poderá ser um anão – finalizou a escrivã da segunda classe, Celma. 

      No final de semana, na sexta-feira, Ricardo exausto aceitou jantar com Samara. Após a academia, onde praticavam, cuidariam relaxar. Ela, apaixonada por halteres, era o melhor exemplo de corpo são, mente sã. No sábado, visitariam o parque Moinhos, levariam os cachorros a um passeio, o namorado queria desligar. Somados os bebês bonecos em plena avenida, dia sim dia não, como uma praga, os homicídios declinaram. Houve calmaria. Anões criminosos em liberdade condicional foram investigados. Antunes, de um metro e quinze, famoso por sua força, era traficante contumaz.  Foi preso. A polícia varreu becos, vilas e morros. Prendeu adolescentes de baixa estatura. E lojas de artigos de enxoval de bebês recebiam visitas de investigadores. Uma onde de sossego transmutou a cidade dos bairros portugueses e a zona judaica prosperou. O lado nobre, constituído por mansões românticas e arvoredos circunspectos permitia o passeio a pé, mesmo à noite, para a elite que não tinha culpa de ser elite, beber do frescor do ar limpo noturno.

--- Samara – pediu Ricardo, ao tocar no rosto da namorada -- Acho que está na hora de ser apresentada à minha família. É uma família pequena.

     Ela acenou, consentiu. Mas queria ver o pavor terminado, antes de tudo.

     O sono tocou-lhe numa inundação de imagens sobrepostas, de cores vivas e de intensa claridade. Apareceu no caminho Gladis, no apartamento, segurando uma sacola. Pedia para entrar.  E desanuviou. Num lampejo de frações diminutas de segundos, reapareceu o sonho do menino, da escadaria subida aos céus. Olhou a lata. Tinha uma faixa azul. Viu a lata aberta. E o que continha.

       Já acordado, após o café, trataram de preparar a saída dos cachorros. Num armário emparedado, observou diversas coleiras de cães dentro de uma gaveta. E mais as guias. Havia uma, enorme, destinada a raças mais robustas. Embora cuidasse apenas de cães pequenos, na certa a namorada psicóloga tomou emprestada de algum colega. Pouco perguntava, Samara queria saber dos sonhos de Ricardo. Não é ético cuidar dos assuntos de outro profissional. O policial de terceira classe comentou o sonho com cães. Lembrou a ela: no meu sonho, tinha enormes coleiras em casa. Samara escutou e, de boca curta, riu-se. 

--- Querido... Afinal, o que mais viu nesse sonho? Esse seu sonho das coleiras? Coleiras grandes?

       Falaram pouco no que restou do final de semana. Mas a notícia chegou sob o alvorecer e dominou ao longo da semana. Impactante: dois bonecos como bebês foram descobertos nas imediações do estádio de futebol. Eram perfeitos. Mais ao aprofundar da noite quente, dois corpos, o de um homem e de uma mulher foram encontrados, com touca, babador, chupeta e em fraldas. Já em adiantado estado de decomposição.

--- A ação foi rápida. Equipe! A novidade? Vamos, diga a eles, Comissário Cleber! – ordenou o Delegado numa irreconhecível irritação – Diz e mostra as fotos!

      Os corpos não tinham sangue.

       Samara pediu para ser desligada da equipe. A crescente aparição dos bebês e as mortes seguidas a distanciava da zona emocional não fronteiriça à loucura.  Ricardo, consultando o psicólogo festejou recordar o conteúdo das latas de biscoitos:

--- Cinco pedrinhas. Apenas pedras, recordo-as. Rochas como seixo rolado.  Bolinhas de gude. É o que tem dentro. Pedaços de rocha e bolinhas de vidro.

       Ao findar a jornada, resolveu telefonar para Samara. Mesmo após dúzia de tentativas, ela não atendeu. Tomou a viatura e foi até o apartamento. Ao chegar à portaria, esvaziou os bolsos. Estava sem as chaves. Mas sabia que não as havia perdido. Somou os últimos momentos e, do sonho intranquilo das duas noites anteriores, decidiu combinar a imagem dos seixos rolados da caixa de biscoitos da Pedreira Asmuz, de pedra de gres, da Zona Leste. Seguiu até lá.

--- Por que a coleira de um Rottweiler enorme? 

                                                      Cinco    

    A viatura percorreu avenidas confusas, enquanto o rádio tocava programação da Antena Um. A mente congestionada recordou os primeiros bilhetes de Samara deixados à mesa do café: “Um distanciamento vocabular, sintático, filológico único, sem matiz, cinza, um lugar vazio.”

    Recompôs cenas dos encontros. O primeiro jantar. Recordou frases e cochichos da repartição policial, de que “iria piorar”. O clube de halterofilismo, a musculatura lisa, brilhosa. Queria olhar o sonho da caixinha de lata de guardar biscoitos, onde o delírio permitiu guarnecer seixos rolados, inspirados nas rochas da famosa pedreira abandonada. Celma o seguia a  regular distância. No carro da frente, Ricardo tinha perdido o cálculo definitivo de suspeitos. Mas o espesso fio de cabelo negro encontrado junto ao último bebê gigante o pôs na contramão das evidências: alguém com demasiado conhecimento em psicologia está por trás da engenharia de todos esses crimes bárbaros e silenciosos, de autoria intelectual desesperada.

     A pedreira era um lugar ermo, fétido e povoado por animais dispersos do trânsito dos patamares ao sopé. A terra era seca. A mesma terra seca do pára-choque do carro da Samara, terra de estrada de chão batido. Ele saiu a percorrer os estreitos desfiladeiros, as árvores eram nuas e havia no ar o cheiro podre do que sempre está parado. Celma mantinha boa distância --Como não seguir esse desmiolado, pensou, jamais anda armado... Sim, um perdido na vida é esse Ricardo! – esbravejou pesando o pé no acelerador.

     Avistou casebres e casas outrora destinadas à função aos capatazes e mineradores. Estacionou numa espécie de praça, na descida mais funda da pedreira e o silêncio do lugar, no conjunto total da bruta paisagem foi duramente anunciado por uma sensação de abandono completo. Gracejou às leituras dos plantões de inteiras madrugadas do início da carreira, junto às celas, por ocasião das acanhadas idas até Nietzsche: “A humanidade olha para o abismo e o abismo também a olha”. 

     Das muitas casas ali existentes, uma chamou mais a atenção comparativamente ao conjunto, alinhadas em rígido padrão, seja por excessos de lixo no entorno, fossem as demais, ocupadas  por máquinas abandonadas em seus pátios. A construção tinha certo ar de uso contínuo.

      Adentrou dando chutes nas portas. Pela primeira vez lamentou estar desarmado. Um policial desarmado. Meditou sobre o possível desinteresse em prosseguir. Tinha sonhos premonitórios. Num acesso de limites da loucura, conheceu Samara por indicação de colegas. Ela foi-se aproximando. Até o ajudou a recompor a perda interminável de Gladis, a sua perdição. Que era morta. Que era viva. Que era morta. Que era em vida. A psicóloga, antes do namoro, o orientava:

--- Gladis só vive em tua recordação. Precisa vencer isso. E enfrentar. Ela mesma disse, e você retratou o que ela disse. Lembra? O que você contou a mim, Ricardo? --- Ela disse assim: “você vai ter de esquecer-me.” 

    Ao entrar na cozinha, tomou a escada dos fundos e desceu. Abriu uma porta e observou recipientes coletores de sangue no caminho. Espalhado pelo chão, coleira de cães, dos grandes. E correias, tiras e focinheiras. No porão, onde agora estava, tinha outra porta. Aos poucos se aproximou. Passo a passo, à medida que se aproximava da maçaneta escutava gemidos e grunhidos, como se alguém estivesse amordaçado. A escuridão do lugar não o impediu de bater com o pé numa caixa, a qual se abriu. Diversas fraldas enroladas desalojaram-se, como que despejadas, a buscar espaço e ventilação, estavam socadas havia muito.

    O próximo passo o demoveu. Trêmulo, abriu a porta. O olhar construiu a cena. Deparou com uma mulher baixa, de braços grossos, curtos e mãos pequenas. Com cabelo pela cintura, a mulher tinha pelos pelo rosto, olhos enormes e não falava. Estava acorrentada, presa pelo pescoço por uma coleira e amarrada a uma argola fixada à parede. Ao se aproximar, ela avançou na direção do policial, esticando os braços e apertando as mãos ao mesmo tempo, numa velocidade espantosa, e com demonstração de força, esticando a corrente a ponto de por em risco a resistência da argola. 

--- Um passo a frente ela quebra teu pescoço... 

   Ricardo olhou para trás, de dentro da escuridão, de onde surgiu a voz.

--- Por que, Samara? 

   Tirou uma pistola de dentro da bolsa. Discursou sobre a monstruosidade e que, fatalmente ele teria de optar: um tiro na nuca ou, as mãos garras de ferro  de Zezé no pescoço.

--- Não tenho muito tempo. Preparei um boneco em forma de bebê. Será você. E deixarei esse lindo bebê, sabe onde? Sim, no Mont’Serrat, onde ela atualmente  mora. A tua Gladis! O bairro das ruas ornadas de Jacarandás floridos.  

     Ricardo foi obrigado a ficar de joelhos. Tentou negociar. 

--- Como for será... 

--- Como descobriu?

--- Somei as pontas deixadas por você. A coleira, a musculatura, e tua aproximação. E o modo como previsse “vai piorar“.  Na cama você pedia para que eu a chamasse de Gladis! Mas também soube de seus percursos na sala de controle das câmaras de vigilância... 

    Samara soltou gargalhada. Disse que Zezé é fruto de sequestro. Eu a criei para solucionar pendências soltas às ruas.

     A psicóloga encostou a arma na cabeça de Ricardo. Lamentou a falta de entrosamento e que, afinal, ele faria companhia à amada.

--- Matei para aliviar... Aliviar o falso mundo social limpo.  Reconheço os excessos e as críticas pesadas, por exemplo, no caso da moça cega. Ou do professor idoso... Chegou a tua vez!

--- Ela está viva. Está viva!

     Ao dar o passo final, Samara estalou os dedos. Disse “adeus Ricardo”. O estampido metálico de tiro esguichou do grave ao agudo -  o impacto derradeiro na escura sala de aprisionamento do monstro mulher das noites silenciosas da cidade atormentada.

--- Acabou – disse ele, para si, do som barulhento ecoado de dentro de si, o policial amante da memória de fantasma, do pensamento fluído por vagas ondas desnudadas do espírito, embrião e só embrião, do sufoco que é a perda do ser.

--- Da próxima vez, leve sua arma, Senhor Policial Quase Comissário – anunciou Célia, que acabara de alvejar a psicóloga mãe de bonecos, guardiã da monstruosidade, parturiente de bebês gigantes mortos na cena crua da cidade das colinas, das almas e das ruas arbóreas a recordar o sonho, o amor, pessoas sem um realejo a prever, a desejar a completude dos céus. 

                                                                             





Conto escrito por
Nei Rafael Ferreira Filho

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO



Copyright 
© 2020 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução



Sinopse: Tarde de domingo. Corpo encontrado no rio Tietê (SP), na divisa entre dois distritos policiais. Como ninguém queria trabalhar, o corpo passou a ser empurrado de uma margem para a outra até se dissolver.


Compartilhe:

Antologia

Antologia Contos Contemporâneos da Violência Urbana

Episódios da Antologia Contos Contemporâneos da Violência Urbana

No Ar

Comentários:

0 comentários: