Antologia Violência Urbana | Capítulo 4: O Corte de Morrer - WebTV - Compartilhar leitura está em nosso DNA

O que Procura?

HOT 3!

Antologia Violência Urbana | Capítulo 4: O Corte de Morrer

A violência psicológica pode ser brutal ou ter efeito surpreendente. Você já se acostumou com a violência? Confira mais um conto da antologia Violência Urbana.
Compartilhe:
Troque a Fonte Aqui







O Corte de Morrer
Luiz Henrique Dourado


SINOPSE: Uma pomposa e esnobe socialite é recebida no seu cabeleireiro com a promessa de um novo tratamento VIP em seus fios. O corte é único. O corte é de morrer.




Laís Di Marqüi era uma perua convicta. O estereótipo perfeito de uma mulher pomposa, vazia por dentro, completa por fora. Casada com um empresário extremamente bem sucedido do ramo das telecomunicações, Laís, com seus recém-feitos quarenta e cinco anos de idade, não fez faculdade, nunca trabalhou - sua função social era apenas descobrir maneiras para atingir o infinito limite do cartão de crédito que havia sido recebido do bondoso marido. Não se importava em ser um perfeito clichê de saltos. Passava longe de qualquer pauta feminista. Aliás, era contra. Na verdade, tinha prazer em viver esse personagem. Rica de posses, paupérrima de educação e respeito aos próximos, atropelava e ultrajava quem ousasse se opor à sua linha reta. Carregava um rigor quase religioso com o cuidado de seu visual, portanto, toda sexta-feira ela tinha compromisso inadiável no salão. E não podia ser qualquer salão, tinha que ser o melhor, o mais famoso, mais chic e caro da cidade.

Naquele dia, Laís estava empolgada e fez uma entrada triunfal no salão, já aguardando ser recebida como a rainha que se considerava, sem sequer pensar em dar boa tarde, requisitou:

- Cadê a Edilene?

Todas as pessoas do salão se voltaram para Laís, tanto as funcionárias quanto as clientes, estas, a grande maioria também peruas consagradas. Aconchegava nos braços sua cadela, Athena, da raça Spitz Alemão, absolutamente obesa e peluda, com um lacinho roxo na cabeça e a jogou no colo da cabeleireira mais próxima. Com as mãos agora vazias, bateu duas palminhas, para chamar ainda mais atenção:

- Edilene?

Edilene apareceu ao fundo do salão afobada. Odiava a socialite esnobe, mas Laís Di Marqüi era a melhor cliente do salão. Embora a sua chefe, Mônica, compartilhasse do sentimento de repulsa, dava ordens expressas para tratá-la de maneira condizente com o que ela se considerava: uma deusa.

Toda sexta-feira, Edilene voltava pra casa com sentimentos ambíguos – feliz com a pomposa gorjeta que recebia, mas sofrida por escutar tantas barbaridades e ter que viver o personagem de escrava das novelas de época que assistia.

No trajeto até sua distante residência, Edilene, no ônibus, refletia sobre a pequenez da sua existência e se deprimia. Contudo, olhou a nota de cem reais que havia recebido com apreço, imaginou o presente que poderia comprar para o filho de seis anos e tratou de botar um sorriso no rosto. Sabia que a doação não era por generosidade ou bom coração da perua, mas somente mais uma gesto para expor sua superioridade sobre as serviçais e colocá-las em seu lugar. A cabeleireira quase conseguiu se esquecer disso para apenas pensar na felicidade do filho ao receber o carrinho de brinquedo que tanto pedia.

Edilene já se preparava para colocar Laís na cadeira, após pedir desculpas pelos segundos de atraso, quando a sua patroa, Mônica, interrompeu-a. Com um singelo toque, ela conteve Edilene e se dirigiu à Laís:

- Boa tarde, Sra. Laís. Como vai?
- Tudo ótimo e você?
- Também. Hoje eu mesmo vou atendê-la. Queria inaugurar um novo e reservado espaço VIP no salão, personalíssimo e estava esperando justamente a sua chegada.

Assim que terminou a frase, as outras peruas do salão largaram as revistas de fofoca sobre a vida dos famosos em castelos e se voltaram para Mônica com olhares furiosos de inveja. Laís Di Marqui, por sua vez, com seu ego massageado e inflamado, abriu um sorriso, ergueu o queixo, balançou levemente as mechas e não aguardou Mônica conduzi-la, iniciou seu andar na passarela imaginária.

- Por aqui, por favor – Mônica disse, apontando uma bela rampa, decorada com flores, que dava para um andar subterrâneo escondido. 

Laís Di Marqüi foi à frente seguida de Mônica. A dona do salão olhou firmemente sua funcionária e assentiu com a cabeça. Edilene não entendeu o que queria dizer aquele olhar tão forte e seguro, potente, um gesto de cumplicidade. 

A curiosidade vibrou intensamente dentro dela: o que a chefe estaria aprontando? E que lugar misterioso era aquele? Nunca tinha ouvido falar de um novo espaço, sequer movimento de obras ocorreram para que uma área VIP pudesse ser inaugurada. Infelizmente, Edilene ficaria desamparada com sua intriga, porque Mônica já havia desaparecido de sua vista junto com a perua Laís. Elas desciam devagar, valorizando o barulho do salto, enquanto a socialite observava:

- Estou impressionada. Não imaginava tamanha finesse vinda de você, querida. Estou me lembrando dos melhores salões europeus que tiveram a honra de me receber. Óbvio que não esperava nada igual aqui no Brasil, imagina, mas isso já é um grande avanço, sem dúvidas.

- Muito obrigada, Laís, fico extremamente lisonjeada – disse Mônica, abrindo uma pesada porta de metal, revestida com um material que remetia ao ouro – Entre por aqui, por gentileza.

Laís ingressou no salão especial e, em seguida, Mônica, fechou a porta bruscamente. O alto barulho da porta batendo escondeu o posterior click da tranca automática. Um amplo salão se revelava diante delas, lindamente iluminado, uma decoração moderna, com apenas uma enorme, confortável e moderníssima cadeira apontada para o espelho. A perua, empolgada, foi andando rapidamente em direção à cadeira e o som do salto batendo no chão ecoava pelo ambiente. Ela parou em frente ao assento e aguardou Mônica girar a cadeira para que ela delicadamente repousasse. Laís se admirou no espelho, com um leve toque do indicador tirou uma das mechas de sua testa e relaxou as mãos no encosto de braço da cadeira.

Nesse exato momento, Mônica, que observava atentamente os movimentos da perua, apertou um botão embaixo do balcão, onde os objetos de salão estavam dispostos. Em resposta, dois braceletes de ferro pularam da cadeira e prenderam os pulsos de Laís. As luzes antes claras e vivas adquiriram um tom vermelho, sombrio, neon, como numa câmara para revelar fotos, que piscavam em intervalos de poucos segundos. A perua deu um berro estridente que ensurdeceria ouvidos sensíveis.

- O que significa isso? – virou-se gritando em revolta para Mônica, que não respondeu. Com a expressão inabalada, a dona do salão pegou um pente lindamente adornado no balcão e o admirou.

- Ande, me explique! O que é isso? Como ousa me prender? Tire-me já daqui- esperneava Laís.

Mônica impassível se dirigiu para trás da cadeira e encarou fixamente a perua através do espelho. Ela repousou as mãos no ombro de Laís, fitando-a imóvel por alguns segundos, até que pegou os cabelos da socialite e começou a acariciá-los carinhosamente.

- Socorro! Socorro! Me tira daqui. Socorro! Socorro! Tem alguém ai? Socorro!

- Já cansou? – perguntou, enfim, Mônica.

- Socorro! Socorro!

- Pode grunhir a vontade, galinha. Esse salão foi feito com revestimento acústico para que vadias como você não pudessem ser ouvidas.

- Quando eu sair daqui, você está muito encrencada, sua desgraçada. Eu vou acabar com você. Vou fechar esse salão. Meu marido vai tirar cada centavo seu. Eu juro que destruo sua vida. Não só a sua vida, como a de todas as suas gerações futuras, você está amaldiçoada para sempre.

- E o que te faz pensar que você vai sair daqui com vida? – indagou Mônica, voltando a encarar nos olhos a perua que agora mostrava um rosto preenchido em pânico. O botox se espremia para fora através dos poros. Aquelas palavras fizeram a postura dela mudar. Laís Di Marqüi se acalmou na cadeira e parou de gritar.

- Muito bem, é assim que eu gosto. Vamos começar os trabalhos? Aliás, não é por isso que você está aqui? – ao dizer isso, Mônica fez questão de mostrar claramente o pente que empunhava na mão. Ao invés dos tradicionais dentes de plástico, o artefato possuía lâminas finas, oito, paralelamente dispostas e afiadas. Elas brilhavam. Laís arregalou os olhos e esperneou como uma criança longe da mãe.

- O que você vai fazer comigo? Por favor, não me mate, por favor! Eu te dou tudo o que você quiser. Eu juro, eu juro, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Meu marido é muito rico. Por favor, não me mate, eu sou tão jovem, tão linda para morrer... Por favor!

- Você acha que pode me comprar com esse seu dinheiro sujo, piranha? Você acha que é pelo dinheiro que eu te coloquei aqui? – Mônica questionou com tom arrogante e poderoso.

- Por favor, por favor, não me machuque – implorava Laís.

Mônica então começou a pentear os cabelos, bem delicadamente, com o pente de lâminas. Laís tremia, mas Mônica, calma, acariciava o cabelo da perua. De forma macia, ia descendo e subindo o pente pelas lisas e lindas madeixas de Laís. As lâminas não encostavam-se ao couro cabeludo de Laís, Mônica tratava de praticar seu sadismo, passando as lâminas apenas no cabelo. O pescoço da ricaça arrepiava com a proximidade que as lâminas caminhavam, sentia o frio mortal delas. Olhando com prazer o desespero de Laís, Mônica fisgou com o pente especial uma mecha que caia na bochecha da socialite. A dona do salão ergueu lentamente os fios que escorriam pelas lâminas. Laís acompanhava o movimento completamente apavorada. Em pânico, ela se debulhava e suas lágrimas borravam sua caríssima maquiagem importada. Mônica se deliciava. De súbito, ela cansou de pentear o cabelo e estacionou o pente no pescoço de Laís.

- E ai? Será que termino isso agora? – disse Mônica, revelando uma cara fria e ameaçadora, arregalando os olhos como uma psicopata.

A perua não falava mais nada. Apenas com os olhos estanques implorava pela sua vida, enquanto chorava compulsivamente.

- Não, não, seria muito fácil – disse Mônica largando o pente de lâminas no balcão e aliviando a expressão facial – Tenho algo muito melhor...

Ela abriu a gaveta do balcão, retirou uma máquina de raspar cabelos e a colocou na tomada.

- Zero? É esse o corte que você quer? – perguntava destilando um sorriso venenoso nos lábios.

A perua gritou em defesa do seu cabelo com a mesma força que usou para lutar por sua vida.

- Não! Por favor, não! Meu cabelo não!– berrava Laís que agora suava na testa e nas axilas, coisa que nunca admitiria e fedia, fedia como um porco sendo preparado para o abate. O odor do medo.

Mônica passou o fio da máquina pela orelha de Laís e a deixou ali pendurada fazendo aquele barulho aterrorizador em seu ouvido. Ela então pegou um grande pote e mostrou o conteúdo para Laís.

- Está na hora de passarmos o creme hidratante – disse Mônica mostrando o pote que estava cheio de sangue viscoso até a borda. Dois olhos que pareciam de seres humanos boiavam nele. Ela derramou o conteúdo todo no cabelo da perua. E lá ficou ela, melecada, mergulhada em sangue, com os glóbulos, que haviam rolado, no colo. O líquido vital escorreu por seu rosto e entrou na sua boca. Laís berrava, cuspia, babava o sangue enquanto insista em vão nos pedidos de socorro. Mônica, por sua vez, gargalhava em êxtase.

- Dizem que esse creme é ótimo para pele, rejuvenesce, dá mais vida, sabe? – disse sarcástica.

- Eu me desculpo por tudo, eu juro, eu peço perdão por toda vez que eu tratei mal as pessoas, você, suas funcionárias... Eu juro, eu estou arrependida, eu aprendi minha lição. Me deixe sair daqui, por favor. Eu serei outra pessoa. Vamos esquecer isso, por favor. Não contarei a ninguém sobre o que aconteceu aqui.

- E você acha que pedir perdão vai apagar alguma coisa que você já fez? Não sou padre para te eximir dos seus pecados, estou aqui para condená-la por eles.

Dito isso, Mônica pegou a linda e enorme faca que estava no balcão e encostou a lâmina afiada no pescoço de Laís. Amarrada, chorando, de maquiagem borrada, suada, indefesa, pedinte, mergulhada em sangue, fedida, enfim, horrível, um ser digno de pena, Laís implorou a última vez pela sua vida:

- Por favor... Eu imploro...

- Agora é tarde para tentar implorar. Te encontro nos confins do inferno, sua galinha estúpida!

Mônica então fez um movimento e Laís não pôde mais pedir por sua vida. O escuro se fez.

A pequena linda e gorda cadela latia desesperada. O volume das vozes ia aumentando pouco a pouco, até que se tornaram compreensíveis.

- Sra., Sra.?

Laís abriu os olhos devagar. A claridade a incomodou um pouco e, como se despertasse de um pesadelo, como num susto, checou seu corpo. Tudo estava perfeitamente no lugar. Ela estava sentada na cadeira do salão, no ambiente comum, que havia adentrado há pouco. Di Marqüi correu gritando desesperada para olhar seu reflexo no espelho. E não acreditou no que viu:

- Não é possível! O que aconteceu? Não é possível!

- Como assim, Sra. Laís? – perguntou Edilene.

Laís retornou o olhar para o espelho para tentar acreditar no que via – não era possível: ela estava espetacularmente linda, como nunca esteve em toda sua vida, sequer na saudosa juventude. Sua pele nunca se mostrou tão linda e macia, seu cabelo nunca tão brilhante e sedoso, sua unha, pintada de uma cor que não existira no universo, fora criada naquele momento para revestir sua delicadeza. Murmúrios entre as outras peruas: “Eu quero o tratamento VIP também” “Eu sou a próxima” “Posso agendar?” se ouvia de todas elas empolgadas e invejosas com o resultado do tratamento personalíssimo. Uma discussão começava a se formar.

Laís, contudo, procurava vorazmente com os olhos a dona do salão. Finalmente, Mônica, que estava distraída, agachada, procurando algo no balcão da recepção, levantou-se e surgiu às vistas de Laís que em um impulso bateu os saltos em sua direção. Ela pegou Mônica pelo pescoço com as duas mãos:

- Eu vou te matar, sua desgraçada!

O salão inteiro se voltou incrédulo para assistir aquele ataque, para eles, desmotivado.

- O que você está falando, Laís? Por favor, me solte, está louca? Você está me machucando.

- Machucando? Machucar é o que você fez comigo, sua louca sádica.

Mônica se defendia, colocando as mãos no pulso de Laís, impedindo-a de enforcá-la.

- Acalme-se, Laís, o que está acontecendo? O que houve? – gritou uma perua de longe.

Mônica olhava para ela perplexa, mostrando-se atônita diante da reação de sua melhor cliente. Edilene, todas as funcionárias do salão pararam tudo o que estavam fazendo para acompanhar o escândalo promovido por Laís.

- Gente, o que é isso? Ela enlouqueceu? – disse uma perua para a outra.

- Devem ser esses remédios tarja preta que ela ainda tomando – sussurrou mais uma.

Edilene foi até Laís e a fez soltar o pescoço de Mônica.

- O que está acontecendo aqui, Laís? – perguntou Edilene.

- Essa louca, essa louca... ela... ela... – o salão aguardava ansiosamente para que Laís explicasse seu surto psicótico.

- Ela... ela... - Laís se olhou novamente no espelho. Ela estava radiantemente linda e não conseguiu completar a frase. Olhou em volta e estava sendo julgada aos olhos de todos como a louca fugida do hospício. Ajeitou a roupa, compondo-se, virou a cabeça rapidamente com desdém para as peruas que a observavam, e com o queixo erguido saiu do salão, batendo saltinho.

Assim que Laís deixou o estabelecimento, pegando bruscamente sua cadela do colo de alguém, as funcionárias e clientes retornaram para o seu lugar de trabalho. Obviamente o ataque foi assunto de muita fofoca, dias e dias comentaram sobre o surto da galinha. Edilene, no entanto, após o acontecido, reteve seu olhar em Mônica, que o retribuiu com um sorriso peçonhento e uma piscadela safada. Edilene, aquele dia, mesmo sem compreender exatamente o que a chefe havia feito com a vadia, entendeu o gesto e pegou seu ônibus para casa mais feliz e aliviada, acreditando que talvez existisse justiça no mundo.

Laís Di Marqüi, por sua vez, chegou à sua mansão e antes que pudesse abrir a boca para reclamar qualquer coisa para o marido, recebeu elogios efusivos dele, de como estava bela, coisa que nunca acontecia. Ele nunca ligava para qualquer coisa que ela fizesse ou inventasse na sua aparência, mas naquele dia não. Naquele dia, logo após ela girar a chave e abrir a porta de casa, dando de cara com ele, um sorriso enorme, branco, seguido de um aplauso admirado e perplexo a receberam. Ele a beijou com vontade, tentou fazer amor com ela, mas não conseguiu – iria estragar o look – disse Laís. Então ela sentou no sofá, chegou a abrir a boca para contar o ataque que havia sofrido e ordenar que a vingança fosse planejada, mas sem saber muito bem por que, se reteve.

Na sexta-feira seguinte, Laís adentrou novamente em grande estilo o salão de beleza de Mônica, chamando a atenção e novamente carregando sua cadela gorda e peluda, Athena, no colo:

- Cadê a Mônica? Quero meu tratamento VIP neste exato momento! Pago até o dobro do valor!

Mônica olhou feliz para Edilene, e mais uma vez sorriu enigmaticamente pra ela. Laís Di Marqüi teria o tratamento que merecia.




conto escrito por

Luiz Henrique Dourado

produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

REALIZAÇÃO


Copyright
© 2019 - WebTV
www.redewtv.com
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução
Compartilhe:

16 anos

Antologia

Capitulos da Antologia Violência Urbana

Contos Contemporâneos da Violência Urbana

No Ar

Policial

Comentários:

0 comentários: