Antologia Violência Urbana | Capítulo 5: Observador - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

Antologia Violência Urbana | Capítulo 5: Observador

Sem crimes, a vida seria uma mesmice para quem ganha a vida noticiando a violência. Confira mais um conto da antologia Violência Urbana.
Compartilhe:
Troque a Fonte Aqui





Observador
Douglas Barres




SINOPSE: Um blogueiro ganha a vida relatando a violência que acontece na capital do Rio Grande do Sul. Cansado da mesmice da sua vida, resolve se aventurar em meio ao caos que é o crime na cidade.









O calor infernal de Porto Alegre fazia aquele mar de gente parecer que iam ser servidos vivos ao capeta. Por mais que o sol queimasse até a mais inocente formiga que arriscava caminhar pelas ruas, a curiosidade do povo vencia qualquer obstáculo da natureza. Um jovem, duas facadas na garganta. Estudante, a vida toda pela frente. O responsável? Ninguém sabe, ninguém viu. A vida de alguém é trocada por um par de notas amarelas.


Com seu blog, Ricardo costumava retratar toda violência que encontrava no centro da capital de Rio Grande do Sul. “A Desgraçada Violência”, ponto com, alguma coisa. Por mais que esse hobbie o fizesse parecer esses investigadores particulares que vemos nos filmes, tinha que ser forte para aguentar toda a brutalidade que o ser humano podia fazer em um semelhante.

O roubo seguido de morte do rapaz mais cedo não perdia para a briga que aconteceu duas horas depois. A mulher, descabelada, tenta violentamente derrubar o rapaz que estava acompanhado de sua filha. A garotinha berrava, pedia com todas suas forças para o pai largar a sacola e deixasse que aquela louca trocasse o conteúdo por drogas. Depois de muito insistir com empurrões, a ladrãozinha conseguiu o que queria. O posto policial que devia estar ativo no final da rua, estava vazio. “Por que não me ajudaram?”, perguntou o homem para todos curiosos que estavam ali presente. Ninguém respondeu. É como dizem, fazer textão no Facebook é mais fácil.

No começo da noite, o som de tiros ecoava por toda rua a frente do Banco do Brasil. Um mendigo tentava, por algum motivo, entrar a todo custo no banco, foi baleado. A justificativa do guarda foi que ele estava armado. Provavelmente o rapaz só queria aproveitar o ar condicionado do local, mas acabou indo tomar uma gelada com algum santo lá no céu.

Os seios balançando, aquele suor escorrendo pela nuca. O fedor de alguém que já tinha ido embora minutos antes. Ricardo ainda se perguntava como tinha coragem de fuder naquele calor infernal. Sem soltar um pingo de leite, a garota ainda ficou brava. “Ainda vai ter que pagar!”, resmungou enquanto se dirigia para o pó da felicidade em cima da mesa. Só o que nosso investigador gaúcho conseguia pensar era na brutalidade humana. Troque investigador por observador, pensou, enquanto olhava pela janela. O som de alguém gemendo no outro quarto não ajudava sua reflexão.

As ruas mal iluminadas eram um doce para qualquer vagabundo que esperava sua presa. Ricardo sentia-se a chapeuzinho vermelho indo pra casa, depois de visitar a vovó, com medo de que algum lobo aparecesse. Aquela rota era feita por ele todos os dias que resolvia tirar o atraso com uma das meninas de vinte reais. Enquanto vivia no Centro, já havia sido assaltado três vezes. Em duas ocorrências foi gravemente ferido, na maioria das vezes por corte. Mas é o medo que move as pessoas. O que ele faria se não tivesse dando uma de observador daquela cidade morta? Trabalhando em um telemarketing, sendo xingado o dia todo? Outra opção seria roubar também, causar algum choque na sociedade e terminar morto pelas mãos de um policial.

No seu quarto, alívio. Chegou inteiro e com várias coisas pra fazer. Atualizar o blog com tudo que aconteceu durante o dia, ler emails, responder mensagens de redes sociais. Assistir putaria. Uma noite qualquer. Só que não. A chegada de uma mensagem via email foi bastante interessante. Um contato no jornal local dizia que alguém tinha dado entrada no hospital sem as duas pernas e um dos braços. A mulher, coitada, estava somente acompanhada por seu cachorro. O observador da desgraça só sentiu mais animação. Um acerto de contas com uma boca de fumo? Um marido louco, enciumado por algo que nem chegou acontecer? Infinitas possibilidades.

Assim que o sol raiou, Ricardo já se esgueirava pelo hospital em busca da mulher. Com a lotação dos hospitais, não era nada difícil encontrar alguém com tal descrição pelos corredores. Assim que ficou cara a cara com a moça, Ricardo sentiu um arrepio com a frieza que ela olhava para o teto. Como se tivesse aceitado aquilo que fizeram com ela, como se merecesse. A humanidade passa milhares de horas estudando extraterrestres, a natureza, mas o curioso é como não passam mais tempo estudando nós próprios.

O que faz uma pessoa cometer um crime? Sua vida até aquele momento do ato? O que faz elas aceitarem tal julgamento? São tantas perguntas e Ricardo só conseguia pensar em como pegaria aquele papel que ela segurava tão forte. Na verdade não foi difícil, arrancou sem muito esforço das mãos na moça que gritou até ele sair do corredor.

Um endereço, nada mais. Ricardo conhecia o lugar. Uma rua cheia de vagabundos, levaria provavelmente para a morte se ele seguisse. O melhor seria esquecer e continuar sua vida de observador por aquela cidade perdida.

Mas a curiosidade não só matou o gato, como também o dono. Um sentimento de euforia começou a tomar conta do corpo do nosso investigador. Várias ideias começaram a aparecer de súbito em sua mente. E se ele tentasse juntar as fotos que ele tirou da mulher, sem pernas e sem braço, com algo que ele descobriria no endereço? A polícia provavelmente deixaria aquela moça de lado, já estariam conformados que foi acerto de contas. Será que seria nesse momento que nosso observador finalmente viraria um investigador? Desses que vemos em livros bestsellers, com cabelo cheio de gel, bonito e com vários desafios? Quem dera.

Caminhou até chegar uma rua antes da prometida. Analisou. Vagabundos armados até os dentes. Uma boca de fumo, acertou na mosca. Algumas fotos foram tiradas, alguém dê um beijo em quem criou o zoom. O planejamento começava agora: entrar fingindo que tava afim de dar uns trago, tirar fotos, sair. Melhor que isso impossível, pensou, riu. Por mais besta que o plano seja, era morte na certa. Era isso mesmo que queria fazer? Precisava de uma foda.

Já que a situação era diferente dos outros dias, resolveu pagar o dobro. Gozou bem rápido com as duas de joelho na sua frente. Um homem gozado é mais inteligente que um de pau duro. Sua vida era uma merda, passava suas manhãs e tarde vendo gente morta e postando em um blog furreca. Por mais que muita gente acompanhasse seu trabalho, no fim do dia, antes de dormir, quem parava pra pensar que merda estava fazendo da vida, era só ele.

Aquele cheiro de mofo na parede do puteiro definiu exatamente o cheiro da sua vida. Será que é nessa etapa que alguém enfia uma bala na cara da sua mulher ou filha? Claro que não, não era burro suficiente pra pensar algo assim. Sabia que as pessoas cometiam crimes, violência, o que fosse, por algo mais além de uma simples explicação. O cérebro é uma coisa fudida, se você tentar decifrar, vai acabar mais fudido ainda.


No caminho pra casa, presenciou mais duas mortes nas ruas. Os policiais, acompanhados da perícia, tentavam em vão descobrir o que tinha acontecido. A chegada no quarto foi bem direta: cama, dormir, acordar. Já nos primeiros raios do sol, Ricardo pensava no que faria. Deixou sua carteira em cima da mesa, fez o mesmo com o celular. Levou somente sua câmera portátil.


Assim que chegou há uma distância considerável do local que estava descrito no papel, tirou mais fotos.“Ô tio, descola um pra mim também”, um guri pediu ao ver Ricardo se aproximar da entrada da boca de fumo. O rapaz armado na entrada encarava nosso investigador com uma desconfiança aparente. Por mais que Ricardo tentasse parecer tranquilo, seu coração não batia, dava pulos de nervosismo. Só acenou com a cabeça para baixo, de modo que cumprimentasse o porteiro sem falar nada. Ele fez o mesmo, abriu espaço para entrar. O desgraçado conseguiu. Nosso investigador finalmente dava seus primeiros indícios de aventura iniciada com sucesso.

A violência que você vê na TV e Ricardo via nas ruas também estavam presentes lá dentro. Mesmo o rapaz da portaria ter apontado para onde era o caminho, o destino, não, a sede de aventura de nosso investigador, levou para o lado contrário. Ao parar na frente de uma porta entreaberta, escutou gritos de uma rapaz que implorava por sua vida. “Eu vou pagar amanhã, sem falta”, outro soco, dessa vez não levantou. Dizem que cada lugar tem seu próprio inferno, Ricardo estava ciente disso, e o seu fedia a maconha.


“Vai dar uma de louco?”, perguntou o guarda de antes, que havia perseguido Ricardo pelo corredor que tinha escolhido errado de propósito. Correu, até dar de cara com a parede. A porta da esquerda foi a melhor opção, já que estava aberta. Arrastar a mesa para a porta não foi nada fácil, já que a desgraça pesava bastante.

Depois de bastante esforço, o brutamontes do outro lado da porta não conseguiam abrir. Silêncio. Risada. Ao olhar pra trás, Ricardo tem uma visão vinda de um filme de zumbis. Um velho sem camisa, vestindo somente um calção que mal cobria suas coxas. O bastante idade segurava uma sirigina, onde só Satã sabe onde ele já havia enfiado. Sem aviso prévio, o senhor avançou em direção a Ricardo, apontando a seringa na sua garganta. Sem muito esforço, a esquiva foi perfeita suficiente para fazer o velho bater de barriga na mesa que segurava a porta. Grito de dor, chute lateral de Ricardo, o senhor caiu. Analisando rapidamente o quarto, a única saída aceitável era a janela.

Se um tiro não tivesse atravessado a porta e pegado na sua perna, sua fuga já estaria garantida. Seu não aguentaria pular do segundo piso, ainda mais com a perna ferida, pensou. E por mais que arriscasse, o que aconteceria era ficar deitado do lado de fora enquanto os viciados cuidavam do resto. Tinha que lutar. Agarrou a seringa do velho que estava desacordado. Segurou com força enquanto esperava a entrada de pelo menos uns três rapazes naquele quarto. Assim que a porta foi arrombada, o guarda que estava na entrada da boca de fumo já apontava a arma para sua testa. Lutar contra isso? A seringa caiu no chão, a coronhada na orelha esquerda foi avassaladora. Desacordou.

“...um policial não seria burro de entrar aqui, sua anta!”, primeira coisa que escutou amarrado na cadeira. Uma sala fechada, tomada pela fumaça da erva maldita. Ricardo falou a verdade para o cara que parecia ser o manda chuva dos maloqueiros. Mas ele não acreditou. Por mais que nosso investigador aguentasse duas putas, ele não era tão resistente assim. Cada soco doía até a alma. Para sua sorte, um drogado que estava no canto da sala, levantou do nada e começou a gritar. Um dos guardas tentou jogar ele de lado, mas foi em vão. O cara avançou em cima do rapaz armado com uma força fora do normal. Os outros dois guardas que estavam na sala se levantaram assustados, parece que o drogado deu uma de super homem que se chapou de kriptonita, mas deu efeito reverso. Mas nosso super herói gaúcho não segurou as balas que levou no peito. Trocou a vida por uma chapada.

A sorte do nosso protagonista não parava por aí, assim que os tiros cessaram, sons de sirene, gente correndo nas ruas. Parece que tanto alarde tinha atraído os porcos, como os bandidos diziam. “Bora cara, deixa esse merda aí, pega o dinheiro e vai!”, essa frase foi um alívio para os ouvidos de Ricardo. Mas que amontado de merda, pensou. Hematomas no rosto, cortes na perna, uma experiência que o desgraçado levaria pra sua vida miserável. Foi levado preso junto de uma dúzia de viciados. Os reais responsáveis daquela zona de guerra haviam fugido.

Ricardo demorou um dia inteiro para convencer os policiais de que não era ninguém, somente estava lá pra fumar, fecha aspas. Não se importava em mentir para a lei porque nem ele sabia o que estava fazendo ali mesmo. Por mais que tentasse colocar na cabeça que queria um pouco de aventura, por mais que tentasse, a vida sempre dava um jeito de voltar para a mesmice. Dedicaria a vida toda a relatar a violência urbana das ruas em seu blog de merda.

“Rezem pelo Senhor!”, gritou um homem que segurava a bíblia em uma das mãos. Todos que passavam por ele na rua, olhavam de lado. No meio ao tanto de violência que nos rodeia, a religião realmente é uma saída, uma escapatória. Qualquer meio de livrar nossas cabeças de preocupações é bem vinda, mas não pensem que isso vai livrar todos do mal. Era assim que Ricardo pensava e por isso iria continuar sua vida mesquinha. Relatar mortes, sequestros, o que quer que fosse, era o que ele sabia fazer. Investigadores só existem em filmes, séries, quadrinhos, o que for. Essa é a vida real, nua e crua.


Não muito longe do desconhecido que clamava pelo senhor, um velho foi assaltado e violado. Sua vida foi tirada por uma carteira que sabe-se lá quanto de dinheiro tinha dentro. Algum tempo depois, na rua de cima, uma filha se perdeu da mãe, ou foi abandonada? Até a impressão desse conto, sua mãe ainda não foi encontrada. O que vai ser dessa menina quando crescer? Mais uma vítima do sistema que é a vida? Sorteada da merda, teve o azar de não nascer em família rica e provavelmente vai passar a vida toda se drogando, culpando a mãe que sumiu na sua infância. Ou não. Ela pode crescer saudável em sua nova família, estudar em uma escola pública e fazer uma faculdade que sua família possa pagar. O que separa essas duas garotas, uma puta com a vida e a outra conformada com a vida?


E se, por algum milagre, a violência acabasse? O que Ricardo faria da vida? Não sabia. Pra falar a verdade, o dia que a violência acabar, vai ser no dia que o mundo acabar, porque não existe selvageria sem as pessoas.


Fim.






conto escrito por

Douglas Barres

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

REALIZAÇÃO


Copyright
© 2019 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução
Compartilhe:

16 anos

Antologia

Capitulos da Antologia Violência Urbana

Contos Contemporâneos da Violência Urbana

Policial

Comentários:

0 comentários: